Nos últimos meses antes do fim, alguma coisa muda no ar da casa. Naquele mês fazíamos 5 anos juntos.
Não de uma vez, nunca de uma vez com Henrique. É gradual, como sempre foi, só que no sentido contrário. A exigência que antes tinha uma lógica que eu conseguia seguir começa a não ter mais. Ele chega e a comida está pronta, e ele olha pro pratô com uma expressão que não é de quem avalia, é de quem já chegou insatisfeito antes de provar.
- Está sem sal
Eu experimento. Está com sal.
Não digo nada.
Outra noite é a roupa, uma camisa que ele diz que está mal passada, com uma marca no colarinho que eu olho e não consigo ver. Outra vez é a casa, uma poeira num canto que eu limpei naquele mesmo dia. Outra vez é o jantar que esfriou porque ele chegou mais tarde do que o normal, mas quem ouve a reclamação sou eu.
Eu refaço, corrijo, melhoro. Acordo mais cedo, durmo mais tarde, fico mais atento, mais quieto, mais presente. Mas quanto mais eu faço, mais parece que há alguma coisa que não estou conseguindo acertar e que não consigo nem localizar pra corrigir.
Ele começa a me chamar de inútil com uma naturalidade que me pega de surpresa na primeira vez, e depois vai deixando de pegar. Inútil porque a comida não estava quente. Inútil porque a toalha não estava no lugar certo. Inútil dito de passagem, sem parar o que está fazendo, como quem comenta o tempo.
Eu ouço e não respondo.
Uma vez, depois de uma reclamação sobre o café que ele disse que estava fraco, eu realmente não consigo entender o que fiz de diferente dos outros dias, e pergunto o que ele quer que eu mude.
Ele me olha como se eu tivesse dito algo absurdo. Se levanta e me bate com força no rosto.
- Se eu precisasse explicar tudo que você deveria saber fazer, pra que eu te quero aqui? É um inútil mesmo.
Eu fico quieto.
- Exatamente - ele diz, e vai pro quarto.
Depois de um tempo ele volta com uma bolsa de gelo, passa no meu rosto e diz, com um tom cansado:
- Eu não sei mais o que fazer com você... Eu tento, Diego. Mas você torna tudo difícil.
Fiquei esperando que a raiva passasse. Sempre passava. Depois ele voltava, cuidava de mim e tudo encontrava seu lugar outra vez. Mas naquela noite Henrique não voltou.
O dia que ele me manda embora começa como qualquer outro.
Acordo, faço café, arrumо a mesa. Ele toma café lendo o celular enquanto eu o mamo, sai. Eu limpo, arrumo, planejo o dia. Faço o almoço pra mim, começo o jantar no fim da tarde. Quando ele chega, a casa está limpa, a comida está pronta.
Ele entra, coloca as chaves na bancada e para na entrada da cozinha.
- Está frio
- Eu posso ligar o
- Diego.
A forma que ele diz meu nome.
Eu paro.
Ele fica me olhando por um momento longo. Não com raiva, mas com a expressão que eu mais odiava, com desprezo.
- Sabe o que eu estou cansado? De tentar. De chegar aqui e ter que lidar com isso tudo. Cinco anos. Cinco anos eu fiz o que pude com o que tinha. Mas não dá mais.
- O que você está dizendo?
- Estou dizendo que acabou.
A voz igual a sempre, igual à voz que manda fazer café e que manda ir pra despensa e que diz inútil.
- Você vai sair hoje.
Eu não sabia o que dizer. Essa frase veio como um soco muito mais forte do que os que ele frequentemente me dava.
- Henrique...
- Não vou ficar repetindo. Pega sua roupa e sai.
Eu sigo ele até o quarto sem saber o que estou fazendo. Ele abre o guarda-roupa, pega uma sacola plástica, joga na minha direção.
- Só o que é seu. O que eu comprei fica.
Eu olho pra sacola no chão. Olho pro guarda-roupa que nos últimos anos foi ficando mais cheio das coisas dele do que das minhas. Abro e fico olhando.
- Henrique, eu não tenho pra onde ir. Não tenho dinheiro, não tenho nada
- Isso não é problema meu.
Ele senta na cama, pega o celular e fica olhando como sempre faz.
- Você tem família. Vai pra lá.
- Faz cinco anos que eu não falo com ninguém
- Diego. - Ele nem levanta os olhos do celular. - Sai.
- Henrique por favor não faz isso comigo! Eu to implorando me dá mais uma chance, eu vou melhorar eu juro!
- Diego sai daqui agora, anda. Não me obriga a ter que te bater.
Eu me ajoelho nos pés dele, implorando para que ele não me abandone, digo váriàs vezes que o amo e que vou melhorar.
Henrique se irrita, se levanta, me chuta com força e começa a me socar, no rosto e no corpo.
- Eu já falei pra você seu inútil do caralho, não te quero mais. Vai embora antes que você se arrependa de ter nascido um dia.
Eu pego a sacola. Coloco dentro o que encontro que é meu. Algumas camisetas velhas, uma calça. O celular era dele. O cartão era dele. Os perfumes, os sapatos bons, os itens do banheiro que eu passei a usar. Tudo chegou através dele, tudo é dele.
Quando estou pronto, com a sacola na mão, eu penso no cinto. Ainda uso o cinto, como uso há anos, e a chave é dele, sempre foi.
- O cinto
- O quê?
- A chave do cinto. Você tem a chave.
Ele me olha por um segundo. Não se importando nada com o que acabei de dizer.
- Vai num chaveiro.
- Henrique.
- Vai num chaveiro, Diego. - A voz com um cansaço que não é de hoje. - Eu não sei onde está essa chave.
Eu fico parado por um momento que dura mais do que devia. Olho pra ele sentado na cama com o celular, com aquele corpo todo, com aquela presença que aprendi a identificar à distância, que aprendi a ler como se fosse clima, que aprendi a servir e a temer e a precisar de um jeito que eu não seria capaz de explicar pra ninguém.
Ele não levanta mais os olhos.
Eu saio do quarto. Saio da casa. Ouço a porta fechar atrás de mim. Não tenho mais nada, nem dinheiro, nem casa, nem família e amigos, que abandonei há muito tempo por causa de Henrique.
O abrigo fica a três bairros de distância. Eu chego a pé porque não tenho dinheiro pra ônibus, com a sacola plástica na mão e a roupa que estava usando, uma camiseta desbotada e uma calça que é minha de antes, que ficou porque ninguém quis.
A mulher na recepção me olha e não pergunta muita coisa, o que me alivia porque eu não terei como explicar de um jeito que faça sentido. Me dão um colchão num quarto coletivo e um kit básico de higiene.
Eu deito e fico olhando pro teto.
No banheiro coletivo no dia seguinte eu me olho no espelho pela primeira vez em dias. O rosto sem sobrancelha que eu já não acho mais estranho mas que todo mundo ainda acha, eu vejo isso nos olhos das pessoas ao redor. O nome dele no peito que aparece quando eu abro o botão de cima da camiseta e que eu fecho rápido. As marcas e cicatrizes que Henrique fez em mim durante os anos e até os hematomas mais recentes, o olho roxo e alguns ferimentos da última surra.
Eu me olho e penso que a pessoa que está nesse espelho não tem quase nada a ver com a pessoa que tinha trinta anos e um apartamento e um emprego e amigos que pararam de ligar e uma mãe que parou de ligar e uma vida que foi cedendo espaço, espaço, espaço, até não sobrar quase nada dela.
E mesmo assim eu acordo toda manhã e a primeira coisa que vem é ele. A voz, as mãos, a forma que ele tomava o café lendo o celular sem me olhar, o peso do braço no meu ombro nas noites que ele estava de bom humor.
Eu sei o que ele me fez. Sei e ainda assim continuo amando aquele homem mais do que a mim mesmo.
Vejo ele na rua alguns dias depois.
Estou na calçada, voltando da fila de um serviço social que me indicaram no abrigo, quando ele passa do outro lado da rua. Não me vê, ou não olha, ou olha e não reconhece, não sei.
Está com alguém.
Eu paro no meio da calçada sem conseguir continuar andando.
O rapaz do lado dele tem mais ou menos a minha altura. Mais ou menos a minha cor. Cabelo castanho, óculos. Mais novo que eu era quando a gente se conheceu, talvez vinte e poucos anos.
Henrique está falando alguma coisa, com aquela postura de sempre, e o rapaz está ouvindo com uma atenção que eu reconheço porque já tive essa atenção.
Eles atravessam a rua e somem na esquina.
Eu fico parado na calçada com a sacola na mão por mais um tempo do que deveria. As pessoas passam em volta de mim e eu fico parado olhando pra esquina vazia. Pensando que, se pudesse ter outra oportunidade com ele, teria feito muito melhor.