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Capítulo 5 - Os murmúrios do passado

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Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 1926 palavras
Data: 19/06/2026 22:01:41

O leitor talvez imagine que as grandes tragédias familiares se manifestem através de gritos, portas batendo ou despedidas dramáticas; contudo, a verdade é que muitas delas se instalam em silêncio, transformando pequenos gestos cotidianos em exercícios de resistência. Foi exatamente isso que aconteceu naquela casa.

Depois da discussão que ouvira entre João Carlos e Gerson, Luís tornou-se outra pessoa. Se antes o silêncio lhe era natural, agora ele parecia cultivá-lo com intenção, utilizando-o como escudo, castigo e refúgio ao mesmo tempo. Evitava permanecer muito tempo nos mesmos cômodos que o pai e fazia o possível para não ficar sozinho com Gerson, como se a simples presença de qualquer um deles fosse capaz de reabrir uma ferida que ainda não conseguia compreender completamente.

Os jantares tornaram-se insuportáveis. No início, Gerson tentou impedir que a atmosfera pesada se transformasse em regra. Contava histórias engraçadas de antigos trabalhos, comentava fatos curiosos que ouvira na cidade ou inventava piadas tão ruins que, em outras circunstâncias, arrancariam pelo menos um sorriso constrangido de Luís. Entretanto, nenhuma de suas tentativas encontrava resposta. João Carlos permanecia de cabeça baixa, mastigando lentamente e evitando encarar tanto o filho quanto o amigo. Luís limitava-se a responder o necessário. E o silêncio voltou a ocupar a mesa.

Havia algo profundamente triste naquela situação, porque os três homens pareciam compreender que alguma coisa essencial se rompera entre eles, embora nenhum possuísse coragem suficiente para tocar diretamente no assunto.

João Carlos ficou ainda mais impaciente. Reclamava do serviço, questionava distrações insignificantes, corrigia detalhes que antes ignoraria. Todavia, havia uma estranha cautela em sua irritação, como se parte dele suspeitasse que Luís soubesse mais do que deveria e, justamente por isso, evitasse provocar uma conversa cujas consequências não seria capaz de suportar. Às vezes, observava o filho demoradamente, como quem procura respostas num rosto que já não reconhece completamente. E talvez, pela primeira vez desde a morte de Mariana, João Carlos estivesse realmente com medo.

Gerson, por sua vez, recusava-se a desistir. Tentava conversar, sobretudo com Luís durante o trabalho. Esperava-o perto do curral, oferecia ajuda em tarefas que o rapaz poderia realizar sozinho... nada funcionava. Luís desviava os olhos, inventava desculpas, mudava de direção sempre que possível. Era uma crueldade silenciosa, nascida menos do ódio do que da dor. Porque o amor, quando ferido, frequentemente assume a aparência do desprezo.

As noites tornaram-se ainda piores. Deitado na cama estreita do quarto onde vivera praticamente toda a vida, Luís revivia os acontecimentos das últimas semanas como quem tenta reorganizar um quebra-cabeça cujas peças parecem pertencer a caixas diferentes. Lembrava-se dos olhares, das conversas junto às cercas, do banho de rio, dos abraços acalorados e do sexo feito às escondidas... E perguntava a si mesmo se tudo aquilo teria sido verdadeiro ou se apenas ocupara, sem saber, um lugar que antes pertencera a outra pessoa.

Os dias seguiram assim até que, numa madrugada, Gerson entrou no quarto de Luís pulando a janela. Luís, assustado, tentava lhe mandar embora, sussurrando para não acordar o pai. Mas o peão segurou-lhe o braço com delicadeza e o levou para seu quarto, ao lado da casa principal.

— Cê precisa me ouvir, Luisinho. – Disse ao entrarem no quarto.

— Eu não preciso de mais mentira. — A resposta saiu rápida demais. Ferida demais.

Gerson permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

— Não teve mentira.

— Ah é? O que teve então? Me explica.

O peão respirou fundo. Parecia procurar as palavras certas. Talvez porque soubesse que certas verdades possuem o inconveniente de alterar para sempre a maneira como enxergamos as pessoas que amamos.

— Eu conheci seu pai muito antes de você nascer.

— Quanto tempo?

— Desde adolescente.

O rapaz desviou o olhar para um poster de uma dupla sertaneja pregada na parede. Sentia o coração bater descompassadamente.

— Seu pai e eu crescemos no mesmo bairro. Jogávamos bola juntos. Frequentávamos os mesmo lugar. E, com o tempo, foi acontecendo algo entre a gente, um sentimento diferente, igual aconteceu com ocê e eu.

O narrador pede licença ao leitor para dizer que o amor raramente respeita conveniências históricas. Ele surge onde quer surgir, pouco importando se o mundo ao redor está preparado para aceitá-lo. E o mundo daquela época certamente não estava.

— A gente era muito novo — continuou Gerson. — E achava que bastava querer muito alguma coisa pra ela dar certo. Mas não deu.

O restante da história começou a emergir aos poucos, entre pausas longas e frases pronunciadas com dificuldade. Gerson contou tudo com detalhes. Ele queria que Luís não só compreendesse a sua história, mas que aprendesse com ela alguma coisa.

Os amigos começaram a sentir algo um pelo outro. Apaixonaram-se numa época em que aquilo parecia impossível. Um dia, sabendo que estaria sozinho em casa, João convidou Gerson para lá, e aproveitou a oportunidade para se abrir com ele e dizer o que sentia. Surpreso, mas ao mesmo tempo feliz por ouvir aquilo, Gerson lhe respondeu, não com palavras, mas com um beijo ardente e apaixonado.

O clima esquentou, e então o leitor já imagina o resultado: ambos perderam a virgindade naquele dia um com o outro. Mesmo sem experiência alguma, eles se engalfinhavam entre beijos, carícias, e mãos que procuravam o sexo um do outro freneticamente. João foi o primeiro a se abaixar de frente o amigo e procurar, totalmente sem jeito, o seu membro, puxando-o pela perna do short de futebol com o qual ele sempre andava nas tardes quentes do interior de Minas.

Com pouca destreza, ele às vezes deixava os dentes passarem de raspão no membro ereto e pulsante do amigo, mas isso não alterou em nada o fogo de Gerson, que se esforçou para não explodir ali mesmo, até que pediu para trocar os papéis, e então, com um pouco mais de habilidade, retribuiu o amigo com um sexo oral que fez João chegar ao clímax em poucos instantes, sentindo na boca o sabor agridoce de seu sêmen espesso.

Gerson deitou sobre João e lhe beijou ardentemente, e percebeu que ele permaneceu ereto mesmo com a ejaculação. Então, virou-o de bruços e, utilizando de algum creme que encontrou sobre a cômoda de madeira, penetrou-o devagar. Quando enfim já estava completamente dentro de João, Gerson deitou-se sobre o amigo, que mesmo sentindo dor, mexia seus quadris e seu traseiro para ter e dar prazer a ele.

Tomado de um prazer jamais sentido, Gerson se introduzia no amigo com vigor, enquanto beijava-lhe o pescoço e lhe mordiscava as costas até que foi impossível controlar o gozo que veio em fortes pulsos e jatos de grande quantidade de esperma dentro do orifício quente. O ato não durou muito tempo, três minutos apenas, mas foi o suficiente para selar e iniciar um relacionamento intenso e perigoso entre os dois.

Após a primeira vez, eles ficaram ainda mais unidos e sempre depois do futebol, no retorno para casa, eles paravam no meio da mata para curtirem um ao outro e se darem prazer como podiam: masturbação mútua, sexo oral, um esfrega-esfrega um no outro com os shorts abaixados, e até sexo com penetração lubrificada com saliva. Às vezes, tinham a sorte de transarem na casa de João Carlos quando este ficava sozinho.

O sexo deles progredia a cada vez, conhecendo o que dava mais prazer um ao outro, os limites de ambos, o que não agradava... Ambos eram intensos e desejavam o prazer do outro tanto quanto desejavam o próprio. Por isso, não houve entre eles um papel definido, mas o sexo fluía conforme a vontade de ambos, revezando-se em uma sintonia perfeita.

Mas um dia, absorto no prazer de cavalgar sobre seu amante em seu quarto, João Carlos não se atentou para o horário, nem para o barulho do portão se abrindo, e tampouco para os passos no corredor. Percebeu quando já era tarde demais. O sr. Ernesto, seu pai, abriu a porta de seu quarto e flagrou a cena. Houve xingamentos, houve surra, houve ruptura... inclusive da amizade entre as famílias. E por vergonha, Ernesto se mudou com a família para o sítio, longe de tudo e de todos. Meses depois, obrigou João a se casar com Mariana, filha de um velho amigo. Com o tempo, eles se deram bem e ele desenvolveu um certo afeto por ela, mas seu coração sempre foi de Gerson.

Depois que João se casou, Gerson o reencontrou duas ou três vezes ao longo dos anos, sempre escondidos. Da última vez, João Carlos o convidou para passar o fim de semana no sítio. Porém, os dois ficaram até tarde da noite “proseando” à beira da fogueira. Certo de que Mariana estava dormindo, João Carlos resolveu ir para o quarto ao lado da casa, onde seu amigo foi acomodado, para se entregarem àquele desejo antigo, mas sempre ardente.

Mal sabia ele que, enquanto era penetrado de bruços pelo amigo, Mariana os observava pela fresta da janela, atônita e trêmula pelo pior flagrante que uma mulher pode experimentar. Mas, ao invés de fazer um alarde, ela permaneceu em silêncio sobre o fato.

Entretanto, esse silêncio, e a amargura que sentiu, desenvolveram nela um tipo de câncer que a corroía em uma mágoa ácida pelo seu marido. Dali em diante, todo sentimento bom que tinha por ele se reduziu a uma encenação teatral das mais amadoras, que fez João Carlos saber que algo não ia bem entre eles; mas temendo encarar a possibilidade de ter sido descoberto, ele não ousou sequer pergunta-la.

Ainda assim, ele ainda teve outros encontros esporádicos com Gerson, porém, não mais no sítio, mas em algum hotel na estrada ou algum lugar afastado no meio do mato. Em casa, o olhar de Mariana parecia um julgamento, um apontar de dedo, uma acusação implícita. Ele vivia com esse peso, essa dúvida corrosiva em seu peito.

A certeza veio quando, acometida de uma forte pneumonia, ela o chamou no quarto, e então, com a pouca força que lhe restava, saiu do silêncio e lhe contou o que tinha visto três anos antes. Em choque, ele permaneceu mudo diante dela, com lágrimas se acumulando em seus olhos e um fogo de vergonha queimando seu rosto.

Ela então, partiu, não sem antes dizer claramente que não o perdoaria. E partira sem conseguir reconstruir aquilo que fora destruído entre eles.

Dois dias depois da morte de Mariana, Gerson se mudou pra São Paulo. João Carlos e ele não se viam há dois meses e ele não teve coragem de contar.

Luís era pequeno demais para se lembrar que após a morte da mãe e agora sem o amante, João se entregou à bebida e à depressão. Sem condições, o menino foi morar com a avó paterna por dois anos, e quando seu pai parecia estar melhor, voltou a morar com ele.

Os anos passaram. Mais silêncios se acumularam. Até que um reencontro casual na feira trouxe novamente Gerson para sua vida.

— Apesar desse tempo todo que passamos sem se ver, eu não esqueci seu pai. Mas eu tinha mudado muito lá em São Paulo. Mesmo assim, a gente pensou em tentar ficar junto no sítio. Eu tava sem emprego e não queria ficar na casa dos parente... acabei aceitando o convite dele de morar junto.

Luís fechou os olhos. Esperou pela dor. Mas o que veio foi apenas cansaço.

— Mas aí eu conheci você.

Não havia defesa para essa frase. Nem desculpa. Apenas verdade, uma verdade imperfeita, humana, difícil... E talvez fosse justamente isso que a tornasse tão dolorosa. Porque compreender as razões de alguém não significa deixar de sofrer por causa delas. E Luís ainda tinha muito sofrimento pela frente.

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