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Episódio 1: A Carne e o Vidro

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Um conto erótico de Juju
Categoria: Trans
Contém 2716 palavras
Data: 18/06/2026 09:43:16

O silêncio no antigo apartamento de Joaquim, em Curitiba, não era do tipo que traz paz; era um silêncio denso, uma presença quase física que acumulava poeira sobre os poucos móveis funcionais e as estantes repletas de livros cujas lombadas desbotavam sem que ninguém as tocasse. Aos 60 anos, aposentado após décadas de uma carreira burocrática e deliberadamente invisível como funcionário público, a sua vida assemelhava-se a uma linha reta traçada com um lápis grafite duro sobre um papel pardo. Ele aceitara a invisibilidade não como uma escolha, mas como uma sentença de segurança contra um mundo que nunca pareceu ter lugar para ele. Cada dia era uma repetição monótona: o café amargo tomado em pé na cozinha de azulejos encardidos, a leitura de jornais cujas notícias pareciam ecos de um planeta distante e as caminhadas solitárias por ruas cinzentas onde ele era apenas mais uma sombra entre tantas outras sombras esquecidas, um vulto de casaco bege que se misturava com o nevoeiro paranaense, desprovido de cor ou propósito.

Assumir a homossexualidade aos 50 anos, logo após o sepultamento do último de seus pais, fora um ato de coragem tardia que lhe trouhera mais isolamento do que libertação. A sua família, um clã conservador do interior, reagiu com um "apagamento" sistemático e cruel. De um dia para o outro, Joaquim deixou de ser convidado para os almoços de domingo, as chamadas de aniversário cessaram abruptamente e ele tornou-se um fantasma vivo, um erro a ser ocultado na árvore genealógica. O seu único refúgio eram os sebos e antiquários do centro da cidade, onde deambulava entre relíquias, procurando em objetos descartados pelo tempo o valor e a história que sentia ter perdido na sua própria existência. Ele colecionava pequenas tragédias alheias — fotografias de desconhecidos com sorrisos amarelecidos, relógios parados que marcavam momentos de dor ou euforia alheia, cartas de amor nunca enviadas — como se esses fragmentos de vidas interrompidas pudessem validar a sua própria e profunda irrelevância, dando-lhe a ilusão de que a sua solidão era parte de um arquivo maior da humanidade.

Foi num desses sábados nublados e frios, em que o vento sul cortava as ruas da capital paranaense com uma lâmina invisível, que o objeto o encontrou. Escondida atrás de um candeeiro de bronze oxidado e de uma pilha de discos de vinil riscados, estava uma garrafa de vidro cobalto. Era uma peça pesada, fria ao toque, mas que emitia uma pulsação púrpura quase impercetível, como um coração de vidro a bater num ritmo secreto e antigo. O vendedor, um homem de olhar enigmático cujas pupilas pareciam conter galáxias inteiras de arrependimentos, foi direto: "Esta peça é para quem deseja reescrever o que o tempo já apagou. Mas aviso: o que for escrito com esta tinta não aceita borracha. O destino, meu caro, tem um senso de humor que muitos confundem com crueldade, e ele adora interpretar os desejos pelo ângulo mais literal e, por vezes, irónico possível." Joaquim, movido por uma vida de carências e pela urgência de quem sente que o fim está mais próximo do que o início, comprou o objeto sem regatear.

Em casa, no seu refúgio estéril e silencioso, ele quebrou o lacre de cera negra. O gênio que surgiu do vapor denso e perfumado não era clássico; não havia lâmpadas maravilhosas nem tapetes voadores. O ser usava uma camisa de linho entreaberta sobre um peito bronzeado e depilado, mascava chiclete com um tédio cosmopolita e exalava um aroma inebriante de sândalo, ozono e algo vagamente carnal. "Três desejos, vovô. Regras rápidas: sem devoluções, sem arrependimentos e sem o botão de desfazer. Um a cada ciclo lunar. Seja específico, ou eu vou preencher as lacunas do meu jeito." Joaquim não hesitou, deixando que o desejo guardado há décadas num compartimento selado do seu coração transbordasse: "Quero ser jovem de novo. Quero ser o ápice do desejo. Quero que ninguém consiga desviar o olho de mim, que a minha presença seja uma ordem silenciosa de cobiça em qualquer lugar que eu pise."

O gênio riu, uma risada seca e rítmica que ecoou pelas paredes vazias como o estalar de chicotes metálicos. "O mercado do desejo mudou muito enquanto você se escondia nos seus livros de repartição, vovô. O que os homens cobiçam hoje não é o que você imagina no seu romantismo de sebo. Eles querem a carne firme, o brilho acetinado, a perfeição plástica e a exposição constante sob a luz crua e impiedosa dos ecrãs. Vejo você na próxima lua cheia. Aproveite o processo... ele é doloroso, pois a beleza extrema requer sacrifício biológico, mas o resultado é... extremamente instagramável."

A metamorfose foi uma demolição biológica, célula por célula, um processo de engenharia genética arcana que reescreveu o seu código. Joaquim sentiu os seus ossos partirem-se e fundirem-se em novas densidades e comprimentos. A sua pele esticou sob uma queimação de ferro incandescente, como se estivesse a ser moldada por mãos de fogo que o redesenhavam por dentro. Ele caiu no tapete ralo da sala, o grito sufocado na garganta enquanto sentia os quadris alargarem-se com estalos audíveis e o peito florescer em curvas pesadas, firmes e imensamente sensíveis ao menor toque do ar frio. Cada pelo do seu corpo caiu num segundo, deixando para trás uma suavidade de seda acetinada. A dor foi tão absoluta, um incêndio interno que consumia o velho homem para dar lugar a algo novo e avassalador, que a sua consciência finalmente mergulhou na escuridão misericordiosa do desmaio.

O despertar não trouxe o frio cortante de Curitiba, mas o abraço úmido, quente e salgado do Rio de Janeiro. Joaquim — ou Juju, como agora o mundo a conheceria — sentiu o calor do sol filtrado pela varanda acariciar a sua pele nua com uma ternura que ele nunca conhecera. Ela abriu os olhos lentamente e o primeiro choque foi o aroma: o mar. O cheiro do oceano, que ela sempre amara em segredo nas suas poucas e tristes viagens de classe económica, agora inundava o quarto, misturado com o perfume de jasmim, café recém-passado e o odor de protetor solar de luxo que parecia emanar da sua própria pele imaculada.

Ela levantou-se com uma leveza e uma coordenação que a assustaram. Caminhou até à varanda da sua nova penthouse no Leblon, sentindo o mármore frio sob as plantas dos pés. Ao apoiar as mãos no parapeito de vidro, olhou para baixo. Estava completamente nua, e a sensação do vento morno percorrendo cada curva do seu novo corpo era quase insuportável de tão prazerosa. A sua pele, de um tom canela dourado e luminoso, brilhava sob o sol carioca como se tivesse um filtro permanente de perfeição.

O apartamento era um espetáculo à parte, o oposto absoluto da sua antiga habitação. Era um santuário de cores vivas, plantas tropicais e um aconchego moderno que exalava a personalidade de uma adolescente de 23 anos que morava sozinha e tinha o mundo aos pés. Vasos de jiboias pendiam das estantes de madeira clara e enormes costelas-de-adão enchiam os cantos com um verde vibrante que parecia respirar em uníssono com ela. Quadros de arte moderna, com pinceladas de laranja vibrante, turquesa e dourado, adornavam as paredes brancas impecáveis. Prateleiras exibiam decorações boho-chic, velas aromáticas artesanais com cheiro de baunilha e livros de fotografia de moda, viagens e design de interiores. Havia cores por todo o lado: almofadas de veludo amarelo, tapetes de fibras naturais e pequenos objetos de design que tornavam o espaço vibrante e cheio de vida.

Juju voltou para dentro e parou diante de um espelho de corpo inteiro emoldurado por luzes de camarim que faziam a sua pele resplandecer. A visão tirou-lhe o fôlego e, por um momento, ela esqueceu-se de como respirar. Levou as mãos ao peito, sentindo o peso e a firmeza de dois seios fartos e empinados, com mamilos rosados e sensíveis que reagiam ao menor toque. Desceu as mãos pelo abdómen — era absolutamente trincado, com as linhas laterais tão profundas que formavam um "V" perfeito que desaparecia sob a virilha. O seu corpo era totalmente liso, depilado ao extremo com uma precisão laser, sem uma única mancha, cicatriz ou imperfeição. Seus glúteos eram poderosos, uma montanha de carne firme e arrebitada que parecia desafiar a gravidade a cada passo. Mas a verdadeira obra de mestre eram as coxas: eram grossas e musculosas na base, exibindo um superior fino e definido que gerava uma assimetria hipnótica. Essa proporção — pernas poderosas culminando em quadris largos, mas com uma cintura de vespa e tronco delicado — tornava-a um foco inevitável de qualquer olhar. Ela era uma escultura de carne, uma sex-symbol moldada para a era digital.

— O que é isto? — a voz saiu doce, melodiosa, um som de veludo que a fez estremecer por dentro. — Eu... eu sou uma mulher?

O brilho púrpura surgiu na moldura do espelho. O gênio materializou-se, encostado com o seu ar de deboche eterno, mastigando o seu chiclete com um som rítmico e irritante.

— Que susto é esse, Juju? — ele perguntou, soprando uma bola de chiclete púrpura. — Não era isso que querias? Ser jovem? Ser o ápice do desejo? No teu tempo de vovô amargurado, talvez um rapaz atraente fosse o ápice, mas hoje? Hoje, Juju, o mundo gira em torno da imagem feminina perfeita, da musa que domina as redes e os sonhos.

— Eu esperava ser um homem jovem! — Juju gritou, a voz trémula enquanto cobria o peito com os braços, uma reação instintiva de uma modéstia que o Joaquim nunca teria sentido daquela forma física. — Um rapaz atraente, musculado... não uma mulher! Porquê isto? Como é que eu vou viver assim?

O gênio soltou uma gargalhada metálica que fez as folhas das plantas da sala vibrar.

— Vovô, tu não pediste para ser um homem. Tu pediste para ser "o ápice do desejo". Pediste para que ninguém conseguisse desviar o olho de ti. No mundo de hoje, na economia da atenção e dos algoritmos impiedosos, nada atrai mais cobiça, nada para mais o trânsito, nada gera mais obsessão e faturamento do que uma mulher com lindos cabelos loiros longos e ondulados com este corpo. Tu pediste para ser desejado por qualquer homem, lembra-te? Pois aqui estás. Tu és a personificação do que eles sonham e as mulheres invejam. Queres visibilidade? Agora tens o mundo inteiro a olhar para o teu decote e para essa tua raba de milhões. Desejavas sair da sombra; agora o sol do Rio não te vai deixar em paz. Além disso, ser mulher te dá um leque de manipulação que o Joaquim jamais sonharia. Aproveita a vista.

— Mas eu... eu não sei ser mulher! — ela protestou, sentindo a humidade do ar do Rio na sua pele lisa, enquanto tentava entender a nova anatomia que pulsava entre as suas pernas, uma sensação de plenitude e vulnerabilidade que a deixava tonta.

— Aprende. O instinto já está codificado nessas tuas novas células. Cada movimento de quadril, cada olhar por cima do ombro... já está tudo aí, à espera que tu o libertes — o gênio retrucou, aproximando-se e soprando fumaça de sândalo no rosto dela. — Tu trocaste o silêncio burocrático de Curitiba pela adoração ruidosa do Rio. Agora, cada suspiro teu é uma ordem silenciosa. Vais saber usar esse poder ou vais deixar que ele te use? A beleza é uma arma de destruição maciça, Juju. E tu acabaste de receber uma ogiva nuclear em forma de curvas.

O gênio desapareceu num estalo seco, deixando apenas o cheiro de ozono no ar. Antes que ela pudesse processar a nova realidade, o som da campainha e o bip da fechadura eletrônica quebraram o transe.

— JUJU! Amapô, acorda que a Nike não espera e o engajamento está a cair mais que a bolsa de valores em dia de crise! — Ricardo entrou no apartamento como um furacão de energia pura. O personal trainer e empresário, um amigo gay vibrante e o seu maior confidente neste novo mundo, vestia uma regata neon que mostrava os braços massivos e definidos. Ele parou na sala e assobiou ao ver Juju de robe de seda entreaberto. — Menina, esse "shape" está de outro planeta hoje! Parece que os deuses do colágeno e da creatina te abençoaram durante a noite. Olha esse abdómen, gata! Tá um escândalo, uma verdadeira afronta às meras mortais!

Ricardo sentou-se na poltrona de vime, cruzando as pernas e abrindo um tablet de última geração, ignorando olimpicamente o estado de choque de Juju. Ele começou o "briefing" do dia, atualizando-a de tudo com a sua rapidez habitual.

— Escuta aqui, musa, que o tempo é dinheiro e os seguidores são impacientes: hoje é a estreia oficial da tua nova patrocinadora master. Sim, a Nike! Eles fecharam o contrato de exclusividade. Eles querem o comercial "The Power of the New Woman". Vamos fazer o nosso treino de "longão" de 15 km na orla, do Leblon ao Arpoador. O fotógrafo e o videomaker já estão no posto, escondidos para parecer algo espontâneo e selvagem. Tu és a nova cara global deles, Juju. O mundo vai parar para te ver correr, balançar e brilhar. Passa o dia inteiro ligada, porque depois da corrida temos o contrato do iate para rever. É muita marca querendo esse teu bumbum de ouro como vitrine. Eles querem que tu mostres que essa simetria perfeita não é só genética, é atitude.

Juju sentia o coração bater rápido contra as costelas, uma sensação de euforia e pânico. A ideia de ser o rosto de uma marca mundial, de ser a mulher que todos admiram e desejam, era inebriante, apesar do medo residual. Ela começou a vestir o conjunto de lycra rosa-bebé que Ricardo trouxera. Ao puxar o short curto curto demais, sentiu o tecido tecnológico comprimir as suas coxas grossas e abraçar o volume monumental dos seus glúteos de forma quase erótica. O top era apertado, sustentando os seios fartos de forma a realçar o colo, deixando o abdómen trincado totalmente em evidência para as lentes que a esperavam lá fora.

Ao calçar os ténis de corrida de última geração, ela sentiu a potência latente daquelas pernas. Cada fibra muscular parecia pronta para explodir em movimento. Ela tomou uma decisão: se o destino — ou o gênio — lhe dera aquele corpo e aquela oportunidade, ela iria aproveitar a sua juventude com uma fúria que o Joaquim nunca ousara ter. Joaquim morrera na poeira cinzenta de Curitiba; Juju nascera no sol escaldante do Rio para ser adorada. Ela soltou os seus longos cabelos loiros, que caíram em ondas sensuais e brilhantes sobre os ombros, e caminhou até Ricardo com um sorriso que já começava a aprender os matizes do poder da sedução.

— Vamos, Ricardo. O Rio de Janeiro está à espera da rainha dele.

Ao sair do prédio de luxo no Leblon acompanhada pelo amigo, o efeito foi imediato e devastador. O movimento das pessoas na rua pareceu desacelerar à medida que ela passava. Homens em carros luxuosos pescoçavam pelas janelas, quase causando acidentes; corredores perdiam o ritmo ao cruzar com ela; turistas paravam as suas máquinas fotográficas, esquecendo a paisagem natural para focar na paisagem humana e sensual à sua frente. Juju caminhava com uma confiança felina, sentindo o balanço rítmico dos seus glúteos e a firmeza das coxas sob a lycra rosa. Ela não era mais uma sombra; ela era o próprio sol. Os olhares de cobiça e os sussurros que ela nunca tinha tido como homem agora a seguiam como uma onda sonora. Ela era uma sex-symbol jovem, sensual e absoluta, e pela primeira vez na vida, sentiu que o mundo finalmente estava na palma da sua mão.

Enquanto se preparava para iniciar o treino na orla, ajustando o cronómetro no pulso sob o olhar atento das câmaras ocultas, um homem moreno, de físico impecável e olhar predatório, aproximou-se de Juju com uma garrafa de água premium. Ele não pediu licença; apenas a entregou com um sorriso que prometia muito mais do que simples hidratação. "Vi os teus vídeos, Juju. Mas a realidade... a realidade é que tu é muito mais gostosa que esperava em, pqp, que gata?" Antes que ela pudesse responder, Ricardo puxou-a pelo braço para começar a gravação, mas o olhar intenso daquele desconhecido ficou gravado nela, enquanto centenas de telemóveis eram apontados na sua direção, prontos para capturar cada gota de suor da nova e absoluta deusa do asfalto carioca.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 128Seguidores: 76Seguindo: 5Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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