A sexta-feira daquela semana começou estranha de um jeito que eu percebi antes mesmo de descer completamente as escadas. Algumas mudanças são barulhentas, explosivas, óbvias. Outras são silenciosas demais — e justamente por isso muito mais perigosas. Gabriel continuava igual aos últimos dias: quieto, cuidadoso, sempre tentando evitar qualquer atrito comigo, sempre medindo palavras e movimentos como alguém que já entendia perfeitamente quais consequências existiam para cada erro. Guilherme, porém… Guilherme estava diferente. Não irritado como costumava ficar. Não agressivo. Não explosivo. Pior que isso. Frio.
E aquilo me deixou alerta imediatamente.
Ele mal olhou para mim durante o café da manhã. Respondia apenas o necessário, em frases curtas, secas, quase automáticas. Nenhuma provocação atravessada. Nenhum comentário carregado de desprezo. Nenhuma reação emocional impulsiva. Era como se tivesse decidido alguma coisa durante a noite e agora estivesse sustentando aquilo com toda a força que ainda restava dentro dele.
E eu percebi no mesmo instante.
Observei os dois sentado à mesa enquanto mexia distraidamente no celular, deixando o silêncio crescer só para analisar melhor a situação. Gabriel evitava levantar os olhos. Guilherme tomava café olhando pela janela como se eu nem estivesse ali.
Então resolvi testar.
— O que foi, Gui? Tá planejando alguma coisa?
Ele tomou mais um gole de café antes de responder, sem sequer me olhar diretamente.
— Você se acha mais inteligente do que realmente é.
Gabriel ergueu os olhos imediatamente.
Aquilo era perigoso.
Sorri devagar.
— E você continua achando que ainda tá no controle de alguma coisa.
Dessa vez Guilherme me encarou.
E sustentou o olhar.
Sem baixar a cabeça.
Sem hesitar.
O clima ficou pesado na mesma hora.
Gabriel percebeu primeiro, claro. Ele sempre percebia primeiro agora. Seus dedos apertaram discretamente a caneca sobre a mesa enquanto observava nós dois em silêncio, como alguém assistindo uma briga começar devagar demais.
Guilherme não respondeu mais nada, mas continuou me olhando por alguns segundos antes de voltar a atenção para o café. E aquilo ficou na minha cabeça durante o resto do dia inteiro.
Porque eu conhecia bem demais o comportamento dele para não perceber o que estava acontecendo.
Ele estava tentando se reconstruir.
Pequenas coisas começaram a denunciar isso conforme as horas passaram: a demora proposital para obedecer qualquer ordem simples; os olhares longos demais; o jeito como fazia questão de manter a postura rígida sempre que eu estava perto. Era como assistir alguém tentando remontar o próprio orgulho usando os pedaços que ainda sobraram depois de semanas sendo quebrado aos poucos.
E talvez aquilo devesse me preocupar.
Mas a verdade era que também me atraía.
Porque parte de mim gostava daquele conflito dentro dele. Gostava de perceber a luta constante entre a raiva, a humilhação e aquela estranha necessidade de continuar orbitando ao meu redor mesmo odiando tudo aquilo.
Na faculdade a situação piorou ainda mais.
Durante o intervalo encontrei Gabriel sozinho perto do bloco antigo, sentado no corrimão baixo de uma escada vazia enquanto mexia distraidamente no celular. O jeito inquieto como ele levantou a cabeça ao me ver já entregou que alguma coisa estava errada.
— Cadê teu irmão?
Gabriel hesitou.
Só isso.
Mas foi suficiente.
— Saiu com uns amigos.
Inclinei levemente a cabeça.
— Amigos… ou plano idiota?
O silêncio dele respondeu tudo.
Naquele instante senti algo estranho apertar meu peito.
Não era medo.
Era decepção.
Porque pela primeira vez desde que tudo começou eu percebi uma coisa perigosa demais: eu não queria perder o controle sobre eles.
Especialmente sobre Gabriel.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
Passei o resto do dia pensando nisso enquanto fingia prestar atenção nas aulas. Na maneira como Gabriel tinha começado a obedecer sem perceber. No jeito como buscava minha aprovação antes de qualquer coisa. Na forma como Guilherme odiava aquilo justamente porque também percebia.
Na volta para casa Guilherme demorou quase duas horas para aparecer.
Quando finalmente entrou pela porta da sala eu já estava esperando por ele sentado no sofá. Gabriel permanecia perto da escada, claramente nervoso demais para disfarçar.
— Onde você tava? — perguntei calmamente.
Guilherme jogou a mochila no chão antes de responder:
— Na rua.
Sorri sem humor.
— Engraçado. Achei que você soubesse responder direito.
Ele me encarou imediatamente.
E então falou algo que fez o ambiente inteiro parecer mais frio.
— Cansei dessa merda.
Gabriel fechou os olhos na mesma hora.
Eu permaneci imóvel.
— Explica.
Guilherme começou a andar pela sala enquanto falava, como se precisasse se movimentar para sustentar a coragem que tinha reunido.
— Você acha que venceu alguma coisa aqui? Acha mesmo que isso significa poder?
Continuei em silêncio.
— Você só conseguiu porque pegou uma fraqueza nossa. Porque tinha chantagem. Porque tinha medo envolvido.
Gabriel observava tudo quase sem respirar.
— Sem essas fotos você continua sendo o mesmo nerd esquisito de sempre — Guilherme continuou. — Você não mudou porra nenhuma.
Aquilo me acertou mais fundo do que deveria.
Porque parte de mim ainda acreditava exatamente naquilo também.
O silêncio na sala ficou sufocante.
Então ele deu mais um passo na minha direção.
— Então posta as fotos.
Gabriel virou imediatamente.
— GUI, CALA A BOCA!
— Não. Deixa ele postar.
Foi aí que eu me levantei devagar.
E percebi que meu olhar tinha mudado completamente.
— Você acha que eu não faço?
Ele soltou uma risada curta.
Sem humor.
— Acho que você precisa disso mais do que a gente.
Aquilo bateu como um soco.
Porque talvez fosse verdade.
Talvez aquilo tivesse deixado de ser vingança há muito tempo.
Talvez eu precisasse daquele controle tanto quanto eles precisavam fugir dele.
E Guilherme percebeu exatamente isso.
— Tá vendo? — ele continuou. — Você não quer acabar com isso. Porque aqui… você finalmente não é o fracassado da história.
Gabriel observava nós dois como se estivesse vendo um acidente acontecer em câmera lenta.
Eu caminhei lentamente até Guilherme.
Muito perto.
Perto demais.
Mas mantive a voz calma.
Controlada.
— Você terminou?
— Não.
Gabriel percebeu o erro antes mesmo de acontecer.
— Gui…
Mas já era tarde.
Guilherme me empurrou pelo peito.
Não foi forte.
Mas foi suficiente.
O silêncio que veio depois pareceu assustador.
Porque eu não reagi imediatamente.
Só olhei para o lugar onde ele havia me tocado.
Depois levantei os olhos lentamente.
E sorri.
Um sorriso frio.
Perigoso.
— Entendi.
Gabriel deu um passo para trás imediatamente.
Porque já conhecia aquele olhar.
Virei-me calmamente e comecei a subir as escadas.
— Os dois. No meu quarto. Agora.
Nenhum deles respondeu.
Nem Guilherme.
Os três entramos no quarto em silêncio. A porta foi fechada devagar atrás de nós e o ambiente pareceu diferente naquela noite. Mais pesado. Mais sufocante. Como se tudo finalmente tivesse deixado de ser apenas um jogo de humilhação e controle psicológico.
Fiquei alguns segundos em pé perto da cama observando os dois irmãos.
Gabriel evitava olhar diretamente para qualquer um de nós. Guilherme sustentava a postura por puro orgulho, mas sua respiração acelerada o denunciava completamente.
Falei primeiro.
— Você me empurrou.
Guilherme deu de ombros.
— E daí?
Gabriel fechou os olhos imediatamente.
Aproximei-me dele lentamente.
— Você quer tanto assim que eu perca o controle?
— Talvez eu só queira ver quem você é sem essas ameaças.
O silêncio caiu pesado.
Fiquei tão perto dele que Guilherme precisou erguer levemente o rosto para continuar sustentando o olhar.
— E o que você acha que tá vendo agora?
Pela primeira vez desde que tudo começou, ele hesitou.
E naquele instante percebi algo diferente no olhar dele.
Não era só raiva.
Era confusão.
Porque Guilherme já não conseguia entender se me odiava… ou se estava obcecado pela mudança que tinha acontecido diante dele nas últimas semanas.
Gabriel percebeu aquilo também.
— Gui… para.
Mas Guilherme ignorou completamente.
— Você gosta disso, né? Gostou de descobrir que consegue controlar alguém.
Aquilo acertou fundo justamente porque era verdade.
Segurei o rosto dele com firmeza.
Não agressivo.
Controlado.
O suficiente para deixá-lo imóvel.
— E você odeia perceber que tá deixando.
Ficamos nos encarando por longos segundos.
A tensão no quarto ficou quase insuportável.
Gabriel observava nós dois sem conseguir interferir, porque naquele momento aquilo tinha deixado de ser apenas uma disputa de poder.
Era algo mais estranho.
Mais íntimo.
Mais perigoso.
Soltei o rosto dele devagar.
— Tira a camisa e ajoelha.
E dessa vez Guilherme hesitou muito menos.
Aquilo assustou até ele próprio.
Gabriel tirou a camisa e ajoelhou ao lado do irmão automaticamente, quase instintivamente, como vinha fazendo nos últimos dias.
Comecei a caminhar lentamente diante dos dois. Peguei mais uma coisinha que tinha comprado por esses dias.
Um prendedor de mamilos. Coloquei nos dois que soltaram gemidos involuntários pela pressão que ele causava em seus peitos.
— Olha só vocês agora…
Nenhum respondeu.
— O mais engraçado é que eu nem preciso mais ameaçar tanto assim.
Gabriel abaixou ainda mais a cabeça.
Guilherme fechou os punhos sobre as próprias pernas.
Percebi imediatamente.
Então fiz algo que nenhum deles esperava.
Abaixei na frente dos dois, ficando na mesma altura.
E perguntei baixo:
— Eu quero ouvir vocês falarem uma coisa.
Gabriel levantou os olhos primeiro.
— O quê?
Encarei Guilherme.
— Por que vocês me odiavam tanto?
O silêncio veio imediato.
Pesado.
Desconfortável.
E dessa vez foi Guilherme quem desviou o olhar primeiro.
— Porque era fácil.
A resposta saiu baixa.
Quase amarga.
Permaneci imóvel.
Gabriel respirou fundo antes de completar:
— E porque você nunca reagia.
Aquilo me atingiu mais do que qualquer humilhação da faculdade jamais conseguiu atingir.
Porque era simples.
Cruelmente simples.
Guilherme soltou uma risada curta, sem humor nenhum.
— Você quer saber a pior parte?
Não respondi.
Ele continuou olhando para o chão enquanto falava.
— Você era melhor que a gente em quase tudo que realmente importava. E isso irritava.
Gabriel virou imediatamente para ele, surpreso.
Mas Guilherme continuou:
— Inteligente pra caralho. Quieto. Não precisava fingir nada pra parecer interessante. Enquanto a gente vivia fazendo personagem o tempo inteiro.
Senti alguma coisa apertar meu peito naquele instante.
Aquilo não parecia vitória.
Parecia outra coisa.
Alguma coisa quebrada entre nós três finalmente começando a aparecer depois de anos escondida atrás de arrogância, medo e violência.
O silêncio voltou ao quarto.
Mas diferente.
Mais vulnerável.
Mais cansado.
Então Gabriel falou baixo:
— A gente passou dos limites.
Olhei para ele.
E pela primeira vez Gabriel sustentou meu olhar sem fugir.
Sem personagem.
Sem medo exagerado.
Só cansado.
— Desculpa.
Aquilo pareceu mais íntimo do que qualquer jogo psicológico que havíamos vivido até ali.
Guilherme permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois respirou fundo.
E murmurou, quase irritado consigo mesmo:
— …Eu também.
Fiquei olhando os dois ajoelhados diante de mim por um longo tempo.
E naquele instante percebi algo perigoso.
Eu não queria apenas vê-los sofrer mais.
Queria que continuassem ali.