Durante a semana, André tentou transformar o sábado anterior em uma coisa pequena.
Uma pelada.
Só isso.
Um favor ao irmão. Uma manhã quente. Um bando de homens suados tentando provar alguma coisa para si mesmos. Um goleiro grande demais. Um atacante debochado demais. Um vestiário apertado demais. Nada que justificasse a insistência da memória.
Mas a memória insistia.
No trabalho, enquanto respondia e-mails, a imagem de Rafael atravessava a tela do computador sem pedir licença. Não vinha inteira, como uma fotografia. Vinha em pedaços: a luva preta fechada em torno da bola; a camisa cinza grudada no peito; o olhar parado depois daquele chute fraco; o braço roçando seu ombro no vestiário; a voz baixa dizendo “acontece”.
A palavra voltava em momentos impróprios.
Acontece.
André odiava aquela calma.
Odiava mais ainda porque seu corpo lembrava antes da cabeça. Às vezes, no meio do dia, ele se pegava mudando de posição na cadeira, incomodado com um calor que não combinava com o ar-condicionado do escritório. Não era uma fantasia organizada. Não era ainda uma cena completa. Era um resíduo físico. Uma espécie de febre curta, nascida da lembrança de um cheiro, de uma proximidade, de um homem que tinha visto sua vergonha sem rir.
Caio também não ajudava.
Na segunda-feira, Marcelo colocou André no grupo da pelada.
PELADA SÁBADO 10H — OS INTOCÁVEIS
André achou o nome ridículo.
Em menos de cinco minutos, descobriu que o grupo era um inferno.
Caio mandava figurinha, provocava todo mundo, comentava lances, cobrava mensalidade de quem estava atrasado e parecia viver com o celular na mão. Marcelo respondia a quase tudo. Outros apareciam só para confirmar presença ou reclamar da vida.
André pretendia ficar invisível.
Durou pouco.
Caio marcou o nome dele numa mensagem:
CAIO:
@André irmão do Marcelo, sábado vem de novo ou a ereção no vestiário foi só visita técnica?
André sentiu o rosto aquecer como se estivesse no meio da quadra.
Apagou três respostas antes de enviar uma.
ANDRÉ:
Você fala muito para quem chutou quatro bolas para fora.
A resposta veio instantânea.
CAIO:
Mas você reparou. Fiquei feliz.
Marcelo entrou em seguida.
MARCELO:
Que porra de ereção?
CAIO:
Metáfora, capitão.
MARCELO:
Vocês são doentes.
CAIO:
Somos atletas.
André jogou o celular na mesa e ficou olhando para ele como se o aparelho fosse culpado. Não queria rir. Riu.
Na terça, comprou uma chuteira.
Disse a si mesmo que era porque jogar de tênis tinha sido perigoso. O joelho, a estabilidade, a idade. Argumentos práticos. Racionais. Adultos. Mas ficou quase vinte minutos escolhendo o modelo. Experimentou duas. Andou pela loja sentindo-se ridículo, como se estivesse comprando não um calçado, mas uma senha para voltar a um lugar onde alguma coisa nele tinha sido descoberta.
Na sexta à noite, separou a roupa.
Camiseta preta. Depois trocou por uma branca. Depois pensou que branca molhada ficava transparente demais e voltou para a preta. Escolheu uma bermuda que não marcava muito. Depois se irritou por estar pensando nisso.
Tomou banho antes de dormir.
Não dormiu bem.
Sonhou com uma bola vindo devagar em sua direção. Quando abaixava para pegar, percebia que estava de luvas. Quando levantava o rosto, Rafael estava no gol oposto, imóvel. Caio ria atrás da rede.
Acordou antes do despertador.
No sábado, chegou cedo.
Esse foi o primeiro erro.
Queria parecer casual, mas o portão da quadra ainda estava fechado. O dono do espaço, seu Nivaldo, um homem seco de bigode ralo e chinelo, abriu a grade enquanto carregava um rodo.
— Pelada do Marcelo?
— Isso.
— Chegou antes dele. Milagre. Aquele ali só chega cedo quando deve dinheiro.
André sorriu sem saber o que responder.
Entrou sozinho.
A quadra vazia era outra coisa.
Sem os homens, sem os gritos, sem os corpos em atrito, parecia quase inocente. A grama sintética marcada, as traves descascadas, as redes frouxas, as paredes altas com anúncios antigos de lava-rápido e espetinho. O cheiro ainda estava lá, mas mais frio: borracha, umidade, mofo leve dos vestiários. Como se o lugar estivesse dormindo antes de voltar a ser animal.
André colocou a mochila no banco lateral e ficou olhando para o gol.
O gol de Rafael.
Sentiu vergonha de pensar assim.
— Chegou cedo, substituto.
A voz veio da entrada.
Caio.
Ele usava bermuda curta, camiseta sem manga e carregava uma bola debaixo do braço. Vinha com aquele sorriso de sempre, como se soubesse de antemão o efeito que causava. Era bonito de um jeito diferente de Rafael. Rafael ocupava o espaço com peso. Caio cortava o espaço com velocidade. Tinha o corpo mais seco, pernas fortes, ombros definidos sem exagero, pele brilhando já de calor antes mesmo do jogo começar.
— Meu nome é André.
— Eu sei.
— Então usa.
— Substituto é mais íntimo.
— A gente não tem intimidade.
Caio entrou na quadra, jogou a bola para cima e matou no peito.
— Ainda.
André respirou fundo.
— Você é sempre assim?
— Gostoso?
— Insuportável.
— Só com quem presta atenção.
Caio começou a conduzir a bola devagar, em círculos, enquanto André calçava a chuteira nova. O atacante percebeu na hora.
— Chuteira nova?
— A outra escorregava.
— Sei.
— O que foi?
— Nada. Acho bonito homem que mente para si mesmo.
André amarrou o cadarço com força.
— Você tem algum botão de desligar?
Caio parou a bola com a sola e apoiou os braços sobre ela.
— Tenho. Mas ninguém achou ainda.
André levantou. A chuteira nova apertava um pouco, mas dava uma sensação boa de firmeza. Ele caminhou pela lateral tentando se acostumar.
Caio o observava.
— Você ficou pensando nele?
André travou por meio segundo. Pouco. O bastante.
— Nele quem?
Caio sorriu.
— No Neymar. Claro.
— Você é muito convencido.
— Eu não falei de mim.
André olhou para a entrada, por reflexo.
Caio viu.
— Aí. Foi disso que eu falei.
— Você tira conclusão de qualquer coisa.
— Não. Eu vejo. É diferente.
Caio chutou a bola contra a parede e recebeu de volta.
— Rafael costuma causar isso.
André tentou soar indiferente.
— Isso o quê?
— Essa cara de homem que entrou numa igreja errada.
A frase pegou.
André olhou para ele.
— Você fala dele como se tivesse raiva.
Caio dominou a bola outra vez, agora sem sorrir tanto.
— Tenho várias coisas dele. Raiva é só uma.
Antes que André perguntasse, Marcelo apareceu no portão com duas sacolas e um copo de café na mão.
— Porra, até que enfim alguém chegou antes de mim!
Caio gritou:
— Teu irmão comprou chuteira para impressionar o goleiro!
Marcelo parou.
— Que goleiro?
André fechou os olhos.
— Caio, eu vou te derrubar hoje.
— Promessa é dívida.
Marcelo entrou rindo, sem entender metade e sem querer entender a outra. Atrás dele começaram a chegar os demais: homens com mochilas, garrafas, joelheiras, barrigas, risadas, histórias, cheiros. A quadra foi acordando aos poucos. Um tirou a camisa ainda do lado de fora e colocou o colete. Outro abriu um desodorante e espirrou debaixo do braço sem qualquer cerimônia. Alguém reclamou da mensalidade. Alguém falou da esposa. Alguém perguntou se teria cerveja depois.
O ar mudou.
André sentiu de novo.
Era como se, com cada homem que entrava, o ambiente ficasse mais espesso. O cheiro da quadra começava a ganhar corpo. A borracha esquentava sob o sol. O vestiário soltava umidade. As camisetas limpas duravam pouco. A resenha vinha cheia de empurrões, tapas nas costas, xingamentos afetuosos. Havia uma intimidade masculina ali que não se anunciava como intimidade. Ela fingia ser brincadeira, falta, disputa, zoeira. Mas era toque. Era presença. Era permissão.
E então Rafael chegou.
André soube antes de olhar.
Não por misticismo. Pelo silêncio breve que caiu em alguns homens, pela maneira como Caio parou de embaixar a bola, pela voz de Marcelo chamando:
— Aí, paredão! Hoje vê se pega alguma, hein!
Rafael entrou com a mochila atravessada no ombro, camisa azul-marinho, bermuda preta, luvas presas na alça. Estava sem pressa, como se o jogo começasse só quando ele decidisse. Cumprimentou alguns com aperto de mão, outros com abraço rápido. Quando chegou em Caio, houve um segundo estranho.
Caio sorriu.
— Dormiu bem?
Rafael respondeu:
— Melhor antes de te ouvir.
— Grosso.
— Necessário.
Passou por ele e veio na direção de André.
André tentou parecer normal. Devia ter falhado.
— Chuteira nova — Rafael disse.
Não foi pergunta.
— Todo mundo resolveu comentar?
— É que ela está limpa demais.
— Depois do jogo melhora.
Rafael olhou para ele. De cima para baixo, mas sem a insolência de Caio. Era um olhar mais lento, mais pesado. Não parecia avaliar a roupa. Parecia medir o homem.
— Vamos ver.
André sentiu a frase na pele.
Caio, atrás, gritou:
— Rafael adora testar equipamento novo!
Marcelo respondeu:
— Eu odeio vocês antes das dez da manhã.
Os times foram divididos. Dessa vez, André caiu contra Rafael de novo. E contra Caio.
— Ah, não — André reclamou.
Caio abriu os braços.
— Destino.
— Perseguição.
— Também.
O jogo começou mais rápido que o anterior. André, agora menos perdido, conseguiu se posicionar melhor. Ainda não era bom. Mas já não parecia um turista. Deu dois passes certos, roubou uma bola de Caio e ouviu Marcelo gritar como se ele tivesse salvado uma final de Copa.
— Boa, André! É isso!
Caio veio logo atrás dele.
— Olha só. O substituto treinou no YouTube.
— Quer perder outra?
— Quero ver você tentar.
André tentou.
Caio passou.
Mas André encostou o corpo o suficiente para desequilibrá-lo. Não foi falta dura. Foi contato. Ombro com ombro, braço contra braço, suor começando a surgir sob a camiseta. Caio caiu rindo e reclamando.
— Falta!
— Levanta, artista — Marcelo gritou.
Caio estendeu a mão para André.
André puxou.
Caio levantou perto demais. Por um instante, os dois ficaram cara a cara, respiração quente de jogo, pele brilhando, olhos presos. Caio sorriu sem abrir a boca.
— Tá melhorando.
— Eu disse que ia te derrubar.
— Disse mesmo.
— E derrubei.
Caio se aproximou só um pouco, o bastante para a voz baixar.
— Mas foi com carinho.
André soltou a mão dele depressa.
Do gol, Rafael observava.
André viu.
Caio também.
A bola voltou a correr, mas o jogo agora parecia carregado de outras linhas. A bola era só uma delas. Havia Rafael no gol, quieto demais. Havia Caio circulando André, provocando demais. Havia Marcelo gritando instruções sem perceber que, por baixo da pelada, outra partida se armava.
O cheiro foi ficando mais forte.
Depois de vinte minutos, todos estavam encharcados. A quadra parecia ferver. O sol batia na cobertura e transformava o ar em estufa. A grama sintética soltava um vapor quente. O suor escorria pelos rostos, abria manchas nas camisetas, colava tecido em peito, barriga, costas. As mãos ficavam úmidas. Os contatos duravam menos que um segundo, mas deixavam registro.
André começou a gostar do atrito.
Essa foi a parte que mais o assustou.
Gostava da disputa, sim. Da bola, um pouco. Mas havia algo no modo como os homens se chocavam, reclamavam, se seguravam, se empurravam e continuavam. Uma violência consentida, limitada pela brincadeira, mas cheia de eletricidade. Era como se o corpo pudesse dizer ali coisas que a boca jamais assumiria.
Caio recebeu a bola na ponta e partiu para cima de André. André fechou o espaço. Caio tentou cortar para dentro. André acompanhou. Os dois se trombaram. Caio perdeu o equilíbrio e agarrou a camiseta de André para não cair.
O puxão aproximou os dois.
— Tá agarrando, substituto?
— Você que puxou.
— Mas você deixou.
A bola saiu pela lateral.
Rafael gritou do gol:
— Caio, joga bola.
Caio virou para ele.
— Ciúme deixa a voz feia, Rafa.
O clima rachou.
Poucos perceberam. Marcelo não. Dois riram. Um pediu a bola. Mas André sentiu o ar mudar.
Rafael saiu um passo do gol.
— Quer aparecer, aparece jogando.
Caio passou a língua pelo canto da boca, sorrindo.
— Tô aparecendo bastante, pelo visto.
Rafael não respondeu.
Mas suas luvas bateram uma na outra com força.
O jogo seguiu mais duro.
André começou a entender que Caio não provocava por acaso. Ele sabia exatamente onde tocar. Em Rafael, sobretudo. E Rafael, por mais que tentasse parecer inabalável, reagia. Pouco, mas reagia. Um músculo no maxilar. Um passo a mais. Uma defesa mais agressiva do que precisava.
Em um lance, André recebeu a bola no meio. Desta vez, teve tempo. Rafael estava no gol, joelhos flexionados, braços abertos, olhos nele.
— Chuta! — Marcelo berrou.
André chutou melhor.
Não forte o bastante para ser bonito, mas forte o bastante para ser sério. A bola foi no canto.
Rafael caiu.
Defendeu.
Mas deu rebote.
André, sem pensar, correu para completar. Rafael levantou no mesmo instante. Os dois chegaram juntos.
O choque foi pesado.
Peito contra ombro. Braço contra costela. A perna de André prendeu na de Rafael e os dois caíram embolados perto da pequena área. A bola saiu. Alguém gritou falta. Outro gritou segue. Marcelo xingou o mundo.
André ficou sem ar.
Não pela queda.
Rafael estava sobre ele por um segundo. Um segundo apenas. Grande, quente, suado, respirando forte. A mão de Rafael apoiada no chão ao lado do rosto dele. A coxa pressionando a dele. O cheiro do goleiro veio inteiro: suor limpo de esforço, grama sintética, borracha, um resto de sabonete, pele quente demais.
André travou.
O corpo dele reagiu de imediato, com uma violência íntima, quase humilhante. Não havia tempo para disfarçar internamente. O sangue correu, a pele acendeu, a respiração falhou.
Rafael percebeu.
Claro que percebeu.
Os olhos dele encontraram os de André de muito perto.
Não havia sorriso.
Só um reconhecimento mudo.
Depois Rafael levantou rápido e estendeu a mão.
— Tá inteiro?
André segurou a mão dele.
O toque foi firme. Luva contra palma. Rafael puxou com facilidade.
— Ainda não sei — André respondeu, antes de conseguir pensar.
Caio, a poucos metros, ouviu.
— Meu Deus — ele disse. — Hoje eu vou me divertir.
Rafael olhou para Caio.
— Cala a boca.
Caio abriu um sorriso lindo e venenoso.
— Manda de novo.
Marcelo chegou atrasado, como sempre para o subtexto.
— Foi falta?
— Foi quase homicídio — André disse, tentando recuperar alguma dignidade.
— Drama — Rafael respondeu.
— Você caiu em cima de mim.
— Você entrou na área.
— Não sabia que era território sagrado.
Rafael inclinou a cabeça.
— Agora sabe.
André sentiu o rosto queimar.
O jogo continuou, mas ele já não era o mesmo. A trombada tinha mudado o corpo de André. Tudo agora parecia encostado nele. A camisa úmida grudava diferente. A bermuda incomodava. A lembrança do peso de Rafael ficava voltando em ondas curtas, perigosas, e ele precisava se mover para não ficar preso nela.
Caio percebeu a desordem e explorou.
Passava por André mais perto do que precisava. Encostava no braço. Fazia comentários baixos.
— Respira, substituto.
— Vai se ferrar.
— Já tá pensando nisso?
— Caio.
— Falei nada.
Em certo momento, Caio se aproximou enquanto esperavam uma cobrança lateral.
— Ele é sempre assim.
— Assim como?
— Parece que não fez nada, mas deixa marca.
André olhou para Rafael. O goleiro falava com um zagueiro, ajeitando as luvas, aparentemente alheio.
— Vocês tiveram alguma coisa?
Caio parou de sorrir por uma fração de segundo.
— Pergunta para ele.
— Estou perguntando para você.
— Então a resposta é: depende do que você chama de coisa.
A bola entrou em jogo antes que André insistisse.
A partida terminou empatada. Marcelo quis prorrogação. Todos reclamaram. Decidiram nos pênaltis, porque homens adultos conseguem transformar qualquer lazer em julgamento moral.
André não queria bater.
Marcelo o empurrou.
— Vai lá. Redenção.
— Redenção de quê?
— Da sua existência no ataque.
Caio colocou a bola na marca e entregou para André.
— Capricha. Rafael gosta quando vem forte.
André respirou fundo.
— Você não cansa?
— Não quando está bom.
Rafael estava no gol.
Agora, sem a distância emocional do primeiro sábado, o confronto parecia obsceno. Só uma cobrança de pênalti, mas André sentia como se fosse outra coisa. Rafael flexionou os joelhos, abriu os braços, olhou fixo. A camisa dele estava escura de suor. A barra colava no abdômen. O cabelo pingava na testa. Ele parecia mais vivo quanto mais cansado.
André tomou distância.
Ouviu Marcelo:
— Bate no canto!
Ouviu Caio:
— Ou no meio. Ele adora provocação.
Ouviu o próprio sangue.
Correu.
Chutou.
A bola saiu forte.
Não tão colocada.
Rafael pulou, mas a bola passou sob a mão dele e entrou.
Gol.
Por um segundo, André não acreditou.
Marcelo gritou como se fosse título. Alguns riram. Caio assoviou.
Rafael caiu sentado, olhou para dentro do gol e depois para André.
O olhar não era de derrota.
Era outra coisa.
André sentiu uma alegria quente, quase infantil, misturada a uma vontade mais baixa, mais adulta, mais perigosa. Tinha vencido Rafael por um instante. Tinha atravessado o goleiro. A sensação era indecente pela forma como o corpo dele recebeu aquilo.
Rafael levantou, pegou a bola no fundo da rede e caminhou até André.
Entregou a bola em suas mãos.
Os dedos, mesmo cobertos pelas luvas, demoraram um segundo a mais no contato.
— Melhorou — Rafael disse.
André tentou sorrir.
— Eu disse.
— Ainda pensa muito.
— E você ainda repara demais.
Rafael chegou um pouco mais perto. O suficiente para André sentir outra vez o cheiro dele.
— Sou goleiro.
A repetição da frase fez o estômago de André contrair.
Caio apareceu entre os dois, batendo palmas.
— Lindo. Agora que o romance esportivo acabou, alguém decide essa merda porque eu quero beber.
Rafael se afastou.
A decisão terminou com defesa de Rafael em cima de Marcelo, para humilhação geral da família. O time de Rafael venceu. Marcelo culpou a bola, o sol e a pressão psicológica de jogar contra o próprio irmão.
— Você perdeu porque chutou igual uma grávida — Caio disse.
— Eu odeio você — Marcelo respondeu.
— Muita gente começa assim.
Foram para o vestiário.
André entrou sabendo que seria pior.
A primeira vez tinha sido acidente. Ele não sabia o que esperar. Agora sabia. E o saber tornava tudo mais agudo. Cada detalhe vinha antes: o banco de madeira, os armários metálicos, o piso molhado, o vapor, a nudez prática dos homens, a toalha baixa, as conversas atravessadas, a sensação de que o corpo podia entregar algo antes que ele conseguisse esconder.
Ele tentou ser rápido.
Abriu o armário. Tirou a camiseta. Enxugou o rosto. Pegou a toalha. Não olhou para Rafael.
Caio passou atrás dele.
— Não olhar também é um jeito de olhar.
— Você devia cobrar por frase insuportável.
— Cobro em atenção.
— Então está caro.
Caio parou ao lado dele, perto demais, sem camisa. O suor ainda brilhava no peito e no pescoço. Diferente de Rafael, Caio fazia questão de saber-se observado. Era provocação em forma de corpo.
— Você fez gol nele.
— Fiz.
— Isso mexe com Rafael.
— Um pênalti numa pelada?
— Não é sobre a bola.
André olhou para Caio.
— Você fala como se conhecesse muito ele.
Caio sustentou o olhar. Pela primeira vez, sem piada.
— Conheço partes.
— E as outras?
Caio sorriu de novo, mas agora havia uma sombra por trás.
— As outras ele esconde até dele.
Rafael entrou no vestiário alguns segundos depois.
O espaço pareceu diminuir.
Ele estava quieto. Mais quieto que o normal. Tirou as luvas devagar, abriu o armário, guardou a bola. Não olhou para André de início. Isso incomodou mais do que se olhasse.
Marcelo estava no chuveiro, cantando alto. Dois caras discutiam mensalidade perto da porta. Um reclamava que alguém tinha usado o shampoo dele de novo.
Caio encostou no armário ao lado de André e falou num tom baixo:
— Quer um conselho?
— Não.
— Ótimo. Lá vai. Com Rafael, quem espera ele decidir morre esperando.
André não respondeu.
— Mas quem chega perto demais também se machuca — Caio completou.
— Isso é aviso ou ciúme?
Caio abriu um sorriso lento.
— Hoje você está aprendendo.
Rafael fechou o armário com um pouco mais de força.
Caio ouviu e sorriu sem olhar para ele.
— Viu? Ele escuta tudo.
André sentiu o vestiário inteiro comprimido ao redor dos três. Rafael, calado. Caio, aceso. Ele mesmo, no meio, tentando fingir que aquilo era apenas resenha depois do jogo.
Foi para o banho.
A água fria bateu no corpo quente e arrancou dele um suspiro involuntário. André apoiou as mãos na parede de azulejo. Estava cansado. As pernas doíam, os ombros pesavam, o joelho reclamava. Mas por baixo da exaustão havia outra coisa, mais viva.
Tesão.
Simples, físico, irritante.
Não era romântico. Não era bonito. Era corpo. O choque com Rafael, o gol, o olhar, Caio perto demais, o cheiro de todos eles misturado no vestiário. André sentia o desejo como uma presença concreta, pressionando, marcando, tornando o banho insuficiente.
Virou o rosto para o lado.
Pela abertura entre as divisórias, viu Rafael no chuveiro mais distante.
Só um recorte: ombro, braço, a água correndo pelo peito, a cabeça baixa. Rafael lavava o rosto com as duas mãos, sem pressa. Não havia exibição. Isso tornava tudo pior. A nudez dele não pedia para ser vista. Apenas existia. Grande, quente, real.
André desviou o olhar rápido demais.
Caio, no chuveiro entre os dois, riu baixo.
— Vocês dois vão fingir até quando?
André fechou os olhos.
— Caio, cala a boca.
— Eu calo. Mas o corpo de vocês não cala.
A frase ficou no vapor.
Rafael desligou o chuveiro.
O barulho da água diminuindo pareceu alto demais.
— Você fala demais — Rafael disse.
Caio respondeu sem medo:
— E você fala de menos.
Silêncio.
André sentiu a tensão passar pelo azulejo, pela água, pelo ar quente. Não era mais só provocação. Havia história ali. Uma história que ele ainda não conhecia, mas que já o cercava.
Rafael saiu primeiro, enrolado na toalha, cabelo pingando. André esperou alguns segundos antes de desligar a água. Quando voltou ao armário, encontrou Rafael sentado no banco, já de bermuda, sem camisa, secando o cabelo.
Caio estava ao lado, vestido pela metade, mexendo no celular.
André pegou a roupa limpa.
Rafael falou sem olhar para ele:
— Você vai beber com a gente?
Marcelo, da porta, respondeu antes:
— Vai! Claro que vai!
André olhou para Rafael.
— Vou.
Caio levantou os olhos do celular.
— Olha. Decidido.
— Milagre — Rafael disse.
André vestiu a camiseta, ainda com a pele úmida. Sentia-se observado. Não sabia por quem. Talvez pelos dois. Talvez fosse pior: talvez gostasse.
Foram para o bar ao lado da quadra, um lugar estreito com mesas de plástico, televisão pequena passando futebol antigo e cheiro de fritura. O primeiro gole de cerveja desceu gelado e quase violento. Os homens se espalharam pelas mesas, falando alto, reconstruindo o jogo de acordo com a própria vaidade.
André sentou-se entre Marcelo e Caio. Rafael ficou à frente.
Não parecia acaso.
Marcelo falava sobre o campeonato amador que queria disputar.
— A gente tem time. Só falta compromisso.
— Falta preparo físico — alguém disse.
— Falta vergonha — outro completou.
Caio apontou para André.
— Agora temos reforço.
Marcelo riu.
— Reforço é palavra forte.
Rafael, olhando para o copo, disse:
— Ele fez gol.
A mesa reagiu com “ih”, risadas e provocações.
André tentou manter a leveza.
— Obrigado pelo reconhecimento tardio.
Rafael levantou os olhos.
— Não elogiei.
— Claro que não.
— Só constatei.
Caio encostou no braço de André.
— Rafael é assim. Quando gosta, parece ameaça.
Rafael olhou para a mão de Caio no braço de André.
André também olhou.
Caio não tirou.
Aquele toque era pequeno. Público. Defensável como brincadeira. Mas a intenção estava ali, quente e descarada. André sentiu a palma de Caio, os dedos firmes, a proximidade. Não era o mesmo impacto de Rafael. Era outra vibração: mais rápida, mais suja, mais divertida. Caio não queria ser monumento. Queria ser incêndio.
André retirou o braço devagar, mas sem brutalidade.
Caio sorriu como se isso também fosse resposta.
— Medroso.
— Prudente.
— Chama como quiser.
Rafael bebeu em silêncio.
A tarde foi descendo. Alguns homens foram embora. Marcelo ficou mais bêbado e mais expansivo. Falou de trabalho, da esposa, do campeonato, de como André precisava voltar sempre agora que tinha chuteira.
André quase esqueceu de resistir.
Havia algo bom ali também. Não só o desejo. Não só a tensão. Era uma pertença inesperada. Uma mesa de homens comuns, rindo de bobagens, exagerando feitos, partilhando cansaço. Durante muito tempo, André tinha associado esse tipo de ambiente a uma masculinidade que o expulsava ou o entediava. Agora, ele via frestas. Segredos. Correntes subterrâneas.
Quando Marcelo foi ao banheiro do bar, Caio aproveitou.
— Você sabe que ele não percebe nada, né?
— Meu irmão?
— Uhum.
— Marcelo percebe boleto vencido e impedimento duvidoso. O resto passa.
Caio riu.
Rafael permaneceu quieto.
Caio apoiou os cotovelos na mesa.
— Então vou falar antes que ele volte: sábado que vem tem jogo contra o pessoal da quadra de baixo. Mais sério.
— Mais sério quanto?
— Gente que acha que pelada define caráter.
— Ou seja, vocês.
— Pior. Eles têm uniforme.
André olhou para Rafael.
— Você vai?
Rafael respondeu:
— Sou o goleiro.
Como se isso explicasse o mundo.
Caio completou:
— E você vai porque agora está viciado.
— Em perder sábado de manhã?
— Em ser olhado.
André sentiu a frase entrar como dedo em ferida.
Rafael olhou para Caio.
— Para.
Caio sustentou.
— Por quê? Mentira?
Rafael não respondeu.
André decidiu perguntar antes que perdesse coragem:
— E você, Caio? Está viciado em quê?
O sorriso dele mudou.
Ficou mais lento.
— Em cutucar lugar que homem tenta esconder.
A resposta deixou a mesa pequena.
Marcelo voltou no segundo seguinte, salvando ou interrompendo alguma coisa.
— Do que estão falando?
Caio abriu o sorriso habitual.
— Tática.
— Finalmente.
Rafael levantou pouco depois.
— Tenho que ir.
Caio olhou para ele.
— Vai fugir cedo?
— Vou trabalhar.
— Sábado?
— Prédio não escolhe dia para dar problema.
Rafael pegou a mochila. Antes de sair, olhou para André.
— Bom gol.
André sentiu um ridículo orgulho subir pelo peito.
— Boa defesa. Quase.
Rafael sorriu de canto.
— Quase.
E foi embora.
Caio acompanhou Rafael com o olhar. Pela primeira vez naquele dia, pareceu menos brincalhão. Havia algo duro ali. Saudade, talvez. Ou raiva. Ou as duas coisas usando a mesma roupa.
André percebeu.
— Você ainda gosta dele.
Caio virou devagar.
— Olha quem agora vê.
— Não respondeu.
— Nem tudo que a gente gosta faz bem.
— Isso também é conselho?
Caio chegou mais perto. A mesa entre eles parecia pouco.
— Não. Isso é aviso sobre mim também.
André não respondeu.
O corpo dele ouviu.
Caio se levantou, jogou algumas notas na mesa e pegou a mochila.
— Até sábado, substituto.
— André.
— Ainda não.
— Quando vai usar meu nome?
Caio inclinou o rosto, sorrindo.
— Quando você parar de fingir que não gosta do apelido.
Ele saiu.
André ficou sozinho por alguns segundos enquanto Marcelo discutia a conta no balcão. A cerveja no copo já estava quente. A camisa limpa grudava um pouco nas costas. As pernas doíam. No braço, ainda parecia haver o peso da mão de Caio. No peito, a memória do corpo de Rafael sobre o dele na queda. Na boca, a frase: bom gol.
Marcelo voltou.
— Bora?
— Bora.
No carro, o irmão falou sem parar, como sempre. André ouvia pouco. A cidade passava pela janela com sua mistura de calor, buzina, gente atravessando fora da faixa, pastelaria aberta, cachorro dormindo na calçada. Tudo normal. Tudo comum.
Mas dentro dele a manhã continuava.
A quadra.
O cheiro.
A queda.
O gol.
O vestiário.
Rafael dizendo pouco demais.
Caio dizendo demais.
André olhou para as próprias mãos. Ainda havia um pouco de terra preta da grama sintética perto da unha. Esfregou com o polegar, mas não saiu.
Marcelo perguntou:
— Você curtiu mesmo, né?
André demorou.
— Curti.
— Falei. Faz bem sair de casa.
— Faz.
— E o pessoal é gente boa. Meio doente, mas gente boa.
André quase riu.
— É. Meio doente.
Quando chegou ao apartamento, tomou outro banho. Mais demorado. Tentou tirar o cheiro da quadra, mas havia algo que a água não alcançava. O corpo estava cansado, porém aceso. A cabeça repetia cenas com uma nitidez indecente: Rafael caindo sobre ele; Caio segurando seu braço no bar; o olhar do goleiro depois do pênalti; a voz de Caio no vapor do banheiro dizendo que o corpo deles não calava.
André se olhou no espelho.
Aos quarenta e três anos, separado, cansado, achando que já sabia mais ou menos o tamanho da própria vida, ele se via agora como um homem à beira de uma coisa nova. Não exatamente amor. Não ainda. Talvez nem perigo. Mas alguma coisa que tinha cheiro, peso, pele e vontade.
O celular vibrou.
Mensagem no grupo.
MARCELO:
Sábado confirmado contra a quadra de baixo. 10h. Sem atraso.
CAIO:
@André substituto, leva a chuteira nova e a cara de quem não quer nada.
André começou a digitar uma resposta, mas outra mensagem apareceu antes.
RAFAEL:
Ele fez gol. Deixa o cara.
André ficou olhando para a tela.
Caio respondeu:
CAIO:
Ih.
Depois:
CAIO:
O paredão tá defendendo fora da área.
André esperou Rafael responder.
Não respondeu.
Então, no privado, apareceu uma mensagem nova.
RAFAEL:
Teu joelho está bem?
André sentou na beira da cama.
A pergunta era simples. Prática. Quase fria.
Mesmo assim, abriu nele uma porta.
Digitou:
ANDRÉ:
Está. Só o orgulho que ficou machucado com algumas defesas.
A resposta demorou dois minutos.
RAFAEL:
Então sábado eu machuco de novo.
André sentiu o sorriso nascer antes de conseguir impedir.
ANDRÉ:
Promessa?
Rafael visualizou.
Não respondeu.
André largou o celular ao lado, mas a tela continuou acesa por alguns segundos, iluminando o quarto vazio.
Ele deitou, olhando para o teto.
No sábado anterior, tinha ido para substituir um homem doente.
Naquele segundo sábado, começou a entender que talvez o doente fosse ele: contaminado pelo cheiro da quadra, pelo suor dos homens, pela provocação de Caio, pela presença absurda de Rafael.
E o pior era que, pela primeira vez em muito tempo, André não queria cura nenhuma.