Joana acordou com o corpo pesado, o calor úmido do Rio grudado na pele. Aos quarenta e sete anos, ainda era uma balzaquiana de dar inveja: seios grandes e caídos que enchiam o sutiã, barriga macia, quadris largos, bunda farta e coxas grossas que se esfregavam ao andar. Contadora de um escritório pequeno no Centro, casada com Fabiano havia dezenove anos. Ele, bom homem, trabalhador, provedor. Chegava em casa com o cheiro de escritório e cansaço, dava um beijo na testa dela e chamava ela de “meu amor”.
Mas na cama, o inferno.
Fazia quase um mês que o pau de Fabiano não endurecia direito. Quando endurecia, era uma coisa mole, rápida, vergonhosa. Ele suava, pedia desculpa, tomava remédio, ia ao médico. Pressão alta, estresse, nervoso. Joana ouvia tudo, sorria compreensiva, passava a mão na cabeça dele. Por dentro, a boceta queimava. Uma fome antiga, romântica no começo, agora pura carne pedindo macho.
E ela tinha descoberto um jeito sujo de aliviar.
Começou inocente. Um entregador de farmácia que trouxe o remédio do Fabiano. Joana, de robe curto, deixou o decote cair “sem querer”. O rapaz, moreno, uns trinta anos, olhou. Ela sentiu o tesão subir. Depois postou no grupo secreto que frequentava: “Bom dia gatos! O entregador veio hoje... deixei ele encostar um pouco. Mão quente pra caralho. Não deixei mais porque o marido podia descobrir.”
Os comentários vieram aos montes. Homens elogiando, pedindo fotos, dizendo que queriam ser o próximo. Joana lia no banheiro, dedos descendo até a calcinha molhada, gozando em silêncio enquanto Fabiano via TV na sala.
A coisa escalou.
Num domingo quente, enquanto Fabiano dormia depois do almoço, Joana atendeu outro entregador só de camiseta e calcinha. A peça branca marcava a bunda gorda, o tecido fino colado na boceta. O rapaz ficou parado na porta, olhos devorando.
— Pode filmar um pouquinho? — ela pediu, voz rouca, romântica e puta ao mesmo tempo.
Ele filmou. Ela posou, virou de costas, empinou. Depois fechou a porta, sentou no sofá e se masturbou pensando naqueles olhos. Postou: “Ontem o entregador só me filmou. Tá aqui no shopping com o marido agora. Quem mais quer entregar remédio aqui em casa?”
Fabiano chegou do trabalho uma noite, cansado, amável como sempre.
— Como foi seu dia, meu amor?
— Normal — ela respondeu, sorrindo doce. — Trabalhei bastante, fiz as contas do mês.
Por dentro, ela pensava no entregador da noite anterior. Tinha pedido comida por app de propósito. Atendeu de calcinha vermelha, aquela que marcava os lábios da boceta. O rapaz quase derrubou a sacola. Ela riu, deixou ele olhar demorado, roçou o corpo “sem querer” ao pegar o troco. Depois postou: “Sextou! Atendi o entregador de calcinha. Ele me comeu com os olhos. O que acharam, gatos?”
Os comentários eram fogo: “Queria ser eu”, “Mostra a boceta”, “Seu corno merece isso”. Joana gozava lendo, o dedo girando no clitóris inchado.
Fabiano tentava. Toda noite. Tomava o remédio, deitava em cima dela, esfregava o pau mole entre as coxas grossas dela. Suava, gemia, pedia desculpa.
— Desculpa, Joana... tô nervoso... o médico disse que é passageiro...
Ela acariciava o cabelo dele, maternal.
— Calma, meu bem. Vamos com calma. Te amo.
Mas quando ele dormia, ela pegava o celular e abria o grupo. “Meu marido falhou de novo. Quase um mês sem. Tô pensando em organizar uma fila. Quem entraria?”
As respostas explodiam. Mais de vinte homens. Fotos de pau, propostas, horários. Joana sentia uma vergonha deliciosa, uma humilhação que molhava tudo. Ela, a contadora séria, a esposa romântica, virando puta de app de entrega.
Numa sexta, Fabiano chegou mais cedo. Joana tinha acabado de atender um entregador. O rapaz tinha entrado, tocado os seios dela por cima da camiseta, apertado a bunda. Não fodeu, mas quase. Ela gozou na mão dele.
Fabiano encontrou a mulher corada, cheiro de sexo no ar.
— Tá tudo bem, amor?
— Tudo ótimo — ela disse, beijando ele na boca. A mesma boca que tinha gemido pro entregador minutos antes.
Eles foram ao médico juntos. O doutor falou de estresse, pressão, férias. Fabiano ouvia cabisbaixo. Joana, ao lado, apertava as coxas, sentindo a calcinha molhada. No carro, de volta, ela colocou a mão na perna dele.
— Vai dar certo, meu bem.
À noite, depois de mais uma falha de Fabiano — ele gozando mole, quase sem entrar —, Joana postou: “Marido falhou de novo. Tô pensando seriamente em procurar fora. Quem entra na fila? Quero saber o que tô perdendo.”
Os “gatos” responderam em peso. Um deles, mais ousado, marcou: entregaria uma “pizza” na terça.
Fabiano, na sala, via jornal. Amável, preocupado com ela.
— Você anda diferente, Joana. Mais... animada.
Ela sorriu, romântica.
— É o trabalho, meu amor. Muita conta pra fechar.
Por dentro, a mente dela era um esgoto carioca: imaginava uma fila de entregadores na porta, paus duros, mãos brutas, bocas famintas usando aquela balzaquiana rechonchuda enquanto o marido esperava no carro ou dormia no quarto. A humilhação era afrodisíaco. A hipocrisia, perfume.
Na terça, o entregador veio. Joana atendeu de robe aberto. Deixou ele entrar. Ele era forte, moreno, pau grosso. Fodeu ela no sofá mesmo, rápido, bruto. Segurou aqueles seios pesados, meteu fundo na boceta molhada de meses de seca, chamou ela de “puta casada”. Joana gozou gritando baixo, mordendo o ombro dele. Depois ele gozou dentro, quente, grosso.
Ela se limpou rápido, mandou ele embora.
Fabiano chegou uma hora depois.
— Demorou a entrega hoje? — perguntou, inocente.
— Foi, amor. Trânsito.
Eles jantaram. Joana serviu o prato dele com carinho. Depois, no quarto, Fabiano tentou de novo. Pau meio duro. Entrou um pouco. Gozou em dois minutos.
Joana ficou acordada, sentindo o esperma do entregador ainda escorrendo misturado com o do marido. Pegou o celular, postou:
“Comi bastante hoje. Fila crescendo. Meu marido ainda não tá 100%. Mas tô feliz.”
Fabiano dormia ao lado, amável, provedor, cego.
Joana sorriu no escuro. A romântica dona de casa tinha virado a contadora que fazia contabilidade suja da própria carne. Desejo, culpa, prazer, hipocrisia — tudo misturado no mesmo caldo carioca.
Porque no fundo, Nelson Rodrigues sabia: não existe corno inocente. Existe corno que alimenta a própria tragédia. E Joana, com o corpo rechonchudo ainda latejando, já tinha escolhido o papel principal.
A fila só ia crescer. E ela, pela primeira vez em anos, se sentia viva. Podre, mas viva.
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