Nota do autor: Olá, queridos leitores! Aproveitando o clima de copa, trago para vocês uma trama bem brasileira, quente e safada na medida. Cuidado para não se apaixonarem kkkkkk.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
André estava deitado no sofá havia quase uma hora, mas não descansava. O ventilador girava no teto com aquele barulho mole, cansado, empurrando um ar quente que parecia não sair do lugar. A televisão estava ligada num programa esportivo qualquer, desses em que três homens discutem o mesmo lance por vinte minutos como se o destino do país dependesse disso. Ele não prestava atenção.
Na mesa de centro, uma lata de cerveja já morna, o controle remoto, um par de meias jogado e o celular vibrando pela terceira vez.
Ele olhou a tela.
Marcelo.
André suspirou antes de atender.
— Fala.
Do outro lado, o irmão veio sem cumprimento.
— Você tá fazendo o quê?
— Morrendo aos poucos no sofá. Por quê?
— Então levanta. Preciso de você.
André fechou os olhos.
— Não.
— Você nem sabe o que é.
— Por isso mesmo.
Marcelo riu, mas havia urgência na voz dele.
— O Dudu pegou virose. O Maurício inventou que a sogra caiu. O Thiagão sumiu. A gente tá sem um. Se você não vier, acaba a pelada.
André abriu os olhos e encarou o teto.
— Marcelo, eu não jogo bola há anos.
— Ninguém lá joga de verdade. A gente finge. É diferente.
— Meu joelho dói só de ouvir a palavra “pelada”.
— Para de drama. Você era bom.
— Eu era magro também. O tempo faz coisas cruéis.
— André, pelo amor de Deus. É só completar time. Você fica lá na zaga, dá dois chutões e reclama do juiz. Ninguém vai exigir Champions League de você.
André se sentou devagar. O apartamento estava silencioso demais. Desde a separação, qualquer barulho fazia falta. Antes, ele reclamava das coisas espalhadas, da conversa atravessada, do som do secador, dos passos no corredor. Agora havia uma paz tão grande que às vezes parecia abandono.
— Que horas?
— Agora.
— Agora quando?
— Agora de agora. Já estamos aqui.
André olhou para a própria barriga, para a bermuda velha, para a camiseta amassada.
— Eu nem tenho chuteira.
— Usa tênis. A quadra é society.
— Vou passar vergonha.
— Você já passou vergonha pior no casamento com a Patrícia e sobreviveu.
— Vai se ferrar.
Marcelo riu mais alto.
— Vem logo. Te mando o endereço.
A ligação caiu antes que André pudesse negar de novo.
Ele ficou alguns segundos com o celular na mão, odiando o irmão por conhecer tão bem sua fraqueza. Marcelo sempre soubera empurrá-lo para fora de casa. Quando eram adolescentes, fazia isso para festas. Depois, para churrascos. Agora, para uma pelada de homens adultos tentando não admitir que o corpo já não obedecia com a mesma boa vontade.
André levantou.
No quarto, abriu a gaveta como quem procura uma versão antiga de si mesmo. Achou uma camiseta preta, uma bermuda de treino que ainda servia se ele não respirasse fundo demais, meias brancas e um tênis gasto. No espelho, viu um homem de quarenta e três anos com olheiras discretas, barba por fazer e um corpo que não estava ruim, mas também não era mais promessa. Era história. Ombros ainda largos, peito firme o bastante, barriga começando a arredondar nos dias de descuido. Um homem possível.
Tomou banho rápido, mas demorou escolhendo o desodorante. Quando percebeu, ficou irritado consigo mesmo.
— É uma pelada, idiota — murmurou.
Mesmo assim, passou perfume.
Depois se arrependeu.
Depois passou mais um pouco.
A quadra ficava atrás de um posto, numa rua estreita da zona norte, espremida entre uma oficina mecânica e um prédio baixo de salas comerciais. André chegou com dez minutos de atraso. Antes mesmo de entrar, ouviu os gritos.
— Toca, porra!
— Chuta essa merda!
— Sozinho, Caio!
— Ah, vai tomar no cu, juiz!
Não havia juiz.
André parou na porta de grade e sentiu o primeiro bafo do lugar. Não era apenas calor. Era uma mistura densa: borracha aquecida, grama sintética úmida, suor velho preso nas redes, desodorante barato, poeira, chuteira molhada, cerveja esquecida em algum canto. O tipo de cheiro que não pedia licença. Entrava pelo nariz, descia pela garganta, grudava na pele.
Por um instante, ele quase virou as costas.
Então Marcelo o viu.
— Aí! Caralho, até que enfim! Meu irmão chegou!
Alguns homens olharam. Outros nem pararam de correr. Marcelo veio até a lateral da quadra, rosto vermelho, camisa azul colada no corpo, sorriso aberto.
— Puta que pariu, você veio cheiroso?
— Cala a boca.
— Passou perfume pra jogar bola?
— Você quer jogador ou fiscal de fragrância?
Marcelo gargalhou e abriu o portão.
— Entra logo. Você é comigo. Fica mais atrás. Não inventa de subir porque você vai morrer.
André entrou na quadra sentindo todos os anos de sedentarismo pesarem nos joelhos. O tênis afundava de leve na grama sintética. O sol batia por uma abertura na cobertura e fazia o piso brilhar em pontos verdes e gastos.
Os homens eram comuns, mas ali pareciam outra coisa. Fora dali talvez fossem gerentes, motoristas, professores, vendedores, pais de família, divorciados, endividados, santos e canalhas. Dentro da quadra, eram corpos. Corpos em disputa. Corpos suados, impacientes, vivos. Um passava a mão por dentro da camisa para secar o peito. Outro cuspia no canto. Outro ajeitava a bermuda sem pudor. Dois discutiam cara a cara e, dez segundos depois, riam como se a agressividade também fosse uma forma de carinho.
André sentiu um incômodo estranho. Não era medo. Não era vergonha. Era uma atenção exagerada, quase involuntária. Como se o ambiente tivesse aumentado o volume das coisas físicas.
— Esse é o André — Marcelo gritou. — Meu irmão. Respeita que ele é idoso.
— Idoso é teu passado, arrombado — André respondeu, arrancando risadas.
Foi aí que ele viu Rafael.
No começo, não entendeu o impacto. Talvez porque Rafael estivesse longe, no gol do outro time, meio escondido pela função. Goleiro é presença e ausência ao mesmo tempo. Participa menos, mas vigia tudo. Não corre o tempo todo, mas parece guardar o jogo inteiro dentro do corpo.
Rafael usava uma camisa cinza escura que já tinha perdido a briga contra o suor. Luvas pretas. Joelheira em uma perna. Barba curta. Cabelo molhado na nuca. Alto. Largo. Não exageradamente musculoso, não um desses corpos de academia feitos para espelho. Era outro tipo de força. Mais pesada. Mais prática. Corpo de quem segura, empurra, cai, levanta, aguenta.
Ele estava encostado na trave, braços soltos, olhando a reposição da bola como se nada no mundo pudesse apressá-lo.
André desviou o olhar depressa.
— Bora, André! — Marcelo gritou. — Marca o Caio!
— Quem é Caio?
A resposta veio em forma de vulto.
Um homem de camiseta vermelha passou por ele rindo, rápido demais, bonito demais, abusado demais. Pele morena, cabelo curto, sorriso de quem nunca pedia desculpa antes da falta. Caio recebeu a bola, deu um corte em Marcelo e chutou para fora.
— Esse sou eu, tio — ele disse, voltando. — Mas não precisa marcar muito em cima. Sou tímido.
— Percebi — André respondeu, tentando recuperar o fôlego antes mesmo de correr.
Caio olhou para ele de cima a baixo. Não de forma discreta. De forma ofensivamente consciente.
— Irmão do Marcelo?
— Infelizmente.
— Achei que ele era filho único. Explica muita coisa.
— O quê?
Caio sorriu.
— A autoestima dele.
A bola voltou a rolar.
Nos primeiros minutos, André apenas sobreviveu. Errou domínio, chegou atrasado em duas jogadas, tropeçou sozinho uma vez e fingiu que tinha sido irregularidade do piso. Marcelo gritava instruções como se comandasse uma guerra.
— Fica! Fica! Não sobe!
André queria responder, mas o pulmão estava ocupado negociando com a morte.
Aos poucos, porém, o corpo começou a lembrar. Não a juventude inteira, apenas fragmentos: o jeito de abrir o braço para proteger espaço, o tempo certo de dar um bico para a lateral, a pequena satisfação de interceptar um passe. Suava muito. A camiseta grudou nas costas. O perfume desapareceu, engolido pelo sal da pele.
E, toda vez que levantava os olhos, Rafael estava lá.
No gol.
Parado.
Observando.
Era absurdo, porque Rafael não fazia nada demais. Essa era a violência dele. Não precisava fazer. Quando gritava com a defesa, a voz atravessava a quadra baixa e firme. Quando defendia, caía com peso, batia no chão, levantava sem pressa. Quando pegava a bola com as mãos, parecia tomar posse de alguma coisa.
André tentou não reparar.
Reparou.
Caio reparou que ele reparava.
Numa cobrança de escanteio, Caio passou por André e falou baixo, quase no ouvido:
— Cuidado com o goleiro.
André olhou para ele.
— Quê?
— Rafael. Ele tem cara de santo, mas acaba com a concentração dos outros.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe sim.
Caio saiu antes da resposta, rindo.
A bola veio alta. Rafael gritou. André virou o rosto no susto. O goleiro atravessou a pequena área, pulou no meio de dois homens e agarrou a bola no alto. Quando caiu, abraçou-a contra o peito com força, como se tivesse capturado um animal.
O movimento foi limpo, brutal, bonito.
André sentiu alguma coisa apertar por dentro.
Não era amor. Não era paixão. Não era nem desejo ainda, não com nome inteiro. Era uma pancada sensorial. O corpo de Rafael tinha entrado nele antes que o pensamento autorizasse.
— Acorda, André! — Marcelo berrou. — O jogo tá acontecendo!
— Eu sei, caralho!
Mas não sabia.
Não direito.
Minutos depois, André recebeu uma bola perto da entrada da área. Foi sem querer. Alguém tocou errado, a bola bateu no pé dele e sobrou limpa. Por um segundo, abriu-se um caminho improvável entre ele e o gol.
— Chuta! — Marcelo gritou.
André chutou.
Fraco.
Ridículo.
A bola foi rasteira, sem convicção, quase pedindo desculpa.
Rafael agachou e pegou fácil.
Mas não repôs.
Ficou com a bola nas mãos e olhou para André.
O mundo não parou. Os outros continuaram reclamando, andando, pedindo passe. A quadra continuou quente. O suor continuou descendo. Mas aquele olhar abriu um espaço próprio.
Rafael não riu. Não debochou. Só olhou.
Depois disse:
— Dá pra fazer melhor.
André, ainda ofegante, respondeu:
— Eu estava sendo gentil.
Pela primeira vez, Rafael sorriu.
Pouco.
O bastante.
Caio, ao lado, soltou:
— Ih.
Marcelo veio correndo.
— Ih o quê?
— Nada não — Caio disse. — Só senti o clima mudar.
— Que clima?
— Continua jogando, Marcelo.
André quis mandar Caio calar a boca, mas estava ocupado demais tentando entender por que aquele comentário tinha acertado tão fundo.
O jogo seguiu. O time de André perdeu por dois gols. Marcelo culpou o calor, o piso, a falta de entrosamento e, por fim, André.
— Você quase fez um gol.
— Quase?
— Quase chutou forte o bastante pra bola chegar.
— Vai se ferrar.
Os homens foram saindo da quadra aos poucos, alguns tirando a camisa antes mesmo de passar pelo portão. O ar fora das quatro linhas parecia mais frio, embora não fosse. André caminhou atrás de Marcelo até o vestiário com as pernas bambas e uma estranha eletricidade no corpo.
— Banho ali — Marcelo apontou. — Armário é qualquer um. Só não deixa carteira dando mole porque o Caio tem cara de quem rouba sabonete.
— Eu roubo corações — Caio disse, passando por eles.
— Ninguém aguenta você — Marcelo respondeu.
— Aguenta sim. Alguns até gostam.
Caio olhou para André ao dizer isso.
André fingiu não ver.
O vestiário era pequeno demais para tantos homens. Azulejos claros, bancos de madeira, armários de metal amassados, espelhos manchados, o piso já molhado por quem tinha entrado antes. O som ali dentro era outro: mais fechado, mais íntimo. Risadas ecoavam nas paredes. Chuveiros abriam e fechavam. Sacolas plásticas estalavam. Chuteiras batiam no chão. Alguém cantava um pagode desafinado.
E o cheiro.
Mais forte que na quadra.
Ali não havia vento para diluir nada. Suor, roupa molhada, sabonete, desodorante, pele quente, toalha úmida. Tudo junto, preso, vivo. André abriu o armário e ficou encarando a mochila, tentando parecer normal.
Tirou a camiseta.
O tecido descolou do corpo com resistência, pesado de suor. Ele sentiu o ar tocar o peito e a barriga, sentiu-se exposto de um jeito que não esperava. Não era vergonha exatamente. Era consciência. Do próprio corpo e dos corpos ao redor. A nudez ali não tinha solenidade. Era prática. Um tirava a bermuda conversando sobre o gol perdido. Outro passava toalha no cabelo. Outro reclamava da esposa. Homens se despindo como se nada houvesse nisso — e talvez fosse justamente essa naturalidade que tornasse tudo mais perigoso.
André procurou Rafael sem querer.
Não o viu.
Depois viu.
Rafael entrou no vestiário por último.
Sem as luvas, parecia ainda maior. Talvez porque agora não estivesse protegido pela função. Não era mais o goleiro distante, enquadrado pelas traves. Era um homem inteiro entrando num espaço pequeno. A camisa cinza colava no peito e no abdômen, escurecida pelo suor. Ele passou por André carregando a mochila numa mão e as luvas na outra.
O braço dele roçou de leve no ombro de André.
Nada.
Quase nada.
Mas o corpo de André recebeu o contato como se fosse mais.
Rafael abriu o armário ao lado.
— Você é irmão do Marcelo mesmo?
A voz veio baixa, próxima.
André segurou a toalha com força.
— Infelizmente, como já informei.
— Não parece.
— Obrigado.
— Não foi elogio.
André virou o rosto.
Rafael estava sério, mas havia uma sombra de humor no canto da boca.
— Ele fala mais — Rafael completou.
— Isso qualquer morto fala menos que ele.
Rafael soltou uma risada curta. Não chegou a ser gargalhada. Foi pior. Foi íntima demais para uma primeira conversa.
Do outro lado, Caio observava sentado no banco, sem camisa, uma perna esticada, a outra dobrada. Ele secava o rosto com a própria camiseta e sorria como quem assistia ao início de uma tragédia divertida.
Rafael puxou a camisa pela gola e a tirou.
André tentou olhar para dentro do armário.
Falhou.
A visão não foi limpa nem elegante. Foi rápida, atravessada, quase agressiva. Ombros largos. Peito úmido. Marcas vermelhas onde o tecido tinha pressionado a pele. Uma cicatriz pequena perto das costelas. O abdômen firme, não desenhado como escultura, mas denso, real, de um homem que se movimentava. Havia algo indecente justamente por não tentar ser indecente.
Rafael pegou a toalha.
André sentiu o calor subir pelo pescoço.
Virou de costas depressa, fingindo procurar a bermuda limpa. Mas o corpo já tinha entendido antes dele. A excitação veio como uma traição baixa, física, impossível de argumentar. Primeiro a respiração ficou curta. Depois o sangue pareceu concentrar-se onde não devia. O tecido da bermuda começou a denunciar mais do que ele gostaria.
Ele inclinou o corpo contra o armário, tentando esconder.
Caio viu.
Claro que viu.
— Tá tudo certo aí, substituto?
André fechou os olhos por meio segundo.
— Tá.
— Certeza? Você parece tenso.
— Joguei mal. É isso.
— Ah — Caio disse, alongando a palavra. — Achei que fosse outra coisa.
Rafael parou de mexer na mochila.
André sentiu antes de ver que ele tinha percebido.
O vestiário continuava barulhento, mas ao redor dos três abriu-se uma espécie de bolha. Caio sorria. André queimava. Rafael não ria.
Esse era o problema.
Rafael não parecia divertir-se com a vergonha dele. Parecia apenas observá-la. Como no chute fraco. Como se André fosse uma bola vindo devagar, mas cheia de efeito.
— Deixa o cara, Caio — Rafael disse.
Caio levantou as mãos.
— Eu não fiz nada.
— Você nunca faz.
— Exato. Sou inocente.
André finalmente encontrou coragem para olhar para Rafael. Arrependeu-se no mesmo instante.
Rafael estava perto, toalha no ombro, peito ainda brilhando, cabelo grudado na testa. O olhar dele desceu por um segundo. Só um. O suficiente para André saber que tinha sido visto inteiro: a tentativa de disfarce, o constrangimento, o desejo.
Rafael voltou a encará-lo.
Não havia deboche.
Isso foi pior que deboche.
— Acontece — Rafael disse.
A frase deveria aliviar. Em vez disso, afundou mais fundo. Porque saiu calma. Adulta. Quase cúmplice.
André passou a língua pelos lábios, secos de repente.
— Não aconteceu nada.
Caio riu.
— Claro. Nada sempre ocupa bastante espaço.
Marcelo apareceu entre eles, alheio, enxugando o cabelo com uma toalha verde.
— Que foi? Tão falando de quê?
— Do desempenho do seu irmão — Caio respondeu.
Marcelo fez uma careta.
— Ah, foi horrível mesmo.
— Obrigado pela defesa — André disse.
— Mas melhora — Marcelo continuou. — Semana que vem ele vem de novo.
André olhou para o irmão.
— Eu não disse isso.
Marcelo sorriu.
— Não precisa dizer.
Rafael fechou o armário.
— Vem sim.
Não foi pergunta.
André encarou Rafael.
O barulho do chuveiro pareceu aumentar. A água batia no piso em jatos grossos. O vapor começava a embaçar o espelho. Em algum lugar, um dos caras ria alto. Outro xingava porque tinham roubado o shampoo. O mundo seguia ordinário, masculino, ridículo.
Mas André estava preso naquela frase.
Vem sim.
Havia muitas formas de entender.
Nenhuma segura.
Ele pegou a toalha, a roupa limpa e caminhou para o chuveiro tentando recuperar alguma dignidade. Sentia Caio olhando suas costas. Sentia Rafael sem precisar olhar. Sentia o próprio corpo ainda aceso, irritantemente vivo, como se aquela pelada tivesse acordado uma parte dele que a separação, a rotina e os anos tinham deixado dormir.
Debaixo da água, André apoiou uma das mãos no azulejo frio.
A primeira queda da ducha veio quase dolorida na pele quente. Ele fechou os olhos. O cheiro de suor começou a descer pelo ralo, mas não desaparecia. Continuava nele. Na memória da quadra. No roçar do braço de Rafael. No sorriso de Caio. Na frase calma, perigosa, absurda.
Acontece.
André respirou fundo.
Do outro lado da divisória, ouviu a voz de Caio:
— Sábado que vem, hein, substituto?
Antes que André respondesse, a voz de Rafael veio mais baixa:
— Deixa ele decidir.
Caio riu.
— Ele já decidiu.
André abriu os olhos.
A água escorria pelo rosto, pela barba, pelo peito. Ele olhou para o azulejo à frente como se pudesse encontrar ali uma resposta racional. Não encontrou.
O que encontrou foi pior: uma vontade.
Não de jogar bola.
Não exatamente.
Quando saiu do banho, Rafael já estava vestido, sentado no banco, amarrando o tênis. Caio estava ao lado, mexendo no celular, mas levantou os olhos assim que André apareceu. Marcelo falava alto com alguém na porta.
André passou até o armário em silêncio.
Rafael ergueu o rosto.
— Até sábado?
André abriu a mochila, guardou a toalha molhada e demorou um pouco mais do que precisava antes de responder.
— Talvez.
Caio sorriu.
— Talvez é sim com medo.
André olhou para ele.
— Você fala demais.
— E você olha demais.
A frase bateu seco.
Marcelo chamou da porta:
— Bora, André!
André fechou o armário.
Rafael ainda o olhava. Sem pressa. Sem sorriso. Como se defendesse alguma coisa que André ainda nem tinha chutado.
André saiu do vestiário com as pernas cansadas e a cabeça acesa. Lá fora, o fim da manhã tinha cheiro de asfalto quente e gordura de pastel vindo do bar ao lado. Alguns homens já bebiam cerveja na calçada, rindo da partida como se nada tivesse acontecido.
Talvez, para eles, nada tivesse mesmo.
Para André, alguma coisa tinha começado.
No carro de Marcelo, o irmão falava sem parar sobre o campeonato, sobre a mensalidade da quadra, sobre como o time precisava de gente comprometida. André respondia com monossílabos. Olhava pela janela, mas ainda via a quadra. O gol. A toalha. O peito úmido. O sorriso de Caio. O olhar de Rafael descendo por um segundo e voltando sem pedir desculpa.
— Você vem semana que vem, né? — Marcelo perguntou.
André demorou.
— Venho.
Marcelo bateu no volante, satisfeito.
— Sabia. Falei que você ia gostar.
André quase riu.
Gostar era uma palavra pequena demais.
Ele encostou a cabeça no banco e fechou os olhos.
Aquela manhã tinha começado com um favor ao irmão. Um corpo a mais para completar time. Um substituto qualquer no lugar de um homem doente.
Mas André sabia, com uma certeza incômoda e quente, que no sábado seguinte não iria substituir ninguém.
Iria porque Rafael estava lá.
E porque Caio tinha percebido.
E porque, dentro daquele vestiário apertado, entre o cheiro de suor, sabonete barato e roupa molhada, alguma parte dele tinha levantado a mão e pedido para entrar no jogo.