Desejo

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 5646 palavras
Data: 15/06/2026 00:29:00
Assuntos: Gay

A caixa ficou aberta por três dias sobre a mesa da sala.

Caíque não a guardou.

Também não leu a carta.

Passava por ela como quem passa por uma pessoa sentada em silêncio. Às vezes, fingia não ver. Às vezes, parava diante da mesa, tocava a tampa levantada, ajeitava um bilhete, mudava uma fotografia de lugar. Em uma manhã, tirou a camisa azul de Marco, desdobrou com cuidado, aproximou do rosto e não encontrou mais cheiro nenhum.

Isso o surpreendeu.

Não a ausência do cheiro, claro. Décadas tinham se passado. Nenhum tecido era obrigado a carregar um homem por tanto tempo. O que o surpreendeu foi perceber que, por dentro, ainda esperava encontrar alguma coisa. Um resto de pele. Um sinal. Uma prova material de que Marco não havia sido apenas memória repetida até virar invenção.

Mas a camisa já era só camisa.

E, ainda assim, era sagrada.

Caíque a dobrou de novo.

— Você sempre foi péssimo em permanecer onde eu mando — disse para o tecido.

A frase saiu sem dor aguda. Saiu quase como conversa. Isso também o surpreendeu.

Aos 78 anos, ele descobria que o luto não terminava. Mudava de textura. Um dia era faca. Depois, pedra. Depois, móvel no meio da casa. Depois, fotografia. Depois, idioma. Depois, uma espécie de clima interno. Não passava. Mas deixava de exigir o centro da sala todos os dias.

Na primeira noite depois de abrir a caixa, não dormiu. Sentou-se diante dela, com café frio, óculos sobre a mesa e a carta ainda dentro do envelope. Leu apenas o próprio nome escrito por Marco.

Caíque.

A letra estava mais frágil do que nos bilhetes antigos. Marco já estava doente quando escreveu. As linhas tinham pequenas falhas, tremores discretos, como se o corpo tivesse começado a interferir na caligrafia. Mesmo assim, era inconfundível.

Caíque passou o dedo sobre o nome.

Pensou em Carlos Eduardo, o nome do pai, da escola, do documento, da fuga. Pensou em Caíque, o nome escolhido na loja do Rio, dito pela primeira vez como mentira necessária e verdade futura. Pensou em quantas pessoas o haviam chamado assim. Toninho, Carmem, Dario, Renato, Dona Zulmira, Lúcia Helena, Davi, Irene, alunos do Gama, amantes passageiros, colegas do BNDES.

Mas, na letra de Marco, o nome parecia chegar mais fundo.

No segundo dia, levou a caixa para o quarto e depois trouxe de volta para a sala. Achou o gesto ridículo. Era como se negociasse distância com um objeto. Mas objetos de luto não obedecem à lógica comum. Um envelope podia pesar mais que um móvel. Uma fotografia podia ocupar mais espaço que uma estante.

No terceiro dia, Lúcia Helena apareceu sem avisar.

Entrou com a naturalidade de quem tinha conquistado esse direito em décadas de amizade e guerras pequenas.

— Você deixou aberta — disse, olhando a caixa.

— Percebi.

— Isso é avanço.

— Ou desorganização.

— Em você, desorganização também é avanço.

Caíque estava na cozinha preparando café. Lúcia tirou os sapatos, sentou-se no sofá e observou a caixa com respeito.

— Leu?

— Não.

— Vai ler?

— Você veio fiscalizar?

— Vim tomar café e fiscalizar.

— Ao menos é honesta.

Ela pegou uma fotografia de Marco e Caíque em Pirenópolis. Ficou olhando por alguns segundos.

— Ele era bonito mesmo.

— Era.

— Mas ficava melhor olhando para você.

Caíque serviu o café.

— Crueldade matinal.

— Verdade matinal.

Sentaram-se.

Lúcia segurou a xícara com as duas mãos. Também estava velha, embora jamais admitisse sem transformar o assunto em ataque político. O cabelo, agora quase todo branco, continuava grande. Os olhos mantinham a inteligência insolente de sempre. Havia mais manchas na pele, menos pressa nos gestos, mas a mesma capacidade de entrar na ferida sem sapato.

— Sabe o que me assusta? — ela perguntou.

— Em geral, homens com microfone.

— Também. Mas agora falo de você.

— Piorou.

— Me assusta você ter guardado essa carta como se ela fosse uma bomba. Talvez seja só uma carta de amor.

Caíque olhou para o envelope.

— Cartas de amor são bombas com caligrafia.

— Justo.

— E eu li pedaços. Não é só amor.

— Claro que não. Marco não era superficial o suficiente para escrever só amor.

Caíque sorriu.

Lúcia continuou:

— Mas talvez você esteja com medo de outra coisa.

— De quê?

— De descobrir que ele te conhecia melhor do que você permitia.

A resposta veio tão certeira que Caíque não conseguiu ironizar.

Lúcia percebeu e, generosamente, tomou café em silêncio.

Depois disse:

— Você vai ler quando parar de achar que ler é matar de novo.

— E não é?

— Não. É deixar ele falar sem você interromper.

A frase atravessou a sala.

Caíque se levantou e foi até a janela.

A planta de Marco, grande e torta, tocava o vidro com algumas folhas. Sobrevivera a seca, descuido, mudanças de vaso, pragas, uma queda, duas quase mortes e a incompetência botânica de Caíque. Parecia feia para olhos comuns. Para ele, era perfeita.

— Ele disse que eu o interrompia com amor — Caíque falou.

— Ele estava certo.

— Vocês estão todos insuportavelmente corretos depois de mortos ou quase.

— Eu ainda estou viva.

— Por enquanto. Mas já pratica.

Lúcia riu.

— Leitura hoje?

Caíque respirou.

— Não sei.

— Então vou embora.

Ele se virou.

— Já?

— Sim. Se eu ficar, você vai usar minha presença como teatro. Vai fazer comentários, levantar para pegar água, perguntar minha opinião, transformar a carta em evento social. Essa leitura não é coletiva.

— Você não quer estar aqui?

— Quero. Por isso vou.

Caíque a observou pegar a bolsa.

Na porta, Lúcia virou.

— Mas me liga depois.

— E se eu não ler?

— Liga também. Eu gosto de acompanhar fracassos elegantes.

— Vá embora.

— Estou indo.

Ela saiu.

A casa ficou quieta.

Caíque trancou a porta, voltou à sala e sentou-se diante da caixa.

Não leu naquele momento.

Levantou, lavou as xícaras, enxugou a pia, regou a planta, corrigiu exercícios de alunos, respondeu mensagens, reclamou mentalmente de um erro de concordância em uma redação, abriu e fechou a geladeira sem motivo. Fez tudo que uma pessoa faz quando está prestes a atravessar uma fronteira íntima e procura adiar a imigração.

Ao cair da noite, tomou banho.

Vestiu uma camisa limpa.

Passou perfume.

Riu de si mesmo.

— Para ler carta de morto agora precisa produção?

A resposta veio por dentro, com voz de Carmem:

“Respeito, meu filho. Tragédia também merece figurino.”

Então colocou a gravata azul de Carmem sobre a mesa. Não a vestiu. Apenas deixou ali, como testemunha.

Pegou a carta.

O envelope rangeu levemente ao abrir.

As folhas estavam amareladas. Três páginas. A letra começava firme e terminava mais irregular. Caíque ajeitou os óculos.

Leu.

“Meu amor,

Se você chegou até aqui, é porque eu fui embora antes de conseguir te convencer pessoalmente de algumas coisas. Perdoe a covardia da carta. Ou não perdoe. Você sempre teve opiniões fortes sobre estilo, e eu imagino que morrer não me isente de crítica literária.”

Caíque riu.

A risada veio molhada, mas veio.

Continuou.

“Eu queria começar dizendo que não quero ser lembrado apenas pela doença. Tenho medo disso. Tenho medo de que, depois que eu partir, tudo o que fui seja reorganizado ao redor dos meus últimos meses: a febre, o hospital, o cansaço, o peso perdido, as visitas difíceis, o seu rosto tentando ser forte quando estava desmoronando.

Eu fui mais do que isso.

Fui também o homem que segurava copos com as duas mãos porque não sabia o que fazer com elas perto de você. Fui o homem que dançava mal e que você acusava de crime rítmico. Fui o homem que comprou uma planta para a sua sala porque queria deixar alguma coisa viva ali antes de ter coragem de dizer que queria deixar a mim mesmo. Fui o homem que teve medo demais e, ainda assim, ficou. Não sempre bem. Não sempre bonito. Mas fiquei.”

Caíque parou.

A sala oscilou.

A planta estava ao lado da janela, viva como uma resposta antiga.

Ele respirou e voltou ao papel.

“Você me ensinou que coragem não é uma coisa limpa. Antes de você, eu achava que coragem era uma espécie de gesto nobre, uma frase dita na hora certa, uma decisão luminosa. Depois vi que, em você, coragem muitas vezes vinha misturada com raiva, deboche, vaidade, fome, trauma, perfume e uma necessidade quase infantil de não deixar o mundo vencer a discussão.

Eu amei isso.

Também sofri com isso.

Você tentava salvar tudo como quem organiza uma revolução em planilha. Quando eu adoeci, às vezes quis te expulsar do quarto só para não ver você brigando com a morte como se ela fosse um funcionário incompetente. Mas entendi: sua maneira de amar era tentar impedir que alguma coisa me arrancasse de você como um dia tentaram arrancar você de si mesmo.

Eu nunca te disse isso direito, mas digo agora: ainda bem que você fugiu.

Ainda bem que aquele menino saiu de casa.

Ainda bem que o cachorro não latiu.

Ainda bem que o mar te encontrou.

Ainda bem que você inventou Caíque.

Sem esse ato de desobediência, eu não teria tido casa.”

Caíque tirou os óculos.

As letras se misturavam.

A palavra “casa” parecia ter atravessado décadas para sentar-se diante dele.

Levantou-se, caminhou até a cozinha, bebeu água, voltou. A carta ficou aberta sobre a mesa. Não fugiria. Ele também não.

Sentou-se de novo.

“Quero te pedir uma coisa difícil. Talvez injusta.

Não vire túmulo.

Eu sei que você vai tentar. Não por falta de vida, mas por excesso de amor. Você vai achar que sofrer direito é uma forma de fidelidade. Vai achar que rir cedo demais me ofende. Vai achar que desejar outro corpo me apaga. Vai achar que contar nossa história me expõe. Vai achar que guardar tudo fechado me protege.

Não protege.

O silêncio foi a primeira violência que fizeram contra nós. Antes da doença, antes do hospital, antes do seu pai, antes do meu medo, antes dos olhares, já havia o silêncio. O silêncio que ensinava meninos a se odiarem antes de se conhecerem. O silêncio que chamava amantes de amigos. O silêncio que deixava famílias limparem biografias. O silêncio que transformava desejo em culpa e culpa em destino.

Se um dia você conseguir, conte.

Não para me transformar em santo. Eu não fui. Não para fazer de nós exemplo. Detestaria. Não para se vingar, embora eu admita que a vingança, em alguns casos, tem elegância. Conte para que alguém saiba que existimos inteiros.

Conte a Galeria Alaska.

Conte Brasília.

Conte as festas ridículas, as fofocas maravilhosas, os homens oficiais e seus quartos clandestinos, as mulheres que nos salvaram mais do que muito herói de estátua. Conte Carmem. Conte Lúcia. Conte Davi e Irene. Conte os que morreram sem nome público. Conte os que tiveram medo. Conte os que foram covardes também, porque a verdade não precisa ser higienizada para ser digna.

E, se for contar de mim, não faça parecer só tristeza.

Eu fui triste, sim. Você sempre notou. Mas também fui irônico, vaidoso às vezes, ciumento quando fingia maturidade, ruim de dança, bom de escuta, apaixonado por você de um jeito que me assustava. Fui corpo. Fui desejo. Fui falha. Fui riso. Fui seu.”

Caíque levou a mão à boca.

“Fui seu.”

Não havia documento que dissesse aquilo.

Não havia cartório, hospital, família, colega, cemitério ou Estado que pudesse desfazer aquela frase.

Continuou.

“Você me perguntou uma vez, sem dizer com essas palavras, se eu tinha vergonha de te esconder. Tive medo de responder porque a resposta era complicada.

Não tive vergonha de você.

Tive vergonha de mim em alguns dias. Vergonha do meu medo, da minha cautela, da minha necessidade de sobreviver diminuindo gestos. Você merecia mais espaço. Eu também. Nós dois merecíamos ruas, jantares, fotografias, domingos sem disfarce, velhice compartilhada, brigas sobre cortina, comentários maldosos sobre vizinhos e uma vida banal em público.

A banalidade é um luxo negado a quem precisa ser clandestino.

Perdoe o que meu medo te tirou.

Mas não esqueça o que, mesmo com medo, conseguimos construir.

Tivemos casa.

Tivemos domingo.

Tivemos planta.

Tivemos Pirenópolis.

Tivemos frases que ninguém mais entenderia.

Tivemos o joelho encostado embaixo da mesa como se fosse uma revolução.

Tivemos amor onde disseram que só poderia haver desvio.

Isso não é pouco.”

Caíque parou outra vez.

Lá fora, Brasília estava silenciosa. O mesmo silêncio largo, seco, monumental. Mas agora ele já não parecia vazio. Parecia escuta.

Pegou a última página.

“A última coisa talvez seja a mais difícil.

Continue desejando.

Eu sei que parece cruel pedir isso agora. Mas peço porque te conheço. Você vai tentar transformar meu lugar em área interditada. Não faça isso. O amor não é um imóvel que fica desocupado para provar propriedade. Eu não quero ser o fantasma que te impede de tocar o mundo.

Beije.

Transe.

Ria.

Estude outra língua, se precisar fugir de mim com gramática. Reclame do café. Use perfume. Faça comentários indecentes em idade imprópria. Principalmente em idade imprópria. Envelheça ofendendo as expectativas.

E ensine, Caíque.

Você talvez ainda não saiba, mas você ensina até quando tenta apenas sobreviver. Ensine alguém a dizer ‘eu sou’ sem pedir desculpa. Ensine algum menino assustado que ele não nasceu errado. Ensine alguma menina pobre que idioma não é enfeite de rico. Ensine qualquer pessoa a não confundir silêncio com destino.

Você diz que é melhor com escândalo do que com memória.

Então faça da memória um escândalo.

Eu te amo.

Não no passado. Não sei se amor obedece tempo verbal.

Marco.”

Caíque terminou a leitura em silêncio.

Não chorou imediatamente.

Ficou sentado, com as três páginas abertas sobre a mesa, como se a casa inteira tivesse mudado de posição sem mover um móvel. A carta não trouxe Marco de volta. Não fechou feridas. Não explicou a morte. Não corrigiu o hospital, a família, a palavra amigo, o velório, a madrugada, a ausência.

Mas devolveu algo.

Não Marco.

Algo de Caíque.

Uma parte dele que havia ficado ajoelhada no quarto, segurando a camisa azul, recusando-se a levantar completamente.

Aos poucos, o choro veio. Não como no dia da camisa. Não como desabamento. Veio como água depois de seca longa. Caíque chorou sentado, sem esconder o rosto, deixando que as lágrimas caíssem sobre a própria camisa limpa.

Quando acabou, sentiu-se exausto.

E leve de um modo que quase parecia traição.

Dobrou a carta com cuidado. Não a colocou de volta no envelope imediatamente. Deixou-a aberta sobre a mesa, ao lado da gravata de Carmem.

— Pronto — disse.

A quem, não sabia.

Talvez a Marco.

Talvez a si.

Talvez a todos os mortos que esperavam que alguém, em algum momento, dissesse seus nomes sem pedir licença.

Pegou o telefone.

Ligou para Lúcia Helena.

Ela atendeu no segundo toque.

— Leu?

— Li.

Do outro lado, silêncio.

Depois:

— Inteira?

— Inteira.

Lúcia respirou fundo.

— E?

Caíque olhou para a carta.

— Ele ainda é insuportavelmente melhor do que eu esperava.

Lúcia riu e chorou ao mesmo tempo.

— Claro que é. Você tinha bom gosto.

— Tinha?

— Tem.

Ele fechou os olhos.

— Lúcia.

— Sim?

— Eu acho que preciso contar.

— Eu sei.

— Não sei como.

— Comece como você sempre começa.

— Reclamando?

— Com comida.

No dia seguinte, Caíque convidou o jovem casal para voltar.

Fez almoço demais.

Era sua maneira de abrir arquivos sem chamar de cerimônia. Preparou arroz, carne, legumes, massa, salada, farofa e uma sobremesa que quase queimou porque, no meio do preparo, parou para reler um trecho da carta. Arrumou a mesa. Escolheu vinho. Passou perfume. Vestiu uma camisa clara e, depois de hesitar, colocou a gravata azul de Carmem.

Não apertada.

Apenas solta, como lembrança e desafio.

Quando os dois chegaram, perceberam algo diferente.

— O senhor está elegante — disse um deles.

Caíque apontou o dedo.

— Primeiro: “senhor” só em contexto de ameaça jurídica. Segundo: eu sempre estou elegante. Hoje apenas há documentação complementar.

Eles riram.

A casa, porém, tinha outro ar. A caixa estava sobre a mesa lateral, aberta. A carta, dentro do envelope, mas visível. As fotografias organizadas. A camisa azul dobrada. Ao lado, os cadernos dos alunos do Gama.

Passado e presente dividindo superfície.

Durante o almoço, Caíque contou.

Não tudo. Ninguém conta tudo. Mas contou direito.

Contou de Carlos, o menino que ouviu a palavra lobotomia atrás da porta. Contou do cachorro que não latiu. Do caminhoneiro que deu pão com mortadela. Do mar visto pela primeira vez. De Nélson, do fusca azul. De Dona Zulmira. De Dario. De Renato, que lhe deu o endereço da Galeria Alaska. De Toninho e Carmem. Da Galeria como escola do corpo, do medo e da liberdade.

Contou do BNDES. Da primeira vez que usou a gravata azul. De Brasília parecendo maquete sem alma. De Lúcia Helena, Irene, Davi. Das festas em apartamentos. Dos homens públicos e suas vidas subterrâneas. Do Deputado da Família chorando no colo de rapaz bonito. Do Juiz de Sodoma rimando pecado com dourado. Do Coronel das Orquídeas e seus jardineiros.

Os jovens riam, arregalavam os olhos, perguntavam, interrompiam, voltavam.

Caíque se divertia.

— Vocês acham que Brasília era só ministério e seca? Brasília sempre teve muito mais cama do que discurso.

Mas, quando chegou a Marco, sua voz mudou.

Não que ficasse triste apenas. Ficou mais precisa.

Contou a primeira noite na casa de Davi. Marco perto da janela. O copo nas duas mãos. A camisa azul. A pergunta sobre adaptar-se a si mesmo. O primeiro toque no pulso. A chuva. O beijo. A planta. Pirenópolis. Os domingos. A frase “lugares sem ata”. A doença chegando como sombra. O hospital. A carta.

Não contou para provocar pena.

Contou como quem devolve um homem ao mundo.

— Ele não era só o amor que eu perdi — disse. — Era uma pessoa inteira. Essa é a parte que a morte tenta roubar primeiro. A inteireza.

Um dos jovens estava com os olhos molhados.

O outro perguntou:

— E ler a carta ajudou?

Caíque pensou.

— Ajudou a parar de protegê-lo do que ele queria.

— Que era ser lembrado?

— Que era não ser reduzido.

Ficaram em silêncio.

Um silêncio bom.

Caíque levantou-se, pegou a carta e colocou sobre a mesa. Não entregou a eles. Não ainda. Apenas permitiu que vissem o envelope com seu nome.

— Tem histórias que a gente guarda porque acha que guardar é amar. Às vezes é. Às vezes é medo usando roupa de cuidado.

— E agora? — perguntou o namorado do parente.

Caíque olhou para a caixa.

— Agora acho que escrevemos.

— Escrevemos?

— Eu conto. Vocês me ajudam a não mentir por elegância.

— O senhor quer transformar em livro?

— Quero transformar em escândalo bem escrito.

Os dois riram.

Caíque sorriu.

— Marco pediu.

Depois do almoço, foram até a sala. Caíque mostrou fotografias. Não todas. Algumas ainda pertenciam apenas a ele. Mas mostrou o suficiente. O Rio. A Galeria. Carmem, magnífica. Toninho, rindo. Uma foto borrada de Renato. Um cartão de Lúcia. A planta em sua primeira versão, pequena e pretensiosa. Marco em Pirenópolis, olhando para Caíque.

— Ele olha para você como se estivesse apaixonado — disse um dos jovens.

Caíque pegou a foto.

— Ele estava.

— E você?

— Eu estava rindo porque achava que ainda tinha controle.

— Tinha?

— Meu filho, ninguém apaixonado tem controle. Tem apenas interpretação otimista do desastre.

Riram.

Quando os jovens foram embora, levaram marmitas e uma missão.

— Voltem com tempo — Caíque disse. — História boa não gosta de relógio.

— A gente volta.

— E tragam perguntas melhores. Juventude de hoje acha que curiosidade é olhar rede social.

— Pode deixar.

Na porta, um deles se virou.

— Caíque?

Ele gostou de ouvir o nome sem “senhor”.

— Sim?

— Obrigado por contar.

Caíque demorou a responder.

— Obrigado por escutar.

Depois que saíram, a casa ficou silenciosa novamente.

Mas era outro silêncio.

Não o silêncio da caixa fechada. Nem o silêncio do hospital. Nem o silêncio do apartamento depois do enterro. Era um silêncio arejado, com janelas internas abertas.

Na manhã seguinte, Caíque foi dar aula no Gama.

Acordou cedo, reclamou da própria coluna, escolheu uma camisa leve, colocou livros e folhas na sacola. Levou também a carta. Não para mostrar. Para carregar. Às vezes, certos objetos precisam sair de casa para deixarem de ser relíquias e voltarem a ser parte da vida.

O centro comunitário estava cheio.

A turma daquele dia misturava adolescentes, jovens adultos e duas senhoras persistentes que brigavam com a pronúncia inglesa como se enfrentassem inimigo histórico. Rafael, seu primeiro aluno, agora adulto, aparecera para visitar e ajudar com os mais novos. Trabalhava em uma empresa de turismo, falava inglês com sotaque próprio e orgulho legítimo.

— Professor, trouxe material impresso.

— Milagre. Um ex-aluno útil.

— O senhor nunca elogia sem bater.

— Pedagogia completa.

A aula começou.

No quadro, Caíque escreveu:

Survival.

— Quem sabe?

Uma aluna levantou a mão.

— Sobrevivência.

— Muito bem.

Escreveu abaixo:

Memory.

— Memória — disse outro.

— Ótimo.

Depois escreveu:

Desire.

Alguns riram.

— Desejo — disse uma senhora, sem hesitar.

Caíque apontou para ela.

— Excelente. A única pessoa adulta da sala.

A turma riu.

Caíque ficou olhando para as três palavras.

Survival.

Memory.

Desire.

Sobrevivência, memória, desejo.

A vida inteira estava ali, em vocabulário de aula.

— Hoje a aula é sobre palavras que parecem abstratas, mas não são — disse. — Sobrevivência não é conceito. É gente pegando ônibus, trabalhando doente, estudando com sono, fugindo de casa, cuidando de alguém, insistindo quando o mundo recomenda desistência.

Os alunos ficaram quietos.

— Memória também não é coisa velha empoeirada. Memória é ferramenta. Quem não sabe de onde veio aceita qualquer mentira sobre o próprio lugar no mundo.

Apontou para a terceira palavra.

— E desejo não é só romance, nem só sexo, embora vocês saibam que eu sou a favor de não empobrecer o tema.

A turma riu de novo.

— Desejo é aquilo que ainda aponta para a vida. Desejo de aprender, sair, ficar, amar, comer melhor, falar outra língua, beijar quem se quer, ganhar dinheiro, escrever, viajar, descansar, escolher. Quem perde todo desejo vira administrado pelos outros.

Pegou o apagador.

Por um instante, pensou em Marco.

“Continue desejando.”

Apagou as três palavras.

No lugar, escreveu:

I am.

— Repitam.

— I am.

— Mais firme.

— I am.

— De novo. Sem pedir desculpa.

— I am.

Caíque olhou para a turma.

Viu Rafael, agora homem feito. Viu a menina que queria ser comissária. Viu o rapaz que trabalhava em depósito. Viu a senhora que aprendera inglês para entender músicas do marido morto. Viu jovens pobres dizendo “eu sou” em outra língua, talvez sem compreender ainda toda a desobediência contida naquela frase.

Sentiu uma emoção subir.

Não deixou que virasse sentimentalismo fácil.

— Agora escrevam cinco frases começando com “I am”. E, pelo amor de Deus, não me venham todos com “I am happy”. Felicidade demais em exercício me parece falsificação ideológica.

A turma reclamou, riu, começou a escrever.

Enquanto circulava entre as carteiras, Caíque percebeu que Marco estava ali.

Não como fantasma. Não como peso. Não como túmulo.

Estava ali na escolha de ensinar. Na palavra desejo. No verbo ser. Na carta dentro da sacola. Na memória que finalmente saíra do armário de madeira para respirar no mundo.

No fim da aula, Rafael ficou para ajudar a arrumar as cadeiras.

— O senhor está diferente hoje.

— Já conversamos sobre “senhor”.

— Desculpa. Você está diferente hoje.

— Melhor.

— Está?

Caíque pensou.

— Estou menos fechado.

Rafael assentiu, mesmo sem entender tudo.

— A aula foi bonita.

— Cuidado com elogios. Posso me acostumar.

— Você merece.

Caíque fingiu procurar algo na sacola para disfarçar a emoção.

Rafael sorriu.

— Vou indo.

— Vá. E não esqueça o material da próxima turma.

— Sim, professor.

Quando ficou sozinho, Caíque apagou o quadro devagar.

O pó de giz grudou nos dedos.

Lembrou-se do jovem Marco perguntando se ele conseguiria cuidar dele sem beleza. Lembrou-se do Marco doente pedindo para não virar só tristeza. Lembrou-se do Marco da carta, mais vivo nas palavras do que muitos vivos que Caíque conhecera.

Do lado de fora, o Gama seguia sua manhã: ônibus, comércio, vozes, calor, gente indo e vindo, vida sem monumento.

Caíque gostava disso.

Brasília oficial sempre tentara ser eterna. O Gama apenas vivia. E, por isso, talvez fosse mais verdadeiro.

Naquela tarde, voltou para casa cansado, mas não vazio.

Preparou café, sentou-se à mesa e abriu um caderno novo. Na primeira página, escreveu:

Caíque, 7.8

Abaixo:

“Uma história de memória, desejo e sobrevivência.”

Ficou olhando para o título.

Riu.

— Pretensioso.

Depois pensou em Carmem.

“Pretensão é só ambição com roupa boa.”

Continuou.

Escreveu a primeira frase:

“Eu conheci Caíque num domingo em que Brasília parecia ter sido lavada com água sanitária.”

Parou.

Sorriu.

A história começaria não com ele narrando a si mesmo, mas com alguém o encontrando. Gostou disso. Algumas vidas precisam ser vistas de fora para que os próprios donos entendam o tamanho da cena.

Escreveu mais algumas linhas.

A escrita veio hesitante no começo. Depois ganhou ritmo. A casa, a porta azul, o almoço, a frase sobre velhice, a caixa de Marco. Escreveu como quem abre janelas em sequência. Não sabia se seria livro, depoimento, romance, confissão, escândalo ou tudo junto. Não importava ainda.

O importante era que a memória tinha começado a se mover.

À noite, recebeu mensagem de um antigo conhecido de Brasília. Um desses homens que atravessavam décadas reaparecendo com charme tardio e intenções pouco espirituais.

“Você sumiu. Ainda está bonito?”

Caíque leu e gargalhou sozinho.

Respondeu:

“Bonito, perigoso e com agenda.”

O homem respondeu rápido:

“Agenda cheia?”

Caíque olhou para a carta de Marco sobre a mesa, para o caderno novo, para os exercícios dos alunos, para a planta, para a casa inteira. Pensou na idade. Setenta e oito. Pensou no corpo, que doía em pontos novos, mas ainda respondia ao mundo. Pensou em desejo não como obrigação de juventude, mas como direito de permanência.

Respondeu:

“Cheia, mas negociável para propostas indecentes com boa gramática.”

Riu de novo.

Não sabia se encontraria o homem. Talvez sim. Talvez não. O importante era a possibilidade. A vida não precisava se concretizar toda para ser vida. Às vezes, bastava a porta destrancada.

Mais tarde, antes de dormir, pegou a carta de Marco e leu a última linha outra vez.

“Não sei se amor obedece tempo verbal.”

Caíque ficou pensando nisso.

O português obrigava escolhas: amei, amo, amarei. O corpo, não. A memória, menos ainda. Marco estava no passado como acontecimento, no presente como formação, no futuro como legado. Talvez amor verdadeiro fosse exatamente isso: uma desobediência aos tempos verbais.

Guardou a carta de volta no envelope.

Mas não na caixa.

Colocou-a dentro do caderno novo.

A caixa permaneceria aberta por mais alguns dias, depois voltaria ao armário. Não como prisão. Como arquivo. Arquivos também descansam. A diferença é que agora ele sabia que podia abri-la.

Na semana seguinte, o jovem casal voltou.

Trouxeram perguntas, gravador, caderno, cuidado. Caíque preparou café e bolo. Sentaram-se à mesa. A história começou a ganhar forma.

— Podemos gravar? — perguntou um deles.

— Pode. Mas se eu disser algo juridicamente complicado, finjam que foi recurso literário.

— Combinado.

— E nada de me santificar. Santo não usava o perfume que eu uso.

— A ideia é contar como você é.

— Péssima ideia. Eu sou material inflamável.

— Melhor ainda.

Caíque gostou deles.

Falou por horas.

Às vezes ria. Às vezes se emocionava. Às vezes pedia pausa. Às vezes corrigia a própria memória.

— Não, isso foi antes. Ou depois? Meu Deus, envelhecer é virar arquivo sem índice.

— Tudo bem.

— Não está tudo bem. Precisão importa. Fofoca histórica exige método.

Contou versões. Questionou lembranças. Admitiu exageros. Defendeu alguns.

— Eu digo que transava todos os dias na Galeria Alaska. Era literalmente todo dia? Talvez não. Mas espiritualmente, sim.

Os jovens riram.

— Coloquem isso — disse.

— Sério?

— Claro. A verdade às vezes precisa de hipérbole para alcançar o tamanho emocional correto.

Aos poucos, o projeto deixou de ser apenas relato e virou uma espécie de pacto. Caíque não queria escrever sozinho, nem entregar a vida a mãos alheias. Queria uma conversa entre gerações. Ele trazia memória; eles traziam escuta, linguagem nova, urgência. Às vezes discordavam.

— Essa parte está pesada demais — disse um deles.

— A vida foi pesada demais.

— Sim, mas Marco pediu para não parecer só tristeza.

Caíque ficou quieto.

Depois assentiu.

— Boa lembrança.

Em outra passagem, Caíque queria retirar uma fofoca por achar “delicada”.

— A pessoa ainda está viva? — perguntaram.

— Não.

— Pode prejudicar alguém?

— Talvez a reputação póstuma.

— Era moralista em público?

— Muito.

— Então entra.

Caíque abriu um sorriso lento.

— Vocês aprendem rápido.

O título permaneceu.

Caíque, 7.8.

No começo, ele achava vaidoso. Depois, aceitou. Não era apenas idade. Era versão. Atualização. Sobrevivente de sistemas antigos, ainda funcionando contra a expectativa dos fabricantes.

A história não terminaria com morte.

Essa era sua exigência.

— Não quero terminar no cemitério — disse.

— Nem na carta?

— Também não. A carta é clímax, não caixão.

— Então termina onde?

Caíque pensou.

— Na aula.

— No Gama?

— Sim.

— Por quê?

— Porque foi ali que entendi que sobreviver não bastava. A gente precisa devolver alguma coisa sem virar mártir.

Um dos jovens anotou.

— E a última frase?

Caíque sorriu.

— Já tenho.

No sábado seguinte, convidou-os para assistir a uma aula.

— Mas sem transformar meus alunos em cenário de superação barata — avisou.

— Claro.

— E sem filmar ninguém sem autorização.

— Claro.

— E sem dizer “projeto social” com voz emocionada. Tenho horror.

— Entendido.

A aula foi simples.

Verbo to be, revisão de apresentações, simulação de entrevista. Caíque circulava pela sala como maestro impaciente. Corrigia pronúncia, postura, autoestima e, ocasionalmente, a vida afetiva de algum aluno.

— “I am looking for an opportunity” não é súplica, é declaração. Costas retas.

— Professor, assim?

— Melhor. Agora parece desempregado com dignidade, que é o correto.

Todos riam.

No fim, uma aluna chamada Jéssica fez uma apresentação curta em inglês. Tinha vergonha, mas foi até o fim. Quando terminou, a turma bateu palmas.

Caíque apenas disse:

— De novo, agora acreditando em si mesma.

Ela recomeçou.

Na segunda vez, a voz saiu mais firme.

Os jovens observaram tudo.

Depois, do lado de fora, um deles disse:

— Agora entendi.

— O quê?

— Por que termina aqui.

Caíque olhou para a sala.

— Aqui não é fim. Esse é o ponto.

A vida, afinal, não se organizara como romance perfeito. Muitos morreram cedo. Muitos nunca foram reconhecidos. Muitas dores ficaram sem reparo. Famílias não pediram desculpas. O Estado chegou tarde. A medicina chegou tarde. O amor chegou onde pôde e perdeu onde não conseguiu. Caíque envelheceu carregando ausências que nenhuma conquista apagou.

Mas também havia aquilo.

Uma sala no Gama.

Jovens dizendo “I am”.

Uma carta finalmente lida.

Uma história sendo escrita.

Um homem de 78 anos ainda perfumado, desejante, inconveniente e vivo.

Na última cena que imaginou para o livro, Caíque estava diante do quadro.

Escreveria primeiro:

Survival.

Depois apagaria.

Escreveria:

Desire.

Viraria para a turma e diria:

— Sobrevivência é importante. Mas viver mesmo começa quando a gente volta a desejar.

Gostou.

Era bonito, verdadeiro e ligeiramente teatral.

Carmem aprovaria.

Marco também, talvez com uma observação sobre o risco de frase final excessivamente redonda. Caíque responderia que certas frases merecem simetria. Eles discutiriam. Depois ririam. Depois Marco seguraria o copo com as duas mãos. Depois talvez a vida fosse outra.

Mas a vida era esta.

E, pela primeira vez em muito tempo, esta bastava.

Meses depois, quando o primeiro manuscrito ficou pronto, Caíque imprimiu uma cópia. Não era final. Havia trechos a cortar, nomes a proteger, cenas a melhorar, exageros a defender. Ainda assim, segurá-lo nas mãos produziu um tipo de vertigem.

A capa provisória trazia apenas o título.

Caíque, 7.8

Ele colocou o manuscrito sobre a mesa, ao lado da carta de Marco.

— Está vendo? — perguntou.

Naturalmente, ninguém respondeu.

Mas a casa pareceu menos silenciosa.

Na dedicatória, escreveu:

“Para Marco, que pediu escândalo em vez de segredo.

Para Carmem, que me ensinou que memória precisa de batom.

Para todos os que foram chamados de amigos quando eram amores.

E para quem ainda está aprendendo a dizer: eu sou.”

Leu em voz alta.

Não chorou.

Sorriu.

Naquela noite, encontrou o antigo conhecido de Brasília.

Não por romance. Não por carência. Por vida.

Jantaram. Riram. Falaram de dores antigas com algum deboche. O homem estava também envelhecido, menos bonito do que a própria memória prometia, mas interessante. Em determinado momento, perguntou:

— Você ainda acredita em amor?

Caíque tomou um gole de vinho.

— Acredito em várias formas de teimosia. Amor é uma das melhores quando não vira sequestro.

— E desejo?

Caíque sorriu.

— Desejo é prova de vida.

— Aos setenta e oito?

— Principalmente. Aos vinte, desejar é quase biologia. Aos setenta e oito, é patrimônio imaterial.

O homem riu.

Caíque também.

Mais tarde, ao voltar para casa, não se sentiu culpado. Isso era novo. Sentiu saudade de Marco, sim. Mas a saudade já não vinha como polícia. Vinha como companhia.

Abriu a porta azul.

Entrou.

A casa o recebeu com livros, plantas, papéis e memórias. Sobre a mesa, o manuscrito. Dentro dele, uma vida que se recusara a caber no silêncio.

Caíque tirou os sapatos, afrouxou a camisa, foi até a planta de Marco e tocou uma folha.

— Continuamos — disse.

Depois apagou as luzes da sala, deixando apenas um abajur aceso.

Antes de dormir, escreveu no caderno uma última anotação:

“Chegar aos 7.8 não é durar. É permanecer desejando depois que tentaram transformar você em medo, luto ou exemplo. É rir com os mortos sem pertencer a eles. É ensinar alguém a dizer ‘eu sou’ e acreditar um pouco mais na própria frase. É saber que a liberdade pode chegar tarde, ferida e cheia de ausências — mas, quando chega, ainda dança.”

Fechou o caderno.

Deitou-se.

Pela janela, Brasília continuava seca, monumental, absurda. A cidade que um dia lhe parecera sem esquinas agora estava cheia delas: a esquina da fuga, da Galeria, do BNDES, de Marco, da AIDS, dos idiomas, do Gama, da carta, do desejo reencontrado.

Caíque fechou os olhos.

Não pediu para sonhar com Marco.

Não precisava.

Marco estava onde as coisas importantes ficam quando deixam de ser prisão: misturado à vida.

Na manhã seguinte, haveria aula.

Haveria café.

Haveria exercícios para corrigir.

Haveria talvez uma mensagem indecente.

Haveria dor no joelho.

Haveria memória.

Haveria desejo.

Haveria, sobretudo, a obrigação deliciosa de continuar.

E Caíque, versão 7.8, continuou.

Com elegância, deboche, amor, histórias suficientes para incendiar uma cidade e nenhuma vergonha de ter sobrevivido.

Fim.

Nota do autor: Um beijo e até a próxima.

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