Os idiomas do luto

Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 6047 palavras
Data: 14/06/2026 00:43:33
Assuntos: Gay

Depois que Marco morreu, Caíque perdeu a língua por algum tempo.

Não a língua literal. Essa continuou afiada quando necessário. Respondia ao caixa do mercado, ao colega do banco, ao porteiro, ao médico, ao funcionário da funerária atrasado em entregar um documento. Ainda sabia usar ironia quando o mundo passava dos limites, o que acontecia quase todos os dias. Ainda conseguia dizer “bom dia”, “obrigado”, “não precisa”, “estou bem”, “foi uma doença difícil”, “sim, éramos muito amigos”.

Principalmente isso.

“Éramos muito amigos.”

A frase saía como moeda falsa.

Mas a língua verdadeira — aquela que nomeava o mundo por dentro — essa ficou inutilizada.

Caíque descobriu que havia dores que não cabiam no português que ele conhecia. O idioma materno estava cheio de armadilhas. “Viúvo” não era palavra permitida para ele. “Companheiro” soava político demais para certas salas e íntimo demais para certos documentos. “Amor” parecia uma indecência quando dito diante de quem insistia em traduzir Marco como amigo. “Luto” era reconhecido nos outros, nos casamentos com certidão, nas famílias com fotografia na parede, nos sobrenomes alinhados em anúncios de missa. O luto dele, não. O dele circulava sem crachá.

Então Caíque ficou sem língua.

No trabalho, voltou antes de estar pronto, porque estar pronto era uma fantasia que ninguém teve coragem de lhe vender. A mesa continuava no mesmo lugar. Os processos se acumulavam. As pastas tinham etiquetas. Os colegas falavam baixo demais perto dele, como se a morte fosse uma vidraça recém-instalada.

— Meus sentimentos — diziam.

— Obrigado.

— Qualquer coisa…

— Obrigado.

Qualquer coisa nunca era qualquer coisa. Era uma forma elegante de encerrar a própria obrigação.

Ferraz, o colega que nunca soubera exatamente como lidar com Caíque, aproximou-se em uma tarde e disse:

— Perder um amigo próximo assim deve ser muito duro.

Caíque segurava uma pasta. Olhou para ele. A frase vinha sem maldade visível, mas a vida já lhe ensinara que nem toda violência precisava de intenção para ferir.

— É — respondeu.

— A gente nunca está preparado.

— Não.

Ferraz ficou esperando talvez uma expansão, uma confissão, uma humanidade que coubesse no corredor do banco. Caíque não ofereceu. Passou por ele e entrou na sala.

Sentou-se.

Abriu um relatório.

Leu a mesma linha durante vinte minutos.

Não entendeu nada.

A morte de Marco havia mudado a gramática das coisas. A cadeira vazia não era só cadeira. A xícara era acusação. A janela era ameaça. A planta perto da luz era cobrança. O telefone tocando era susto. O silêncio da noite era uma forma de presença. A cama, antes lugar de descanso, tornou-se território enorme demais para um corpo só.

Durante semanas, Caíque dormiu no sofá.

Não por conforto. Por covardia.

O quarto ainda cheirava a Marco em alguns pontos. Ou talvez Caíque inventasse o cheiro para não admitir que ele desaparecia. A camisa azul ficou na caixa de madeira, dobrada junto com fotografias, bilhetes, programas de cinema, o cartão de Carmem e a carta.

A carta.

Caíque não a tocava.

Sabia onde estava. Isso bastava para que ela ocupasse a casa inteira.

A caixa ficava no armário, mas sua presença parecia física. Às vezes, enquanto preparava café, Caíque sentia a carta chamá-lo sem som. Em outras, ao passar pelo corredor, acelerava o passo como se pudesse escapar de um envelope. Havia objetos que não eram objetos. Eram portas. E ele ainda não tinha força para atravessar aquela.

Lúcia Helena vinha com frequência.

Não fazia perguntas inúteis. Não dizia “você precisa reagir”, frase que Caíque considerava uma das mais cruéis já inventadas por gente saudável. Entrava, tirava os sapatos, abria janelas, olhava a geladeira, reclamava da falta de comida, preparava algo ou deixava marmitas. Às vezes falava. Às vezes não.

Uma noite, encontrou Caíque sentado à mesa, sem luz acesa, olhando para nada.

— Você comeu?

— Essa pergunta virou sua religião?

— Minha religião é não deixar viúvo teimoso morrer de inanição.

A palavra caiu entre os dois.

Viúvo.

Caíque levantou os olhos.

Lúcia percebeu o que tinha dito. Não recuou.

— Sim — continuou. — Viúvo. Pode ficar ofendido se quiser. Mas alguém precisa usar a palavra certa nesta casa.

Caíque sentiu a garganta fechar.

— Cuidado. A língua portuguesa pode processar você.

— Que processe. Eu tenho testemunhas.

Ele tentou rir. O som que saiu parecia quebrado.

Lúcia foi até a cozinha. Voltou com dois pratos. Serviu comida sem pedir permissão.

— Você era marido dele no que importava.

Caíque olhou para o prato.

— No que não importava, não.

— Importava para quem?

— Para hospital. Para família. Para documento. Para enterro. Para todo lugar onde a vida vira formulário.

Lúcia sentou-se diante dele.

— E agora?

— Agora o formulário venceu.

— Não venceu. Está só mais organizado.

Ele quase sorriu.

— Péssima tentativa de consolo.

— Eu sei. Estou improvisando.

Comeram em silêncio.

Depois, Lúcia disse:

— Você vai precisar achar um jeito de falar disso.

— Eu falo.

— Não. Você informa. É diferente.

— Talvez eu não queira falar.

— Talvez não queira mesmo. Mas a dor que não encontra saída começa a decorar a casa.

Caíque olhou ao redor.

A dor já tinha decorado tudo.

No mês seguinte, começou a estudar francês.

Não foi uma decisão poética no início. Foi fuga. Um curso noturno em uma escola de idiomas onde ninguém conhecia Marco, ninguém perguntava sobre doença, ninguém o chamava de amigo próximo de um morto. Lá, ele era apenas um homem um pouco mais velho que a maioria dos alunos, bem vestido, pontual, com boa pronúncia e um caderno impecável.

A professora se chamava Élodie. Francesa de verdade ou personagem de si mesma, Caíque nunca soube. Usava lenços coloridos, corrigia vogais com severidade e acreditava que a língua francesa era uma forma superior de civilização. Caíque achava isso ridículo, mas gostava dela.

Na primeira aula, ela escreveu no quadro:

Je suis.

Eu sou.

Caíque ficou olhando para a frase.

Je suis.

Ele lembrava de suas aulas futuras sem saber que seriam futuras. Eu sou. Você é. Nós somos. O verbo mais simples e mais perigoso. Durante toda a vida, tinham tentado impedi-lo de conjugá-lo em voz alta.

Agora, em francês, a frase parecia menos ferida.

Je suis.

Era como se outro idioma oferecesse um disfarce para uma verdade antiga.

A aula seguiu. Apresentações básicas, sons nasais, pequenos diálogos artificiais.

— Je m’appelle Caíque — ele disse.

A professora corrigiu a entonação.

— Très bien.

Très bien.

Muito bem.

Ninguém o elogiava assim desde antes da morte.

Caíque voltou para casa naquela noite com uma sensação estranha. Não era alegria. Seria ofensivo chamar de alegria. Era um pequeno deslocamento. Por duas horas, seu pensamento precisara se ocupar de verbos, sons, artigos, estruturas. A dor não desaparecera, mas perdera o monopólio.

Na semana seguinte, voltou.

Depois na outra.

O francês tornou-se ritual.

De dia, o banco. À noite, o curso. Em casa, exercícios. Repetia frases absurdas:

“Le livre est sur la table.”

“Où est la gare?”

“Je voudrais un café.”

Frases pequenas, quase infantis, que lhe davam algum alívio justamente por não saberem nada de Marco. O livro estava sobre a mesa. Onde fica a estação? Eu gostaria de um café. O mundo, em francês, parecia reduzido a tarefas possíveis. Encontrar objetos. Pedir bebidas. Informar nomes. Perguntar direções.

Caíque precisava de direções.

Com o tempo, porém, o francês deixou de ser apenas fuga e começou a virar abrigo. Descobriu poemas, canções, filmes, autores. Lia devagar, com dicionário. Gostava das palavras que pareciam conter uma elegância triste. Deuil, luto. Mémoire, memória. Désir, desejo. Survivre, sobreviver.

Sobreviver.

A palavra em francês parecia menos dura e mais sinuosa, mas não menos pesada.

Em uma noite de estudo, escreveu no caderno:

“Je survis.”

Eu sobrevivo.

Depois riscou.

Escreveu:

“Je vis.”

Eu vivo.

Ficou olhando.

A diferença entre as duas frases era pequena no papel e imensa no corpo.

Ainda não sabia qual era verdadeira.

Enquanto estudava francês, a cidade secreta continuava perdendo gente.

Os anos pós-Marco não deram a Caíque o privilégio de um luto único. Mal enterrava uma dor e outra notícia chegava. Um conhecido do Rio. Um amigo de Davi. Um rapaz do Gama que conhecera em uma festa. Um ex-amante da Galeria Alaska, agora internado em São Paulo. Toninho escrevia cartas cada vez mais curtas. Carmem, quando escrevia, tentava manter o deboche, mas as margens da letra denunciavam cansaço.

“Meu filho,

A Alaska já não é a mesma, ou talvez eu é que não seja. Tem noite em que olho em volta e conto mais fantasmas do que gente. Toninho anda dizendo que vai viver para sempre só para irritar a medicina. Eu disse que ele pelo menos morrerá dramaticamente, para combinar com a personalidade.

Não suma de si.

C.”

Não suma de si.

Caíque dobrou a carta e guardou com as outras.

Tentava não sumir.

Mas às vezes sumia.

Sumia em trabalho excessivo. Sumia em cursos. Sumia em tarefas. Sumia em uma espécie de competência sem alegria. No BNDES, avançou. Tornou-se respeitado, consultado, ouvido. Sua inteligência, antes arma de sobrevivência, virou ferramenta institucional. Sabia ler cenários, números, intenções. Sabia escrever relatórios claros. Sabia fazer perguntas que deixavam reuniões desconfortáveis sem parecer insolente demais.

A carreira, que para muitos era realização, para ele virou também estrutura de contenção.

Trabalhar impedia a queda completa.

Mas não bastava.

Aos poucos, a raiva voltou.

Não a raiva histérica dos primeiros dias. Uma raiva mais funda, sedimentada. Raiva das famílias que reapareciam para controlar corpos que não tinham amado direito. Raiva dos hospitais que diziam “amigo” com desprezo administrativo. Raiva dos jornais que transformavam doença em sentença moral. Raiva de colegas que faziam piadas baixas no café. Raiva de homens públicos que escondiam amantes e condenavam “desvios”. Raiva de Deus, quando alguém o citava com segurança demais.

Em uma reunião de trabalho, certo diretor comentou, antes do início formal, uma notícia sobre AIDS com nojo disfarçado de preocupação.

— Também, com certos estilos de vida…

A sala riu pouco, aquele riso covarde de quem testa o chefe antes de decidir se concorda.

Caíque olhou para ele.

— Estilos de vida adoecem ou vírus adoecem?

O diretor se surpreendeu.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então talvez valha a pena dizer melhor.

O silêncio foi imediato.

Um colega mudou de assunto.

Depois, no corredor, Ferraz se aproximou.

— Você precisa tomar cuidado com certas respostas.

Caíque ajeitou os papéis debaixo do braço.

— Eu tomei. Por isso respondi só aquilo.

— Ele é diretor.

— E eu sou alfabetizado.

Ferraz suspirou.

— Você gosta de comprar briga.

— Não. Eu gosto de devolver mercadoria estragada.

Seguiu andando.

Carmem teria aprovado.

Marco talvez tivesse ficado preocupado.

Caíque sentiu falta das duas reações.

O francês ocupou dois anos. Depois veio o italiano.

Se o francês era uma tentativa de organizar o luto com elegância, o italiano chegou como rebeldia contra o excesso de contenção. Caíque se apaixonou pelo som das palavras antes de dominá-las. O italiano permitia gesto, exagero, musicalidade. Parecia uma língua menos preocupada em esconder a emoção. Ele gostava disso.

A professora de italiano, Signora Teresa, era brasileira filha de italianos e falava como se toda frase precisasse atravessar uma cozinha cheia. Batia na mesa, ria alto, chamava os alunos de “ragazzi” mesmo quando tinham cinquenta anos.

— Italiano não se fala só com boca — dizia. — Se a mão não entende, a frase morre.

Caíque achou maravilhoso.

No francês, aprendera a sobreviver com postura.

No italiano, reaprendeu a mexer os braços.

As aulas eram barulhentas, cheias de diálogos, comida em datas comemorativas e músicas sentimentais. No começo, Caíque estranhou. Depois se deixou levar. Havia algo indecente e saudável naquela língua que não tinha vergonha de parecer emocionada.

Aprendeu:

“Mi manca.”

Sinto falta.

Não era exatamente “saudade”. Nenhuma língua substituía completamente essa palavra brasileira, esse país inteiro dentro de uma ausência. Mas “mi manca” tinha outro efeito. Significava algo como “me falta”. Marco não era apenas lembrança. Faltava. Como uma parte da mobília interna. Como ar em certos horários.

Mi manca.

Caíque escreveu no caderno:

“Marco mi manca.”

Ficou olhando.

Dessa vez não riscou.

O italiano o devolveu, pouco a pouco, ao corpo. Começou a sair mais. Não como antes. A juventude da Galeria Alaska não voltaria, e ele não queria fingir que voltaria. Mas voltou a aceitar convites. Jantares. Cinema. Pequenas reuniões. Algumas festas. Deixou que Lúcia Helena o arrastasse para aniversários. Deixou que Davi o apresentasse a pessoas novas. Deixou que Irene lhe contasse fofocas sem que todas terminassem em morte.

Um dia, riu alto.

Alto de verdade.

Assustou-se.

A risada saiu em uma noite no apartamento de Lúcia, quando Davi contou que o Poeta do Planalto havia sido desmascarado por dedicar o mesmo poema a dois amantes que, por azar dele, tornaram-se amigos.

— A metáfora da estrela ferida? — Caíque perguntou.

— A própria — disse Irene.

— Isso não é traição. É reciclagem literária.

Lúcia quase derrubou o copo.

Caíque riu.

No meio da gargalhada, sentiu culpa.

Era uma culpa antiga, rápida, irracional. Como se rir traísse Marco. Como se a fidelidade ao morto exigisse cara fechada. Como se a dor fosse um contrato de exclusividade.

Lúcia percebeu.

Mais tarde, na cozinha, disse:

— Ele gostaria.

Caíque fingiu não entender.

— Quem?

— Não me ofenda.

Ele lavava um copo.

— Não sei se gostaria.

— Gostaria de você rindo? Claro que sim.

— Você fala como se conhecesse os mortos.

— Conheço os vivos que eles amaram.

Caíque parou.

Lúcia pegou o copo da mão dele.

— Marco não te pediu para virar altar.

A frase doeu.

Porque era verdade.

A carta dizia isso. Mesmo sem ter sido lida inteira, Caíque sabia.

Não vire túmulo.

Promete tentando.

Ele tentava.

Rir fazia parte.

Mas tentar viver depois de Marco também implicava uma pergunta que Caíque considerava obscena: poderia desejar outra pessoa?

Durante muito tempo, a resposta foi não.

Não por moral. Caíque nunca acreditara em castidade como homenagem. Mas o corpo estava fechado. Ou talvez comparasse todos a Marco com uma crueldade injusta. Um homem era barulhento demais. Outro, superficial. Outro, parecido demais. Outro, triste demais. Outro segurava o copo com as duas mãos e Caíque quase foi embora no meio da conversa.

A memória, quando ferida, vira mau gosto afetivo.

Até que um dia, sem anúncio, sentiu desejo de novo.

Foi por um professor de italiano substituto, Lorenzo, brasileiro com nome herdado e olhos risonhos. Não aconteceu nada além de uma conversa mais longa depois da aula, um elogio à pronúncia, uma mão tocando seu braço por um segundo. Caíque voltou para casa assustado com o próprio corpo.

O desejo estava vivo.

Não intacto.

Vivo.

Sentou-se na sala, perto da planta que Marco trouxera anos antes. A planta, contra todas as previsões, sobrevivia. Crescera torta, resistente, com folhas novas surgindo de galhos que pareciam secos.

— Traidora — Caíque disse para ela.

Depois riu.

Naquela noite, abriu a caixa de madeira.

Não para ler a carta. Ainda não.

Tirou apenas a fotografia de Pirenópolis.

Marco olhava para ele, não para a câmera.

— Eu senti desejo hoje — disse para a foto.

Naturalmente, Marco não respondeu.

Caíque continuou:

— Não sei se isso te honra ou te ofende.

O rosto na fotografia mantinha aquele olhar de derrota amorosa.

Caíque suspirou.

— Você provavelmente faria uma frase bonita e irritante.

Guardou a foto.

Fechou a caixa.

Na semana seguinte, aceitou tomar café com Lorenzo. O café virou conversa. A conversa virou beijo em uma rua discreta. O beijo virou uma noite. A noite não virou amor. Nem precisava. Caíque chorou no banho depois, não de arrependimento, mas de excesso.

O corpo havia atravessado uma fronteira.

No dia seguinte, Lúcia Helena ligou.

— Você está estranho.

— Estou ao telefone. Como sabe?

— Sua voz está com cortina aberta.

— Você é insuportável.

— Transou?

— Lúcia.

— Transou.

— Não vou discutir minha vida íntima com uma fiscal do luto.

— Vai sim. Estou feliz.

— Que vulgaridade.

— A vida é vulgar. Graças a Deus.

Caíque sentou-se.

— Eu me senti culpado.

Lúcia ficou mais suave.

— Culpa também é uma forma de achar que controlamos os mortos.

— Como assim?

— Se você sofre do jeito certo, talvez prove que amou. Se não deseja, talvez prove que continua fiel. Se não ri, talvez prove que não esqueceu. Tudo prova. Tudo vira julgamento. Até o luto vira repartição.

Caíque fechou os olhos.

— E o que prova que amei?

— Você ter amado.

A simplicidade da frase o irritou e salvou um pouco.

Lorenzo passou. Outros vieram. Alguns nomes, alguns corpos, algumas noites, algumas tentativas de afeto que não criaram raiz. Caíque não se tornou promíscuo por fuga, nem casto por devoção. Tornou-se humano. Às vezes queria corpo. Às vezes queria conversa. Às vezes queria apenas confirmar que ainda podia ser olhado com desejo e não só com a piedade reservada aos sobreviventes.

Com o passar dos anos, aprendeu a falar de Marco sem morrer um pouco toda vez.

No início, dizia apenas:

— Perdi alguém.

Depois:

— Perdi meu companheiro.

Mais tarde, dependendo do ouvido:

— Perdi meu grande amor.

A primeira vez que disse “meu grande amor” em voz alta para alguém fora do círculo íntimo, sentiu o coração disparar. Estava em um jantar com colegas de um curso, já nos anos 90. Alguém perguntou por que ele nunca tinha casado. A pergunta veio leve, talvez sem maldade, talvez com aquela curiosidade social que trata a vida alheia como sobremesa.

Caíque poderia ter feito piada.

Quase fez.

Mas estava cansado de traduzir.

— Porque o homem que eu amei morreu antes que o país permitisse esse tipo de pergunta com dignidade — respondeu.

A mesa silenciou.

Um rapaz engasgou com o vinho.

A mulher que perguntara ficou vermelha.

— Desculpa, eu não quis…

— Eu sei. Quase ninguém quer. Mas quase todo mundo faz.

O jantar continuou estranho por alguns minutos.

Depois melhorou.

Uma pessoa mudou de assunto. Outra, mais tarde, procurou Caíque na cozinha e disse que tinha um irmão “assim”. Caíque odiava o “assim”, mas ouviu. O irmão morava em outro estado e não falava com a família havia anos. A mulher chorou. Caíque deu a ela o conselho que ninguém dera à sua mãe em tempo:

— Se você ama, procure antes que a vida faça a pergunta por você.

Ela assentiu.

Talvez tenha procurado.

Talvez não.

A vida não oferecia recibo para todos os gestos.

Os anos 90 trouxeram mudanças. Algumas reais, outras cosméticas. A AIDS continuou levando, mas também começou a ser enfrentada com mais informação, mais organização, mais ativismo, mais tratamento. A comunidade, ferida e exausta, aprendeu a falar mais alto. ONGs surgiram, campanhas, debates, nomes. O medo não desapareceu, mas deixou de ser completamente escuro.

Caíque participou de algumas ações discretamente. Ajudou com textos, traduções, contatos, organização de documentos, pequenas doações. Nunca se colocou como liderança. Não queria palco para a dor. Mas, sempre que podia, usava sua competência a favor de quem precisava atravessar burocracias.

— Você virou despachante da dignidade — Irene disse uma vez.

— Alguém precisa protocolar humanidade neste país.

— Marco gostaria dessa frase.

Caíque ficou quieto.

— Gostaria — respondeu.

Irene envelhecia com a elegância amarga dos arquivos que viram demais. Davi ficava mais cansado, mas continuava oferecendo sua casa como território de discussão, acolhimento e comida duvidosa. Lúcia Helena mudou de emprego, de cabelo, de amante, de apartamento, mas nunca de essência. Carmem, no Rio, resistia como podia. Toninho desapareceu por um tempo, reapareceu em uma carta delirante, depois desapareceu de novo.

Quando Toninho morreu, anos depois, Caíque viajou ao Rio.

A Galeria Alaska já não era o mesmo lugar de sua juventude. Ou talvez ele é que não coubesse mais nela do mesmo modo. Caminhou por Copacabana sentindo o passado sob os pés. O Rio continuava lindo, vulgar, úmido, indiferente. O mar seguia repetindo sua lição antiga: ir e voltar sem pedir perdão.

Carmem o encontrou em um bar pequeno.

Estava mais velha, claro. Todos estavam. Mas continuava magnífica. Cabelo impecável, batom forte, olhar de quem ainda vencia algumas batalhas por puro desaforo.

— Você demorou — disse.

— Para vir ou para envelhecer?

— Os dois.

Abraçaram-se por muito tempo.

Toninho, segundo ela, tinha morrido como vivera: causando trabalho emocional e deixando contas confusas.

— Ele pediu música? — Caíque perguntou.

— Pediu três. Mudei para uma só. Morto não organiza repertório.

Caíque riu e chorou ao mesmo tempo.

Naquela noite, ele e Carmem falaram de todos. De Renato, que havia se mudado e com quem Caíque perdera contato. De Dario, que talvez estivesse vivo em algum restaurante de subúrbio ou talvez já fosse memória sem notícia. De Dona Zulmira, falecida anos antes. De Nélson do fusca azul, cujo destino ninguém soube. De rapazes que viraram senhores. De senhores que nunca chegaram a velhos. De mulheres brilhantes. De travestis assassinadas sem manchete. De bares fechados. De nomes esquecidos.

— A gente é uma geração de sobreviventes e buracos — Carmem disse.

— Buracos?

— Sim. Você olha a foto e sabe onde deveria ter alguém.

Caíque pensou em Marco.

— Sim.

Carmem tocou sua mão.

— Você leu a carta?

Ele não perguntou qual.

— Não inteira.

Ela suspirou.

— Teimoso.

— Ainda não consegui.

— Ninguém consegue. A gente faz.

— Parece conselho de manual ruim.

— A vida é manual ruim com páginas faltando.

Caíque sorriu.

Carmem ficou séria.

— Um dia você vai ter que abrir essa caixa, meu filho.

— Por quê?

— Porque morto guardado demais começa a virar carcereiro.

A frase ficou.

Na volta a Brasília, Caíque levou consigo uma certeza incômoda: a carta não poderia permanecer fechada para sempre. Mas ainda permaneceria por muito tempo.

A vida seguiu.

Décadas passaram com a velocidade absurda das coisas que só percebemos tarde. Governos mudaram. Moedas mudaram. Prédios envelheceram. O país avançou em algumas pautas e regrediu em outras com a habilidade brasileira de dar dois passos e fingir que tropeçou sem querer. O mundo LGBT ganhou mais visibilidade, mais direitos, mais vocabulário, mais disputa. Vieram paradas, políticas públicas, debates na televisão, personagens em novelas, casamento, decisões judiciais, reações violentas, conservadorismos reciclados.

Caíque assistia a tudo com uma mistura de emoção, alegria, irritação e ironia.

— Vocês acham que inventaram o beijo gay porque agora tem câmera — dizia aos mais jovens.

Alguns riam. Outros reviravam os olhos.

Ele gostava dos jovens, mas não poupava.

— Memória, meus amores. Sem memória, vocês viram trend com CPF.

Lúcia Helena dizia que ele estava virando velho insuportável.

— Finalmente — ele respondia. — Trabalhei muito para isso.

No BNDES, Caíque tornou-se referência. Já não era o recém-chegado que estranhava Brasília. Era parte da paisagem institucional, embora nunca completamente domesticado. Tinha reputação de competente, elegante, irônico e pouco paciente com mediocridade. Orientava funcionários mais novos, corrigia textos, fazia perguntas que melhoravam relatórios e pioravam a autoestima de preguiçosos.

Não era unanimidade.

Isso o tranquilizava.

— Unanimidade é sinal de que alguém está escondendo alguma coisa — dizia.

Aos 68 anos, aposentou-se.

A cerimônia foi correta, com discursos, flores, lembranças e um bolo que ele considerou ofensivamente seco. Colegas falaram de sua inteligência, seu compromisso, sua contribuição à instituição. Alguns mencionaram seu humor. Um diretor disse que Caíque tinha “personalidade marcante”, expressão que ele interpretou como “não conseguimos dobrá-lo completamente”.

Recebeu tudo com educação.

Falou pouco no discurso de despedida.

— Entrei aqui carregando muitas ambições e algumas malas mal fechadas. Saio com gratidão, alívio e a certeza de que nenhum memorando substitui uma vida bem vivida. Trabalhar é importante. Mas quem transforma trabalho em biografia única empobrece a própria memória. Espero ter sido útil. Espero ter sido incômodo quando necessário. E espero que o café melhore, porque isso também é desenvolvimento institucional.

A sala riu.

Ele saiu com uma caixa de objetos: livros, canetas, papéis, fotografias, uma ou outra lembrança, a gravata azul de Carmem que às vezes ainda usava em dias importantes.

Ao chegar em casa, colocou a caixa no chão da sala.

Sentou-se.

E, pela primeira vez em décadas, não tinha trabalho no dia seguinte.

O silêncio voltou.

Não o silêncio agudo da morte de Marco. Outro. Um silêncio largo, disponível, perigoso. A aposentadoria, que muitos colegas tratavam como prêmio, lhe pareceu inicialmente uma sala sem mobília. Tinha tempo demais. E tempo demais, para quem havia passado a vida fugindo, trabalhando, estudando e cuidando, era quase ameaça.

Nos primeiros meses, tentou descansar.

Viajou um pouco. Leu livros acumulados. Reviu filmes. Visitou amigos. Fez exames médicos. Reclamou de médicos. Reorganizou estantes. Jogou fora papéis inúteis. Guardou papéis que talvez também fossem inúteis, mas tinham cheiro de vida.

Depois começou a ficar irritado.

Descanso, quando passa do ponto, vira mofo.

Foi Lúcia Helena, já aposentada de algumas coisas e envolvida em outras, quem o cutucou.

— Você precisa fazer algo com essa energia.

— Estou fazendo. Reclamando.

— Algo útil.

— Reclamar é útil. Mantém a civilização alerta.

— Caíque.

— Lúcia.

— Tem uma moça no Gama que me perguntou se eu conhecia alguém que pudesse dar aulas de inglês para o filho dela. Ele quer tentar uma vaga melhor, mas não tem dinheiro para curso.

— E você lembrou de mim?

— Você fala inglês, francês, italiano e reclama em todos. É praticamente uma escola pública ambulante.

— Eu nunca dei aula de verdade.

— De verdade ninguém dá nada até começar.

— Odeio quando você parece sábia.

— Eu sei. Por isso faço pouco.

Caíque recusou por três dias.

No quarto, aceitou conhecer o rapaz.

Chamava-se Rafael. Tinha vinte e dois anos, trabalhava em um mercado pela manhã e estudava à noite. Chegou à casa de Caíque com um caderno simples, uma caneta mastigada e a timidez de quem não queria parecer esperançoso demais.

— Por que você quer aprender inglês? — Caíque perguntou.

Rafael deu de ombros.

— Para arrumar coisa melhor.

— Coisa melhor o quê?

— Emprego. Talvez faculdade. Não sei.

— Não sabe ou tem vergonha de dizer?

O rapaz olhou para ele, assustado.

Caíque suavizou a voz.

— Vergonha é imposto que pobre paga sem dever.

Rafael ficou em silêncio.

Depois disse:

— Eu queria trabalhar com turismo. Ou aeroporto. Alguma coisa que me tirasse daqui um pouco.

A palavra “aeroporto” fez Caíque pensar em fugas. Em chegadas. Em partidas. Em seu próprio corpo adolescente na estrada, sem inglês, sem francês, sem nada além de fome e instinto.

— Está bem — disse. — Vamos começar.

A primeira aula aconteceu na mesa da sala.

Caíque abriu um caderno novo e escreveu:

To be.

Rafael franziu a testa.

— Verbo ser e estar — explicou Caíque.

— Os dois?

— Em inglês, sim. Eles economizam onde não devem.

Rafael riu.

Caíque escreveu:

I am. You are. He is. She is. We are. They are.

Depois parou.

A frase de décadas atrás voltou: eu sou. Você é. Nós somos.

Percebeu, naquele instante, que ensinar idioma era também ensinar autorização.

— Repete — disse.

Rafael repetiu.

— Mais firme.

— I am.

— De novo.

— I am.

— Isso. Você está dizendo “eu sou”. Não diga como quem pede licença.

Rafael olhou para ele, sem entender completamente.

Entenderia depois.

O que começou com um aluno virou dois. Depois cinco. Depois dez. A mãe de Rafael indicou uma vizinha. A vizinha trouxe a sobrinha. Um rapaz chamou um amigo. Uma senhora perguntou se era tarde demais para aprender. Caíque respondeu que tarde demais era uma expressão inventada por gente ansiosa para enterrar os outros.

Em poucos meses, as aulas gratuitas no Gama tornaram-se rotina.

No início, usava espaços improvisados: sala emprestada, garagem, centro comunitário, igreja quando deixavam, casa de aluno quando necessário. Levava livros, cópias, exercícios, dicionários antigos, folhas impressas pagas do próprio bolso. Organizava turmas por nível de forma aproximada, porque a vida real não obedecia a metodologia.

Os alunos chegavam cansados, atrasados, famintos, curiosos, desconfiados.

Caíque brigava.

— Atraso em inglês continua sendo atraso.

— Professor, o ônibus demorou.

— O ônibus sempre demora. A gramática não tem culpa.

Mas também entendia.

Levava lanche quando podia. Arrumava material. Escrevia cartas de recomendação. Ajudava a montar currículo. Treinava entrevista. Corrigia postura. Ensinava que “good morning” não era apenas som, mas entrada no mundo. Que idioma podia abrir porta, mas autoestima ajudava a atravessar.

— Inglês não é para vocês servirem melhor aos ricos — dizia. — É para vocês entenderem quando os ricos tentarem enganá-los em outra língua.

Os alunos riam.

Ele continuava:

— E para viajar, trabalhar, estudar, cantar música sem inventar letra e paquerar estrangeiro com menos vexame. Educação também precisa de alegria.

A sala ria mais.

Aos poucos, Caíque descobriu que estava vivo de um jeito novo.

Não o vivo desesperado da fuga.

Não o vivo erótico da Galeria.

Não o vivo apaixonado com Marco.

Não o vivo disciplinado do BNDES.

Era outra forma. Uma vida que se multiplicava nos outros.

Quando um aluno conseguia formar a primeira frase inteira, Caíque sentia uma alegria desproporcional. Quando uma aluna passava em uma entrevista, comemorava como se fosse posse ministerial. Quando alguém dizia “professor, eu entendi uma música”, ele fingia pouca emoção e depois chorava em casa com discrição falha.

O Gama lhe devolveu futuro.

E também passado.

Naquelas pessoas, via o Carlos que fugira. Não porque todos fugissem de casa, mas porque muitos fugiam de destinos impostos. Pobreza, violência, falta de repertório, família sufocante, empregos ruins, baixa expectativa, vergonha de falar errado, medo de desejar mais.

Caíque reconhecia a fome.

E sabia que fome de futuro precisava ser alimentada com mais do que discurso.

Ensinava verbos, mas também ensinava insubmissão.

— “I want” significa “eu quero”. Repitam.

— I want.

— Mais alto.

— I want.

— Gente pobre muitas vezes aprende a dizer “eu aceito” antes de aprender “eu quero”. Aqui vamos inverter.

Os alunos riam, alguns sem jeito.

— Professor, o senhor viaja.

— Viajo porque fiquei muito tempo sem poder sair.

Alguns perguntavam de sua vida.

No começo, desviava.

Depois, com cuidado, passou a contar pedaços. O Rio. O BNDES. Os idiomas. A importância de estudar. A fuga, às vezes, quando o ouvido merecia. Marco, raramente. Mas o nome dele começou a aparecer de forma menos dolorosa.

— Eu aprendi francês depois que perdi alguém — disse uma vez, em uma turma pequena.

Uma aluna perguntou:

— Alguém da família?

Caíque pensou.

— Sim.

Era a resposta mais verdadeira.

Na velhice, Caíque se tornou mais livre e menos paciente.

Aposentado, professor voluntário, dono do próprio tempo, já não se sentia obrigado a suavizar certas verdades. Se alguém perguntava por que nunca casou, respondia:

— Casei sem papel. O Estado chegou atrasado.

Se perguntavam se tinha filhos:

— Tenho alunos. Dá menos disputa por herança e mais trabalho com pronúncia.

Se algum conhecido insinuava que, na idade dele, certas coisas “já não importavam”, ele erguia uma sobrancelha.

— Meu bem, desejo não se aposenta pelo INSS.

E, quando queriam saber se ainda tinha vida sexual, respondia com a frase que viraria sua assinatura tardia:

— Biba que é biba só para de transar quando morre.

Dizia isso rindo, mas não era apenas piada. Era manifesto.

A velhice tentava tornar as pessoas invisíveis. A sociedade fazia isso com quase todos os velhos, mas com velhos LGBT havia uma crueldade específica: como se a sexualidade deles fosse tolerada apenas enquanto jovem, trágica ou caricata. Caíque recusava o apagamento. Continuava vaidoso, perfumado, curioso, desejante. Tinha encontros, paqueras, conversas indecentes, ternuras possíveis. Nem tudo virava história. Nem tudo precisava.

— Você não tem vergonha? — alguém perguntou uma vez, em tom de brincadeira mal resolvida.

Caíque sorriu.

— Tive quando era jovem. Deu muito trabalho e péssimos resultados.

Aos 78 anos, sua casa já não parecia o apartamento impessoal da chegada a Brasília. Era um arquivo vivo. Livros em várias línguas, fotografias, cartas, dicionários, lembranças do Rio, objetos do BNDES, cadernos de alunos, pilhas de exercícios, canetas, plantas. A planta de Marco continuava ali, agora grande, torta e resistente, como se tivesse decidido sobreviver por pirraça.

A caixa de madeira também continuava.

Durante décadas, Caíque a abrira muitas vezes. Vira fotos, bilhetes, cartões, a camisa azul, o cartão de Carmem. Mas a carta inteira, não. Lia pedaços em anos diferentes, como quem toca uma ferida para saber se ainda dói. Doía. Menos em alguns dias, mais em outros. Nunca deixara de doer.

Carmem já havia morrido também.

Essa perda veio como queda de monumento.

Caíque foi ao Rio uma última vez para se despedir dela. No velório, havia gente de muitas épocas: velhos sobreviventes, jovens que ela ajudara, travestis, artistas, professores, vizinhos, figuras improváveis. Alguém colocou batom vermelho sobre o caixão, o que Caíque achou correto. Outro contou uma história obscena, o que achou mais correto ainda.

Quando chegou sua vez, aproximou-se e sussurrou:

— Não virei santo.

Pareceu ouvir a resposta dela:

“Nem teria talento.”

Depois da morte de Carmem, a carta de Marco ficou mais pesada.

Porque uma das últimas pessoas que insistia para que ele a lesse já não podia insistir.

Lúcia Helena, envelhecida mas ainda afiada, continuava viva e presente.

— Você sabe que um dia vai ter que abrir — disse, certa tarde.

— Vocês combinaram essa perseguição espiritual?

— Sim. Eu, Carmem e provavelmente Marco. Grupo muito eficiente.

— Não estou pronto.

— Caíque, você tem setenta e oito anos.

— Justamente. Preciso preservar minha saúde emocional.

— Você preserva tanto que vai morrer lacrado.

— Que imagem horrível.

— Ótima imagem. Abre a caixa.

Ele não abriu naquele dia.

Mas riu.

E rir diante da caixa já era alguma forma de aproximação.

Foi pouco depois disso que o jovem casal apareceu.

O namorado de um parente distante, ou alguma genealogia familiar que Caíque não fazia questão de organizar. Jovens. Educados. Um deles com aquele olhar de quem queria parecer tranquilo diante de um velho e, ao mesmo tempo, já percebia que velho era palavra insuficiente.

Caíque os recebeu com comida demais, vinho, ironia e uma disposição perigosa para contar histórias.

Falou do Rio. Da Galeria Alaska. Do BNDES. De Brasília. Das fofocas deliciosas da cidade secreta. Dos homens públicos e seus quartos privados. Dos idiomas. Das aulas no Gama. Da vida sexual ativa, porque não era obrigado a morrer em vida para tranquilizar os outros.

Eles riram, se espantaram, perguntaram.

Caíque observou o interesse nos olhos deles.

Não era voyeurismo apenas. Havia escuta.

Escuta verdadeira era rara.

Em determinado momento, um deles perguntou sobre Marco.

O nome entrou na sala como sempre entrava: acendendo e apagando luzes.

Caíque respondeu pouco. Depois mais. Depois parou diante da caixa de madeira, guardada no armário havia décadas.

A mão repousou sobre a tampa.

O passado estava ali. Não morto. Concentrado.

O jovem perguntou:

— O senhor nunca leu a carta inteira?

Caíque olhou para ele.

Senhor.

Normalmente corrigiria com alguma piada. Não naquele momento.

— Não.

— Por quê?

Caíque passou os dedos pela madeira.

— Porque tem coisa que, depois que a gente lê, passa a ser verdade de outro jeito.

Os jovens ficaram em silêncio.

Um silêncio bom.

Um silêncio que não empurrava.

Caíque percebeu, com uma estranheza quase física, que talvez tivesse passado a vida inteira esperando não estar pronto, mas acompanhado. Não precisava abrir a caixa sozinho. Não precisava transformar a carta em espetáculo. Precisava apenas de testemunhas que entendessem que certas memórias não pertencem só a quem viveu. Pertencem também aos que vieram depois e precisam saber que não nasceram do nada.

Naquela noite, depois que eles foram embora, Caíque ficou sozinho na sala.

A casa estava quieta.

A planta de Marco tocava a janela.

Sobre a mesa havia cadernos de alunos, uma xícara, óculos, um livro de italiano, provas para corrigir. Vida. Muita vida. Vida espalhada, insistente, desorganizada.

A caixa estava diante dele.

Não a abrira durante a visita.

Mas agora parecia menos impossível.

Sentou-se.

Colocou a mão sobre a tampa.

Pensou no menino Carlos, no corredor da casa, ouvindo a palavra proibida. Pensou no mar do Rio. Na Galeria Alaska. Em Toninho, Carmem, Renato, Dario, Dona Zulmira, Nélson. Pensou no BNDES. Em Brasília sem esquinas. Em Marco segurando o copo com as duas mãos. Em Marco dizendo “melhor escândalo do que segredo”. Em Marco pedindo que ele não virasse túmulo.

Pensou em Rafael, seu primeiro aluno no Gama, dizendo “I am” com medo.

Pensou em todos os jovens que agora podiam dizer “eu sou” um pouco mais alto porque outros haviam sussurrado antes, em quartos, bares, hospitais, cartas e velórios.

Caíque abriu a caixa.

Não leu ainda.

Apenas abriu.

O cheiro de papel antigo subiu, misturado a uma memória que talvez estivesse mais nele do que nos objetos. A camisa azul permanecia dobrada. As fotografias, amareladas. Os bilhetes, frágeis. A carta, no envelope com seu nome, esperava com uma paciência cruel.

Caíque tocou o envelope.

— Estou tentando — disse.

Dessa vez, não fechou a caixa.

Deixou-a aberta sobre a mesa.

Foi até a cozinha, preparou café, voltou, sentou-se diante dela.

A noite avançou.

Brasília, do lado de fora, continuava seca, escura, monumental. Mas dentro daquela casa, aos setenta e oito anos, Caíque sentia que algo se aproximava não como morte, mas como devolução.

A carta ainda seria lida.

Não naquela página da vida.

Mas em breve.

E, quando fosse, talvez a língua finalmente voltasse inteira.

Não só português.

Não só francês.

Não só italiano.

A língua da memória.

A mais difícil de todas.

Fim do Capítulo 9.

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