Antes mesmo de viajarmos, a tal fofoca que Iury estava louco para contar acabou vazando. E, sinceramente? Eu não entendi por que ele tratava aquilo como fofoca. Léo tinha adotado um filho! Aquilo era uma notícia maravilhosa.
O que realmente me surpreendeu foi outra coisa. Durante todo esse tempo, Léo nunca comentou nada sobre o processo. Ainda mais porque Lorenzo e Sarah falavam bastante sobre tudo o que estavam vivendo durante a adoção deles. Entre uma conversa e outra, sempre acabavam compartilhando alguma novidade, alguma etapa vencida ou até mesmo as dificuldades do caminho. E, quando Léo estava conosco, apenas os incentivava a prosseguir, justificando que era um processo demorado mesmo.
Mas também não fiquei presa a isso. No fim das contas, era um direito dele. Nem todo mundo gosta de dividir cada fase de um processo tão importante. Às vezes, a pessoa prefere guardar para si, esperar tudo dar certo e só então compartilhar a notícia. E estava tudo bem também.
Meu cunhado ficou genuinamente revoltado por não termos descoberto por ele. A verdade é que minha sogra nos ligou assim que soube da novidade e, quando a notícia chegou até nós, a única reação possível foi comemorar. Tínhamos acabado de ganhar mais um integrante na família.
O nome dele era Gabriel, faria três anos ainda naquele ano e, mesmo sem conhecê-lo, eu já me pegava sorrindo várias vezes enquanto imaginava como seria aquele encontro.
Por causa disso, o churrasco que aconteceria lá em casa acabou mudando de endereço. Decidimos passar o final de semana na pousada para visitá-los. E, sendo bem sincera, eu também estava morrendo de saudade daquele lugar porque existe alguma coisa naquele ambiente que sempre me faz bem. O silêncio, a natureza, a tranquilidade... Tudo parece desacelerar quando estamos lá e eu estava precisando disso naquele momento.
Nos últimos tempos, minha cabeça andava constantemente atordoada. Na época, eu atribuía aquilo ao ritmo de trabalho, que tinha voltado com força total depois de alguns meses de folga. Parecia uma explicação plausível o suficiente para que eu não me preocupasse muito. Só que, olhando para trás, a verdade é que eu estava ignorando os sinais que meu corpo e minha mente vinham tentando me dar havia algum tempo.
Meu irmão estava lá em casa quando minha sogra ligou para dar a notícia, então acabamos passando um bom tempo conversando sobre aquilo depois que a ligação terminou. A adoção de Gabriel tinha sido uma surpresa para todo mundo e, justamente por isso, várias dúvidas começaram a surgir.
Quanto tempo Léo ficou na fila?
Demorou para ser habilitado?
Como foi todo o processo?
Será que ele também passou pelas mesmas inseguranças que Lorenzo estava vivendo durante a espera?
Quanto mais conversávamos, mais perguntas apareciam, mas a verdade era que nenhuma delas poderia ser respondida por nós. Somente Léo sabia tudo o que tinha vivido até chegar naquele momento de triunfo, e eu estava curiosa para ouvir cada detalhe quando finalmente nos encontrássemos. Até porque eu amo histórias que envolvem adoção!
A viagem em si foi tranquila. O deslocamento nunca foi a parte mais divertida da experiência, mas eu já tinha aprendido a conviver com isso. E, no fim das contas, as formações continuavam sendo muito melhores quando eu podia ministrá-las presencialmente.
Além do conteúdo, existia toda a troca com as pessoas. Rever colegas, colocar as conversas em dia, compartilhar experiências e ouvir realidades diferentes sempre acrescentava alguma coisa. Foi ótimo encontrar todo mundo novamente depois de tanto tempo.
A programação previa que eu retornasse apenas na noite do dia seguinte, mas consegui adiantar o cronograma e atender todas as turmas antes do previsto. Quando percebi que estava com tudo finalizado, não pensei duas vezes. Peguei o voo de volta um turno antes.
Eu estava morrendo de saudade da minha família!
Quando finalmente cheguei em casa, encontrei exatamente o tipo de cena que fazia qualquer cansaço valer a pena.
Milena e Kaique estavam concentrados nos estudos, revisando o conteúdo para uma avaliação. Dom, por sua vez, estava muito mais interessado no leite da mamãe do que em qualquer outra coisa, acomodado nos braços de Juh enquanto mamava tranquilamente. Dona Sônia assistia a uma novela.
— Vim retomar minha cama — Brinquei, enquanto os abraçava.
Eu tinha feito uma videochamada com Juh na noite anterior e eles ficaram brincando que estavam roubando o meu lugar.
Passei apenas um dia e meio fora e, nesse pequeno período, Dom aprendeu a dar gritinhos e se divertir com o som que saía das próprias pregas vocais vibrando.
— Para de gritar, homi — Falei com ele, enchendo-o de beijinhos.
— Vai doer a garganta — Juh completou.
Aproveitei para dar um beijinho nela também.
Ficamos conversando por mais um tempo na sala. Ela queria saber como tinha sido a formação e eu ouvi as novidades dos últimos dias. Também aproveitei para matar a saudade de todo mundo sem precisar de uma tela no meio da conversa.
Depois subi para tomar um banho.
Quando desci novamente, o jantar já estava praticamente pronto e nós comemos juntos. Assim que terminamos, Milena e Kaique voltaram aos estudos.
— Essa prova deve estar muito difícil para eu não ganhar nem um real de atenção dos meus filhos... — Comentei, fingindo drama.
— É de física — Kaká respondeu, rindo.
— E está muito difícil mesmo — Mih falou, tocando a própria testa.
— Brincadeira... Não quero atrapalhar. Estudem direitinho aí. — Disse-lhes.
Percebi que minha gatinha estava buscando contato físico comigo mais do que o normal. Encostava em mim sempre que passava por perto, segurava minha mão por alguns segundos a mais e apoiava a cabeça em mim quando sentava ao meu lado. Sorri sozinha porque também estava morrendo de saudade dela.
Dom começou a mamar novamente, então me acomodei atrás de Juh no sofá, envolvendo sua cintura com os braços e deixando-a acomodada entre as minhas pernas. Apoiei o queixo em seu ombro e comecei a distribuir alguns beijinhos pelo pescoço e pela lateral do rosto dela.
— Que carência é essa? — Ela perguntou, rindo baixinho.
— Só minha? — Questionei de volta, fingindo indignação.
— Amor, não viaja assim mais... — Juh pediu, cheia de dengo.
— Odiei deixar vocês também, mas tenho que ir, né, amô? — Respondi, dando mais beijinhos nela.
Dom, que deveria estar concentrado na importantíssima missão de se alimentar, parecia muito mais interessado em qualquer outro acontecimento do universo. Bastava ouvir o barulho de um beijinho, uma risada, uma página virando ou Brad correndo para interromper a mamada e sair procurando a origem do som.
— Fofoqueiro igual à família inteira... — Sussurrei.
Júlia soltou uma risadinha.
Mesmo distraído, o sono acabou vencendo. Aos poucos, os olhinhos foram pesando, os movimentos diminuíram e, não muito tempo depois, Ninho dormiu aninhado nos braços da mamãe. Dona Sônia o colocou no berço junto com a naninha.
Foi quando um som diferente chamou nossa atenção...
Um choro.
Levantei os olhos na direção da mesa e encontrei Milena enxugando o rosto às pressas enquanto Kaique estava em pé ao seu lado.
— Ei... Calma, Mih. Vai dar tudo certo... — Ele disse para a irmã.
Juh e eu trocamos um olhar imediato e fomos até lá.
— O que houve, filha? — Perguntei, fazendo carinho em seu cabelo.
— Esse assunto não entra na minha cabeça!!! — Mih exclamou, batendo as mãos contra o próprio rosto.
— Calma, filha... — Falei, segurando suas mãos para que não se machucasse.
— Vamos estudar juntas então. Por que não me disse que estava complicado, meu amor? Eu sentava para ajudar vocês. — Júlia disse.
— Kaká está bem. Eu que não estou progredindo em nada. — Ela fez questão de esclarecer.
— Você vai se sair bem. É um pouquinho complicado, mas eu sei que você sabe. — Kaique tentou tranquilizá-la, mas não conseguiu animá-la.
Juh fez sinal para nós subirmos, e foi o que fizemos. Dei um beijinho na cabeça de Mih e disse que estaríamos no quarto para não atrapalhar, mas que poderiam nos chamar caso precisassem de qualquer coisa.
Dei uma olhadinha em Dom, que seguia dormindo. Qualquer intercorrência, Dona Sônia nos ajudaria. Depois fui para o quarto com Kaká, que parecia inquieto.
— Como está lá no colégio? Com esse negócio de Lalá... — Quis saber.
— Lalá não está indo. Primeiro disseram que ela seria transferida, agora dizem que ela vai ficar em outra turma, mas a gente não consegue falar com ela porque está sem celular. — Kaique respondeu, triste.
— E Milena por lá... Chora? — Questionei.
— Mih fica mal, achando que a culpa é dela... — Meu filho respondeu.
— Elas são tudo, menos culpadas... — Comentei.
— Está atrapalhando o rendimento de vocês? — Perguntei.
Ele demorou um pouquinho para responder.
— Não... Mih é muito inteligente, mas fica sentida em alguns momentos. Lalá fazia parte do nosso grupo e agora parece que está sempre faltando alguém. — Kaique disse.
— Poxa... — Lamentei.
— Eu espero que não transfiram Lalá de escola, porque aí a gente ainda vai poder se ver, pelo menos. — Ele falou, pensativo.
— Não quero que vocês tenham problemas. Não quero que ela tenha problemas... Que situação difícil... — Comentei, também reflexiva.
Foi então que Júlia apareceu na porta do quarto.
— Ela domina o assunto, só está com a cabecinha cheia... Coloquei para dormir. Mih só precisa descansar um pouquinho para limpar a cabeça de ooooutros problemas. — Ela nos disse.
— Os pais de Lalá... — Kaká comentou.
Juh concordou com um aceno.
— Amanhã, qualquer coisa, você passa uma colinha para sua irmã. — Falei, sem pensar muito.
— AMOR??? — Júlia me repreendeu.
Kaique caiu na risada.
— Quê? Ela pode precisar de ajuda... — Tentei me justificar.
— Filho, não faz isso! — Ela exclamou, tapando os ouvidos do menino.
— Não pode... — Kaká falou, piscando para mim.
— Se eu perceber que ela não está bem para fazer a prova, solicito o adiamento. NÃO PASSA COLA PARA NINGUÉM! — Juh deixou claro, enquanto nós ríamos.
— É... Só para sua irmã... — Brinquei.
Levei um tapinha.
Depois disso, ele foi dormir para descansar.
Eu estava cansada, contudo sem sono, e ainda era cedo para dormir. Deitei com Juh e deixamos o filme rolando um pouquinho enquanto matávamos a saudade. Minha mulher não demorou nem um segundo para se acomodar em meus braços, encaixando a cabeça em meu ombro enquanto eu fazia carinho em seus cabelos.
— Que bom que você voltou... — Ela falou, me abraçando pela cintura.
— Eu também estou feliz por estar de volta. — Respondi, apertando-a um pouquinho mais contra mim.
— Não gosto quando você viaja. — Confessou Juh.
— Foi só um dia e meio, amor. — Provoquei.
— E pareceu uma eternidade. — Retrucou ela, sem levantar a cabeça.
Acabei rindo.
— Dramática... — Brinquei.
— Eu estou é carente. — Corrigiu minha esposa, roubando um beijinho.
Ganhei outro logo em seguida e depois mais um. Não demorou para que eu também começasse a retribuir, distribuindo beijinhos por sua testa, suas bochechas e seus cabelos enquanto ela se aninhava ainda mais em mim.
A saudade de um dia e meio não faz muito sentido quando colocada no papel, mas quando você está deitada novamente com seu amorzinho, não existe forma de calcular o quanto sentiu falta daquilo tudo. Dos abraços, dos carinhos, dos chamegos.
Simplesmente dela.
— Estou preocupada com Mih. — Juh falou.
— Eu também... Ela estava tentando disfarçar. — Complementei, triste.
— Ela está sofrendo tanto... — Júlia disse, chateada.
— Não quero nem imaginar o que Lalá está passando. — Comentei.
— Se ela estiver bem, amanhã vamos todos juntos e eu vou procurar mais informações. — Júlia falou.
Acenei positivamente.
Dei um cheirinho em seu pescoço e ela se empenhou em me fazer amá-la cada vez mais, enfiando os dedos no meu couro cabeludo e massageando enquanto eu relaxava sob seus toques.
— Amor, eu acho que não estou bem... Preciso muito desse final de semana tranquilo na pousada. — Desabafei.
— Eu sei, mas você não me escuta. Precisa descansar um pouco. O que você faz é desumano com você mesma. — Ela disse.
— Preciso recarregar as energias. — Falei, interrompendo-a.
— Prometo não gastar suas energias. — Juh disse, rindo.
— Pera aí também... Dependendo da maneira como a gente for gastar, eu não me importo. — Rebati, erguendo o corpo.
Isso fez com que ela risse ainda mais.
— Eu cometeria atrocidades se o meu corpo não estivesse tão cansado hoje. Desde que Dom nasceu, a gente não fica assim. — Juh falou, fazendo-me deitar novamente.
— Huuuuum... Quer dizer que Dona Sônia vai ganhar umas diárias a mais com a gente... — Sussurrei em seu ouvido.
— Quando eu voltar a trabalhar, sim. — Júlia respondeu, rindo e se enroscando ainda mais em mim.
Por um breve momento, nós duas demos no máximo cinco minutos de atenção ao filme, mas rapidamente me desconcentrei e comecei a rir desenfreadamente.
— Cometeria atrocidades... — Repeti, ainda rindo.
E Juh desligou a televisão, dizendo que era melhor dormirmos.
No dia seguinte, acordei com um bebezinho lindo gritando ao meu lado enquanto a mamãe ria, tentando vestir uma roupa.
— Bom dia para você também, meu filho — Falei, abraçando-o e enchendo-o de beijinhos.
— Tentei adiantar para não atrasarmos — Juh disse e me deu um selinho.
Tomei meu banho e desci pensando que depois poderia dar uma corridinha. Já ia calçando o tênis quando senti uma menina se jogar sobre os meus ombros, me enchendo de carinho.
— Noooossa, o retroativo da saudade — Brinquei e Milena riu.
— Eu te amo! — Ela exclamou.
— Eu também te amo, amor... Está se sentindo bem? — Questionei.
— Sim — Minha filha afirmou, olhando dentro dos meus olhos.
Achei bem convincente.
— Vai arrasar na avaliação? — Perguntei.
— Com a cola que Kaká vai me passar??? — Ela brincou, rindo enquanto se sentava ao meu lado.
— Ele já passou a fofoca... — Deduzi.
— Ele disse que a senhora teve um lapso de desespero ao sugerir isso — Mih me informou, se acabando de rir.
— Arranjei uma solução, uai... — Continuei brincando.
— Solução é, Lorena? — Ouvi Juh me perguntar.
— A solução é estudar, claro, amor — Respondi, enquanto Milena ria de mim.
— Mas eu passo se você precisar — Kaká cochichou, também chegando à sala.
— Segredo nosso — Mih sussurrou.
— Bom ver você mais animadinha — Comentei.
Abri os braços para os dois, que vieram e foram devidamente esmagados.
O trajeto foi tranquilo. Quando chegamos, todos desceram e eu fiquei com o neném no carro porque, caso ele chorasse, teríamos que dar uma voltinha para acalmar os ânimos.
Pouco tempo depois, o transporte de Iury chegou. Ele desceu agarrado à cintura de uma muié, se achando a última gota de mel de Salvador. Assim que me viu, pediu para a menina seguir na frente e veio rindo até mim.
— E Thaís? — Perguntei, rindo.
— Ela não quis. Tem quem queira. — Meu cunhado respondeu.
Iury ficou paparicando Dom adormecido enquanto eu o perturbava pelo fato de ele ter ficado puto por não ter sido o responsável por nos contar a notícia sobre o filhote de Léo.
— Eu só não entendi o teor de fofoca. Uma notícia boa dessa... — Falei para ele.
Meu cunhado, que estava todo entretido com o sobrinho, me lançou um olhar estranho e, de repente, um sorriso malicioso tomou conta dos lábios dele.
— O que minha mãe contou? — Ele perguntou.
— Oxe, Léo não adotou? — Questionei.
E Iury começou a rir.
— Léo não adotou, não... Ele disse que o filho saiu dele mesmo. Mas não me pergunta mais nada. Guarda essa informação e espera o final de semana! — Ele exclamou e saiu animado.
— Iury! — Tentei chamá-lo, mas em um tom baixo para não acordar meu neném.
Se aquela peste ouviu, me ignorou.
Fiquei mais um tempo ali, indignada com a fofoca pela metade e pensando nas possibilidades. Nenhuma me parecia muito convincente porque eu conheço Léo muito bem. Na minha cabeça, aquela história não fazia o mínimo sentido.
— Ele acordou? — A voz doce da minha esposa me tirou dos pensamentos.
— Não, amor. Apagadinho. — Confirmei.
— A mãe dela só fez a transferência de turma, alegando que a atual é muito agitada e desconcentra Lalá. Justificou as faltas com uma virose, sem apresentar atestado médico, e... Ela voltou hoje para fazer a avaliação. — Juh me informou.
— O que esse pessoal deve ter colocado na cabeça dessa menina, meu Deus... — Comentei, saindo do estacionamento.
Não estava um clima para praia. Também não estávamos com trajes de banho. Ainda assim, era um dia livre e estávamos na rua sem compromisso algum para cumprir, o que vinha sendo uma raridade na nossa realidade.
Parei em um lugar calminho e mais isolado e ficamos sentadas em um quiosque.
— Amor, Léo é gay ou bi? — Perguntei, sem saber como introduzir o assunto.
— Gay, amor — Júlia respondeu, como se fosse óbvio.
— Ele nunca ficou com mulher, não é?
— Oxe, não, ué! — Juh exclamou, rindo.
— Eu não estou entendendo essa história. Iury me disse que não rolou adoção e que Gabriel é filho biológico de Léo. — Falei de uma vez.
— Amor, isso é impossível. — Júlia afirmou, chocada.
— Eu sei, gatinha... Não consigo imaginar, em nenhum universo, a possibilidade de LÉO inseminar uma MULHER, seja lá qual for o método. — Disse e começamos a rir.
— O que mais Iury contou? — Júlia quis saber.
— Nada. Disse para eu aguardar até o final de semana. — Falei, revirando os olhos.
— É muito estranho Léo não ter ligado para falar nada, não é? Foi minha mãe quem nos passou a notícia... — Juh comentou, reflexiva.
— Amor, tudo está estranho nessa história. — Comentei, ainda pensando a respeito.
— Ele ignorou um filho até os quase três anos do menino? Não... — Júlia também comentou.
— Não consigo imaginar LÉO em nenhuma dessas situações. — Falei, extremamente curiosa.
— Só esperando o final de semana. — Juh disse.
— Aff, odeio fofoca pela metade. — Reclamei.
— Olha como sua mamãe é fofoqueira, filho. — Júlia brincou.
Dom acordou nesse momento e eu ri.
— Escolhemos o pior dia para vir à praia com ele pela primeira vez. — Falei, pegando-o no colo.
— A gente vai omitir essa parte da história dele. — Juh brincou.
Ninho estava muito participativo naquele dia. Era muito bonitinho vê-lo tão atento a tudo e querendo colocar na boca qualquer coisa que estivesse ao alcance de suas ágeis e pequenas mãozinhas.
— Ele virou uma bolinha. — Juh comentou enquanto eu brincava com ele, erguendo-o no ar.
— E tudo isso com seu leite. — Lembrei-a.
— Eu ficava morrendo de medo de não ter leite... — Juh comentou, orgulhosa, apoiando a cabeça em mim.
Virei o rosto para dar um beijinho nela.
Já em casa, recebemos uma ligação de Kaká. Ele nos contou que tanto ele quanto Mih tinham se saído bem na avaliação e que ela tinha conseguido conversar com Lalá.
As duas decidiram se afastar para não piorar a situação dentro da casa da garota e também para evitar que uma medida mais drástica, como uma transferência de escola, fosse tomada.
Quando chegaram em casa, Milena nos contou mais sobre a conversa que tiveram e, apesar de estar longe de ser o cenário ideal, parecia estar mais conformada com o rumo que a história havia tomado.
Conformada até demais para o meu gosto, o que me fez pensar que talvez ela não estivesse nos contando tudo.
Ainda assim, não insisti.
Obviamente era uma situação que me preocupava bastante por causa do bem-estar da minha filha, porém ela estava crescendo e aprendendo a lidar com novos desafios. Decidi, então, não me envolver tanto. Afinal, infelizmente eu não poderia protegê-la de todas as decepções que inevitavelmente surgiriam ao longo da vida.
Mih sabia que estávamos ali e que poderia nos procurar a qualquer momento para conversar, chorar, reclamar ou simplesmente receber um abraço. Isso era o mais importante!
