Marco

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 7710 palavras
Data: 11/06/2026 00:21:09
Assuntos: Gay

Marco não era o tipo de homem que Caíque costumava escolher.

Esse foi o primeiro problema.

Caíque gostava de homens que anunciavam o perigo logo na entrada. Os excessivamente bonitos, os performáticos, os que riam alto demais, os que sabiam exatamente o efeito que causavam, os que carregavam no corpo uma espécie de aviso luminoso: aproxime-se por sua conta e risco. Com esses, ele sabia lidar. Bastava não acreditar em tudo, não entregar demais, não fazer planos e sair antes que a manhã transformasse charme em constrangimento.

Marco era outra coisa.

Não parecia querer impressionar ninguém. Não disputava o centro da sala. Não levantava a voz para vencer conversa. Não contava histórias procurando plateia. Era bonito de um jeito menos óbvio, e talvez por isso mais perigoso. A beleza dele não entrava antes; ficava depois. Aparecia quando sorria sem defesa, quando franzia a testa diante de uma frase inteligente, quando baixava os olhos antes de responder alguma coisa sincera demais.

Naquela primeira noite, no apartamento de Davi, Caíque voltou para casa com a irritante sensação de que Marco tinha ficado.

Não no bolso, nem na pele, nem no desejo mais simples. Tinha ficado em uma região mais funda e menos administrável. Uma pergunta aberta. Uma janela acesa.

Caíque detestava perguntas abertas.

Na manhã seguinte, acordou tarde, com a boca seca do vinho e uma lembrança precisa: Marco segurando o copo com as duas mãos perto da janela, como se precisasse de algum objeto para não parecer vulnerável demais. Levantou, fez café, tentou ler o jornal, pulou de notícia em notícia sem conseguir se concentrar.

Pensou:

“Homem bonito e triste dá trabalho.”

Era a voz de Lúcia Helena dentro da cabeça.

Depois pensou:

“Eu já sei disso.”

Mas saber nunca impediu ninguém de se aproximar do abismo. No máximo, dava vocabulário para a queda.

Durante aquela semana, Marco apareceu em lugares inesperados. Não fisicamente. Pior: em intervalos. No corredor do banco, enquanto Caíque esperava uma assinatura. No almoço, quando alguém falou de cinema italiano. À noite, quando abriu a janela do apartamento e viu a vastidão seca de Brasília. Marco surgia associado a coisas silenciosas: vidro, noite, pergunta, camisa azul, riso raro.

Caíque tentou tratar o assunto como tratava quase tudo que ameaçava sua estabilidade: com deboche.

No café do BNDES, Lúcia Helena não deixou passar.

— Está com cara de quem dormiu pensando.

— Eu sempre penso.

— Não desse jeito. Esse é pensamento com endereço.

— Você está insuportável.

— Obrigada. É uma das minhas formas de cuidado.

Caíque mexeu o café.

— Ele é sempre daquele jeito?

— Que jeito?

— Quieto.

— Marco?

— Não citei nomes.

— Mas pensou com sotaque.

Caíque suspirou.

Lúcia Helena sorriu com satisfação indecente.

— Ele é quieto, sim. Mas não é vazio. Cuidado para não confundir silêncio com falta de história.

— Eu não confundo.

— Confunde, sim. Você acha que todo mundo precisa ser narrador de si mesmo como você.

— Eu não sou narrador de mim mesmo.

— Meu querido, você transforma até ida à padaria em capítulo.

Caíque quis negar, mas não encontrou argumento.

— Ele perguntou de mim? — soltou, antes que pudesse impedir.

Lúcia Helena abriu um sorriso lento.

— Ah.

— Não faz esse “ah”.

— Fez a pergunta.

— Fiz uma pergunta administrativa.

— Claro. Desejo protocolado.

— Ele perguntou?

Ela tomou um gole de café com a calma de quem segurava poder.

— Perguntou.

Caíque tentou parecer indiferente.

— O quê?

— Se você sempre falava como se estivesse se defendendo e seduzindo ao mesmo tempo.

Ele ficou imóvel por um instante.

— E você disse o quê?

— Que sim.

— Lúcia.

— Ué. Era verdade.

Caíque olhou para o café.

Sentiu-se exposto e, estranhamente, visto.

Não era um comentário banal. Marco tinha percebido algo que muita gente confundia com charme. A rapidez de Caíque, sua ironia, sua inteligência social, sua capacidade de devolver qualquer frase antes que ela o ferisse — tudo isso era, sim, defesa. Mas também era convite. Uma porta com trinco e vitral. Uma forma de dizer “chegue perto” enquanto preparava a saída de emergência.

— Ele disse mais alguma coisa?

— Disse que você parecia alguém que tinha aprendido a entrar nos lugares antes de se sentir convidado.

Caíque ficou sem resposta.

Lúcia Helena, pela primeira vez, não brincou.

— Ele presta atenção.

— Isso é perigoso.

— Eu avisei.

Na sexta-feira seguinte, houve outro encontro. Não por acaso, embora todos fingissem que sim. Davi organizou um jantar menor, apenas oito pessoas. Lúcia Helena convidou Caíque com falsa inocência. Marco apareceu meia hora depois dele, usando uma camisa clara e carregando uma garrafa de vinho como quem oferece desculpa.

— Trouxe isso — disse a Davi.

— Ótimo. Se for ruim, diremos que é conceitual.

Marco sorriu.

Quando viu Caíque, o sorriso se ajustou. Ficou menor, mais verdadeiro.

— O tradutor de si mesmo — disse.

Caíque gostou da lembrança.

— Ainda em revisão.

— Toda boa tradução fica.

— Você acredita nisso?

— Acredito que versões definitivas são suspeitas.

Caíque ergueu a taça.

— A essa frase eu bebo.

Dessa vez, conversaram mais.

Não houve a tensão coletiva da primeira apresentação. O grupo era menor, o ambiente mais íntimo. A sala de Davi continuava desorganizada: pilhas de livros, discos fora das capas, cinzeiros cheios, uma luminária torta, almofadas no chão. A janela aberta deixava entrar o ar seco e a noite de Brasília, aquela noite que parecia sempre grande demais para os apartamentos.

Marco trabalhava em um órgão público ligado à área de planejamento. Não falou muito sobre o trabalho, talvez por discrição, talvez por tédio. Disse que passava os dias lendo documentos escritos por pessoas que tentavam transformar incerteza em frase oficial.

— Ou seja, literatura ruim — disse Caíque.

— Com consequências.

— A pior espécie.

Marco riu.

Caíque descobriu que gostava de fazê-lo rir. Não pelo aplauso, como com outros. Com Marco, o riso parecia conquista íntima, quase uma permissão.

Falaram de cinema. Marco gostava de Antonioni, o que fez Caíque acusá-lo de sofrimento estético.

— Você gosta de filme em que as pessoas olham para paredes e não resolvem a vida?

— Às vezes, a vida não se resolve. Só muda de enquadramento.

— Isso é muito bonito e muito irritante.

— Obrigado.

— Não foi elogio.

— Eu recebi como se fosse.

Falaram do Rio. Marco conhecia pouco. Tinha ido algumas vezes, sempre de passagem. Caíque descreveu Copacabana, a Galeria Alaska sem nomeá-la totalmente, os bares, a maresia, o barulho. Marco escutava com atenção, mas não com inveja. Escutava como quem entende que certas cidades são, para certas pessoas, uma segunda pele.

— O Rio te salvou? — perguntou.

Caíque olhou para ele.

A pergunta era simples demais para resposta honesta.

— Me recebeu sem perguntar demais. Na época, já era salvação suficiente.

Marco assentiu.

— Brasília pergunta demais sem parecer que pergunta.

— E você? Pergunta muito?

— Só quando a resposta importa.

Caíque desviou o olhar primeiro.

Isso o irritou.

Mais tarde, quando a noite avançou e os convidados se espalharam, os dois ficaram na cozinha. Davi discutia política na sala. Lúcia Helena ria alto de alguma história de Irene. A pia estava cheia de copos. Havia uma panela esquecida no fogão, cheiro de alho e vinho derramado na toalha.

Marco lavava taças.

Caíque secava.

A cena era doméstica demais para dois homens que ainda fingiam casualidade.

— Você sempre ajuda na cozinha? — Caíque perguntou.

— Ajuda a escapar das conversas.

— Janela, cozinha… você tem muitas formas educadas de fugir.

— E você tem muitas formas elegantes de perseguir.

Caíque quase deixou a taça cair.

Marco continuou lavando, como se não tivesse dito nada de especial.

— Eu persigo?

— Com palavras.

— Isso é crítica?

— Observação.

— Observação costuma ser crítica vestida para jantar.

Marco sorriu.

— Nem sempre.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. A água corria. Do outro cômodo vinha uma música baixa. Caíque secou uma taça com cuidado excessivo.

— Você foge do quê? — perguntou.

Marco desligou a torneira.

Não respondeu de imediato.

— De gente que quer me definir rápido demais.

— Eu fiz isso?

— Ainda não.

— Ainda?

— Você gosta de entender.

— Entender é melhor do que se perder.

Marco virou-se para ele.

— Nem sempre.

Caíque sentiu a frase como um leve empurrão.

Havia em Marco uma recusa silenciosa a ser capturado por inteligência alheia. Isso desarmava Caíque. Com muitos homens, ele conseguia antecipar respostas, classificar dores, prever fugas. Marco resistia à leitura. Não porque fosse misterioso por vaidade, mas porque parecia proteger algo que nem ele mesmo tocava facilmente.

Quando terminaram a louça, Marco pegou a própria taça e voltou para a janela. Caíque o seguiu depois de alguns minutos, fingindo que ia apenas respirar.

— Você está me seguindo? — Marco perguntou, sem olhar.

— Estou apreciando a vista.

— A vista está do outro lado.

— Depende.

Marco olhou para ele.

Dessa vez, o silêncio não foi apenas confortável. Foi carregado.

Caíque sentiu o impulso de fazer uma piada. Era o caminho natural. Uma frase afiada, uma saída lateral, uma cortina de fumaça. Mas algo no rosto de Marco pediu outra coisa.

Então Caíque não disse nada.

Marco também não.

Por alguns segundos, ficaram apenas ali, próximos, olhando um para o outro enquanto a festa continuava atrás deles.

Não se tocaram.

Mas ambos perceberam o espaço entre os corpos como uma presença física.

Ao se despedirem, Marco disse:

— Gostei de conversar com você.

— Eu também.

— Mesmo quando te irrito?

— Principalmente quando me irrita.

Marco sorriu.

— Isso pode ser um problema.

— Quase tudo interessante é.

Dessa vez, o aperto de mão demorou mais.

Não o bastante para ser denúncia. O suficiente para ser memória.

Na semana seguinte, Caíque esperou.

Odiou esperar.

Esperar lhe parecia um rebaixamento. Ele, que fugira de casa, cruzara estradas, construíra vida, passara em concurso, mudara de cidade, agora se via interpretando a possibilidade de um telefonema como adolescente sem repertório.

Lúcia Helena assistia ao espetáculo com crueldade afetuosa.

— Você está ridículo.

— Estou trabalhando.

— Está relendo o mesmo documento há vinte minutos.

— É um documento complexo.

— É uma circular sobre mobiliário.

Caíque fechou a pasta.

— Você tem alguma notícia?

— De mobiliário?

— Lúcia.

Ela sorriu.

— Marco perguntou se você gosta de caminhar.

— Caminhar?

— É. Essa atividade humana básica.

— Perguntou por quê?

— Porque talvez queira te chamar para caminhar.

— Onde se caminha em Brasília? Tudo é longe demais.

— Justamente. Dá tempo de conversar.

— Ele podia me ligar.

— Podia. Mas Marco se aproxima como quem testa a temperatura da água.

— Eu sou água?

— Você é incêndio fingindo ser taça.

Caíque odiou gostar da frase.

O convite veio dois dias depois. Um bilhete deixado com Lúcia Helena, porque Brasília era moderna o suficiente para ter monumentos futuristas, mas ainda dependia de bilhetes para desejos discretos.

“Caíque,

Sábado, fim da tarde, caminhada perto da Ermida? Dizem que o pôr do sol explica melhor a cidade do que os arquitetos.

Marco.”

Caíque leu três vezes.

— Que afetação — disse.

Lúcia Helena arrancou o bilhete da mão dele.

— Que delicadeza.

— Afetação delicada.

— Você vai?

— Claro que não.

No sábado, foi.

Escolheu roupa por tempo demais. Isso o irritou ainda mais. No fim, vestiu uma camisa simples, calça escura, sapatos confortáveis. Passou perfume e depois achou que tinha passado demais. Abriu a janela para o cheiro dissipar. Sentiu-se ridículo. Saiu.

Marco já estava no local combinado.

O céu começava a mudar de cor. Brasília, no fim da tarde, perdia parte da dureza. O concreto ficava dourado, as sombras alongavam os prédios, o seco do ar parecia menos hostil. Havia algo quase comovente na maneira como a luz tocava a cidade antes de abandoná-la.

Marco usava camisa clara, mangas dobradas, cabelo ligeiramente bagunçado pelo vento. Estava sem copo nas mãos dessa vez, e Caíque percebeu que isso o deixava mais exposto.

— Você veio — disse Marco.

— Parece que sim.

— Parecia em dúvida?

— Eu estava em dúvida sobre a qualidade arquitetônica do programa.

— E concluiu?

— Que você tem sorte de o céu ajudar.

Marco riu.

Começaram a caminhar.

No início, falaram de coisas laterais. Trabalho, cidade, clima, a mania de Brasília de obrigar todo mundo a depender de carro, os preços absurdos de certos mercados, o tédio solene de alguns eventos oficiais. Caíque reclamava com elegância. Marco ouvia e respondia com observações breves, precisas.

Aos poucos, a conversa entrou em regiões menos seguras.

— Você fala pouco da sua família — Marco disse.

Caíque olhou para frente.

— Porque isso melhora a conversa.

— Entendo.

— Entende?

— Mais do que gostaria.

Caíque esperou.

Marco demorou a continuar.

— Minha família não tentou me destruir de forma espetacular. Foi tudo mais educado. Expectativas, silêncios, frases incompletas. Aquela violência que vem com guardanapo de pano.

— Violência de sala de jantar.

— Exato.

Caíque gostou da precisão.

— A minha foi menos refinada.

Marco não perguntou imediatamente. Isso o fez confiar um pouco.

— Um dia eu conto — Caíque disse.

— Quando?

— Quando eu tiver certeza de que você não vai transformar em explicação total sobre mim.

Marco parou de andar por um instante.

— Eu não faria isso.

— Todo mundo faz um pouco.

— Talvez. Mas eu tentaria não fazer.

Caíque olhou para ele.

Essa frase, “eu tentaria”, lhe pareceu mais honesta que qualquer promessa grandiosa.

Continuaram caminhando.

O sol baixava. A cidade ao longe parecia desenho. O lago refletia uma luz quase metálica. Um grupo de jovens conversava em algum ponto distante. Um casal heterossexual passava de mãos dadas sem pensar no privilégio daquele gesto. Caíque notou, como sempre notava.

Marco também.

— Você viu? — perguntou.

— O casal?

— Sim.

— Vi.

— Às vezes me impressiona a naturalidade.

Caíque soltou uma risada curta.

— A heterossexualidade é muito mal-acostumada.

Marco sorriu, mas havia tristeza.

— Eles podem ser banais em público.

— E nós precisamos ser poéticos até para encostar o dedo.

— Ou criminosos.

— Depende da iluminação.

Marco olhou para ele.

— Você sente raiva?

Caíque pensou antes de responder.

— Sinto. Mas ela aprendeu a usar sapato bom.

— Como assim?

— Não sai correndo. Chega no horário. Observa. Escolhe frase. Assina documento. Passa em concurso.

Marco ficou em silêncio.

— Raiva disciplinada — disse.

— Algo assim.

— Eu acho que a minha virou cansaço.

Caíque quis tocar nele.

Não tocou.

— Cansaço também é uma forma de raiva sem plateia.

Marco olhou para o lago.

— Talvez.

Sentaram-se em um banco.

O céu estava agora entre laranja, rosa e azul escuro. Brasília parecia menos real naquele horário. Ou talvez mais.

Marco falou de sua infância, mas como quem escolhe palavras em campo minado. Vinha de uma família de classe média, rígida, preocupada com aparência. O pai acreditava em carreira, sobriedade e reputação. A mãe parecia amar os filhos, mas com medo de qualquer desvio que pudesse envergonhá-la diante dos outros. Marco aprendera cedo a ser correto: boas notas, postura, silêncio, nenhum escândalo.

— Eu era o filho fácil — disse. — O que não dava trabalho.

— Isso é uma prisão eficiente.

— Sim. Porque todo mundo elogia a grade.

Caíque sentiu uma identificação dolorosa.

E uma diferença.

Ele fugira com barulho interno. Marco ficara tempo demais. Talvez ainda estivesse ficando.

— Você nunca saiu? — perguntou.

— Saí por dentro primeiro. Depois fui saindo aos pedaços.

— E agora?

Marco olhou para ele.

— Agora não sei.

Caíque percebeu que aquela resposta era convite e aviso.

Não se beijaram no pôr do sol.

Anos depois, Caíque agradeceria por isso. Beijos no pôr do sol têm uma tendência perigosa ao clichê. O que aconteceu foi mais discreto e, por isso mesmo, mais definitivo.

Na hora de ir embora, caminharam até um ponto menos iluminado. Não havia muita gente perto. Marco parou.

— Eu queria te ver de novo sem precisar de pretexto coletivo — disse.

Caíque sorriu.

— Caminhada arquitetônica já foi um pretexto fraco.

— Posso melhorar.

— Espero.

Marco hesitou.

Depois tocou de leve o pulso de Caíque.

Não foi mão dada. Não foi carícia aberta. Foi um toque breve, quase acidental se alguém olhasse de longe. Mas nenhum dos dois o viveu como acidente.

Caíque sentiu o calor dos dedos de Marco em um ponto pequeno do corpo e, absurdamente, o toque pareceu mais íntimo que muitos beijos que já dera.

— Quinta? — Marco perguntou.

— Quinta.

— Sem arquitetura?

— Por favor.

Marco sorriu.

O toque se desfez.

Caíque voltou para casa com o pulso aceso.

Na quinta, encontraram-se em um café discreto. Depois em outro apartamento. Depois em uma sessão de cinema. Depois em um bar onde ninguém conhecido apareceu. Depois em uma livraria. Depois, sem perceberem exatamente quando, passaram a fazer parte da rotina um do outro.

O romance não começou com declaração.

Começou com repetição.

Marco ligando para comentar um filme que Caíque havia criticado sem ver.

Caíque comprando um livro usado que Marco mencionara de passagem.

Marco lembrando que Caíque não gostava de determinado vinho.

Caíque percebendo que Marco ficava desconfortável quando alguém falava alto demais perto dele.

Marco deixando de segurar o copo com as duas mãos quando estava ao lado de Caíque.

Caíque, sem planejar, fazendo menos piadas em certos silêncios.

A intimidade se instalou como poeira fina: quando perceberam, estava sobre tudo.

Mas amar outro homem em Brasília nos anos 80 exigia logística.

A palavra era feia, mas precisa.

Não havia espontaneidade plena. Havia horários possíveis, lugares seguros, caminhos alternativos, telefonemas curtos, nomes omitidos, cuidado com porteiros, cuidado com colegas, cuidado com conhecidos de conhecidos. A cidade era grande no mapa, pequena na fofoca. E o mundo oficial de Brasília tinha ouvidos em paredes que pareciam de concreto puro.

Caíque conhecia o risco. Marco também.

Mas reagiam de modos diferentes.

Caíque usava o risco como palco. Transformava medo em comentário, tensão em ironia, obstáculo em coreografia.

— Se alguém perguntar, estamos discutindo política econômica — dizia, quando Marco chegava ao apartamento dele.

— Às onze da noite?

— Desenvolvimento nacional não tem hora.

Marco ria, mas às vezes o riso não chegava inteiro.

— Você acha tudo engraçado.

— Não. Eu faço ficar engraçado antes que fique insuportável.

— E funciona?

— Até não funcionar.

Marco entendia.

O apartamento de Caíque, que no início parecia impessoal, começou a mudar. Primeiro, um livro de Marco esquecido na mesa. Depois, uma escova de dentes que ele deixou “por praticidade”. Depois, um disco. Depois, uma camisa azul no encosto da cadeira. Depois, uma xícara preferida. Pequenas ocupações territoriais.

Caíque fingia reclamar.

— Meu apartamento está virando repartição sua.

— Posso protocolar retirada.

— Indeferido.

Marco sorria.

A primeira noite em que Marco dormiu lá não foi planejada. Choveu forte, uma chuva rara e dramática para Brasília. A cidade, despreparada para água, parecia surpresa consigo mesma. Marco estava no apartamento de Caíque depois de um jantar simples: massa, vinho barato, pão, uma salada que nenhum dos dois respeitou.

A chuva começou quando ele ia embora.

— Melhor esperar — disse Caíque.

Marco ficou.

Esperaram no sofá. A chuva aumentou. Conversaram menos. A proximidade, que até então vinha sendo cuidadosamente administrada, perdeu a paciência.

O primeiro beijo entre eles aconteceu sem frase anterior.

Marco estava dizendo alguma coisa sobre a chuva quando parou no meio da sentença. Caíque olhou para ele. Havia momentos em que o corpo entende antes da linguagem. Aproximaram-se quase ao mesmo tempo.

Foi um beijo lento, sem a urgência performática das noites da Galeria. Não havia conquista ali. Havia reconhecimento. Como se ambos tivessem passado semanas caminhando ao redor de uma porta e, de repente, descobrissem que ela já estava aberta.

Caíque sentiu Marco tremer levemente.

Afastou-se um pouco.

— Tudo bem?

Marco fechou os olhos por um segundo.

— Sim.

— Você tem certeza?

Marco abriu os olhos.

— Tenho. Só estou tentando não fugir.

A resposta desarmou Caíque.

— Eu também — disse.

Marco tocou seu rosto.

— Você não parece.

— Eu treino melhor.

Beijaram-se de novo.

A noite deles não pertence a ninguém além deles. O que importa é que, quando a chuva terminou, Marco não foi embora. Dormiu ali. Pela manhã, acordou antes de Caíque e ficou olhando para o teto, imóvel, como se tentasse entender se a vida havia mudado de forma irreversível durante o sono.

Caíque abriu os olhos e o viu.

— Arrependido?

Marco virou o rosto.

— Assustado.

— Melhor ou pior?

— Mais honesto.

Caíque tocou sua mão por baixo do lençol.

— Eu também.

Marco entrelaçou os dedos nos dele.

Esse gesto, mais do que a noite, foi o que Caíque guardou.

Aos poucos, tornaram-se um casal sem nome público.

Para os amigos próximos, era evidente. Lúcia Helena percebeu antes que eles contassem.

— Vocês estão com cara de quem parou de dormir direito por bons motivos — disse.

Davi apenas ergueu a taça:

— À diplomacia do desejo.

Irene, naturalmente, já sabia.

— Eu sou arquivo — lembrou.

Nos ambientes oficiais, eram amigos. Amigos que chegavam separados, saíam em horários diferentes, não se tocavam diante de certos olhos, inventavam razões para telefonemas, evitavam fotografias comprometedoras. A palavra “amigo” tinha uma elasticidade cruel. Servia para proteger e para apagar.

Caíque odiava isso em alguns dias.

Em outros, agradecia.

— Eu queria poder dizer — falou uma noite, deitado ao lado de Marco.

— Dizer o quê?

— Que você é meu.

Marco ficou tenso.

Caíque percebeu.

— Não no sentido de posse.

— Eu sei.

— No sentido de existência.

Marco respirou devagar.

— Eu também queria.

— Mas?

— Mas tenho medo.

Caíque virou-se para ele.

— De quê?

Marco riu sem humor.

— Você quer lista alfabética?

— Se ajudar.

— De perder trabalho. De destruir minha mãe. De virar comentário de corredor. De ser tratado como caricatura. De você cansar do meu medo. De eu cansar do seu deboche. De a gente querer uma coisa que o mundo não deixa existir direito.

Caíque ouviu.

Não respondeu rápido. Estava aprendendo que, com Marco, algumas respostas precisavam amadurecer antes de sair.

— Eu não vou fingir que não tenho medo — disse por fim. — Tenho. Só que o meu medo costuma chegar atrasado porque meu orgulho vai na frente.

Marco sorriu de leve.

— Eu percebi.

— Mas eu não quero que o medo seja a única pessoa adulta da relação.

Marco ficou quieto.

Depois encostou a testa no ombro de Caíque.

— Eu estou tentando.

— Eu sei.

— Você tem paciência?

Caíque pensou em responder com piada. Não respondeu.

— Tenho mais do que pareço.

Marco fechou os olhos.

A relação dos dois foi construída sobre esse acordo imperfeito: coragem de um lado, cautela do outro; humor e silêncio; avanço e recuo; desejo e medo negociando o mesmo espaço.

Não era simples.

Mas era real.

Eles criaram rituais.

Aos domingos, quando podiam, cozinhavam juntos. Marco cortava legumes com precisão irritante. Caíque improvisava temperos e dizia que receita era sugestão, não lei.

— Você é anárquico até com alho — Marco dizia.

— Alho entende liberdade.

Tinham um café preferido, onde sentavam em uma mesa de canto. Discutiam livros que nenhum dos dois terminara. Inventavam biografias para desconhecidos. Marco era melhor nas histórias tristes; Caíque, nas escandalosas.

Tinham uma livraria onde se perdiam. Marco tocava as lombadas dos livros antes de escolher. Caíque pegava vários, lia a primeira página, criticava três e comprava dois.

Tinham um banco em uma quadra arborizada. Não se sentavam perto demais quando havia gente. Mas, se estavam sozinhos, os joelhos se tocavam. Era ridículo que um joelho pudesse carregar tanta eletricidade.

Tinham frases próprias.

Quando um queria dizer “senti sua falta” sem dizer diretamente, perguntava:

— A cidade se comportou?

Quando a resposta era “não”, significava saudade.

Quando Marco estava triste, dizia:

— Hoje a janela venceu.

Caíque então aparecia com comida, vinho ou silêncio, dependendo da gravidade.

Quando Caíque estava ferido, mas tentando fazer piada, Marco dizia:

— Tira o sapato da raiva.

Era uma referência antiga. Caíque resmungava, mas quase sempre obedecia.

O amor deles cresceu nesses códigos.

E, justamente por isso, parecia mais forte. O que não podia ser dito em público se multiplicava em linguagem privada. Tinham um idioma clandestino. Uma pequena pátria.

Marco mudou Caíque de maneiras que ele só reconheceria anos depois.

Antes dele, Caíque confundia liberdade com movimento. Ir, sair, circular, desejar, conquistar, escapar. Com Marco, descobriu uma liberdade mais difícil: permanecer. Ficar depois da vulnerabilidade. Não transformar todo incômodo em saída. Não vencer toda conversa. Não desaparecer quando a ternura pedia presença.

Marco, por sua vez, mudou ao lado de Caíque. Não se tornou expansivo. Não virou outro homem. Mas começou a ocupar mais espaço no próprio corpo. Ria com menos culpa. Fazia comentários mais ácidos. Dançava mal em salas pequenas. Às vezes, quando estava entre amigos seguros, tocava brevemente o braço de Caíque sem olhar em volta primeiro.

Na primeira vez que fez isso, Caíque quase chorou.

Carmem soube de Marco por carta.

Caíque tentou escrever de forma casual.

“Conheci alguém. Nome: Marco. Bonito, quieto, inteligente, melancólico em excesso. Você diria que é isca. Talvez seja. Talvez eu já esteja mordendo.”

A resposta veio semanas depois:

“Meu filho,

Homem bonito e triste é perigo, mas homem que faz a gente querer ficar merece pelo menos investigação.

Não confunda amor com resgate. Não confunda medo com profundidade. Não confunda silêncio com mistério se for só covardia.

Mas, se ele for bom, seja bom também. Você às vezes usa ironia como quem tranca porta.

E transe, porque ninguém é de ferro.

C.”

Caíque riu sozinho ao ler.

Marco perguntou:

— Notícia boa?

— Carmem.

— A famosa?

— A própria.

— Ela sabe de mim?

— Sabe o suficiente para te julgar.

— Sem me conhecer?

— É o método dela.

Marco leu a carta depois, com permissão. Riu no final, mas ficou sério no trecho: “não confunda amor com resgate”.

— Ela é inteligente.

— E perigosa.

— Ela acertou?

Caíque sabia o que Marco perguntava.

— Não estou tentando te resgatar.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Porque às vezes eu pareço precisar.

Caíque sentou-se ao lado dele.

— Todo mundo precisa às vezes. Mas eu não quero ser seu salvador.

— O que você quer ser?

A pergunta veio baixa.

Caíque demorou.

— Casa talvez seja palavra demais.

Marco o olhou.

— Mas?

— Mas alguma coisa onde você não precise atuar.

Marco abaixou os olhos.

Foi uma das primeiras vezes em que Caíque viu claramente o quanto ele estava cansado.

A partir daí, a confiança entre eles se aprofundou.

Marco contou mais.

Sobre a família, sobre o pai distante, sobre a mãe que amava com medo, sobre um primo que o humilhara na adolescência, sobre o primeiro homem que beijara e nunca mais vira, sobre a culpa que carregava sem acreditar exatamente nela, sobre o pânico de adoecer em um mundo onde certos corpos já eram tratados como culpados antes do diagnóstico.

Caíque contou também.

Não tudo de uma vez. A história da lobotomia veio em uma noite particularmente silenciosa, depois que ouviram uma notícia no rádio sobre violência contra jovens considerados “desviados”. Marco desligou o aparelho. Caíque ficou olhando para as próprias mãos.

— Meu pai queria mandar abrir minha cabeça — disse.

Marco não entendeu de imediato.

— Como assim?

Caíque contou.

A sala pareceu perder ar.

Falou da conversa atrás da porta. Da palavra. Do médico. Da mãe calada. Da fuga. Do cachorro que não latiu. Da estrada. Do Rio. Da primeira vez que viu o mar. Do nome escolhido.

Marco ouviu sem interromper.

Quando Caíque terminou, não fez perguntas apressadas. Não disse “sinto muito” imediatamente, como tanta gente diz para encerrar a dor do outro com educação. Apenas segurou sua mão.

Por muito tempo.

Depois disse:

— Ainda bem que você fugiu.

Caíque sentiu algo quebrar e se recompor no mesmo instante.

— Foi a única coisa inteligente que eu fiz sem planejar.

— Não. Foi a primeira vez que você escolheu sua vida.

Caíque olhou para ele.

Essa frase entrou em um lugar onde nem o deboche alcançava.

Naquela noite, dormiram abraçados.

Caíque, que costumava acordar com qualquer ruído, dormiu pesado. Como se uma parte antiga de seu corpo finalmente tivesse entendido que não estava mais naquele corredor.

Mas o mundo não permitia felicidade sem cobrança.

Os anos 80 começaram a trazer uma sombra nova.

No início, eram notícias vagas. Uma doença misteriosa, casos em outros países, homens jovens adoecendo, boatos, preconceito. Depois os boatos ganharam nomes. Depois os nomes ganharam rostos. Depois os rostos começaram a se parecer com conhecidos.

Nas festas, a palavra circulava em sussurros.

Câncer gay.

Peste.

Castigo.

Síndrome.

AIDS.

Ninguém sabia exatamente o que fazer com o medo. Alguns negavam. Outros entravam em pânico. Alguns transformavam ignorância em moralismo. Outros desapareciam. Havia informações desencontradas, médicos despreparados, jornais cruéis, famílias abandonando filhos, amantes proibidos de visitar hospitais, corpos tratados como prova de culpa.

Caíque, que havia sobrevivido a tantas formas de condenação, reconheceu a estrutura antes de entender a doença.

— Vão usar isso contra nós — disse a Marco.

— Já estão usando.

— Como se precisassem de motivo novo.

Marco ficou mais silencioso nesse período.

Não de uma vez. Aos poucos. A cada notícia, a cada conhecido que “emagrecia”, a cada festa em que alguém comentava ausência de alguém, uma sombra parecia se instalar nos olhos dele.

Caíque tentava equilibrar cuidado e negação.

— Não vamos morrer de manchete — dizia.

Marco não ria.

— Não é a manchete que me assusta.

— Eu sei.

— Você não sabe.

A frase doeu.

— Então me explica.

Marco respirou fundo.

— Eu tenho medo de que a nossa vida vire prova contra nós. De que cada coisa boa seja reinterpretada como culpa. De que, se eu adoecer, digam que eu mereci. De que, se você adoecer, eu não possa nem dizer quem sou.

Caíque ficou quieto.

Pela primeira vez, não encontrou resposta.

AIDS, naquele momento, ainda era uma ameaça difusa, mas já afetava o modo como se tocavam, como ouviam notícias, como viam amigos. O desejo, antes território de libertação, ganhava uma borda de perigo novo. Não o perigo antigo da polícia, da família, da exposição. Um perigo biológico, invisível, mal explicado, carregado de julgamento social.

Ainda assim, amavam.

Talvez com mais urgência.

Os encontros se tornaram mais preciosos. Os domingos mais importantes. As pequenas rotinas, mais sagradas. Marco começou a deixar mais coisas no apartamento de Caíque. Caíque parou de fingir reclamação. Comprou uma segunda toalha melhor. Marco percebeu.

— Isso é um compromisso doméstico?

— É apenas uma toalha.

— Toalhas são perigosas.

— Mais que homens bonitos e tristes?

— De outro jeito.

Caíque se aproximou.

— Então estamos perdidos.

Marco sorriu.

Foi em uma noite comum, sem chuva, sem festa, sem marco externo, que Caíque percebeu que amava Marco.

Não foi durante um beijo, nem uma cena dramática. Foi enquanto Marco lia sentado no sofá, usando óculos, com uma das pernas dobrada, completamente distraído. De vez em quando, franzia a testa e anotava alguma coisa na margem do livro. A luz do abajur caía sobre seu rosto. Havia uma xícara de café esfriando ao lado.

Caíque olhou para ele e pensou:

“Se este homem morrer, uma parte da cidade apaga.”

O pensamento o assustou.

Amor, para ele, sempre tivera alguma relação com exagero. Mas aquele não era exagero. Era constatação. Marco havia se tornado parte da iluminação interna do mundo.

— O que foi? — Marco perguntou, sem levantar os olhos.

— Nada.

— Você ficou quieto de repente. Isso costuma indicar tragédia ou frase boa.

— Talvez as duas.

Marco olhou para ele.

Caíque não disse “eu te amo”.

Ainda não.

Em vez disso, perguntou:

— Você quer mais café?

Marco sorriu.

— Quero.

Caíque foi para a cozinha.

Enquanto servia, encostou-se na pia e fechou os olhos.

Estava perdido.

Quando finalmente disse, semanas depois, foi sem preparação.

Estavam no carro de um amigo, voltando de uma festa pequena. Desceram algumas quadras antes para evitar comentários. Caminhavam lado a lado por uma rua quase vazia. Não podiam dar as mãos. O ar seco tornava tudo nítido.

Marco contava uma história sobre Davi ter discutido com um poeta insuportável. Caíque ria. De repente, a frase saiu.

— Eu te amo.

Marco parou.

Caíque também parou.

Por alguns segundos, a cidade inteira pareceu se afastar.

Marco olhou para ele como se tivesse ouvido algo belo e perigoso.

— Não diz isso de qualquer jeito.

— Eu não disse de qualquer jeito.

— Você tem certeza?

Caíque respirou.

— Tenho.

Marco baixou os olhos.

A demora machucou antes de terminar.

Então ele disse:

— Eu também.

Baixo. Quase sem voz.

Mas disse.

Caíque teve vontade de abraçá-lo ali mesmo, no meio da rua. Não pôde. Ou não teve coragem. Ou ambas as coisas.

Então apenas encostou seu ombro no dele por um segundo, como acidente.

Marco aceitou.

Depois continuaram andando.

O amor deles, como tudo, precisou usar disfarce até na própria celebração.

Naquela noite, quando chegaram ao apartamento, Marco finalmente o abraçou sem pressa. Ficaram assim por muito tempo, de pé, no escuro da sala, como se recuperassem o abraço que a rua lhes negara.

— Eu queria poder te beijar lá fora — Marco disse.

— Um dia.

— Você acredita?

Caíque pensou.

— Hoje não. Mas preciso agir como se acreditasse, senão eles vencem duas vezes.

Marco o apertou mais forte.

O “um dia” ficou entre eles como promessa impossível e necessária.

Com o tempo, alguns amigos passaram a tratá-los como casal, mesmo sem usar a palavra diante de todos. Lúcia Helena chamava Marco de “seu ministério afetivo”. Davi dizia que os dois eram a prova de que a burocracia ainda não conseguira destruir completamente a poesia. Irene anotava tudo mentalmente, para desespero de Caíque.

— Você vai nos colocar em alguma crônica póstuma? — ele perguntou.

— Só se vocês forem interessantes até o fim.

— Cruel.

— Critério editorial.

Marco gostava dela.

— Ela me assusta.

— Porque é arquivo.

— Arquivos sempre assustam quem tem segredos.

— Você tem muitos?

Marco olhou para Caíque.

— Menos agora.

Foi uma das frases mais bonitas que ele lhe disse.

Mas a beleza nunca vinha sozinha.

Certa noite, em uma festa maior, um homem chamado Otávio — o mesmo das primeiras reuniões — aproximou-se de Caíque enquanto Marco conversava longe.

— Vocês dois são próximos, não?

Caíque sentiu o perigo antes da frase terminar.

— Quem?

Otávio sorriu.

— Não me ofenda fingindo ingenuidade. Não combina com você.

— Depende. Ingenuidade, às vezes, é defesa sofisticada.

— Marco é sensível.

— Isso é comentário ou ameaça?

O sorriso de Otávio endureceu.

— Você sempre responde como se estivesse em duelo.

— E você sempre pergunta como se estivesse armado.

Otávio bebeu um gole.

— Brasília é pequena.

— Então caminhe com cuidado. Lugar pequeno aumenta o som da queda.

O homem o encarou.

Depois riu.

— Perigoso mesmo.

— Só para quem chega perto com a mão suja.

Otávio saiu.

Caíque ficou com o coração acelerado.

Marco percebeu mais tarde.

— O que ele queria?

— Ser desagradável.

— Ele sabe?

— Sabe o que quer saber.

Marco ficou pálido.

— Caíque…

— Calma.

— Não diz calma.

— Está bem. Não digo.

— Você não entende. Se isso se espalha…

— Eu entendo.

— Não do meu jeito.

Caíque se irritou.

— Não, talvez não. Mas não fala como se eu tivesse atravessado a vida em carro aberto.

Marco fechou os olhos.

— Desculpa.

O pedido veio rápido, sincero.

Caíque respirou.

— Eu sei que você tem medo.

— Tenho.

— Eu também.

— Mas você transforma em frase.

— E você transforma em silêncio.

Ficaram se olhando.

Era uma das primeiras brigas reais. Não sobre louça, horário ou ciúme, mas sobre modos diferentes de sobreviver.

Marco sentou-se.

— Eu não quero te esconder por vergonha.

— Eu sei.

— Eu escondo porque tenho medo de perder tudo.

— Às vezes parece a mesma coisa.

Marco absorveu a frase como golpe.

Caíque se arrependeu imediatamente, mas não retirou.

A verdade, quando dita, às vezes fere justamente porque estava esperando há muito tempo.

Marco falou baixo:

— Para mim também parece.

Caíque sentou-se ao lado dele.

O silêncio foi longo.

— Eu não quero ser seu armário — Caíque disse.

— Você não é.

— Nem seu segredo sujo.

— Nunca.

— Então me ajuda a acreditar nisso quando o mundo obrigar a gente a fingir.

Marco segurou sua mão.

— Eu vou tentar.

De novo: tentar.

Era a palavra mais honesta que tinham.

Fizeram as pazes sem espetáculo. O amor adulto, Caíque começava a aprender, não era ausência de ferida. Era a disposição de cuidar do que se disse depois que a raiva passa.

Naquela noite, Marco dormiu de costas para ele por alguns minutos. Depois se virou e encostou a mão em seu peito.

Caíque cobriu a mão dele com a sua.

Era assim que pediam perdão quando as palavras cansavam.

Os anos seguintes consolidaram a relação.

Não foram muitos antes da doença entrar de vez na vida deles. Mas foram suficientes para se tornarem memória de uma vida inteira.

Houve uma viagem curta a Pirenópolis, onde caminharam por ruas de pedra fingindo ser apenas amigos e, no quarto da pousada, puderam respirar sem ensaio. Marco comprou um doce que Caíque achou ruim, mas comeu mesmo assim para provocar discussão. Houve uma tarde em que se perderam de carro e riram tanto que precisaram parar no acostamento. Houve um Natal passado juntos depois de ambos recusarem convites familiares com desculpas pouco convincentes. Comeram mal, beberam bem e trocaram presentes discretos: Caíque deu a Marco uma edição usada de um livro de poemas; Marco deu a Caíque uma caneta elegante.

— Para assinar coisas importantes — disse.

Caíque lembrou de Renato e ficou comovido de um jeito confuso.

— Já ganhei uma com essa frase.

Marco percebeu algo.

— De alguém importante?

— De uma vida anterior.

— Ah.

— Não desse jeito.

— Não perguntei.

— Perguntou com o rosto.

Marco sorriu.

— Então responda ao rosto.

Caíque contou sobre Renato. Não tudo. O suficiente.

Marco ouviu sem ciúme performático.

— Você deixou muita gente no Rio.

— Deixei.

— E trouxe também.

— Sim.

— Ainda bem.

Caíque olhou para ele.

— Você não tem ciúme?

— Tenho. Só não quero fazer papel feio antes de ter motivo.

— Que evolução.

— Aprendi com você a transformar medo em frase.

Caíque riu.

Em outra ocasião, Marco perguntou sobre Carmem.

— Quero conhecê-la.

— Não sei se Brasília está preparada.

— Eu estou?

— Ninguém está.

— Mesmo assim.

Caíque escreveu convidando Carmem. Ela nunca foi naquele período. Dizia que Brasília lhe dava preguiça moral. Mas mandou um cartão para Marco:

“Marco,

Cuide bem dele. Ele parece forte, mas tem rachaduras decoradas.

E não deixe que ele vença todas as discussões. Faz mal para a pele.

C.”

Marco guardou o cartão dentro de um livro.

Caíque encontrou meses depois e não comentou.

Gostou.

A pergunta mais difícil veio em uma madrugada.

Estavam deitados, a janela aberta, o calor seco grudado na pele. Tinham bebido um pouco. A cidade estava silenciosa. Marco parecia inquieto.

— Você teria coragem de cuidar de mim se um dia eu deixasse de ser bonito?

Caíque virou-se para ele.

— Que pergunta é essa?

— Uma pergunta.

— Você está bêbado.

— Um pouco. Mas a pergunta está sóbria.

Caíque apoiou-se no cotovelo.

— Por que você está perguntando isso?

Marco olhava para o teto.

— Porque às vezes acho que as pessoas gostam de mim pela parte que vai acabar primeiro.

— Beleza?

— Juventude. Beleza. Delicadeza. A capacidade de parecer menos quebrado do que sou.

Caíque sentiu um aperto.

— Eu não amo você porque é bonito.

— Não?

— Isso ajudou na entrevista inicial.

Marco riu fraco.

— Estou falando sério.

— Eu também. A beleza chamou. Não foi ela que ficou.

Marco virou o rosto.

— O que ficou?

Caíque pensou.

— Sua maneira de ouvir. Seu jeito de não rir quando não acha graça. A pergunta que você faz depois de um silêncio. O modo como segura a xícara quando está preocupado. Sua tristeza quando não vira teatro. Sua inteligência sem necessidade de esmagar ninguém. A sua presença.

Marco ficou olhando para ele.

— Isso é muito.

— Você perguntou.

— E se eu adoecer?

A palavra entrou como ar frio.

Caíque não quis entender completamente. Mas entendeu o suficiente.

— Adoecer como?

— Qualquer coisa.

— Eu cuidaria.

— Você diz agora.

— Digo agora porque é agora que você perguntou.

Marco fechou os olhos.

— Tenho medo de virar peso.

— Todo mundo vira peso em algum momento. Amor é também escolher o peso que faz sentido carregar.

Marco respirou fundo.

Caíque se aproximou.

— Eu cuidaria de você até se virasse ministro.

Marco abriu os olhos e riu.

Dessa vez, riu de verdade.

— Ministro é grave.

— Gravíssimo. Mas eu tentaria.

— Tentaria?

— Aprendi com você. É uma palavra honesta.

Marco tocou seu rosto.

— Eu te amo.

Caíque beijou a palma da mão dele.

— Eu sei.

— Arrogante.

— Observador.

Eles dormiram.

Caíque não sabia, naquela noite, que a pergunta de Marco era uma espécie de presságio. Ou talvez soubesse e tenha escolhido não saber. O amor permite essas ignorâncias voluntárias. A gente vê a nuvem no horizonte e comenta apenas que a luz está bonita.

Nos meses seguintes, a sombra da AIDS cresceu.

Um conhecido de Lúcia Helena adoeceu. Depois um antigo amante de Davi. Depois alguém que frequentava as festas na Asa Norte. As conversas mudaram. O medo ganhou vocabulário médico, mesmo quando ninguém entendia direito. Havia boatos sobre transmissão, tratamentos, exames, sintomas. Havia quem acusasse, quem fugisse, quem cuidasse, quem negasse.

Caíque e Marco começaram a perder a inocência possível.

Não a inocência sexual — essa já havia ficado longe. Mas a inocência de acreditar que o mundo permitiria algum descanso.

Ainda assim, insistiam.

Em uma noite de aniversário de Marco, Caíque organizou um jantar pequeno. Lúcia Helena, Davi, Irene, Paulo e mais dois amigos confiáveis. Fez massa, comprou vinho, colocou música. Marco parecia emocionado e constrangido.

— Você exagerou.

— Eu sou do Rio. Exagero é patrimônio cultural.

Depois do jantar, os amigos foram embora aos poucos. Marco ajudou a recolher copos.

— Foi bonito — disse.

— Você merece coisas bonitas.

Marco ficou parado com um prato na mão.

— Não fala assim.

— Por quê?

— Porque eu acredito.

Caíque se aproximou.

— Essa é a ideia.

Marco apoiou o prato na mesa.

— Às vezes tenho medo de acreditar e perder.

Caíque segurou sua cintura.

— Eu também.

— E o que você faz?

— Acredito com medo mesmo.

Marco encostou a testa na dele.

— Isso parece corajoso.

— Parece. Por dentro é uma bagunça.

— Eu gosto da sua bagunça.

— Porque você vê pouco.

— Vejo mais do que você pensa.

Caíque sorriu.

— Isso também me assusta.

— Ótimo. Assim ficamos quites.

Dançaram na sala.

Não havia espaço suficiente, nem grande técnica. Marco dançava mal, como Caíque já sabia. Pisou no pé dele duas vezes. Caíque reclamou dramaticamente. Marco riu. A música era baixa. A janela estava aberta. Brasília, lá fora, mantinha sua pose de cidade planejada, sem saber que dentro daquele apartamento dois homens inventavam uma forma de casamento sem testemunha oficial.

Naquela noite, Marco deixou no apartamento de Caíque uma pequena caixa com cartas, fotografias e bilhetes. Disse que era para “não ficar carregando coisa demais”.

— Isso é mudança? — Caíque perguntou.

— É depósito temporário.

— Toda ocupação começa com eufemismo.

— Economista.

— Realista.

Marco beijou-o.

A caixa foi colocada em uma prateleira.

Anos depois, outra caixa, mais dolorosa, guardaria a carta que Caíque não conseguiria ler. Mas naquela noite a caixa ainda era apenas sinal de confiança. Um pequeno arquivo de vida compartilhada.

No fim de 1987, Marco começou a adoecer de formas discretas.

Cansaço. Febres. Uma perda de peso que ele atribuía ao trabalho. Infecções que demoravam mais a passar. Caíque notou antes de dizer. Marco notou antes de admitir. Ambos começaram a negociar com a negação.

— Você está comendo pouco — Caíque dizia.

— Você está parecendo minha mãe.

— Crueldade desnecessária.

— Estou cansado só.

— Você vive cansado.

— Então pronto.

Mas não estava pronto.

A doença ainda não tinha nome confirmado entre eles. Mas já tinha presença. Entrava no apartamento antes das conversas, sentava-se à mesa, deitava-se entre os dois. Marco ficava cada vez mais silencioso. Caíque ficava cada vez mais prático. Marcava consultas, insistia em exames, lia tudo que conseguia, perguntava a conhecidos, enfrentava a própria ignorância com a raiva disciplinada de sempre.

Uma noite, depois de uma discussão sobre médicos, Marco explodiu:

— Para de tentar resolver tudo!

Caíque parou.

— Eu estou tentando ajudar.

— Eu sei.

— Então?

— Às vezes sua ajuda parece uma guerra contra qualquer coisa que você não controla.

A frase acertou.

Caíque se afastou.

— Você prefere que eu faça o quê?

Marco sentou-se, exausto.

— Senta comigo. Só isso. Por cinco minutos, não planeja, não ironiza, não pesquisa, não briga com o mundo. Senta comigo.

Caíque ficou imóvel.

Depois sentou.

Marco encostou a cabeça em seu ombro.

— Eu estou com medo — disse.

Caíque sentiu a própria garganta fechar.

— Eu também.

— Não quero morrer.

A palavra, finalmente, estava na sala.

Caíque segurou a mão dele.

Não disse “você não vai”. Seria mentira ou superstição.

Também não disse “vai ficar tudo bem”. Algumas frases são covardes quando a vida exige presença.

Disse apenas:

— Eu estou aqui.

Marco chorou.

Pouco. Quase em silêncio.

Caíque ficou.

Naquela noite, entendeu que a pergunta antiga — “você teria coragem de cuidar de mim se um dia eu deixasse de ser bonito?” — não era sobre beleza. Era sobre permanência diante da perda de controle, da dignidade ameaçada, do corpo traindo, do mundo julgando.

E Caíque, que passara a juventude treinando fugas necessárias, descobriu que agora sua maior coragem seria não fugir.

O capítulo da paixão terminava ali, sem terminar.

Porque o amor não acabou quando a doença começou. Mudou de idioma.

O toque ficou mais cuidadoso. O humor, mais precioso. As brigas, menos vaidosas. As pequenas alegrias, quase sagradas. Um café tomado sem febre. Um passeio curto. Uma noite de sono. Uma música que ainda fazia Marco sorrir. Uma tarde em que ele conseguiu comer bem. Um comentário irônico. Uma mão estendida.

Caíque ainda não sabia tudo o que viria.

Não sabia o tamanho do hospital.

Não sabia a burocracia da dor.

Não sabia quantas vezes seria chamado de “amigo” enquanto fazia trabalho de marido.

Não sabia que Marco escreveria uma carta.

Não sabia que guardaria essa carta por décadas sem conseguir terminá-la.

Naquela fase, ainda havia amor suficiente para fingir que o amor venceria por insistência.

E talvez, de algum modo, tenha vencido.

Não contra a morte.

Mas contra o apagamento.

A última noite realmente leve dos dois aconteceu pouco antes de tudo piorar. Marco estava melhor, ou parecia. Foram a uma pequena reunião na casa de Davi. Pouca gente. Música baixa. Lúcia Helena fez um comentário obsceno. Irene contou uma fofoca impossível sobre um homem público que todos fingiram não reconhecer. Davi queimou o arroz. Marco riu até tossir. Caíque, por um segundo, sentiu o mundo voltar ao eixo.

Mais tarde, na janela, Marco segurou um copo com as duas mãos, como na primeira noite.

Caíque percebeu e sorriu.

— Voltamos ao começo?

Marco olhou para ele.

— Não. Agora eu sei ficar.

Caíque aproximou-se.

Não podia beijá-lo ali. Havia gente demais, risco demais, mundo demais.

Então apenas ficou ao lado dele.

O ombro quase tocando o ombro.

A cidade escura diante dos dois.

Brasília, com suas linhas retas, seus monumentos, seus segredos, fingia dormir.

Marco disse baixo:

— Se um dia contarem sobre nós, espero que não façam parecer só tristeza.

Caíque virou o rosto.

— Quem contaria?

— Você. Um dia.

— Eu sou melhor com escândalo do que com memória.

— Então conta como escândalo.

Caíque riu.

— Você quer virar escândalo?

Marco olhou para a cidade.

— Melhor escândalo do que segredo.

A frase ficou.

Caíque não soube, naquele instante, que ela voltaria muitos anos depois, diante de uma caixa fechada e de uma carta amarelada.

Naquela noite, apenas encostou de leve o dedo no dedo de Marco, escondido entre seus corpos.

Um toque mínimo.

Um idioma inteiro.

E Marco, sem olhar, entrelaçou o dedo no dele por um segundo.

Só um segundo.

Mas há segundos que duram mais que décadas.

Fim do Capítulo 6.

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