Meus cinco quilômetros diários, na madrugada de um parque da minha cidade, sempre são surpreendentes. Novidades sexuais de vez em quando tornam prazeroso algo que faço por pura obrigação com a saúde, sedentário consolidado que sou.
Geralmente chego muito cedo ao local, luzes da noite ainda acesas, estacionamento vazio, ninguém na pista. Minhas duas primeiras voltas de mil metros, portanto, são no mais tranquilo e feliz silêncio humano, apenas tendo como trilha sonora o canto dos pássaros.
Apesar do frio que a neblina traz, não gosto de usar agasalho, nudista inveterado que sou. Como não posso caminhar nu, uso o mínimo de roupa possível, apenas o bastante para não ser abordado por atentado ao pudor: um short de tecido, curtíssimo, pernas largas, cujo cós ainda é dobrado, para subir mais um pouco; por baixo, uma minitanga fio dental, enfiada entre as nádegas e segurando a rola, esta nunca em completo descanso, diante de ambiente tão lúbrico; e uma camiseta, tipo regata, que mal cobre meu peito. O fone de ouvido me acaricia com músicas brasileiras antigas, transmitidas por alguma rádio pública, diretamente do celular.
Aos poucos, vão surgindo os caminhantes de praxe. A um ou outro respondo secamente o cumprimento, que jamais parte de mim. A maioria também não fala comigo e nos cruzamos várias vezes ao longo da pista, no mais completo silêncio. Conheço e reconheço as caras, as roupas, os apetrechos que carregam, o estilo de andar – é como se fossem velhos conhecidos com os quais nunca falei e dos quais sequer sei o nome. Falar nisso, tem uma boa quantidade de velhos também, que mais se arrastam do que caminham, alguns fedidos de dar dó.
Existem rapazes que igualmente desafiam o frio, com bermudas apertadas e curtas (não tanto quanto a minha), apetitoso pacote acomodado entre as pernas. Olho por trás dos meus óculos escuros (que me servem mais para disfarçar meu olhar que para me proteger do sol, já que este só começa a chegar quando estou saindo), visualizo rolas e bundas e sinto o prazer platônico mexer com minha libido, estremecendo minha própria pica… Mas sigo em paz e os esqueço na próxima curva.
Existem moças e mulheres maduras que costumam correr e vêm de trás de mim, me ultrapassando e me oferecendo a delícia de bundas redondas, nádegas rígidas e grandes, as quais eu acompanho com o olhar até desaparecerem adiante – não costumo correr. Outras vezes elas vêm de frente e me apresentam o decalque perfeito dos lábios de suas bucetas, sob as calças legging coladas às pernas. São invariavelmente cheirosas, maquiadas (!) e bem cuidadas, indícios de sua classe social privilegiada.
De uns tempos para cá, uma dessas mulheres tem me cumprimentado todos os dias, na primeira vez do dia em que nos encontramos na pista. Deve estar por volta dos trinta anos, rosto delicado, sutilmente maquiada, lábios úmidos de algum hidratante, seios pronunciados (penso que com alguns poucos gramas de silicone), bunda bem redonda, decalcada na calça justa – ela passa por mim andando rápido e, à minha frente, toma impulso e começa a correr. Nas outras vezes que me ultrapassa já não mais fala, nem eu, mas meus olhos acompanham seu belo corpo. E assim tem sido, ao longo de cerca de um mês.
Ontem a neblina estava mais espessa, a garoa mais intensa, os pingos d’água mais grossos. Assim mesmo arrisquei sair do carro e começar a caminhada. Mas, antes de concluída a segunda volta, o sereno se fez chuva torrencial e tive que me proteger num pequeno quiosque usado para piqueniques. Sentei-me no banco de cimento que circunda uma mesa de madeira, sob a proteção de telha de plástico e me pus a admirar o toró.
De repente, eis que a mulher irrompe em velocidade, adentrando no mesmo espaço em que eu estava. Molhara-se deveras. O cabelo pingava. A blusa, colada ao corpo, desenhava com nitidez os túrgidos bicos dos seios – mas ela se movimentava sob o quiosque, para se manter aquecida, com rápidas expressões de animosidade pela surpresa do temporal.
Agora não havia mais jeito de nos reduzirmos ao seco cumprimento de todos os dias. A partilha do mesmo abrigo nos obrigava à mínima civilidade de estabelecer um diálogo, que ela começou, entre um sopro e outro, para regularizar a respiração:
– Puxa vida... Não contava com essa chuva...
– Pois é... E chegou de repente, apesar de o tempo estar mais fechado hoje que nos outros dias.
– Sim... Eu me surpreendi com a rapidez com que chegou. Não consegui escapar de me molhar toda.
– E pode ser perigoso continuar com a roupa molhada assim... Pode pegar uma puta gripe...
– Verdade... – Enquanto falava torcia o cabelo, preso num rabo de cavalo, fazendo escorrer a água nele acumulada. Somente então percebi o olhar disfarçado, que ia da chuva para mim e voltava à chuva, e constatei que ela dava olhadelas rápidas para meu entrepernas. Minha falta de hábito de usar roupa e de conversar com as pessoas me fazia relaxado, sem preocupação com a posição em que, sentado, expunha o conteúdo da minha rola e minhas bolas, contido na tanga preta, que escapava pelas pernas. Mas eu sabia que se de repente me recompusesse, criaria um baita constrangimento para ela e, consequentemente, para mim. Então fiz a egípcia, liguei meu modo exibicionista e fingi completo alheamento a minha posição, meus olhos catando a paisagem – e vez em quando pousando sobre seus seios... Ao fim e ao cabo, estava gostoso o clima, vai!
Retomei a conversa, com o mais trivial dos temas, mas procurando lincar com a preocupação anterior da roupa molhada sobre o corpo:
– Você mora muito longe? Não é legal ficar com a roupa molhada tanto tempo...
– Não, não! Moro naquele condomínio ali – e apontou para um edifício logo após o portão de acesso ao parque, do outro lado da rua.
– Ah, bom... Você pode ligar pra lá e pedir para alguém vir lhe buscar, com uma capa ou guarda-chuva...
– Não tem ninguém. Eu moro sozinha. Mas não tem grilo, eu sou forte, adoeço não... – disse entre dois sorrisos.
Depois o assunto virou para os caminhantes e corredores, as manias e os erros que cometem, o que cada um de nós curtia fazer para manter o corpo em movimento... Daí a pouco, estávamos os mais amigos. Eu nem mais olhava para seus seios com tesão, minha rola já se acomodava – embora eu lhe flagrasse ainda olhares para minhas intimidades. E por mais que eu me mexesse, buscando sentar mais decentemente, o short era realmente muito curto e sempre se mostrava a quem quisesse ver.
Então resolvi diluir qualquer possível segunda ou terceira intenção que pudesse existir em sua cabeça e, no meio de um assunto qualquer, citei certo ex-namorado – estabelecendo minha homossexualidade. Pensei que a afastaria de qualquer objetivo libidinoso, mas o efeito foi de gasolina no fogo. Ela interessou-se mais, fez-me perguntas, demonstrando curiosidade sobre detalhes – decerto não era sempre que uma balzaquiana tinha uma oportunidade daquela diante de si.
– Que massa! E você é ativo, né?
Embarquei no assunto, a ver onde iria dar:
– Não, sou passivo. Quer dizer, também posso penetrar, mas prefiro mesmo ser comido.
– Engraçado... Não parece... O estereótipo convencional é que o passivo seja mais afeminado, e quem tem um jeito mais sisudo, sendo gay, costuma ser tido por ativo...
– É, eu sou a exceção que confirma a regra.
– É como as trans ou travestis. Todo mundo convencionou achar que todas são passivas. Mas eu também sou uma exceção que confirma a regra. Prefiro ser ativa, mas tenho raras oportunidades para vivenciar isso, e me contento em apenas ser comida.
Eu só pedia aos deuses da luxúria que não expusessem no meu rosto a puta surpresa que me tomava. Caralho! Em nenhum momento, ao longo de todo aquele tempo de encontros e cumprimentos, e mesmo durante aquela conversa forçada pela chuva, me passou pela cabeça estar diante de uma trans. Seu corpo, sua voz, seus gestos, nada dava qualquer sinal de que não fosse realmente de uma fêmea biológica.
Essa revelação, como uma epifania clariceana, reverteu toda a relação até então estabelecida. Meu coração disparou, meu estômago borboleteou, minha pica voltou a crescer. Ela não mais disfarçava os olhares cada vez mais insistentes para a cabeça da minha rola, que escapava do short, recoberta mas decalcada pela tanga que a continha. Eu a devorava avidamente com os olhos, imaginando-a completamente nua.
– Então veja que maravilha: duas exceções à regra se encontrando, sob o temporal. O Universo é sábio – o comentário entusiasmado foi dela.
Agora seu intumescido membro se pronunciava sob a calça ligada, e eu estava a ponto de agir como alguém que eu mesmo achava inconveniente. Mas a verdade é que, literalmente, eu não sabia como fazer. Então ela tomou uma atitude: veio até mim e me abraçou fortemente, eu senti seu perfume delicioso e o volume de sua rola. A ausência de mais alguém por perto nos animou e nos beijamos longamente. Dois rapazes passaram ao longe, jogando seus olhares de curiosidade (quiçá de inveja) sobre nós.
– Ai, eu estou num fogo da porra! Quer se molhar comigo até meu apartamento? – o convite foi dela.
Peguei sua mão e nos jogamos sob o temporal, caminhando para o portão e atravessando a rua, como rompendo a cortina d’água que caía no caminho. Eu sentia minha rola escapando do short, procurei arrumar minimamente e assim entramos, encharcados, no seu condomínio. Ela quase me arrastava escada acima, vencendo os dois lances até chegar ao seu espaço.
Fechando a porta atrás de nós, jogamo-nos nos braços um do outro, aos beijos e mãos e dedos e nossos corpos ficando nus. Que rola extraordinária! Grossa, voltada para cima. Ajoelhei-me ante aquele monumento de carne, e, louvando-lhe toda a lubricidade daquele membro, chupei-o com a ânsia de quem parecia estar a dois minutos do final do mundo. Ela gemia, agoniada, e pressionava minha cabeça contra sua pica.
Eu queria mais que tudo aquela vara me penetrando, me rasgando que fosse, e ela parecia não desejar outra coisa. Num movimento rápido, jogou-me sobre o sofá e caiu de boca sobre meu toba, lubrificando-o muito e enfiando a língua e um dedo e dois dedos, juntos. Eu rebolava cadelamente e lhe gemia obscenidades.
Até que senti sua tora encostar a cabeça na entrada da minha caverna, e com uma leve pressão, ir abrindo lentamente minhas pregas e se enfiando dentro de mim. Eu abri mais e mais as pernas, me escancarando o mais que podia. Ela enfiava até o talo no meu rabo, e se pudesse entrava com os culhões também. Gemíamos como dois condenados.
Éramos duas exceções à regra, em pleno cio. A mulher que só era comida fodendo o cu do sisudo que adorava ser penetrado. Os mamilos duros e os seios macios esmagando-se contra minhas costas. A chuva fazia barulho lá fora, no vidro da janela, abafando a algazarra enlouquecedora que fazíamos sobre aquele sofá. Minha rola rígida babava, a ponto de a qualquer momento gozar sozinha, esfregando-se sob minha barriga. Até que ela acelerou as estocadas e gritou mordendo minha nuca e esporrando abundantemente em mim. Também senti e não pude mais conter o gozo de minha rola sob meu corpo.
E paramos, ofegantes. De som, só os pingos na varanda e os corações em disparada. Ela retirou-se de mim e sua gala borbulhou no meu cu, descendo pelo sofá, a essa altura molhado, melado, desarrumado... o diabo a quatro.
Nós nos beijamos mais e mais e mais, nos arrastamos, agarrados, para a ducha quente e gostosa de sua suíte. Tomamos banho juntos, sua porra descendo sem parar do meu cu. Isso a excitava terrivelmente: sua vara novamente dura procurou outra vez meu cu e foi se enfiando, aproveitando a lubrificação já existente. Novamente me comeu e outra vez gozou e de novo me mordeu a nuca; eu me entreguei àquele espetáculo de mulher e sua rola extraordinária.
