Brasília não tem esquinas

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 5940 palavras
Data: 10/06/2026 01:16:20
Assuntos: Gay

Caíque chegou a Brasília com a sensação de ter sido transferido para dentro de uma maquete.

A primeira coisa que o incomodou foi o espaço.

Havia espaço demais.

No Rio, a cidade roçava nele o tempo todo. Gente, ônibus, barulho, maresia, vendedores, corpos, janelas abertas, música vazando de apartamentos, cheiro de comida, lixo, perfume, praia, gasolina, desejo. O Rio invadia. Mesmo quando era cruel, era uma crueldade quente, suada, íntima. O Rio não pedia licença porque não sabia existir de outro jeito.

Brasília, não.

Brasília parecia manter distância.

As avenidas eram largas, as construções pareciam pousadas sobre o chão, o céu ocupava uma parte indecente da paisagem. Tudo era claro, seco e geométrico. Os prédios não se encostavam. As pessoas também não. Havia uma ordem no ar que, para Caíque, soava menos como beleza e mais como ameaça.

— Aqui até a sombra parece planejada — resmungou, olhando pela janela do carro oficial que o levava do aeroporto.

O motorista, um homem calado de bigode fino, não entendeu se aquilo era elogio ou reclamação. Preferiu não responder.

Caíque observou o Eixo Monumental, os blocos ministeriais, as linhas retas, os gramados, o concreto branco ferindo o sol. Sentiu saudade imediata da desordem carioca. Saudade das curvas, dos becos, das calçadas quebradas, dos bares pequenos onde a vida parecia acontecer apesar da cidade, não por autorização dela.

Brasília era bonita, ele admitiu com má vontade. Mas era uma beleza sem suor.

E Caíque desconfiava de toda beleza que não suava.

Tinha sido removido para lá em 1981, por necessidade do trabalho. A carta de remoção viera com linguagem neutra, quase sem corpo: designação, unidade, apresentação, prazo. Nenhuma linha dizia que ele deixaria para trás uma cidade onde havia renascido. Nenhuma linha mencionava a Galeria Alaska, Toninho, Carmem, Renato, o mar, o quarto de pensão, os corredores da faculdade, o bar onde aprendera a rir sem pedir perdão.

A burocracia tinha esse talento: transformar abalos em protocolo.

No primeiro dia, hospedou-se provisoriamente em um apartamento funcional simples. Era limpo, correto, impessoal. Uma sala pequena, quarto, cozinha, banheiro, móveis que pareciam escolhidos por alguém sem qualquer interesse na felicidade humana. Na janela, via um pedaço de céu e uma sequência de prédios iguais o bastante para fazê-lo duvidar da própria localização.

Deixou a mala no chão e ficou parado no meio da sala.

O silêncio o assustou.

Não o silêncio absoluto — havia ruídos distantes, carros, uma porta fechando em algum andar, um cachorro improvável —, mas um silêncio organizado, diferente do silêncio da madrugada carioca. No Rio, mesmo o silêncio parecia prestes a ser interrompido por uma buzina, uma briga, uma risada, uma sirene, um samba vindo de algum lugar. Em Brasília, o silêncio parecia cumprir expediente.

Caíque abriu a mala.

Tirou primeiro os livros. Depois a gravata azul de Carmem. Depois a caneta de Renato. Depois algumas camisas, fotografias, documentos. Colocou tudo sobre a cama com um cuidado quase ritual. Precisava espalhar suas provas de existência naquele ambiente neutro antes que a cidade o engolisse.

A gravata ficou pendurada na maçaneta do armário.

— Você vem comigo — disse para ela.

Sentiu-se ridículo falando com uma gravata.

Mas havia sobrevivências que exigiam pequenas loucuras domésticas.

No dia seguinte, apresentou-se ao trabalho.

O prédio do BNDES em Brasília tinha aquela solenidade fria das instituições que acreditam na própria importância. Corredores claros, portas identificadas, mesas, arquivos, carimbos, telefones, homens de camisa social, mulheres elegantes demais para o calor, conversas em tom baixo. Tudo funcionava com uma combinação de formalidade e improviso que Caíque logo reconheceu como profundamente brasileira: por fora, norma; por dentro, jeitinho, vaidade, atraso, favor, medo e ambição.

Foi recebido por um chefe de divisão chamado Dr. Azevedo, embora ninguém soubesse ao certo se ele era doutor de alguma coisa. Tinha cabelo ralo, voz macia e mãos que nunca pareciam completamente em repouso.

— Carlos Eduardo, correto?

Caíque sorriu.

— Sim. Mas todos me chamam de Caíque.

Dr. Azevedo ergueu os olhos por cima dos óculos.

— Caíque?

— Isso.

— Apelido?

— Nome de guerra.

O chefe não soube se ria. Optou por um sorriso breve.

— Pois bem, Caíque. Seja bem-vindo a Brasília.

— Obrigado.

— Imagino que vá sentir diferença em relação ao Rio.

— Já estou sentindo.

— Aqui é mais tranquilo.

Caíque pensou: tranquilo para quem?

Mas disse apenas:

— Percebi.

O trabalho exigia atenção, técnica e paciência. Análise de dados, documentos, relatórios, processos, demandas de órgãos públicos, reuniões que poderiam ter sido bilhetes e bilhetes que fingiam ser decisões. Caíque gostava da parte difícil e detestava a parte cerimonial. Tinha prazer em entender números, organizar raciocínios, encontrar inconsistências. Mas sofria com a coreografia do poder: quem podia falar, quem precisava esperar, quem assinava, quem fingia decidir, quem decidia sem assinar.

No BNDES, percebeu rapidamente que o país era pensado em papéis antes de ser sentido em ruas. Projetos grandiosos, desenvolvimento regional, financiamento, infraestrutura, indústria, programas. Tudo vinha em termos grandes, quase heroicos. Mas Caíque, que aprendera economia no balcão antes de aprendê-la nos livros, desconfiava de toda grandeza que não sabia o preço do pão.

Mesmo assim, havia algo fascinante em estar ali.

Ele, o menino que fugira para não ter a cabeça violada em nome da correção, agora ocupava uma cadeira em uma instituição onde homens sérios discutiam o futuro econômico do país. Ele, que fora tratado como defeito doméstico, agora revisava relatórios que passariam por mãos importantes. O crachá no bolso tinha um peso simbólico que nenhum colega poderia entender.

Nos primeiros meses, trabalhou muito.

Talvez demais.

Era uma forma de não sentir.

Chegava cedo, saía tarde, levava documentos para casa, lia à noite, fazia anotações em cadernos que misturavam economia, observações sobre colegas e frases soltas que pareciam início de contos que ele nunca escreveria.

“Brasília é uma cidade que finge não ter bastidor.”

“Todo gabinete tem cortina, mesmo sem janela.”

“Homem público é frequentemente privado demais.”

Essas frases o divertiam.

Mas, depois do riso, vinha a solidão.

No Rio, a solidão existia, mas era furada por encontros. Bastava atravessar uma rua, entrar na Galeria, passar em um bar, caminhar pela praia. Havia sempre a possibilidade de trombar com alguém que o chamasse pelo nome escolhido. Em Brasília, nos primeiros meses, ninguém o conhecia o suficiente para chamá-lo de verdade.

Os colegas de trabalho eram cordiais, alguns até gentis. Convidavam para almoços, comentavam futebol, reclamavam do governo, discutiam inflação, perguntavam se ele estava se adaptando. Mas havia uma barreira invisível. Caíque sabia conversar, sabia fazer rir, sabia parecer acessível sem se entregar. Era uma habilidade antiga.

O problema é que, em Brasília, essa habilidade começou a virar armadilha.

Um dia, no refeitório, um colega chamado Ferraz comentou:

— Você veio solteiro, né?

A pergunta parecia casual, mas Caíque sentiu a velha lâmina escondida.

— Vim.

— Vai gostar daqui. O que não falta é moça querendo casar com funcionário de banco público.

Alguns riram.

Caíque sorriu.

— Então estou protegido. Casamento me dá alergia burocrática.

— Fala isso porque ainda não encontrou a certa.

— Ou porque encontrei a mim mesmo primeiro.

A mesa riu de novo, mas com menos segurança.

Ferraz não insistiu.

Caíque continuou comendo como se nada tivesse acontecido. Por dentro, mediu o ambiente. Quem riu demais. Quem desviou os olhos. Quem entendeu. Quem fingiu não entender.

A vida inteira ele fizera esse tipo de levantamento sem planilha.

Ser discreto, para Caíque, nunca foi desaparecer. Era administrar o que cada pessoa merecia saber.

Mas Brasília complicava essa administração.

Porque Brasília era uma cidade de segredos profissionais.

No Rio, a hipocrisia também existia, mas transpirava. Em Brasília, ela usava crachá. Havia homens que defendiam moralidade pública com a mesma boca que, horas depois, procurava um telefone anotado sem nome. Havia famílias perfeitas em quadras residenciais e apartamentos onde ninguém perguntava sobrenome. Havia esposas em eventos oficiais, amantes em horários alternativos, motoristas cúmplices, porteiros bem pagos para não verem, assessores que sabiam demais e secretárias que sabiam mais ainda.

A capital federal, Caíque logo entendeu, era uma máquina de ocultamento.

E toda máquina de ocultamento produz desejo em dobro.

A primeira pista veio por meio de uma funcionária do banco chamada Lúcia Helena. Tinha cerca de quarenta anos, cabelo armado, gargalhada forte e uma inteligência que se escondia atrás de comentários aparentemente banais. Trabalhava em outro setor, mas cruzava com Caíque no corredor, no café, na fila do protocolo. Gostava dele.

— Você não é daqui — disse certa tarde, enquanto dividiam uma mesa no café.

— Isso é acusação ou elogio?

— Diagnóstico. Você ainda olha para os prédios esperando que eles digam alguma coisa.

— E dizem?

— Dizem: fuja enquanto pode.

Caíque riu.

— Tarde demais.

Lúcia Helena mexeu o café com calma.

— Você sente falta do Rio?

— Todos os dias.

— Aqui também tem vida, viu?

— Imagino.

— Não imagina, não. Você tem cara de quem acha que Brasília acaba às seis da tarde.

— Não acaba?

Ela sorriu.

— Brasília começa depois das seis. Só que em lugares sem placa.

Caíque ergueu os olhos.

Lúcia Helena sustentou o olhar por um segundo a mais do que seria necessário.

— Tem uma reuniãozinha no sábado — disse. — Coisa de amigos. Música, bebida, conversa. Gente interessante.

— Reuniãozinha?

— É. Dessas em que ninguém leva esposa se não quiser estragar a noite.

Caíque quase riu, mas conteve.

— Entendi.

— Entendeu?

— Acho que sim.

— Então vá bem vestido, mas não parecendo que quer provar alguma coisa. Em Brasília, todo mundo já está tentando provar alguma coisa. Fica cansativo.

Ela anotou um endereço em um papel e empurrou para ele.

— E não comenta no trabalho.

— Nunca comento nada no trabalho.

— Mentira. Você comenta com os olhos.

Lúcia Helena saiu antes que ele respondesse.

Caíque ficou olhando para o papel.

Era um endereço em uma superquadra. Bloco, apartamento, horário. Nada de nome. Nada de explicação. Uma porta.

Brasília talvez tivesse esquinas, afinal.

Só não as colocava no mapa.

No sábado, Caíque se arrumou com mais cuidado do que gostaria de admitir. Escolheu uma camisa clara, calça escura, sapatos bons e, depois de hesitar, deixou a gravata de Carmem no armário. Não era noite de instituição. Era noite de reconhecimento. Passou perfume, penteou o cabelo, olhou-se no espelho.

O homem refletido já não era o rapaz da pensão no Rio, mas ainda carregava algo dele nos olhos. Uma prontidão. Uma fome. Uma cautela.

— Não entra pedindo desculpa ao chão — disse, imitando Carmem.

Endireitou os ombros.

Saiu.

O apartamento ficava em um prédio funcional, desses que por fora pareciam incapazes de abrigar qualquer coisa interessante. O porteiro quase não levantou a cabeça. No elevador, Caíque ouviu música abafada. Quando a porta se abriu no andar certo, a música ficou mais clara. Vozes, risadas, copos.

Tocou a campainha.

Quem abriu foi Lúcia Helena, usando um vestido vermelho e brincos grandes.

— Veio.

— Fui convidado.

— Muita gente é convidada e não tem coragem.

Ela abriu espaço.

O apartamento era maior do que ele esperava. A sala estava cheia. Havia homens e mulheres, alguns casais, alguns pares indefiníveis, gente de órgãos públicos, universidades, embaixadas, bancos, ministérios. Algumas pessoas tinham a elegância cansada de quem passara o dia fingindo neutralidade. Outras pareciam aliviadas por finalmente poderem rir alto.

Não era a Galeria Alaska.

Nada seria.

Mas havia ali uma vibração familiar: a de pessoas que reconheciam umas nas outras uma segunda vida.

As luzes estavam baixas. Alguém tocava João Gilberto. Na mesa, garrafas, cinzeiros, pães, queijos, patês, uvas, um bolo torto. Um homem discutia cinema francês com excesso de confiança. Uma mulher fumava perto da janela e contava uma história sobre um senador que chorara bêbado em seu colo. Dois rapazes riam no corredor. Um senhor de terno claro observava tudo com olhos de quem colecionava informações.

Lúcia Helena pegou duas taças.

— Vinho?

— Obrigado.

— Regra da casa: nomes verdadeiros são opcionais, cargos são proibidos e fofoca sem estilo é pecado.

— Finalmente uma constituição que faz sentido.

Ela riu.

— Eu sabia que você prestava.

Aos poucos, Caíque foi sendo apresentado.

Havia Paulo, arquiteto, que falava de Niemeyer como se fosse parente difícil. Havia Irene, jornalista, que sabia de todos os escândalos antes dos jornais, inclusive os que nunca seriam publicados. Havia Maurício, diplomata, que alternava português e francês quando bebia. Havia Davi, professor universitário, que usava ironia como cigarro. Havia um rapaz chamado Gil, bonito demais e consciente demais disso. Havia também homens que não se apresentavam completamente — só primeiro nome, ou nem isso — e que pareciam medir cada frase antes de soltá-la no ar.

Caíque se moveu entre eles com cuidado.

No começo, ouviu mais do que falou. Era uma técnica. Quem chega falando demais revela urgência. Quem escuta recolhe mapas.

E Brasília era toda mapa escondido.

As conversas naquela noite tinham camadas de subtexto. Ninguém dizia diretamente “sou”, “quero”, “amo”, “traio”, “finjo”. Mas tudo aparecia nos intervalos. Um comentário sobre um colega “discreto”. Uma piada sobre determinado ministro “muito sensível às artes”. Um silêncio quando um nome era citado. Um olhar trocado quando alguém mencionava uma viagem oficial.

Caíque percebeu que ali a fofoca era mais refinada que no Rio, mas também mais perigosa.

No Rio, uma fofoca podia arruinar reputações familiares, causar violência, expor vidas. Em Brasília, podia derrubar carreiras, alimentar chantagens, mover interesses políticos. A vida íntima tinha valor estratégico. O desejo era também informação.

Perto da meia-noite, Irene, a jornalista, sentou-se ao lado dele no sofá.

— Você é o carioca novo?

— Não sou carioca. Fui adotado pelo Rio.

— Melhor tipo. Carioca de nascimento costuma achar que o mundo deve vista para o mar.

— E aqui vocês acham que o mundo deve memorando.

Ela soltou uma risada satisfeita.

— Gostei de você.

— Obrigado. Estou tentando gostar daqui.

— Não tente gostar de Brasília como se gosta do Rio. É erro comum. O Rio se oferece. Brasília precisa ser decifrada.

— E vale o esforço?

Irene olhou ao redor.

— Depende do quanto você gosta de segredo.

Caíque pensou em Carmem. Em Toninho. Na Galeria. No néon vermelho. No barulho do mar.

— Segredo eu conheço.

— Não esses.

— São piores?

— São mais bem vestidos.

Ela apontou discretamente com a taça para um homem próximo à estante. Cinquenta e poucos anos, cabelo grisalho, postura de autoridade mesmo sem cargo declarado.

— Aquele ali defende a moral cristã em público e escreve poemas eróticos para um bailarino de Goiânia.

Caíque quase engasgou com o vinho.

— Você está brincando.

— Eu nunca brinco com poesia ruim.

Do outro lado, indicou um rapaz de bigode.

— Aquele namora um assessor de um deputado que votaria contra a própria felicidade se isso rendesse manchete.

Depois, uma mulher de verde:

— Aquela salvou mais amantes desesperados do que muito padre salva alma.

Caíque olhou para ela.

— E você? Quem é nessa taxonomia?

Irene sorriu.

— Eu sou arquivo.

A palavra o encantou.

Arquivo.

Na Galeria, Carmem era filosofia, Toninho era teatro, Renato era melancolia. Em Brasília, Irene era arquivo.

Ele começava a montar sua nova constelação.

Mais tarde, Lúcia Helena o puxou para a cozinha, onde a conversa era mais solta e a fumaça mais densa. Ali, três homens discutiam se Brasília era uma cidade sem alma ou apenas uma cidade cuja alma tinha medo de aparecer.

— Brasília tem alma — disse Davi, o professor. — Só que é alma funcional. Precisa de autorização para assombrar.

— Discordo — disse Paulo, o arquiteto. — A alma de Brasília está justamente no vazio. O espaço é convite.

— Convite para quê? — Caíque perguntou.

Paulo o olhou, interessado.

— Para projetar o que falta.

— Então a cidade é carência urbanizada.

A cozinha riu.

Davi apontou para ele.

— O carioca novo é bom.

— Não sou carioca.

— Depois dessa frase, é o suficiente.

Caíque se sentiu, pela primeira vez desde a mudança, um pouco menos estrangeiro.

Mas a noite ainda guardava desconfortos.

Em determinado momento, um homem elegante se aproximou. Chamava-se Otávio, ou disse chamar-se. Tinha aliança no dedo, perfume caro e olhos treinados para avaliar disponibilidade.

— Você é do BNDES?

Caíque segurou a taça.

— Hoje não.

Otávio sorriu.

— Resposta esperta.

— Pergunta desnecessária.

O sorriso do homem endureceu por uma fração de segundo.

— Gosto de gente direta.

— Duvido.

Lúcia Helena, ao lado, escondeu a risada no copo.

Otávio decidiu insistir mesmo assim.

— Veio do Rio, não foi?

— Vim.

— Lá as coisas são mais abertas.

— Lá as coisas são mais úmidas. Abertura varia conforme o CEP.

— Aqui é preciso mais cuidado.

— Percebi.

— Cuidado preserva reputações.

Caíque olhou para a aliança.

— Nem sempre preserva caráter.

O homem se afastou pouco depois.

Lúcia Helena bateu palmas silenciosas.

— Você vai fazer amigos e inimigos rápido.

— Eu prefiro quando a pessoa escolhe logo uma categoria.

— Não subestime Otávio. Ele é desses que sabem sorrir enquanto anotam dívidas.

— Então vou evitar pegar emprestado.

— Em Brasília, meu querido, às vezes a dívida é ter visto.

Essa frase ficou com ele.

À medida que a madrugada avançava, a festa assumiu tons mais íntimos. A música mudou. As conversas se dividiram. Algumas pessoas foram embora discretamente. Outras desapareceram por corredores e voltaram com o cabelo diferente, a boca mais vermelha, a expressão reorganizada. Caíque observava sem julgar. Conhecia o teatro.

Mas havia algo diferente ali.

Na Galeria, a clandestinidade era popular, barulhenta, quase comunitária. Todos sabiam que todos estavam expostos, ainda que em graus diferentes. Em Brasília, a clandestinidade tinha hierarquia. Alguns podiam ser descobertos e sobreviver. Outros seriam destruídos. Alguns tinham dinheiro para comprar silêncio. Outros vendiam silêncio para pagar aluguel. Alguns queriam apenas amar. Outros queriam usar o desejo como moeda.

Caíque percebeu que precisaria aprender novas regras.

A antiga cartilha do Rio não bastava.

Perto das três da manhã, saiu para a varanda do apartamento. O ar estava frio e seco. Lá embaixo, a superquadra parecia adormecida. Árvores, pilotis, carros estacionados, luzes em poucas janelas. Brasília à noite tinha uma beleza estranha, quase lunar. Sem o mar, o horizonte parecia não terminar nunca.

Lúcia Helena apareceu com uma garrafa na mão.

— Sobreviveu à primeira noite?

— Acho que sim.

— Não foi interrogado demais?

— Fui o suficiente.

Ela apoiou os cotovelos no parapeito.

— Aqui todo mundo quer saber de onde você veio porque isso ajuda a calcular o que podem fazer com você.

— E o que podem fazer comigo?

— Ainda não sei. Você parece menos fácil do que aparenta.

— Isso é bom?

— É necessário.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

— Você era feliz no Rio? — ela perguntou.

Caíque olhou para o céu.

— Às vezes.

— Boa resposta.

— E você aqui?

— Às vezes.

— Brasília não parece uma cidade de felicidade.

— Nenhuma cidade é. Cidade é cenário. Felicidade é contrabando.

Caíque sorriu.

— Você deveria escrever.

— Eu escrevo. Só não assino.

Mais tarde, quando voltou para o apartamento funcional, Caíque não se sentiu exatamente feliz. Mas estava menos só. O endereço na superquadra havia aberto uma fenda na cidade oficial. Brasília tinha vida, sim. Não se oferecia como o Rio. Escondia. Mas, talvez por isso, quando revelava alguma coisa, a revelação vinha com sabor de descoberta.

Nos meses seguintes, Caíque começou a frequentar esse circuito.

Não sempre. Não de modo imprudente. Tinha trabalho, estudo, ambição, prudência. Mas aos poucos foi sendo chamado para jantares, festas, aniversários discretos, encontros em apartamentos, bares sem identificação clara, rodas de conversa que começavam sobre política econômica e terminavam em confissões amorosas.

Descobriu que havia uma Brasília LGBT espalhada em ilhas.

Uma ilha nos apartamentos de funcionários públicos.

Outra entre artistas e professores.

Outra entre diplomatas e estrangeiros.

Outra em bares discretos onde garçons sabiam mais do que os clientes.

Outra nas regiões administrativas, menos protegida, mais vulnerável, mas também mais viva do que os círculos afetados do Plano Piloto.

Caíque transitava entre algumas delas com a curiosidade de pesquisador e o apetite de sobrevivente. Não tinha a arrogância de achar que compreendia tudo. Mas compreendia rápido.

Com o tempo, passou a ser reconhecido.

“O Caíque do BNDES.”

“O do Rio.”

“O engraçado.”

“O perigoso.”

Esse último apelido, soube por Irene, vinha de Otávio.

— Ele disse que você é perigoso.

— Que honra.

— Cuidado. Homem poderoso chama de perigoso tudo aquilo que não consegue controlar.

— E ele controla muita coisa?

— Menos do que pensa. Mais do que deveria.

Caíque guardou distância.

A vida no banco também avançava.

Ele já dominava melhor as rotinas, entendia as hierarquias, sabia quais reuniões importavam e quais eram apenas teatro. Percebia que sua competência incomodava alguns colegas. Não de forma explícita. Nunca era explícita. Era um relatório refeito sem necessidade, uma ideia apropriada por alguém mais antigo, um elogio com diminutivo, uma brincadeira sobre seu jeito “sofisticado”, uma pergunta repetida sobre casamento.

Caíque respondia com precisão.

Quando um colega disse:

— Você é muito sensível para esses números.

Ele respondeu:

— Por isso mesmo eles me obedecem. Números gostam de quem percebe detalhes.

Quando outro comentou:

— Você fala bonito demais. Parece artista.

Caíque sorriu:

— Obrigado. Tento compensar a feiura de certos memorandos.

A reputação de espirituoso cresceu.

Mas por trás do humor havia cálculo. Caíque sabia que, em certos ambientes, raiva direta custava caro. A ironia, quando bem usada, era uma forma de devolver violência embrulhada em elegância. Carmem teria aprovado.

Escrevia cartas para ela.

Não com frequência, mas com cuidado. Contava da cidade, das festas, das figuras oficiais e subterrâneas, dos colegas, das saudades. Tomava cuidado para não colocar nomes comprometedores. Usava apelidos e códigos.

“Minha querida Doutora Carmem,

Brasília é uma cidade engraçada: todo mundo parece limpo demais, o que me faz desconfiar de sujeira acumulada em lugares muito específicos. Aqui as bichas não brilham em néon; brilham em abajur de apartamento funcional. Sinto falta da Galeria como quem sente falta de uma língua materna. Mas estou aprendendo este novo idioma: menos grito, mais subtexto; menos esquina, mais elevador; menos mar, mais poeira.

Você teria material para três teses e uma prisão.”

Carmem respondia em cartões curtos, escritos com letra grande:

“Meu filho,

Não confie em homem que tem medo de manchar o sapato.

Use perfume.

Não vire estátua de repartição.

Com amor e ameaça,

C.”

Ele guardava todos.

Renato escreveu apenas uma vez, alguns meses depois da mudança.

“Caíque,

A Galeria continua igual e diferente, como tudo que a gente acha que vai esperar por nós. Toninho inventou que está apaixonado por um músico e Carmem diz que é só indigestão com cabelo bonito.

Espero que Brasília não te engula. Ou, se engolir, que você dê azia.

R.”

Caíque leu a carta muitas vezes.

Pensou em responder com tudo que não tinham dito na despedida. Não respondeu assim. Escreveu uma carta leve, engraçada, covarde. Falou do trabalho, da seca, dos apartamentos, das figuras curiosas. Não falou de saudade. Não falou do quase. Não falou da sensação de que algumas portas, quando não atravessadas, continuam abertas dentro da gente para sempre.

Enviou.

Depois, vida.

O primeiro ano em Brasília foi de adaptação, mas também de expansão. Caíque passou a conhecer a cidade para além do espanto inicial. Descobriu a beleza do céu no fim da tarde, quando o seco virava ouro. Descobriu o prazer silencioso das quadras arborizadas. Descobriu que, sem mar, as pessoas inventavam horizontes em conversas longas. Descobriu que o vazio de Brasília, às vezes, não era falta, mas espera.

Ainda assim, reclamava.

Reclamar era uma forma de intimidade.

— Esta cidade não tem esquina — dizia a Lúcia Helena.

— Tem, sim. Só que são emocionais.

— Péssimo urbanismo.

— Excelente dramaturgia.

Lúcia Helena se tornou uma amiga central. Não amante, não irmã, não mãe, mas cúmplice. Era uma mulher que sabia demais e falava o suficiente. Tinha uma vida afetiva igualmente complexa, sobre a qual Caíque aprendia aos poucos. Havia um ex-marido, uma filha morando com a avó, um poeta que aparecia e sumia, uma professora universitária que talvez fosse mais que amiga.

— Você gosta de complicação — Caíque disse uma vez.

— Eu gosto de gente. Dá quase no mesmo.

Com ela, Caíque conheceu a Brasília que não aparecia nos cartões-postais. Festas em casas no Lago Sul onde a hipocrisia usava louça importada. Reuniões em apartamentos pequenos na Asa Norte onde jovens artistas discutiam revolução e ciúme com a mesma intensidade. Encontros no Núcleo Bandeirante, no Taguatinga, no Gama, onde a vida era menos polida e mais direta. Bares em que caminhoneiros, estudantes, funcionários públicos e sujeitos sem explicação dividiam mesas sem perguntar demais.

Foi numa dessas incursões que Caíque começou a se interessar pelas regiões fora do Plano Piloto.

O Gama, especialmente, o marcou.

Ainda não era o lugar das aulas de inglês. Isso viria décadas depois. Mas, na primeira vez em que foi a uma festa por lá, percebeu uma diferença. Havia menos preocupação em parecer sofisticado e mais urgência em viver. As casas eram mais simples, as ruas menos monumentais, as pessoas menos protegidas por cargos. A alegria parecia mais exposta, portanto mais corajosa.

Em uma sala apertada, ao som de música alta, Caíque viu jovens dançando com uma intensidade que lhe lembrou a Galeria, mas sem a moldura turística de Copacabana. Ali também havia risco. Talvez mais. Mas havia um calor humano que Brasília oficial escondia.

— Aqui a cidade respira melhor — disse.

Lúcia Helena, ao lado, respondeu:

— Aqui Brasília para de posar para fotografia.

Ele gostou do Gama.

Anotou mentalmente.

Décadas depois, quando procurasse um lugar para ensinar, talvez essa memória voltasse antes mesmo que ele percebesse.

Mas, em 1981, sua vida ainda girava entre trabalho, festas, amizades e um tipo de solidão que não desaparecia com companhia.

Tinha casos. Alguns breves, alguns repetidos. Um diplomata que falava francês quando queria parecer profundo; um professor de história que chorava depois do prazer; um rapaz de Taguatinga que o fazia rir, mas desaparecia por semanas; um servidor casado que dizia “você entende minha situação” como se situação fosse entidade sagrada.

Caíque entendia.

E, por entender, cansava.

Aos poucos, percebeu que muita gente ali queria do outro apenas o pedaço que cabia no próprio esconderijo. Queriam desejo sem consequência, escuta sem exposição, carinho sem compromisso, corpo sem memória. Ele não condenava completamente. Sabia que o medo deformava as pessoas. Mas começou a desejar algo que não soube nomear de imediato.

Não era casamento. A palavra lhe parecia oficial demais, domesticada demais, impossível demais.

Não era estabilidade no sentido pequeno.

Era presença.

Queria alguém que permanecesse depois da música, depois do vinho, depois da piada, depois da madrugada. Alguém que não o tratasse como intervalo entre duas versões respeitáveis da própria vida. Alguém que não dissesse “você entende” como pedido antecipado de perdão.

Esse desejo o irritava.

— Estou ficando burguês — disse a Lúcia Helena, certa tarde.

— Por quê?

— Acho que quero alguém que durma e acorde.

— Isso não é burguês. É humano.

— Humano dá muito trabalho.

— E você achou que era o quê? Uma carreira pública?

Ele riu.

Mas o incômodo ficou.

Talvez Caíque estivesse pronto para o amor antes de saber.

Ou talvez o amor o encontrasse justamente porque ele achava que ainda conseguiria evitá-lo.

A noite decisiva começou sem promessa.

Era uma sexta-feira de agosto. O ar estava seco a ponto de transformar respiração em tarefa. Caíque havia tido uma semana longa no banco, com reuniões desgastantes, um relatório refeito três vezes e uma discussão educadíssima com Ferraz, que tentara se apropriar de uma análise sua.

Chegou em casa decidido a não sair.

Tomou banho, vestiu roupa confortável, preparou algo simples para comer e abriu um livro. Leu a mesma página quatro vezes sem entender. O telefone tocou.

Era Lúcia Helena.

— Vista uma camisa decente.

— Não.

— Que resposta pouco civilizada.

— Estou cansado.

— Todo mundo está. Isso nunca impediu a história de acontecer.

— Que história?

— A que você vai perder se ficar aí fazendo pose de velho.

— Tenho vinte e poucos anos.

— E já cultiva tédio de funcionário aposentado. Vista-se.

— Onde?

— Casa do Davi. Pequena reunião.

— Pequena reunião em Brasília significa trinta pessoas e três crises conjugais.

— Hoje talvez quatro. Venha.

Ele suspirou.

— Vai ter comida?

— Vai ter gente interessante.

— Isso não alimenta.

— Às vezes alimenta demais.

Caíque quase recusou.

Depois olhou para a sala silenciosa, para o livro aberto, para a própria irritação. Percebeu que ficar em casa seria menos descanso que ressentimento.

Vestiu-se.

Escolheu uma camisa branca, calça escura, sapatos bons. Passou perfume. Pensou na gravata de Carmem, mas não a usou. Aquela noite, embora ele não soubesse, não pedia armadura. Pedia pele.

O apartamento de Davi ficava na Asa Norte. Menor que o de Lúcia Helena, mais bagunçado, cheio de livros, discos, cinzeiros e cadeiras que não combinavam. Havia menos gente do que Caíque esperava. Umas quinze pessoas. Música baixa. Conversas espalhadas. Cheiro de vinho e alho.

Davi o recebeu com um abraço rápido.

— O economista chegou. Agora podemos fingir profundidade.

— Vocês começaram sem mim?

— Começamos a fingir, não a ter.

Caíque entrou rindo.

Cumprimentou conhecidos. Lúcia Helena estava na cozinha discutindo com Irene sobre censura e mau gosto. Paulo falava de arquitetura com uma paciência que beirava a sedução. Gil, o bonito, parecia entediado de propósito em uma poltrona.

Caíque pegou uma taça e começou a relaxar.

Foi então que viu Marco.

Ele estava perto da janela, um pouco afastado dos grupos, segurando um copo com as duas mãos. Não era o homem mais chamativo da sala. Não tinha a beleza agressiva de Gil, nem a presença expansiva de Davi, nem o charme calculado dos diplomatas. Mas havia nele uma delicadeza que não parecia fraqueza. Uma quietude que chamava atenção justamente por não pedir.

Tinha cabelos escuros, olhos grandes e uma expressão de quem escutava o mundo por baixo do barulho. Usava camisa azul clara, mangas dobradas, relógio simples. Olhava para fora da janela, para a noite seca de Brasília, como se a cidade tivesse lhe feito uma pergunta difícil.

Caíque não se aproximou de imediato.

Observou.

Marco parecia deslocado, mas não perdido. Cumprimentava quem chegava com educação, sorria pouco, respondia com frases curtas. De vez em quando, ria de algo que alguém dizia, e o rosto inteiro mudava. Não era um riso fácil. Era como se uma porta interna se abrisse por segundos e logo voltasse a fechar.

Lúcia Helena apareceu ao lado de Caíque.

— Viu?

— Quem?

— Não faça tipo comigo.

— O da janela?

— Marco.

Caíque repetiu o nome em silêncio.

Marco.

— O que ele faz?

— Trabalha em um órgão público. Inteligente. Discreto. Meio triste. Ou seja, perigo.

— Tristeza agora é defeito?

— Em homem bonito, é isca.

— Ele é bonito.

— Eu sei. Por isso avisei.

Caíque bebeu um gole.

— Ele é daqui?

— Não. Mas já foi capturado.

— Por Brasília?

— Por alguma coisa.

Lúcia Helena saiu antes que ele perguntasse mais.

Caíque ficou irritado por perceber que queria saber.

A noite seguiu. Alguém colocou outro disco. A conversa cresceu. Em algum momento, Davi chamou Marco para perto do grupo.

— Marco, este é Caíque. Veio do Rio para elevar o nível da nossa decadência.

Marco sorriu.

— Então chegou atrasado. A decadência aqui é antiga.

A voz era baixa, com uma ironia discreta.

Caíque gostou antes de permitir.

— Decadência antiga costuma ser patrimônio histórico.

— Em Brasília, vira repartição.

Davi apontou entre os dois.

— Ótimo. Já posso sair.

E saiu mesmo.

Caíque e Marco ficaram diante um do outro com a taça na mão e a estranha formalidade dos começos.

— Você veio do Rio? — Marco perguntou.

— Vim.

— Sente falta?

— Do Rio ou de mim nele?

Marco sorriu.

— Boa distinção.

— Sinto dos dois em dias diferentes.

— E hoje?

Caíque olhou ao redor.

— Hoje sinto menos.

A resposta saiu mais direta do que pretendia.

Marco não desviou os olhos.

— Brasília melhora quando a gente encontra as pessoas certas.

— E piora quando encontra as erradas.

— Isso qualquer cidade.

— Algumas erram com mais estilo.

Marco riu.

Foi um riso breve, mas verdadeiro.

Caíque sentiu alguma coisa se mover.

Não desejo apenas. Desejo ele conhecia. Era mais perigoso. Era curiosidade com ternura, uma combinação que costumava causar problemas.

Conversaram sobre a cidade, sobre trabalho, sobre o Rio, sobre livros. Marco gostava de cinema italiano, mas dizia isso sem a afetação comum dos homens que usavam Fellini como perfume intelectual. Falava de música com cuidado, de política com desencanto, de infância com evasivas. Quando Caíque fazia uma piada, Marco ria se achasse graça, não por educação. Isso o tornou imediatamente mais interessante.

— Você não ri para agradar — Caíque disse.

— Deveria?

— Facilita a vida social.

— Mas dificulta a alma.

Caíque ergueu a sobrancelha.

— Cuidado. Frase bonita demais antes da meia-noite é indício de problema emocional.

Marco olhou o relógio.

— Então espere vinte minutos e me julgue melhor.

Caíque riu.

A conversa foi interrompida várias vezes, mas sempre voltava. Eles se afastavam, falavam com outros, circulavam, e de algum modo terminavam próximos de novo. Sem combinação. Sem pressa. Como se a sala, desorganizada e cheia de livros, tivesse decidido empurrá-los um para o outro.

Perto do fim da noite, Caíque encontrou Marco novamente na janela.

Lá fora, Brasília estava escura e espaçada. Algumas luzes acesas em blocos distantes. Árvores imóveis. Céu enorme.

— Você olha muito pela janela — Caíque disse.

— Janela é uma forma educada de fugir sem sair.

— Isso foi bonito.

— Já passou da meia-noite.

— Então está permitido.

Marco sorriu.

Ficaram em silêncio.

Diferente dos silêncios constrangedores, aquele tinha corpo. Caíque, que sempre preenchia vazios com frases, não sentiu necessidade imediata de falar. Isso o incomodou. O silêncio com Marco não parecia ausência. Parecia presença sem esforço.

— Você se adaptou? — Marco perguntou.

— A Brasília?

— A si mesmo aqui.

Caíque olhou para ele.

A pergunta era simples e profunda demais para um quase desconhecido. Talvez Marco não soubesse o que estava perguntando. Ou soubesse exatamente.

— Ainda estou traduzindo — respondeu.

— Do carioca para o brasiliense?

— Do sobrevivente para alguma coisa menos cansada.

Marco ficou quieto.

Depois disse:

— Se descobrir o caminho, me avise.

Caíque sentiu, naquele instante, que havia uma tristeza em Marco que não era pose. Era morada.

— Aviso — disse.

Não houve beijo naquela noite.

Nem toque prolongado.

Apenas, na despedida, Marco apertou sua mão por um segundo a mais que o necessário. O gesto foi mínimo, quase formal. Mas Caíque, treinado em décadas de leitura microscópica do desejo, entendeu que havia ali uma pergunta.

Não respondeu.

Ainda.

Na saída, Lúcia Helena esperava perto da porta com expressão insuportavelmente satisfeita.

— Então?

— Então o quê?

— Não me ofenda fingindo burrice.

— Ele é interessante.

— Interessante é palavra que gente covarde usa quando quer dizer perigoso.

— Você chama todo homem bonito e triste de perigoso.

— Porque sou experiente.

— E você acha que ele é perigoso para mim?

Lúcia Helena olhou para dentro da sala, onde Marco conversava com Davi.

— Acho que você é perigoso para si mesmo quando alguém te dá vontade de ficar.

Caíque não respondeu.

Na volta para casa, caminhou um trecho antes de pegar carona. O ar seco ardia um pouco na garganta. Brasília continuava sem esquinas aparentes, mas agora ele começava a desconfiar que as curvas da cidade estavam nas pessoas.

Pensou em Marco.

Na voz baixa. No riso raro. Na pergunta sobre adaptar-se a si mesmo. Na mão segurando a sua por um segundo a mais.

Não queria se apaixonar.

Essa frase lhe veio com clareza e, justamente por isso, pareceu inútil.

Ninguém quer se apaixonar quando o amor vai realmente acontecer. A paixão pequena, sim, a gente procura. A grande, a que reorganiza móveis internos, chega como remoção administrativa: comunicada em linguagem simples, devastadora nas consequências.

Ao entrar no apartamento funcional, Caíque acendeu a luz e viu a sala impessoal de sempre. Mas ela já não parecia tão vazia. Havia algo novo ocupando o espaço.

Possibilidade.

Tirou os sapatos, desabotoou a camisa e foi até o armário. A gravata azul de Carmem ainda estava pendurada na maçaneta.

— Não começa — disse para ela.

A gravata, naturalmente, não respondeu.

Mas se respondesse, teria a voz de Carmem:

“Meu filho, já começou.”

Caíque apagou a luz.

Na cama, demorou a dormir.

Do lado de fora, Brasília mantinha sua pose de cidade racional, desenhada em linhas, eixos e monumentos. Mas Caíque agora sabia: sob o concreto, havia quartos acesos; sob os discursos, havia corpos; sob a ordem, havia desejo; sob o silêncio, havia nomes.

Um deles era Marco.

E esse nome, sem pedir licença, tinha acabado de encontrar uma esquina dentro dele.

Fim do Capítulo 5.

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