Giulia acordou com a claridade atravessando as frestas da cortina e uma sensação estranha espalhada pelo corpo.
Por alguns segundos, não se lembrou de onde vinha aquele cansaço. Ficou imóvel, deitada de lado, sentindo o peso dos lençóis sobre a pele e ouvindo a respiração tranquila de Rafael ao seu lado.
Então as lembranças voltaram.
A casa de Karina.
A música baixa.
O vinho.
As mãos.
Os beijos.
Os rostos de Bianca e Fernanda tão próximos do seu.
Giulia fechou os olhos novamente, como se pudesse impedir que as imagens se formassem. Mas era tarde. Tudo retornava com nitidez demais. Não como um sonho confuso, mas como algo que seu corpo parecia guardar melhor do que sua própria memória.
Sentiu o rosto aquecer.
Virou-se devagar para olhar Rafael.
Ele dormia de costas, ocupando boa parte da cama, completamente alheio ao que havia acontecido. Giulia observou o marido por alguns instantes, tentando encontrar culpa dentro de si. Ela estava lá, sem dúvida, mas não vinha sozinha. Misturava-se a uma satisfação silenciosa, a uma curiosidade ainda viva e, principalmente, a uma vontade que ela não queria admitir.
Vontade de repetir.
Giulia se levantou com cuidado para não acordá-lo. Vestiu o robe e foi até o banheiro. Ao acender a luz, encontrou no espelho uma mulher que parecia a mesma, mas não era.
Os cabelos estavam desalinhados, o rosto ainda carregava marcas de uma noite mal dormida e havia no olhar alguma coisa diferente. Uma espécie de brilho culpado. Ou talvez fosse apenas a consciência de possuir agora um segredo que ninguém naquela casa poderia imaginar.
Ela molhou o rosto, escovou os dentes e tentou se recompor.
Quando voltou ao quarto, Rafael já estava acordado, sentado na cama, olhando o celular.
– Dormiu bem? –perguntou ele.
Giulia demorou uma fração de segundo a mais do que deveria.
– Dormi.
Rafael ergueu os olhos para ela.
– Você chegou tarde ontem.
– A gente acabou perdendo a hora.
– Fazendo decoração?
Giulia sentiu o estômago se apertar.
– Também.
A resposta saiu antes que pudesse elaborar melhor. Rafael continuou olhando para ela por alguns segundos. Não havia desconfiança clara em seu rosto, mas havia atenção. Como se tivesse percebido algo diferente e ainda não soubesse o quê.
– Você está estranha – disse ele.
Giulia abriu o guarda-roupa, fingindo procurar uma roupa.
– Estranha como?
– Sei lá. Quieta.
Ela deu de ombros.
– Só estou cansada.
Rafael pareceu aceitar, embora não completamente. Levantou-se, passou por ela e entrou no banheiro. Giulia soltou o ar devagar assim que ele fechou a porta.
Durante o café, os dois falaram pouco. Rafael assistia a vídeos no celular enquanto comia, rindo sozinho de vez em quando. Giulia mexia a colher dentro da xícara sem beber, ensaiando como daria a notícia que Karina havia mencionado na noite anterior, antes de tudo mudar.
– A Karina falou comigo sobre uma coisa – começou.
Rafael não tirou os olhos do celular.
– Que coisa?
– Ela me convidou para trabalhar na igreja.
Isso chamou sua atenção.
Rafael colocou o aparelho sobre a mesa e olhou para ela.
– Trabalhar como?
– Na parte administrativa. Ajudando com eventos, viagens, projetos das mulheres, essas coisas. No começo seria mais para aprender, mas ela disse que vão me contratar.
O rosto dele mudou imediatamente.
– Contratar mesmo?
– Sim. Com salário.
Rafael recostou-se na cadeira, satisfeito.
– Isso é bom.
Giulia observou a reação dele.
– Você acha?
– Claro. Melhor do que ficar em casa sem fazer nada.
A frase incomodou mais do que ela gostaria de demonstrar.
– Eu não fico sem fazer nada.
– Não falei por mal – ele respondeu, embora o tom dissesse o contrário. – Só acho bom você ocupar a cabeça. E trabalhar na igreja é diferente de trabalhar em qualquer lugar.
– Diferente como?
Rafael voltou a pegar o celular.
– É um ambiente seguro. Gente conhecida, mulheres de respeito, pessoas com valores. Não vou precisar ficar preocupado com chefe dando em cima de você ou com homem te cercando.
Giulia levou a xícara aos lábios para esconder a expressão.
Se ele soubesse.
– E você gosta delas – Rafael continuou. – Dá para perceber. Desde que começou a andar com aquelas mulheres, parece até mais animada.
Giulia sentiu o corpo enrijecer.
– Você reparou?
– Claro que reparei.
Por um instante, ela teve medo de que ele dissesse mais alguma coisa. Que falasse sobre o perfume diferente, o horário, o modo como ela havia chegado em silêncio. Mas Rafael apenas sorriu com certo orgulho.
– A esposa do pastor confiar em você assim, logo de cara, é sinal de que viram alguma coisa boa.
Giulia abaixou os olhos.
Tinham visto, sim.
Talvez não exatamente o que Rafael imaginava.
– A Karina disse que eu tenho perfil – contou.
– Perfil para quê?
– Para lidar com as pessoas. Organizar eventos. Acompanhar viagens. Ajudar na recepção de convidados.
Rafael assentiu, cada vez mais satisfeito.
– Ótimo. Isso também pode ser bom para mim.
Giulia ergueu os olhos.
– Para você?
– Claro. Você acha que essas coisas não contam? Estar perto das pessoas certas abre portas. Os maridos delas têm empresas, conhecem políticos, conhecem todo mundo nessa cidade. Você trabalhando com elas, participando da igreja, só melhora nossa imagem.
Nossa imagem.
Era curioso como Rafael conseguia transformar até o trabalho dela em algo que o favorecia.
– Então você não se importa?
Ele soltou um riso curto.
– Me importar por quê? Você vai trabalhar com mulheres, dentro da igreja. Não vejo problema nenhum.
Giulia sentiu uma pontada quase divertida.
A segurança de Rafael vinha menos da confiança nela e mais da certeza que ele tinha sobre o mundo. Na cabeça dele, mulheres de igreja eram previsíveis. Esposas de pastores eram exemplares. Reuniões femininas eram inocentes. E Giulia, sua esposa, continuava sendo uma extensão obediente da vida dele.
– Mas tem uma coisa – disse Rafael.
Ela esperou.
– Não quero que isso atrapalhe a casa.
Giulia ficou em silêncio.
– Como assim?
– Você sabe. Trabalho é trabalho, mas suas responsabilidades aqui continuam. Não quero começar a chegar e não ter comida, roupa lavada, essas coisas.
Ela apertou os dedos ao redor da xícara.
– Eu também vou trabalhar.
– Eu sei. Mas não é a mesma coisa.
– Por que não?
Rafael suspirou, impaciente, como se estivesse explicando algo óbvio.
– Porque eu sustento a casa. Esse trabalho na igreja vai ser bom para você, para ter seu dinheiro, se sentir útil. Mas não vamos inverter os papéis.
Giulia o encarou.
Naquela manhã, aquelas palavras pareciam mais ofensivas do que antes. Talvez porque agora ela tivesse conhecido outra forma de ser vista. Talvez porque, depois da noite anterior, soubesse que havia lugares onde não precisava se diminuir para que um homem se sentisse maior.
– Quais papéis? – perguntou.
Rafael franziu a testa.
– Giulia, não começa.
Ela quase respondeu. Quase perguntou por que o trabalho dele tinha importância e o dela seria apenas uma distração. Quase repetiu na cara dele aquela frase sobre o papel da mulher, só para ver se ainda soava tão natural à luz do dia.
Mas se conteve.
Ainda não era hora de confrontá-lo.
Havia outras coisas acontecendo. Coisas que Rafael não conhecia. Coisas que, naquele momento, davam a Giulia uma sensação silenciosa de vantagem.
– Tudo bem – disse ela.
Rafael relaxou, acreditando ter encerrado o assunto.
– Quando você começa?
– Segunda-feira.
– Rápido assim?
– Elas precisam de alguém de confiança.
Mais uma vez, Rafael sorriu, orgulhoso.
– Eu sabia que elas tinham gostado de você.
Giulia olhou para ele por cima da xícara.
– Gostaram bastante.
Ele não percebeu o peso da resposta.
Depois do café, Rafael saiu para resolver algumas coisas. Assim que ouviu o carro deixar a garagem, Giulia pegou o celular.
Havia mensagens no grupo que as quatro haviam criado na noite anterior.
O nome do grupo era discreto:
Projeto Mulheres em Ação.
Karina havia enviado primeiro:
“Bom dia. Dormiu bem?”
Fernanda respondeu com um coração.
Bianca escreveu logo abaixo:
“Nossa menina sobreviveu?”
Giulia ficou olhando para a tela, sentindo novamente aquele calor subir pelo corpo.
Digitou:
“Por pouco.”
Bianca respondeu quase imediatamente:
“Então vai precisar de mais treinamento.”
Giulia mordeu o lábio, tentando conter o sorriso.
Karina mudou o rumo da conversa:
“Conseguiu falar com o Rafael sobre o trabalho?”
“Consegui. Ele adorou a ideia.”
Alguns segundos depois, Karina respondeu:
“Eu sabia que adoraria.”
Havia alguma coisa naquela frase que deixou Giulia inquieta.
“Por quê?”
A resposta veio de Fernanda:
“Homens como eles gostam de acreditar que escolhem onde as esposas podem estar.”
Bianca completou:
“Principalmente quando não fazem ideia do que acontece lá dentro.”
Giulia ficou em silêncio diante da tela.
Até então, havia pensado no emprego apenas como uma forma de ficar mais próxima delas. Uma maneira de sair de casa, ter seu próprio dinheiro e ocupar um lugar dentro daquele novo mundo.
Mas agora percebeu que havia mais.
Trabalhar na igreja significava acesso.
Acesso às salas, aos eventos, às viagens, às pessoas e aos bastidores daquela estrutura que Rafael admirava tanto.
Karina enviou outra mensagem:
“Segunda, às nove. Venha preparada. Temos muita coisa para te mostrar.”
Giulia sentiu um arrepio.
Não sabia se Karina falava sobre o trabalho.
Talvez falasse.
Talvez não.
Ela bloqueou o celular e ficou olhando pela janela, para a rua tranquila diante da casa.
Naquela manhã, Rafael acreditava que sua esposa estava prestes a entrar para a obra de Deus.
Giulia, porém, começava a suspeitar que estava entrando em algo muito maior.
E muito menos santo.
Na segunda-feira, Giulia chegou à igreja alguns minutos antes das nove.
Durante os cultos, o prédio já parecia imponente. Vazio, porém, parecia ainda maior.
Sem a música alta, as luzes de palco e a multidão bem vestida, ela conseguia perceber detalhes que antes passavam despercebidos: os corredores largos, as portas de vidro fumê, as salas com móveis caros, o piso escuro impecavelmente polido. Havia uma cafeteria moderna no térreo, uma pequena livraria com produtos da própria igreja e uma recepção que lembrava mais a entrada de um hotel do que um templo.
Na parede principal, o nome da igreja aparecia em letras metálicas iluminadas.
Giulia parou por um instante diante dele.
Tudo ali transmitia sucesso.
Não humildade.
Sucesso.
Karina a esperava na recepção, usando calça de alfaiataria, salto baixo e uma camisa clara perfeitamente passada. Sem o vestido de culto e os gestos cuidadosamente religiosos, parecia menos uma esposa de pastor e mais uma executiva.
– Chegou cedo – disse ela.
– Não queria me atrasar no primeiro dia.
Karina sorriu.
– Isso passa.
Giulia riu, sem saber se era brincadeira.
Fernanda apareceu logo depois, carregando uma pasta e dois celulares. Cumprimentou Giulia com um abraço discreto, mas a proximidade foi suficiente para trazer à memória fragmentos da noite anterior.
– Está nervosa? – perguntou.
– Um pouco.
– Não precisa. Aqui ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Alguns apenas fingem melhor.
Karina lançou a ela um olhar divertido.
– Não assusta a menina.
– Acho que já passamos dessa fase – Fernanda respondeu.
Giulia baixou os olhos, sentindo o rosto aquecer.
Bianca ainda não havia chegado.
Karina conduziu Giulia por um corredor lateral, passando por salas destinadas à administração, mídia, eventos e projetos sociais. Em cada porta havia placas discretas, nomes formais e gente trabalhando diante de computadores modernos.
– A igreja tem quase cem funcionários diretos – Karina explicou. – Fora os prestadores de serviço, fornecedores e voluntários.
– Tudo isso?
– Isto aqui cresceu muito nos últimos anos.
Giulia percebeu o orgulho em sua voz.
Também percebeu que Karina não falou sobre crescimento espiritual.
Falou como quem descrevia uma empresa.
Elas entraram numa sala ampla, com uma mesa central, quatro computadores e armários fechados. Havia fotografias de congressos femininos nas paredes: auditórios cheios, palcos decorados, mulheres sorrindo, palestrantes famosas, viagens a outras cidades.
Em várias imagens, Karina, Fernanda e Bianca apareciam juntas.
Sempre elegantes.
Sempre próximas.
Sempre irrepreensíveis.
– Essa vai ser sua sala – disse Karina.
Giulia olhou ao redor.
– Minha?
– Nossa. Você vai trabalhar conosco.
Fernanda colocou a pasta sobre a mesa.
– Eventos, viagens, recepção de convidados, prestação de contas, projetos femininos. No começo, você vai acompanhar tudo. Depois a gente vê onde você se encaixa melhor.
Giulia aproximou-se de uma das mesas. Havia um computador novo, um bloco de anotações e um crachá com seu nome.
Giulia Almeida – Coordenação de Projetos
Ela passou o dedo pelo plástico.
– Já estava tudo pronto?
Karina se encostou à mesa.
– A gente sabia que você aceitaria.
Giulia olhou para ela.
Não havia arrogância na frase.
Apenas certeza.
Antes que pudesse responder, a porta se abriu.
Bianca entrou usando óculos escuros, uma bolsa grande no ombro e um copo de café na mão.
– Bom dia, mulheres de Deus.
Fernanda olhou para o relógio.
– Dezessete minutos atrasada.
– Pessoas importantes não se atrasam. Elas fazem os outros esperarem.
Bianca tirou os óculos e sorriu ao ver Giulia.
– E olha só quem veio trabalhar.
Aproximou-se e a abraçou. O gesto pareceu comum o bastante para qualquer pessoa que entrasse na sala, mas Bianca deixou a mão repousar um pouco mais nas costas dela.
– Dormiu bem? – perguntou perto de seu ouvido.
Giulia se afastou devagar.
– Mais ou menos.
– Eu também.
Karina fechou a porta.
– Podemos tentar passar pelo menos uma hora fingindo profissionalismo?
– Posso tentar – Bianca respondeu. – Não prometo.
Giulia sorriu, mas sentia-se observada pelas três.
Karina então começou a explicar a rotina. Mostrou agendas, fornecedores, contratos de eventos, reservas de hotéis, passagens aéreas e relatórios de despesas. Os valores chamaram a atenção de Giulia.
Um único congresso feminino movimentava mais dinheiro do que ela imaginava.
Havia cachês de palestrantes, aluguel de equipamentos, equipes de vídeo, transporte, decoração, publicidade e hospedagem. Tudo custava caro. Tudo parecia maior do que deveria.
– A igreja paga tudo isso? – perguntou.
Fernanda abriu uma planilha.
– A igreja, patrocinadores e empresas parceiras.
– E doações – Bianca acrescentou, sentando-se na beirada da mesa. – Muitas doações.
Giulia percorreu os números com os olhos.
– Eu nunca imaginei que circulasse tanto dinheiro.
Karina puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela.
– Quase ninguém imagina. É por isso que funciona.
A frase ficou no ar por um instante.
Giulia olhou para Karina, mas ela já havia voltado a atenção para os documentos.
Durante a manhã, aprendeu procedimentos simples. Como registrar convidados, organizar despesas, conferir notas, solicitar pagamentos e reservar viagens. Fernanda explicava tudo com paciência. Karina supervisionava. Bianca interrompia com comentários, histórias e provocações discretas.
Perto do meio-dia, um homem de terno entrou na sala sem bater.
Era um dos pastores da administração, alguém que Giulia já havia visto no palco, sempre sorridente, sempre falando sobre prosperidade.
Naquela manhã, porém, ele parecia apressado.
– Karina, o valor do instituto já entrou?
– Ainda não – respondeu ela.
– O deputado quer tudo resolvido até quarta.
Karina não demonstrou surpresa.
– Vou falar com o financeiro.
O homem percebeu Giulia.
– Funcionária nova?
– Giulia, esposa do Rafael – Karina explicou. – Vai trabalhar conosco.
Ele olhou para ela rapidamente e sorriu.
– Boa escolha. Precisamos de gente confiável.
Depois saiu, fechando a porta.
Giulia esperou alguns segundos.
– Que instituto?
Fernanda continuou olhando para o computador.
Bianca bebeu o café.
Karina respondeu:
– Um projeto parceiro.
– E o deputado?
– Ajuda a igreja em algumas questões.
A resposta parecia completa, mas não explicava nada.
Giulia percebeu isso.
Também percebeu que nenhuma das três pretendia explicar mais naquele momento.
Pouco depois, foram almoçar no restaurante do próprio prédio, reservado para funcionários e convidados. O ambiente era elegante, com mesas de madeira escura, iluminação discreta e pratos que não lembravam em nada comida de refeitório.
Enquanto comiam, Karina falou sobre o salário de Giulia, os horários e os benefícios. O valor era melhor do que ela esperava.
Muito melhor.
– Tudo isso para ajudar em eventos? – Giulia perguntou.
Bianca sorriu.
– Você tem dificuldade de aceitar coisa boa?
– Só estou surpresa.
– Vai se acostumar – Karina disse.
Fernanda levantou os olhos do prato.
– Esse é o problema.
Karina a encarou.
– Não hoje.
Giulia percebeu outra vez aquela linguagem silenciosa entre as três.
– Tem alguma coisa que eu deveria saber? – perguntou.
Bianca apoiou o queixo na mão.
– Tem muita coisa que você deveria saber.
– Bianca.
– O quê? Ela vai descobrir de qualquer maneira.
Karina limpou os lábios com o guardanapo e olhou diretamente para Giulia.
– Seu trabalho é real. Seu salário também. Você vai organizar eventos, acompanhar viagens e ajudar na administração.
– Mas?
– Mas a igreja não funciona apenas do jeito que aparece no palco.
Giulia permaneceu em silêncio.
Karina continuou:
– Existem acordos. Empresas. Pessoas influentes. Dinheiro entrando por caminhos que não aparecem nos relatórios mais bonitos.
– Dinheiro ilegal?
Fernanda olhou ao redor antes de responder:
– Digamos que a origem nem sempre é uma pergunta bem-vinda.
Giulia sentiu um frio discreto no estômago.
– E vocês sabem disso?
Bianca riu baixo.
– Querida, nós somos casadas com os homens que construíram isso.
Karina manteve o olhar firme.
– Você não precisa entender tudo agora. Só precisa aprender a observar e a não comentar o que não lhe diz respeito.
– E o que diz respeito a mim?
As três ficaram em silêncio.
Foi Bianca quem respondeu:
– Aquilo de que você também começa a aproveitar.
Giulia sentiu o peso da frase.
Pensou no salário.
No restaurante.
Nas viagens registradas nas planilhas.
Na casa de Karina.
Na noite de sexta-feira.
Karina apoiou a mão sobre a mesa.
– Nossos maridos construíram um sistema que serve a eles. Poder, dinheiro, influência política. Nós apenas aprendemos a não ficar de fora.
– Vocês pegam dinheiro da igreja?
Fernanda se remexeu na cadeira.
Bianca não demonstrou desconforto.
Karina respondeu com calma:
– Pegamos nossa parte.
– Isso é roubo.
– O dinheiro já entra sujo – disse Bianca. – Não somos nós que o sujamos.
– Isso não muda o que é.
– Não – Fernanda admitiu. – Não muda.
A honestidade dela atingiu Giulia mais do que qualquer justificativa.
Karina inclinou-se um pouco para a frente.
– Ninguém está pedindo para você fazer nada. Seu contrato é legal. Seu salário está registrado. Você pode trabalhar aqui, receber e não perguntar mais do que precisa.
Giulia olhou para as três.
– Mas foi para isso que me trouxeram?
Bianca respondeu:
– A gente trouxe você porque gostou de você.
Karina completou:
– E porque acreditamos que você pode ser uma de nós.
Giulia sentiu o coração bater mais forte.
– Uma de vocês como?
Karina sustentou seu olhar.
– Livre o suficiente para não pedir permissão por tudo.
Giulia pensou em Rafael naquela manhã, exigindo que o trabalho dela não atrapalhasse a casa.
Pensou no modo como ele havia gostado da proximidade com pessoas influentes.
Pensou em como se sentira satisfeita ao ver o próprio nome no crachá.
– E o que vocês fazem com essa parte? – perguntou.
Bianca abriu um sorriso.
– Finalmente uma pergunta interessante.
Karina lançou um olhar de advertência, mas Bianca continuou:
– Viagens. Hotéis. Festas. Presentes. Tudo aquilo que nossos maridos compram para eles mesmos sem jamais perguntar se podem.
Fernanda falou com mais cautela:
– Também guardamos dinheiro. Cada uma tem sua reserva.
– Para quê?
– Para nunca depender completamente deles – respondeu Karina.
Essa resposta mudou alguma coisa.
Até aquele momento, Giulia enxergava apenas luxo, prazer e corrupção. Mas uma reserva secreta significava outra coisa.
Uma saída.
Uma escolha.
Uma vida que não dependia do humor de um marido.
– Rafael não sabe quanto vou ganhar – Giulia disse, quase para si mesma.
Bianca sorriu.
– E não precisa saber.
Giulia olhou para Karina.
– O contrato vai mostrar o valor.
– O contrato que ele vir pode mostrar o que você quiser – Karina respondeu.
A naturalidade da frase assustou Giulia.
E a atraiu.
Pela primeira vez, ela imaginou possuir dinheiro que Rafael não controlava. Uma conta só sua. Viagens que ele acreditaria serem trabalho. Uma parte da vida à qual ele não teria acesso.
A culpa voltou.
Mas voltou mais fraca.
Karina percebeu a hesitação dela e estendeu a mão sobre a mesa.
– Você não precisa decidir hoje.
Giulia olhou para aquela mão.
Na noite de sexta, ela a havia seguido por desejo.
Naquela segunda-feira, seguir significava algo maior.
Dinheiro.
Poder.
Independência.
Mentira.
Ela colocou a mão sobre a de Karina.
– Quero aprender.
Bianca abriu um sorriso satisfeito.
Fernanda abaixou os olhos, como se aquela resposta trouxesse alívio e preocupação ao mesmo tempo.
Karina apertou suavemente os dedos de Giulia.
– Então bem-vinda de verdade.
Naquela tarde, Giulia recebeu seu primeiro acesso ao sistema financeiro dos projetos femininos.
Também recebeu um segundo cartão.
Sem o nome da igreja.
Sem o nome de Rafael.
Apenas o dela.
Quando perguntou de onde vinha o dinheiro, Karina respondeu:
– Da mesma fonte que paga os ternos dos nossos maridos.
Giulia guardou o cartão na bolsa.
Ainda não havia usado.
Mas, ao voltar para casa, não contou a Rafael que ele existia.