A palavra proibida

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4988 palavras
Data: 07/06/2026 00:03:18
Assuntos: Gay

Antes de virar Caíque, ele foi Carlos.

Carlos Eduardo, para a mãe. Carlos, para os professores. Moleque, para os irmãos mais velhos. E, para o pai, quase sempre nada. O pai raramente dizia seu nome. Chamava com estalos de língua, com ordens curtas, com um olhar que já vinha carregado de reprovação antes mesmo que o menino fizesse qualquer coisa.

Caíque só nasceria depois. Nasceria na estrada, no banco de um caminhão, com a roupa grudada no corpo e o coração batendo como se quisesse arrombar as costelas. Mas, antes disso, havia Carlos: dezesseis anos, magro, atento demais, bonito de um jeito que incomodava a casa inteira.

Ele cresceu em uma família onde os móveis pareciam ter mais direito de ocupar espaço do que as pessoas. A sala era sempre limpa, os retratos sempre alinhados, a mesa sempre posta na hora certa. Havia um relógio grande na parede que marcava não apenas as horas, mas o ritmo da obediência. O almoço, a oração, o banho, o estudo, o silêncio. Tudo tinha momento. Tudo tinha forma. Tudo tinha um jeito certo de ser feito.

Inclusive ser homem.

Seu pai acreditava em três coisas: trabalho, disciplina e vergonha. As duas primeiras ele dizia em voz alta. A terceira ensinava sem precisar nomear.

Era um homem de fala seca, bigode aparado e sapatos sempre engraxados. Trabalhava muito, reclamava mais ainda e tratava qualquer demonstração de delicadeza como falha moral. Não abraçava os filhos. Apertava ombros. Não perguntava se estavam tristes. Mandava reagir. Não elogiava. No máximo, dizia:

— Fez o mínimo.

A mãe, Dona Helena, vivia entre a cozinha, a igreja e uma espécie de cansaço permanente. Era uma mulher doce em alguns gestos e covarde em muitos silêncios. Quando Carlos era pequeno, ela ainda passava a mão em seus cabelos antes de dormir. Depois que ele cresceu, parou. Não por falta de amor, talvez, mas por medo de que qualquer ternura dirigida ao filho confirmasse aquilo que o marido já começava a suspeitar.

Carlos aprendeu cedo que certas coisas precisavam ser escondidas antes mesmo de serem compreendidas.

Escondia o jeito como olhava para alguns rapazes na rua. Escondia o interesse por músicas que os irmãos chamavam de “coisa de mulherzinha”. Escondia a vontade de permanecer na cozinha ouvindo as conversas das tias em vez de ir para o quintal fingir interesse por bola. Escondia o cuidado com a própria roupa. Escondia o riso quando ele vinha alto demais.

A casa vigiava.

Não era uma vigilância explícita, de portas trancadas ou castigos espetaculares. Era pior. Era a vigilância dos pequenos ajustes. O pai mandando engrossar a voz. O irmão imitando seu jeito de andar. A mãe dizendo “senta direito, meu filho” com os olhos baixos. O pastor colocando a mão sobre sua cabeça em uma oração demorada demais. A vizinha comentando que ele era “sensível”, e todo mundo entendendo a palavra como acusação.

Sensível.

Delicado.

Diferente.

Havia palavras que, naquela casa, eram ditas como quem deixa cair veneno em um copo d’água.

Carlos não tinha ainda uma palavra para si. Não sabia dizer “sou isso” ou “quero aquilo”. Sabia apenas que seu corpo reagia de um jeito que o mundo ao redor condenava antes mesmo que virasse gesto. Sabia que havia algo nele que os outros percebiam com uma rapidez cruel. Sabia que, se fosse descoberto por inteiro, não seria apenas repreendido. Seria corrigido.

Essa era a palavra que mais o assustava.

Correção.

Corrigir era endireitar o que nasceu torto. Corrigir era apagar erro de caderno. Corrigir era bater até que a letra ficasse aceitável. Corrigir era transformar uma pessoa em outra e chamar isso de amor.

Aos dezesseis anos, Carlos já sabia que o pai queria corrigi-lo.

O episódio que mudou tudo aconteceu em uma quinta-feira abafada, daquelas em que a casa parecia menor por causa do calor. Carlos voltara da escola e encontrara a mãe mais calada do que o normal. Ela mexia o feijão sem olhar para a panela. O rádio estava desligado, o que era estranho. Dona Helena gostava de ouvir música baixa enquanto cozinhava, mas naquele dia só havia o barulho da colher raspando o fundo de metal.

— Aconteceu alguma coisa? — Carlos perguntou.

A mãe demorou a responder.

— Seu pai quer falar com você depois.

A frase caiu no chão da cozinha como prato quebrado.

— Sobre o quê?

— Depois, Carlos.

Ela não disse “meu filho”.

Ele notou.

Naquela tarde, tentou estudar, mas as letras se desfaziam diante dos olhos. Sentado no quarto que dividia com um dos irmãos, ouvia vozes abafadas vindas da sala. O pai tinha chegado mais cedo. Outro homem estava com ele. Uma voz desconhecida, grave, pausada, dessas que pareciam acostumadas a explicar coisas difíceis para pessoas obedientes.

Carlos se aproximou do corredor.

Não queria ouvir. Precisava ouvir.

A porta da sala estava entreaberta. De onde ficou, via apenas parte do tapete e os sapatos dos homens. O do pai, preto, engraxado. O do visitante, marrom, com bico fino. A mãe estava sentada, ele sabia, porque reconhecia o som dos dedos dela mexendo nas contas do terço.

— Isso não é fase — disse o pai.

Houve um silêncio.

— Nessa idade, algumas tendências podem se consolidar — respondeu o visitante. — Mas há formas de intervenção.

Carlos encostou a mão na parede.

Intervenção.

— Eu não vou aceitar um filho assim — disse o pai.

A mãe sussurrou alguma coisa. Talvez o nome dele. Talvez um pedido. Talvez nada.

O visitante continuou:

— Existem tratamentos. Alguns mais modernos, outros mais invasivos. Depende do caso, da família, dos recursos…

O pai interrompeu:

— Quero resolver antes que vire escândalo.

Escândalo.

Carlos sentiu vergonha antes de sentir raiva. Era esse o talento daquela casa: fazer com que ele se odiasse antes mesmo que o agredissem.

— O senhor entende que certas medidas são delicadas — disse o visitante. — Não se fala disso abertamente.

— Eu pago o que for preciso.

A mãe chorou baixo.

O visitante então disse a palavra.

Lobotomia.

Não foi uma palavra gritada. Não veio acompanhada de música dramática ou trovão. Veio mansa, técnica, quase limpa. Uma palavra de consultório. Uma palavra de homem instruído. Uma palavra que parecia não ter sangue nenhum.

Mas Carlos sentiu como se tivessem encostado uma faca fria em sua testa.

Ele não sabia exatamente o que era uma lobotomia. Já tinha ouvido algo sobre doentes, manicômios, pessoas que voltavam diferentes. Pessoas que paravam de dar trabalho. Pessoas que deixavam de sentir demais. O suficiente para entender.

Queriam abrir sua cabeça para arrancar dele aquilo que não aceitavam.

Ficou parado no corredor, imóvel, com a respiração presa. Na sala, os adultos continuaram falando. Discutiram nomes, possibilidades, contatos, discrição. Tudo como se ele não fosse uma pessoa, mas um problema de família. Um vazamento. Uma rachadura na parede. Um móvel herdado que não combinava com a casa.

Foi ali que Carlos morreu pela primeira vez.

Morreu o filho que ainda esperava ser amado se encontrasse as palavras certas. Morreu o menino que acreditava que a mãe, em algum momento decisivo, se levantaria da cadeira e diria “não”. Morreu a parte dele que achava que obediência talvez comprasse proteção.

Em seu lugar, alguma coisa mais dura nasceu.

Não coragem. Ainda não.

Instinto.

Voltou para o quarto sem fazer barulho. Sentou-se na cama. O irmão não estava. Pela janela, via o quintal, o varal com camisas do pai, o cachorro dormindo na sombra, a parede descascada no canto. Tudo parecia igual. Essa era a crueldade das grandes revelações: o mundo não mudava de aparência quando acabava.

Carlos olhou para as próprias mãos.

Pensou: eles querem tirar isso de mim.

Não sabia nomear o “isso”. Desejo, alma, vontade, corpo, futuro. Tudo junto. Aquilo que ele ainda não tinha vivido e que, mesmo assim, já queriam matar.

Naquela noite, durante o jantar, o pai falou pouco. A mãe não levantou os olhos do prato. Os irmãos discutiram futebol. Carlos mastigou sem sentir gosto. Em algum momento, o pai disse:

— Amanhã você não vai à escola.

A mesa ficou quieta por uma fração de segundo.

— Por quê? — Carlos perguntou, tentando controlar a voz.

— Porque eu estou mandando.

O irmão mais velho deu um sorriso torto.

— Ih, vai apanhar.

— Cala a boca — disse o pai.

Carlos olhou para a mãe.

Ela continuou olhando para o prato.

Foi a confirmação.

Não haveria amanhã para ele naquela casa.

Depois do jantar, lavou o próprio prato, como sempre. Tomou banho, como sempre. Vestiu a roupa de dormir, como sempre. Deitou-se no escuro e esperou.

A casa tinha sons conhecidos. O pai tossindo no banheiro. A mãe fechando a janela da cozinha. A televisão baixa no quarto dos irmãos. O cachorro arranhando a porta dos fundos. O relógio da sala marcando cada minuto com uma precisão insuportável.

Carlos ficou de olhos abertos.

Não pensou em plano. Plano era coisa de quem tinha tempo. Pensou em direção.

Rio de Janeiro.

Não sabia por quê. Talvez porque o Rio aparecesse nas novelas, nas músicas, nas fotografias de revista. Talvez porque tivesse mar. Talvez porque toda pessoa sufocada invente uma cidade onde seja possível respirar. Tinha ouvido falar de uma pensão barata por uma vizinha que recebera parentes de lá. Guardara o endereço sem saber para quê.

Agora sabia.

Quando a casa silenciou, levantou-se.

Moveu-se devagar, como se o chão pudesse denunciá-lo. Tirou debaixo do colchão uma pequena quantia de dinheiro que vinha juntando havia meses. Trocados de feira, moedas economizadas, notas dobradas com cuidado. Pegou uma muda de roupa, uma escova de dentes, um pente, um caderno, um lápis, uma fotografia pequena da mãe mais jovem — e hesitou.

A fotografia mostrava Dona Helena antes do casamento, sorrindo em uma praça, com o cabelo preso e os olhos cheios de uma vida que Carlos nunca conhecera. Ele quase deixou a imagem para trás. Depois guardou no bolso.

Não por perdão.

Por prova.

A mãe também tinha sido alguém antes daquela casa.

Abriu a porta do quarto.

No corredor, parou diante do quarto dos pais. A porta estava fechada. Ouviu o ronco do pai. A mãe talvez estivesse acordada; mães, ele descobriria depois, muitas vezes sabem quando os filhos vão embora. Mas Dona Helena não abriu a porta.

Carlos esperou alguns segundos. Uma parte dele queria que ela aparecesse. Queria que dissesse “foge”. Queria que lhe entregasse dinheiro, comida, um casaco, uma bênção. Queria que fosse mãe no tamanho exato da tragédia.

Nada.

Então ele foi.

Passou pela sala. O relógio marcava três e doze da manhã. A casa parecia maior no escuro, mas menos poderosa. Sem as vozes, os móveis eram só móveis. As paredes eram só paredes. O pai era só um homem dormindo.

Na cozinha, pegou um pedaço de pão e embrulhou em um pano. Bebeu água direto da torneira. Abriu a porta dos fundos com cuidado. O cachorro levantou a cabeça, abanou o rabo uma vez e não latiu.

Carlos se agachou e acariciou o animal.

— Você é melhor que eles — sussurrou.

Saiu pelo quintal, pulou o muro baixo dos fundos e caiu do outro lado arranhando o joelho. A dor veio rápida, concreta, quase boa. Uma dor limpa. Diferente da outra.

Andou sem olhar para trás.

A cidade ainda dormia. As ruas tinham uma calma falsa. Passou pela igreja, pela padaria fechada, pela escola, pela praça onde já tinha sido chamado de nomes que fingira não ouvir. Cada lugar parecia tentar segurá-lo pela memória. Mas ele seguiu.

Na rodoviária pequena, havia bêbados, trabalhadores, mulheres com crianças sonolentas e homens que pareciam ter passado a vida inteira esperando ônibus. Carlos comprou uma passagem até onde o dinheiro permitiu. Não era o Rio. Era apenas mais perto.

Sentou-se no banco duro e esperou o primeiro ônibus.

Foi ali que sentiu medo de verdade.

Enquanto estava fugindo, o corpo decidia. Parado, a imaginação assumia o controle. E se o pai acordasse? E se a mãe contasse? E se mandassem a polícia? E se ninguém lhe desse carona? E se fosse assaltado? E se o Rio fosse pior? E se voltasse? E se ficasse? E se toda liberdade fosse apenas outro nome para abandono?

O ônibus chegou antes que ele respondesse.

Entrou sem saber se estava salvando a própria vida ou apenas adiando uma desgraça. Sentou-se junto à janela. Quando o veículo começou a se mover, a cidade deslizou para trás sem cerimônia. Não houve música. Não houve choro cinematográfico. Não houve despedida.

Só um menino com uma sacola no colo tentando não tremer.

Ao amanhecer, a paisagem já era outra. Campos, postos de gasolina, árvores, placas, poeira. Carlos desceu em uma cidade maior, confuso, com fome e pouco dinheiro. Perguntou sobre caronas. Mentiu que ia encontrar um tio. Mentiu que a família sabia. Mentiu com a competência desesperada de quem descobre que a verdade pode ser fatal.

A primeira carona veio de um caminhoneiro chamado Osvaldo, que transportava caixas de alguma coisa que Carlos não entendeu. O homem tinha braços grossos, voz rouca e um crucifixo pendurado no retrovisor. Perguntou pouco, o que Carlos agradeceu em silêncio.

— Vai pro Rio fazer o quê?

— Trabalhar.

— Tem família lá?

Carlos olhou pela janela.

— Tenho um conhecido.

— Conhecido não é família.

— Eu sei.

Osvaldo não insistiu.

Na estrada, o caminhão parecia um mundo suspenso. O motor vibrava sob os pés. O rádio chiava músicas antigas. O cheiro de diesel, suor e café frio enchia a cabine. Carlos segurava a sacola com força, como se alguém pudesse tomá-la a qualquer momento.

Em algum ponto, Osvaldo lhe ofereceu um pão com mortadela.

— Come. Você tá com cara de quem fugiu do inferno.

Carlos congelou.

O caminhoneiro deu uma risada seca.

— Relaxa. Cada um foge do que precisa.

Carlos comeu sem responder. O pão estava amassado, a mortadela quente, mas ele nunca esqueceria aquele gosto. Era o gosto da primeira bondade sem interrogatório.

Ao longo do caminho, pegou outras caronas. Um casal que ia visitar parentes. Um homem silencioso em uma caminhonete. Um ônibus pago com quase todo o dinheiro restante. Em cada trecho, inventava versões de si. Às vezes era órfão. Às vezes estava indo trabalhar com um tio. Às vezes tinha brigado em casa, mas “coisa boba”. Mentia tanto que começou a perceber uma liberdade estranha na mentira: se podia inventar desculpas, talvez um dia pudesse inventar também uma vida.

Na segunda noite, dormiu sentado em uma rodoviária. A sacola entre as pernas, o pão embrulhado já duro, os olhos abrindo a qualquer barulho. Sonhou com o pai segurando uma lâmina. Sonhou com a mãe lavando uma camisa manchada. Sonhou que tentava gritar e saía apenas uma palavra estrangeira que ele ainda não conhecia.

Quando acordou, por um instante não soube onde estava.

Depois lembrou.

E, junto com o medo, veio uma alegria tão pequena que quase passou despercebida.

Ele não estava em casa.

Isso bastava.

No terceiro dia, já perto do Rio, pegou carona com um rapaz mais velho que dirigia um fusca azul. Chamava-se Nélson, usava óculos escuros e falava como se o mundo inteiro fosse íntimo dele. Diferente dos outros, Nélson fez muitas perguntas. Carlos respondeu poucas.

— Você está fugindo de família, dívida ou amor? — perguntou Nélson.

Carlos não respondeu.

— Família, então. Dívida dá para negociar. Amor a gente dramatiza. Família a gente foge calado.

Carlos olhou para ele, assustado.

Nélson sorriu sem tirar os olhos da estrada.

— Não precisa dizer nada. Eu também já fui embora de um lugar onde queriam decidir quem eu podia ser.

Foi a primeira vez que Carlos suspeitou estar diante de alguém parecido. Não parecido no rosto, na idade ou na história. Parecido no risco.

Nélson não explicou mais. Apenas dirigiu. Em certo momento, quando o mar apareceu distante, azul e imenso, apontou com o queixo.

— Olha lá. O Rio.

Carlos virou o rosto para a janela.

O mar.

Ele já tinha visto em fotografia, em filme, em cartão-postal. Mas nada o preparou para a sensação física de encontrá-lo. O mar parecia uma coisa impossível, grande demais para ser verdade, móvel demais para caber em qualquer ordem. Não obedecia ao pai, ao pastor, ao médico, ao relógio da sala. Ia e voltava porque queria. Batia nas pedras, abria espuma, recuava e retornava sem pedir perdão.

Carlos sentiu vontade de chorar.

Não chorou.

— Primeira vez? — Nélson perguntou.

— É.

— Então presta atenção. Quem vê o mar pela primeira vez e não muda um pouco por dentro está morto.

Carlos continuou olhando.

Naquele instante, sem testemunha, sem documento, sem bênção, ele fez uma promessa. Não disse em voz alta, mas a frase se formou inteira dentro dele:

Se eu sobreviver, nunca mais vou pedir desculpas por existir.

O fusca entrou na cidade.

O Rio de Janeiro não o recebeu de braços abertos. Essa seria uma mentira bonita, e a vida de Caíque nunca precisou desse tipo de mentira. O Rio o recebeu com buzina, calor, cheiro de fritura, gente apressada, prédios velhos, mendigos, vendedores, homens sem camisa, mulheres carregando sacolas, ônibus lotados e uma indiferença monumental.

Mas aquela indiferença, para Carlos, era quase carinho.

Ninguém ali sabia seu nome. Ninguém conhecia seu pai. Ninguém o havia visto crescer. Ninguém o olhava como defeito antigo. Pela primeira vez, estar sozinho não parecia apenas abandono. Parecia espaço.

Nélson o deixou perto de uma avenida movimentada.

— Tem endereço?

Carlos mostrou o papel amassado.

Nélson leu, fez uma careta.

— Pensão barata. Cuidado com barato demais. Mas para começo, serve.

Anotou outro endereço no verso.

— Se der problema, procura esse bar. Pergunta pela Lúcia. Não fala meu nome para qualquer um.

Carlos segurou o papel.

— Por que você está me ajudando?

Nélson tirou os óculos e, pela primeira vez, Carlos viu seus olhos. Eram cansados.

— Porque alguém me ajudou uma vez. E porque você está com cara de quem ainda pode dar certo.

O rapaz entrou no fusca e foi embora antes que Carlos agradecesse direito.

Ficou parado na calçada, com a sacola na mão e a cidade rugindo ao redor. O calor subia do asfalto. O papel com o endereço estava úmido de suor. O joelho arranhado ardia. Tinha pouco dinheiro, nenhum emprego, nenhum parente confiável e nenhuma certeza além da fuga.

Mesmo assim, respirou.

Respirou fundo.

O ar do Rio não era puro. Cheirava a gasolina, maresia, comida, lixo, perfume barato e promessa. Era um ar confuso, mas era respirável.

Começou a andar.

A pensão ficava em uma rua estreita, em um prédio antigo de fachada cansada. A dona era uma mulher baixa, de cabelo tingido e expressão prática. Chamava-se Zulmira e olhou Carlos de cima a baixo como quem calcula risco.

— Idade?

Ele hesitou.

— Dezoito.

Ela não acreditou.

— Documento?

Carlos mostrou.

Zulmira olhou o documento, olhou para ele, olhou de novo para o documento.

— Isso aqui diz dezesseis.

Carlos ficou mudo.

A mulher suspirou.

— Tem dinheiro para quantos dias?

Ele mostrou as notas.

— Pouco.

— Pouquíssimo.

— Eu vou arrumar emprego.

— Todo mundo vai.

Ela fechou a cara, mas não a porta. Talvez por piedade. Talvez por interesse. Talvez porque, no Rio, até a dureza sabia reconhecer um fugitivo.

— Uma semana. Quarto dividido. Banheiro no corredor. Se sumir coisa dos outros, rua. Se trouxer confusão, rua. Se atrasar, rua.

Carlos assentiu.

— E se alguém vier te procurar — ela continuou — eu nunca te vi. Mas isso custa comportamento.

Ele entendeu.

O quarto tinha duas camas estreitas, uma cômoda quebrada e uma janela que dava para a parede do prédio vizinho. Cheirava a mofo, sabão barato e vidas provisórias. Na outra cama, havia uma mala velha e uma camisa pendurada. O colega de quarto não estava.

Carlos colocou a sacola sobre a cama livre e sentou.

Pela primeira vez desde a fuga, estava sozinho em um lugar minimamente seguro. Não completamente seguro, mas com uma porta. Uma cama. Um teto. O corpo, que até então funcionava por urgência, começou a sentir tudo de uma vez: fome, sono, dor, medo, sujeira, exaustão.

Tirou do bolso a fotografia da mãe.

Olhou para ela por muito tempo.

— Eu fui embora — disse baixinho, como se a imagem precisasse saber.

A mulher da foto continuou sorrindo para um tempo em que talvez ainda fosse possível escolher.

Carlos sentiu raiva dela. Depois pena. Depois saudade. Depois raiva de novo.

Guardou a foto dentro do caderno.

Deitou-se sem tirar os sapatos.

Queria dormir, mas a cidade não deixava. Buzinas, vozes, passos no corredor, uma discussão distante, música saindo de algum rádio, o barulho de água nos canos. O Rio parecia não saber sussurrar. Tudo era volume.

No escuro do quarto, a palavra voltou.

Lobotomia.

Ela atravessou sua cabeça como lâmina. Imaginou o pai acordando e encontrando a cama vazia. Imaginou a mãe levando a mão à boca. Imaginou o médico dizendo que talvez fosse melhor assim. Imaginou todos transformando sua fuga em prova de doença.

Por um momento, teve vontade de voltar só para explicar.

Mas explicar o quê? Que não era monstro? Que não era erro? Que ainda era filho? Que tinha medo? Que queria viver?

Não.

Quem precisa provar humanidade a quem já decidiu negá-la começa a perder antes de falar.

Virou-se para a parede.

Na parede descascada, alguém havia escrito com lápis, em letra pequena:

Aqui ninguém nasce uma vez só.

Carlos leu a frase muitas vezes.

Aqui ninguém nasce uma vez só.

Na manhã seguinte, acordou com batidas na porta.

— Ei, novato. Vai dormir até morrer?

Era o outro rapaz do quarto. Chamava-se Dario, tinha vinte e poucos anos, trabalhava como garçom e usava uma camisa aberta no peito com a naturalidade de quem não devia explicações ao próprio corpo.

Carlos levantou assustado.

Dario riu.

— Calma. Não sou polícia, nem marido traído.

— Desculpa.

— Desculpa por quê? Você nem fez nada ainda.

Essa frase, boba, ficou nele.

Você nem fez nada ainda.

Na casa do pai, Carlos já era culpado antes do ato. No Rio, pelo menos naquele quarto mofado, alguém lhe dava o benefício de ainda não ter acontecido.

Dario indicou uma padaria que precisava de ajudante e uma loja onde talvez contratassem balconista. Também ensinou a regra básica:

— No Rio, se você parecer perdido, alguém te devora. Então anda como se estivesse atrasado.

Carlos seguiu o conselho.

Saiu para procurar emprego com a melhor roupa que tinha. Andou como se estivesse atrasado, embora não tivesse destino certo. Entrou em lojas, padarias, armarinhos, farmácias. Recebeu muitos “não”, alguns olhares desconfiados e duas promessas vagas. No fim do dia, conseguiu uma chance em uma loja de roupas populares. O dono precisava de alguém para organizar estoque, atender cliente e aceitar salário baixo sem reclamar.

Carlos aceitou.

Naquela noite, voltou para a pensão com os pés ardendo, mas com uma espécie de vitória no peito.

Tinha trabalho.

Não era liberdade inteira, mas era começo.

Dias depois, ao preencher uma ficha simples da loja, o dono perguntou:

— Como você prefere ser chamado? Carlos ou Eduardo?

Ele abriu a boca para responder “Carlos”. Era o automático. O nome de batismo, de chamada escolar, de bronca paterna. Mas alguma coisa o impediu.

Lembrou da parede do quarto.

Aqui ninguém nasce uma vez só.

Pensou no mar. No fusca azul. Na promessa silenciosa. Na palavra que quase o condenou. Pensou que Carlos talvez tivesse ficado naquela casa, deitado na cama vazia, esperando que alguém o salvasse. Quem chegara ao Rio era outro.

— Caíque — disse.

O dono franziu a testa.

— Mas aqui está Carlos Eduardo.

— Eu sei. Mas me chamam de Caíque.

Era mentira.

E era verdade.

O dono deu de ombros.

— Então tá. Caíque, começa amanhã às oito.

Na saída da loja, ele parou na calçada e repetiu o nome em silêncio.

Caíque.

Não vinha de família. Não vinha do pai. Não vinha da igreja. Não vinha do medo. Era um nome escolhido no susto, nascido de improviso, mas talvez por isso mesmo mais seu do que todos os anteriores.

Caíque atravessou a rua sentindo que carregava algo novo dentro da boca.

Nos meses seguintes, aprendeu que sobreviver era uma rotina sem poesia. Acordava cedo, trabalhava muito, comia barato, economizava quase tudo. Errava troco, levava bronca, sorria para cliente grosseiro, carregava caixa, limpava balcão, aprendia a diferença entre ser invisível e observar sem ser notado.

À noite, estudava.

No início, por medo. Depois, por ambição. Mais tarde, por vingança.

Comprava livros usados, copiava exercícios, frequentava bibliotecas, fazia contas em cadernos reaproveitados. O sono vinha pesado, mas ele resistia. Cada página lida parecia um tijolo colocado entre ele e a casa do pai. Cada prova feita, cada nota boa, cada palavra aprendida era uma forma de dizer: vocês não me reduziram.

Na loja, os colegas gostavam dele. Tinha resposta rápida, aprendia depressa, sabia lidar com clientes difíceis. Uma senhora dizia que ele tinha “jeito fino”. Um vendedor mais velho dizia que ele era “esperto demais para morrer pobre”. Caíque guardava tudo. E, embora não soubesse ainda, começava a construir uma máscara que depois viraria estilo: elegância como defesa, humor como faca, inteligência como documento.

Mas havia outra parte da cidade chamando.

Às vezes, depois do trabalho, via grupos de homens entrando em bares, rindo de um jeito que parecia codificado. Via olhares que duravam um segundo a mais. Via rapazes parados em esquinas, não exatamente esperando ônibus. Via travestis caminhando com uma majestade que desafiava todos os riscos da noite. Via cartazes de shows, cinemas, boates, nomes que ainda não conhecia.

O Rio tinha um idioma secreto.

Caíque ainda não falava, mas começava a entender algumas palavras.

Certa noite, enquanto fechava a loja, um colega chamado Renato percebeu seu olhar para dois rapazes que passavam do outro lado da rua. Não disse nada na hora. Esperou o dono ir embora, esperou o cadeado fechar, esperou a calçada esvaziar um pouco.

Então acendeu um cigarro e falou:

— Você é muito novo para achar que ninguém percebe.

Caíque gelou.

Por um instante, voltou a ser Carlos no corredor da casa, ouvindo adultos decidirem seu destino.

Renato tragou o cigarro.

— Calma. Se eu quisesse te ferrar, já tinha feito.

Caíque tentou responder, mas a voz não veio.

— Tem lugar para gente como você — Renato disse.

Gente como você.

A frase poderia ser ameaça. Mas, na boca dele, soou como mapa.

— Que lugar?

Renato sorriu.

— Copacabana. Galeria Alaska.

Caíque franziu a testa.

— O que é isso?

— Um lugar onde você vai descobrir que não inventou nada sozinho.

Renato anotou o endereço em um pedaço de papel arrancado de um bloco de vendas. Entregou como quem passa contrabando.

— Vai com cuidado. Não confia em todo mundo. Não usa seu nome verdadeiro com qualquer um. Se a polícia aparecer, sai andando sem correr. E, pelo amor de Deus, não se apaixona pelo primeiro homem que te chamar de bonito.

Caíque segurou o papel.

— Por que você está me dizendo isso?

Renato soltou a fumaça devagar.

— Porque alguém devia ter me dito antes.

A frase era parecida com a de Nélson, o rapaz do fusca. Caíque começava a entender que existia uma corrente invisível de sobreviventes. Pessoas que não podiam se proteger publicamente, mas deixavam pistas umas para as outras. Um endereço. Um conselho. Um pão com mortadela. Uma cama por uma semana. Um nome novo.

Naquela noite, voltou para a pensão com o papel escondido dentro do sapato.

Não dormiu.

Ficou deitado, ouvindo Dario roncar na outra cama, enquanto imaginava a tal Galeria Alaska. O nome parecia estrangeiro, frio, distante. Alaska. Como se, no meio do calor do Rio, houvesse um território improvável onde gente como ele pudesse existir.

Gente como ele.

A expressão ainda doía, mas agora doía de outro jeito.

Não como ferida.

Como nascimento.

Levantou-se antes do amanhecer e foi até a janela. A parede do prédio vizinho continuava ali, descascada, feia, íntima. A frase escrita a lápis permanecia acima da cama:

Aqui ninguém nasce uma vez só.

Caíque tocou o papel com o endereço dentro do sapato, como quem confirma a existência de uma chave.

Pensou na casa de onde fugira. No pai. Na mãe. Na palavra proibida. Pensou no menino que quase deixaram morrer antes de viver. Pensou no mar, na promessa, no nome novo.

E, pela primeira vez desde a fuga, não sentiu apenas alívio por ter escapado.

Sentiu curiosidade.

A vida, que até então parecia uma operação de emergência, começava a se abrir como possibilidade.

Na manhã seguinte, foi trabalhar. Atendeu clientes, dobrou camisas, organizou prateleiras, engoliu desaforos. Estudou à noite com os olhos ardendo de sono. Voltou para a pensão. Tomou banho frio. Vestiu a melhor roupa que tinha.

Dario, deitado na cama, olhou para ele.

— Vai aonde todo arrumado?

Caíque hesitou.

Depois respondeu:

— Vou nascer de novo.

Dario riu, sem entender.

Caíque saiu.

Na rua, o Rio parecia aceso por dentro. Os ônibus passavam lotados, os bares começavam a encher, o ar tinha cheiro de maresia, fritura e pecado. Ele caminhou até o ponto com o endereço escondido no bolso e o coração batendo como naquela madrugada da fuga.

Mas agora era diferente.

Na primeira vez, fugia da morte.

Agora, caminhava em direção a alguma coisa que ainda não sabia nomear.

Pegou o ônibus para Copacabana.

Enquanto a cidade passava pela janela, Caíque pensou que talvez liberdade não fosse um lugar seguro. Talvez fosse apenas o primeiro lugar onde o medo não conseguia ocupar todos os cômodos.

Desceu algumas quadras antes, por insegurança, e seguiu a pé. As luzes dos bares refletiam nas calçadas. Havia homens encostados em carros, mulheres rindo alto, casais, turistas, vendedores, bêbados, policiais, sombras. Ele caminhava como quem atravessa uma fronteira invisível.

Então viu a entrada.

Galeria Alaska.

Parou diante dela.

Nada ali parecia grandioso à primeira vista. Não havia portal de ouro, nem anúncio de salvação, nem música celestial. Havia apenas uma entrada urbana, concreta, iluminada, com pessoas indo e vindo. Mas Caíque sentiu que, se atravessasse aquele espaço, alguma coisa nele não voltaria igual.

Levou a mão ao bolso e apertou o papel com o endereço.

Pensou no pai dizendo “não vou aceitar um filho assim”.

Pensou na mãe calada.

Pensou no médico dizendo “intervenção”.

Pensou em Carlos, o menino que ficara preso na casa, na cidade, no medo, no nome antigo.

Depois pensou em si mesmo.

Caíque.

Respirou fundo.

E entrou.

Fim do Capítulo 2.

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