Capítulo 2
Alexander não estava de bom humor quando chegou para buscar Mila, e o atraso dela também não ajudou em nada.
— Sinto muito mesmo — disse Mila quando ele ligou para ela. — Mas eu realmente preciso entregar este trabalho hoje. O Professor Rutledge vai me reprovar se eu não entregar. Vai levar meia hora no máximo. Espera por mim?
— Tudo bem.
Ele desligou, guardou o celular no bolso e encostou-se na parede, preparado para uma longa espera.
Ele observava os alunos circulando. Com os exames finais chegando, quase todos pareciam estressados.
Mas não todos.
O olhar de Alexander fixou-se no estudante que parecia tão despreocupado como sempre, sorrindo e rindo enquanto conversava com os outros.
Christian.
Alexander sentiu o corpo tencionar, sem motivo algum. Ele respirou fundo e relaxou, mantendo os olhos em Christian.
Após alguns minutos de observação, Alexander chegou à conclusão de que o cara era um flertador desavergonhado. O jeito que ele sorria para as pessoas era... indecente. Para ser justo, Christian não estava fazendo nada de muito ultrajante — ele apenas sorria e olhava as pessoas nos olhos — mas era o suficiente para que os outros alunos ficassem encarando, babando e tentando tocá-lo. O cara não podia ser ignorante quanto ao efeito que causava, o que significava que ele fazia de propósito.
Os lábios de Alexander se contorceram. Ele não suportava gente que vivia de flertes; tinha tolerância zero com esse tipo de pessoa. A maioria nem sabia o significado da palavra lealdade. Amavam ser admirados e desejados; uma pessoa nunca era o bastante. Eles eram tudo o que ele desprezava.
Seus olhos seguiam Christian conforme ele se movia de um grupo de alunos para outro. Ele viu Christian colocar a mão no ombro de um cara e rir. Os olhos do sujeito praticamente vidraram de desejo enquanto ele encarava os lábios de Christian.
Alexander observou quando Christian se afastou do cara e passou o braço pela cintura de uma garota bonita. A garota colocou a mão no peito de Christian e o acariciou.
Nojento.
Christian deu um passo atrás, piscou para a garota, deu-lhe um beijo no rosto e se virou—
O sorriso dele congelou nos lábios quando viu Alexander.
Após um momento, Christian murmurou algo sem nem olhar para os alunos ao seu redor e caminhou até Alexander.
— Cansou de quebrar corações? — Alexander disse. As palavras saíram mais afiadas do que ele pretendia.
— Hã? — Christian disse, parando bem perto dele — de novo. O cara ou não tinha conceito de espaço pessoal, ou preferia fingir que não tinha.
— Você sabe o que eu quero dizer — disse Alexander, lançando um olhar para o rapaz e a garota que ainda encaravam Christian com olhares sonhadores.
Christian olhou para trás e deu uma risadinha. — Quebrar corações? Você está falando sério? Eu só estava conversando com eles.
— Claro que estava — disse Alexander.
Christian encostou-se na parede ao lado dele, com a cabeça inclinada enquanto estudava Alexander. — Você estava me vigiando? — ele murmurou, com um traço de sorriso, os dedos brincando com a manga do paletó de Alexander.
— Eu estava esperando a Mila.
— Não foi isso que eu perguntei. — Os dedos de Christian percorreram o braço de Alexander até o pulso. — Você estava me vigiando? — murmurou novamente, os dedos deslizando para baixo da manga e acariciando a pele de Alexander.
— Eu estava entediado — disse Alexander, sem olhar para ele, o corpo rígido de tensão. O que havia naquele cara que o deixava tão alterado?
— E não tinha mais ninguém para observar, certo? — O polegar de Christian acariciou seu pulso suavemente.
Alexander fixou o olhar em uma garota que estava em sua linha de visão direta. — Você era o único rosto conhecido.
Christian riu baixinho. — Você é muito sinistro. — Seus dedos continuavam a acariciar a pele de Alexander.
— Você é quem está tentando me deixar desconfortável — disse Alexander, ainda olhando para a garota. — Isso é algum tipo de jogo de provocação gay? Eu não me assusto tão fácil.
— Você ficou bem assustado ontem depois que me beijou.
— Eu não fiquei assustado. Eu não beijei você. Eu não sabia que era você. Foi um erro bobo.
— Hmm... tá bom. — Christian pegou a mão dele na sua. — Está assustado agora?
Alexander paralisou. A mão na sua era um pouco menor que a dele, mas muito maior que a de Mila e inconfundivelmente masculina.
— Qual é a sua jogada? — Alexander soltou entre dentes. Ele não retirou a mão. Maldito fosse se deixasse esse cara pensar que ele poderia ser perturbado tão facilmente.
— Para ser sincero? Não faço ideia. — Christian riu um pouco. — Eu só gosto de tirar você do sério. — Christian entrelaçou seus dedos. — Ainda não está assustado?
Alexander olhou para frente. Era completamente surreal. Seus dedos estavam entrelaçados com os de outro cara. Ele estava de mãos dadas com outro homem. — Não.
— Então você me vigia como um maníaco quando eu não sei, mas não olha para mim quando estou realmente falando com você. Entendi. Mas se continuar olhando para aquela garota, ela vai começar a achar que você está a fim dela. Ela já está te dando olhares esperançosos. Você vai quebrar o coração da coitada, sabia?
— O sujo falando do mal lavado.
Christian lhe lançou um olhar inocente. — Eu não quebro corações. Ser legal e amigável não machuca ninguém.
Alexander bufou. — Apenas admita que você é um galinha e um jogador.
Christian semicerrou os olhos. — Mesmo se eu fosse — e não estou dizendo que sou — e daí? Por que você se importa?
— Eu não me importo.
Christian ergueu as sobrancelhas, com um brilho de diversão nos olhos. — Para um cara que não se importa, você parece ter muito a dizer sobre isso, Alec.
Alexander o encarou seriamente.
Christian sorriu, apertando os dedos entrelaçados com mais força. — O quê? Algo te incomodando, baby?
— Não me chame assim — Alexander sibilou.
— O quê? De Alec ou de baby?
— Dos dois.
— Tudo bem — disse Christian, assentindo com uma expressão séria no rosto.
Alexander ficou instantaneamente desconfiado. — Tudo bem?
— Claro. — Christian sorriu para ele suavemente.
O sorriso era... desconcertante.
Alexander olhou dos lábios de Christian para os seus olhos. — Tem que ter uma pegadinha.
— Pegadinha nenhuma — Christian sussurrou.
— Oi, Chris! — alguma garota gritou, acenando.
Alexander recuou bruscamente, percebendo o quão perto seu rosto estivera do de Christian.
— Oi, Donna — disse Christian com um sorriso um tanto forçado.
A garota olhou para Alexander com curiosidade. — Namorado novo?
Christian inclinou-se em direção a ele e plantou um beijo na bochecha por fazer de Alexander. — É. Lindo, não é?
A garota assentiu, fez um sinal de positivo com o polegar e foi embora.
Alexander relaxou o maxilar. — Você sente prazer em me irritar?
— Prazer? Não exatamente — disse Christian com uma risada. — Então eu te irrito, hein? Me sinto muito orgulhoso. Aposto que não são muitas pessoas que podem dizer que conseguem arrancar algum tipo de reação espontânea de você.
— O que isso quer dizer?
Inclinando a cabeça, Christian o estudou com olhos estranhamente sérios. — Não sei... É como se você tivesse algum tipo de filtro dentro de você. Ele só permite que você mostre reações e emoções apropriadas, reprimindo todo o resto até o inferno. — Ele riu um pouco. — Estou fazendo sentido?
— Não, não está — disse Alexander.
— Viu só? Está fazendo de novo.
— Fazendo o quê?
— Se escondendo atrás da máscara. Recusando-se a olhar para mim. É como se você estivesse com medo de me olhar.
Alexander virou a cabeça novamente para ele. — Por que eu teria medo de olhar para você?
— Não sei. Você me diz.
— Na verdade, sim. Estou com medo — disse Alexander. — Estou com medo de olhar para você porque posso acabar te estrangulando acidentalmente.
O pomo de adão de Christian subiu e desceu. — Tudo bem. — Ele pegou as mãos de Alexander e as colocou em seu pescoço. — Então, vá em frente.
Alexander olhou nos olhos castanhos escuros. Havia desafio neles agora. Desafio e algo mais. Christian passou a língua pelos lábios. O pulso de Christian batia rapidamente contra a palma de sua mão.
E Alexander percebeu que realmente queria aquilo. Ele queria apertar. Queria apertar as mãos em volta daquele pescoço e ver Christian arfando, ofegante, implorando para que ele parasse.
Suas mãos se apertaram. Os lábios de Christian se abriram. Alexander se inclinou—
— Oi, pessoal!
Alexander soltou as mãos e recuou, mais do que um pouco desorientado. Que porra foi aquela?
Ele estava apenas vagamente consciente de Mila dando-lhe um selinho nos lábios e dizendo algo para Christian. Os batimentos cardíacos dele ainda trovejavam em seus ouvidos.
Ele registrou o que Mila estava dizendo tarde demais.
— ...então, vem amanhã à noite? — Mila disse.
Christian lançou um olhar estranho para Alexander e hesitou. Foi a primeira vez que Alexander o viu parecer inseguro sobre algo.
— Não sei — disse Christian, passando a mão pelo cabelo. Ele estava levemente corado. — Estou bem ocupado esta semana, na verdade. Tenho que me preparar para as finais—
Mila riu. — Tudo bem se você não quiser, Chris. É só falar. Não precisa de desculpas, sério.
Christian deu a ela um sorriso sem jeito. — Desculpa. Mas estou realmente ocupado.
Mila o beijou no rosto. — Foi divertido de verdade, mas todas as coisas boas precisam chegar ao fim, eu acho. — Ela pegou a mão de Alexander, entrelaçando seus dedos. — A gente se vê por aí.
— É — disse Christian, olhando para as mãos deles antes de enfiar as suas nos bolsos e se afastar.
Alexander o viu partir.
— Alexander?
Ele olhou para Mila. Ela estava franzindo levemente a testa. — Você estava brigando com o Chris? Você estava com as mãos no pescoço dele.
A boca de Alexander ficou seca.
— Ele me irritou — ouviu-se dizer. Não era uma mentira. Por que parecia uma?
Mila balançou a cabeça. — Ele te tira do sério tão fácil. Ele é gostoso, e o ménage foi divertido, mas estou quase feliz por não fazermos mais isso. Ele te deixa de mau humor. Você tem andado meio temperamental desde que tudo isso começou.
— Vamos para casa — disse Alexander. — Você terminou o trabalho?
Mila não o questionou sobre a mudança flagrante de assunto. Ela nunca o fazia.
Christian teria questionado.
Alexander expulsou o pensamento estranho de sua cabeça.
*********************************************
Quando Christian tinha quatro anos, a cuidadora da sua creche o mandou para casa com um bilhete que dizia:
“Christian é um menino muito inteligente e ativo, mas ele tem um problema: ele se apega demais aos brinquedos das outras crianças e acaba chorando quando o dono pega o brinquedo de volta.”
Dezesseis anos depois, enquanto Christian voltava das aulas para casa, ele pensou com amargura que, aparentemente, muito pouco havia mudado desde então.
Exceto que ele não estava apegado a Alexander Sheldon. Ele só queria ficar nu e suado com ele — sem a namorada dele por perto.
Rindo sozinho, Christian balançou a cabeça. Ele gostava da Mila: ela era gostosa, legal o suficiente e divertida. Normalmente, quando garotas bonitas assim o convidavam para um ménage, Christian não pensava duas vezes. Sexo era divertido e, embora ele preferisse caras, não tinha nada contra transar com garotas de vez em quando. O problema era que ele tinha aceitado o ménage pelos motivos errados. Sim, ele sentia uma atração razoável pela Mila — ela era linda — mas era o namorado dela quem apertava todos os botões certos nele. Quando ficou claro que ele e Alexander deveriam simplesmente dividir a Mila, Christian ficou decepcionado, mas disse a si mesmo que, pelo menos, poderia curtir a vista.
O problema era que curtir a vista não era mais o suficiente. Com certeza, o cara era um pouco estranho, mas toda vez que Christian o via, sentia vontade de arrancar aquelas roupas impecáveis e...
— Você é um idiota, Chris — resmungou para si mesmo. Ter uma queda por caras héteros nunca acabava bem. Já tinha passado por isso, já tinha feito aquilo. E não importava que ele tivesse uma certeza razoável de que Alexander também se sentia atraído por ele. A maioria das pessoas era bi-curiosa em algum momento da vida; isso não mudava nada. Alexander estava em um relacionamento sério e nunca iria querer um "galinha" como ele. Ele tinha deixado bem claro o quanto desprezava Christian.
É, ele tinha feito a coisa certa ao recusar o convite da Mila para se juntar a eles novamente; a noite passada já tinha sido ruim o suficiente.
Christian lambeu os lábios, lembrando-se dos lábios firmes de Alexander contra os seus, da língua de Alexander em sua boca. Tinha sido um acidente, é claro, mas depois disso, ele mal conseguiu se concentrar em dar prazer à Mila, encarando faminto os lábios de Alexander e desejando-os novamente. E, enquanto observava Alexander foder a Mila, ele desejou desesperadamente ocupar o lugar dela. Ele quis empurrá-la para longe. Ele quis estar sob o namorado da Mila. Ele queria que Alexander o fodesse.
— Idiota — Christian resmungou de novo. Ele precisava dar uma foda, e logo. Uma trepada boa e pesada era exatamente o que ele precisava para tirar aquele cara da cabeça. Alexander Sheldon não era para ele
********************************************
A boate estava cheia de sombras e luzes estroboscópicas. O ar cheirava a produtos químicos, bebida e suor. Pessoas lotavam a pista de dança, indistinguíveis, inidentificáveis. Ocasionalmente, um ou dois eram destacados por um feixe de luz aleatório, ganhavam seu momento de fama e eram absorvidos novamente pela massa pulsante.
Aquele não era o ambiente de Alexander. A cada minuto que passava, ele se arrependia de ter deixado Mila convencê-lo a ir. Mas ela estava cansada e estressada de tanto estudar e queria se distrair dos exames que se aproximavam, e ele cedeu.
O bar, ao menos, tinha sua cerveja favorita, o que era um alívio, e Alexander ficou cutucando o rótulo até que a metade superior tivesse sumido. Estava tão alto, e as luzes eram baixas e pulsantes ao mesmo tempo, o que lhe dava dor de cabeça.
— Vamos, não seja um estraga-prazeres! — Mila gritou no ouvido dele. — Vamos dançar!
— Você sabe que eu odeio dançar.
— Mas todo mundo está dançando! Vamos! Eu quero dançar!
— Então vá dançar — disse Alexander, dando um gole em sua cerveja.
— É sério? — Mila colocou as mãos nos quadris. — Você vai deixar outros caras dançarem comigo? Você não se importa?
— Eu confio em você — Alexander disse secamente.
— Sério, o que há de errado com você? Você tem andado tão temperamental nos últimos dias. Eu sou a pessoa estressada com as finais, não você!
Alexander deu um gole na garrafa. — Eu não estive temperamental. — Ele meio que estava, talvez, embora não conseguisse apontar o motivo. Sentia esse tipo estranho de frustração crescendo dentro de si, mas não sabia pelo que estava ficando chateado. Tudo estava bem. Os negócios funcionavam como uma máquina bem lubrificada. Seu relacionamento com Mila não poderia estar melhor. Não havia motivo para estar frustrado.
— Vá dançar — disse Alexander. — Vá se divertir... — Ele se interrompeu quando um refletor captou dois caras dançando juntos.
Mila seguiu o olhar dele. — Ah, olha quem está aqui! O Chris não perdeu muito tempo depois de nos dar um fora. Ele tem bom gosto. Muito bonito.
Alexander encarou as mãos grandes nos quadris de Christian enquanto Christian se movia, esfregando a bunda contra o outro cara, a cabeça no ombro dele, os olhos fechados e os lábios entreabertos. O cara o observava com fome, suas mãos descendo para deslizar por baixo da camiseta de Christian.
Alexander pousou a cerveja. — Vamos lá dar um oi.
— Você não pode estar falando sério! — Mila disse. — O Christian não ficaria feliz. Tenho certeza de que eles não querem ser interrompidos!
— Vamos — disse Alexander, segurando o pulso de Mila e praticamente arrastando-a em direção ao casal.
— Alexander!
Ele ignorou os protestos dela, abrindo caminho pela multidão.
Quando chegaram ao destino, Alexander agarrou o braço de Christian — apenas para chamar sua atenção, é claro.
Os olhos de Christian se abriram e ele piscou atordoado algumas vezes antes de focar o olhar em Alexander. Então, um sorriso lento e radiante iluminou seu rosto. Seus lábios formaram uma palavra, mas a música estava alta demais para que Alexander a ouvisse. Christian se soltou de seu parceiro de dança e praticamente caiu contra Alexander. — Ei! — ele gritou alegremente.
Foi então que Alexander percebeu que Christian estava bêbado. Ele teve que envolver a cintura do cara com o braço para estabilizálo. — Você está bêbado.
Envolvendo o pescoço dele com um braço, Christian balançou a cabeça. — Só alto.
Alexander bufou e olhou para o outro cara — que o fuzilava com o olhar.
— Caia fora — disse Alexander. — Ele está bêbado demais para transar.
Bufando de irritação, o cara desapareceu na multidão.
— Eu nunca estou bêbado demais para transar — Christian anunciou no ouvido dele.
Alexander fez uma careta. — Você definitivamente está bêbado demais para dirigir. Como chegou aqui?
Houve uma pausa. — Não sei. Acho que vim andando.
— Você acha? — disse Alexander. — Como vai chegar em casa?
Christian pressionou o nariz contra o ouvido dele. — Não quero ir para casa. Quero foder.
— Ah, é? — Alexander disse monotonamente. — Achei que você tivesse recusado o convite da Mila porque não queria sexo.
— Não quero uma garota — Christian murmurou em seu ouvido. — Quero um homem. Quero ser imobilizado e fodido.
Alexander engoliu em seco. Ao encontrar o olhar preocupado de Mila, ele recuou, embora não houvesse como ela ter ouvido. E mesmo que tivesse, ele não tinha motivos para se sentir culpado. Não era responsável pelo que Christian estava balbuciando.
Alexander limpou a garganta. — Vamos levar você para casa. Você precisa dormir para curar essa bebedeira. — Gesticulando para Mila segui-los, Alexander meio carregou, meio arrastou Christian para fora da pista de dança.
— Para onde estamos indo? — Christian perguntou assim que pegaram seus casacos e saíram para a noite de dezembro.
Estava frio e úmido, mas sem vento.
— Onde você mora?
Após um momento, Christian lhe deu o endereço.
— É para lá que vamos, então — disse Alexander, empurrandoo em direção ao carro.
— Ei, pega leve! — Christian disse, tropeçando. — Minhas pernas estão meio engraçadas.
— Você estava bem o suficiente quando estava se esfregando naquele cara na pista de dança.
— Você parece bravo, Alec — Christian disse, virando-se e piscando para ele. Aparentemente, não estava bêbado demais para seus flertes bobos.
— Eu não estou bravo — disse Alexander, agarrando Christian quando ele tropeçou novamente. — Estou irritado. Ser sua babá não estava na minha lista de tarefas para esta noite.
— Não seja tão duro com ele, querido.
Assustado, Alexander virou a cabeça. Tinha esquecido completamente de Mila.
Ela apertou o passo para alcançá-los. — Se for o caso, você é quem deveria pedir desculpas ao Christian por ter cortado o barato dele.
— Eu não fiz nada disso — disse Alexander, abrindo o carro e empurrando Christian para o banco do passageiro.
— Fez sim — Christian murmurou.
— Fez sim — Mila disse, subindo no banco de trás.
— Ele está embriagado. — Alexander sentou-se em seu lugar, afivelou o cinto de Christian, prendeu o seu próprio e deu a partida no motor. — Quem sabe o que aquele cara teria feito com ele.
Christian começou a rir — ou melhor, a dar risadinhas de bêbado. — Ah, você é tão fofo.
Alexander o encarou seriamente.
Christian lhe mandou um beijo.
Rangendo os dentes, Alexander voltou a olhar para a rua.
Ele sentiu o olhar de Christian sobre si.
— Isso é tão estranho — Christian disse, parecendo confuso. — Você é fofo, mas está com uma cara tão azeda. Estranho.
— Ninguém nunca te disse que você fica péssimo bêbado? — Alexander disse, ignorando o riso de Mila no banco de trás.
— Não — Christian disse depois de um momento.
— Você fica péssimo bêbado.
— Fico não. Eu sou um bêbado incrível! Eu fico sóbrio rapidinho.
— Não foi exatamente o que eu quis dizer.
Você é malvado. Você parece tão legal, mas é tão malvado.
— Você acabou de dizer que eu era fofo.
— Eu nunca disse isso!
Alexander riu. — Você é meio ridículo.
— E você é um babaca.
— E você é irritante.
— Que lindo — Mila disse, rindo. — Insultos de jardim de infância. Qual o próximo passo, pessoal?
— Ele que começou! — Christian disse com um tom de quem faz bico. — Eu realmente, realmente não gosto do seu namorado. Não sei como você aguenta ele. Ou por quê.
— Ele tem seus momentos — disse Mila. — Além disso, ele tem um pau maravilhoso.
Isso silenciou Christian. Por um momento.
— Imagino — ele murmurou relutantemente. — Embora paus grandes possam ser bem desconfortáveis quando o cara não sabe como usar. Mas suponho que ele...
— Ele está bem aqui — disse Alexander, olhando para frente. — E ele realmente gostaria que vocês dois parassem de discutir o pau dele.
— Estraga-prazeres — Mila disse.
— Chato — disse Christian.
Mila deu uma risadinha. — Espero que não esteja muito puto com o Alexander. Aquele cara era bem bonitão.
— É. Tinha olhos bonitos. Tão azuis. Uma pena.
Alexander olhou para Christian. Ele parecia sonolento agora.
— Posso te perguntar uma coisa? — Mila disse.
Quando Christian fez um ruído sonolento, ela perguntou: — Por que você não tem namorada ou namorado? Digo, você é provavelmente o cara mais popular da faculdade, todo mundo te ama, mas você nunca sai sério com ninguém. Você só sai pegando geral. As pessoas dizem que você tem medo de compromisso.
— Nopes — Christian murmurou, bocejando. — Na verdade, é o oposto. Meus pais se amam — o amor deles é épico e o caralho a quatro — e eu basicamente cresci sem conhecer outra coisa. Me contentar com qualquer outra coisa parece meio superficial. Então eu só fodo. Você tem que beijar muitos sapos antes de encontrar seu príncipe e tudo mais. Não conheci ninguém que eu quisesse o suficiente para parar de sair pegando todo mundo.
Havia um olhar nostálgico no rosto de Christian. Ele não parecia mais tão bêbado assim.
— Eu realmente quero conhecer essa pessoa — disse Mila.
Christian encontrou os olhos de Alexander e desviou o olhar. — Você e eu, docinho.
— Tudo bem, vamos fazer um joguinho! — Mila disse.
— Um jogo?
— Aham. Um homem ou uma mulher?
— Fácil — Christian murmurou. — Um homem.
— Por que você tem tanta certeza? — Mila perguntou, com um traço de irritação na voz. — Você pode se apaixonar por uma mulher.
Alexander olhou para Christian novamente. Ele estava com os olhos fechados.
Não me entenda mal, eu gosto de mulheres — disse Christian. — Vocês são boas de tocar, boas de conversar, mas eu não consigo... não consigo me ver me apaixonando por uma garota. Existem coisas que as mulheres não podem me dar.
— Tipo o quê? — disse Mila.
Não quero uma garota. Quero um homem. Quero ser imobilizado e fodido.
Alexander mudou levemente de posição no assento, mantendo os olhos fixos à frente.
— Estar com um homem é diferente de estar com uma mulher — Christian murmurou. — A dinâmica é diferente. Eu sou totalmente a favor da igualdade de gênero e tudo mais, mas ainda existem algumas coisas que você simplesmente não consegue... — Ele se interrompeu com um ruído de frustração. — É difícil de explicar. Eu me sinto diferente com homens e quero coisas diferentes, sabe?
Mila deu uma risadinha. — Apenas diga que você gosta mais de pau.
Christian soltou um riso nasalado. — Isso também, mas não é tão simples assim, na verdade.
— Tá, tanto faz. Então a pessoa provavelmente será um homem. Alto e forte ou baixo e magro?
— Pergunta boba. Você gosta de caras baixos e magros?
— Não é a mesma coisa! Ouvi dizer que alguns gays gostam de twinks.
— Eu não. Gosto deles altos e fortes. Alguém mais forte que eu.
— Entendi — disse Mila, com o sorriso audível na voz. — Deixeme adivinhar: você gosta, hum, de ser o passivo?
Christian riu. — Eu já fiz os dois.
Mas você prefere ser passivo — Mila pressionou.
Alexander lançou um olhar de soslaio para Christian.
— É — disse ele, encontrando os olhos de Alexander. Havia um rubor em suas maçãs do rosto.
Alexander voltou a olhar para a rua. Estavam quase no endereço que Christian lhe dera.
— Mas eu não faço isso com tanta frequência na verdade — disse Christian. — Eu geralmente só fico em casos de uma noite, e você não vai tão longe com estranhos. E é um pouco intenso demais e te deixa vulnerável demais e o caralho quando o cara...
— Informação demais — Alexander disse.
O silêncio que caiu no carro foi quase ensurdecedor, e Alexander percebeu que praticamente rosnara as palavras.
— Por quê? — Christian murmurou finalmente. — Isso te deixa desconfortável, Alec?
Alexander manteve os olhos na estrada. — Existe uma coisa chamada compartilhar demais. — Alexander parou o carro em frente ao prédio. — É este o prédio?
— Eu... É.
— Então saia.
— Obrigado pela carona, eu acho. Tchau, Mila.
— Tchau, Chris.
Alexander não olhou enquanto Christian abria a porta, mas foi forçado a olhar quando o cara tropeçou e caiu no chão.
— Pelo amor de Deus — disse Alexander e saiu do carro.
O mundo está girando — Christian disse. — Estranho. Eu não me sinto mais tão bêbado.
Alexander o ergueu. — Vamos lá.
Christian passou um braço em volta do pescoço dele e se inclinou pesadamente contra ele.
— Precisa de ajuda? — Mila gritou do carro.
— Não — Alexander disse e começou a caminhar. — Onde é o seu apartamento?
— Ali. Quinto andar. O elevador não está funcionando.
Tinha que ser.
Quando finalmente chegaram ao apartamento, eles se encostaram na porta, recuperando o fôlego.
— Acho que vou passar mal — Christian disse.
— Não passe — disse Alexander.
— Muito prestativo, cara.
— Você consegue dar conta do resto sozinho, certo?
— Se eu disser que não, você me carrega para dentro? — Christian sorria levemente, mas seus olhos estavam estranhamente sérios.
Alexander se empertigou. — Se você voltou a flertar, está bem o suficiente para levar sua bunda para dentro. — Ele se virou para sair, mas uma mão agarrou seu paletó.
— Alec.
Ele inspirou e olhou para Christian. — O quê?
Christian soltou o paletó. Ele mordeu o lábio inferior, com uma expressão estranha no rosto. — É, tipo, a última vez que a gente se vê, né?
Alexander enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e deu de ombros. — Provavelmente vamos nos esbarrar na sua faculdade.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Os olhos de Christian eram como chocolate derretido.
Desviando o olhar, Alexander puxou o colarinho. — Talvez. E daí?
— Eu odeio deixar pontas soltas — disse Christian.
— Que pontas soltas?
— Você sabe do que eu estou falando. Olha para mim.
Alexander sabia que não deveria. Ele sabia.
Mas olhou mesmo assim.
Eles se encararam em silêncio; o único som na escadaria era a respiração ofegante de ambos.
Christian lambeu os lábios.
— Só uma vez — ele sussurrou.
E Alexander avançou, esmagando seus lábios com os dele. Gemendo, Christian agarrou o cabelo dele e retribuiu o beijo, ansioso e carente, e Alexander o beijou mais profundamente, empurrando a língua para dentro. O beijo era bagunçado e carnal — línguas, dentes, grunhidos sem fôlego e ganidos — e ele não conseguia beijá-lo com profundidade e força o suficiente. Nada fazia sentido — nada exceto isso: o desejo físico mais básico, seu sangue latejando de necessidade nas veias e fazendo seu pau engrossar e latejar. Ele queria—
O celular dele tocou. Era o toque personalizado de Mila.
Alexander se afastou num solavanco, como se estivesse queimado.
Respirando pesadamente, eles se encararam. As pupilas de Christian estavam tão dilatadas que seus olhos pareciam pretos, seu rosto corado, o cabelo desalinhado, os lábios inchados e vermelhos. Alexander odiou o fato de que, mesmo com a culpa retorcendo suas entranhas, uma parte dele queria voltar a sugar e beijar aqueles lábios, o corpo queimando de desejo.
— Não — disse ele rouco e recuou, quase caindo da escada em sua pressa.
Uma vez lá fora, o ar frio da noite não fez nada para esfriar sua pele. Alexander respirou fundo algumas vezes, tentando fazer sua ereção baixar. Pensou em Mila esperando por ele no carro e sentiu um enjoo no estômago.
Ele não queria ir até lá, mas não podia ficar ali para sempre.
Armando-se de coragem, Alexander caminhou até o carro e sentou no banco do motorista.
— O que te demorou tanto?
Alexander olhou para a noite escura através do para-brisa. Ele poderia mentir. Poderia omitir a verdade.
Seu estômago revirou. Não.
— Eu o beijei — disse ele secamente.
Um instante se passou. — Como é que é?
— Eu beijei o Christian. — Ele não olhou para ela.
O silêncio durou mais tempo desta vez.
Finalmente, ela riu, um pouco incerta. — Uau. Não sei bem como eu deveria reagir a isso. Eu achei... achei que você fosse cem por cento hétero.
— Eu sou — Alexander disse, apertando o volante.
— Querido, odeio te dar a notícia, mas você não é cem por cento hétero se beija outro cara. — Uma pausa. — Embora eu não te culpe. Ele é ridiculamente atraente e deixaria qualquer cara curioso.
Expirando, Alexander virou a cabeça para ela. — Achei que você fosse ficar mais brava.
Mila enrolou uma mecha de cabelo no dedo. — Por quê? Eu também o beijei — e fiz mais do que beijar. Só estou surpresa. — Ela o observou com curiosidade. — Você gostou?
Alexander quase riu. Como ele deveria responder àquilo? "Gostar" nem começava a descrever. A fome ainda o corroía, seu pau ainda estava meio duro.
Mas, apesar de toda a sua mente aberta, Mila não reagiria bem se soubesse a extensão de sua atração por Christian. Não reagiria bem se soubesse que seus dedos ainda tremiam pela descarga de adrenalina, seu corpo rígido de excitação.
— Foi bom o suficiente — Alexander disse curtamete, desviando o olhar.
Mila colocou a mão no ombro dele. — Então, o que vamos fazer a respeito disso?
— Não tenho certeza do que você quer dizer.
— Não é óbvio? Eu sinto atração por ele, você sente atração por ele, e presumo que ele sinta atração por nós dois. É perfeito. Podemos ter um ménage de verdade, não apenas dois caras dividindo uma garota.
Alexander inspirou lentamente. Ela não podia estar sugerindo isso seriamente. — Não tenho certeza se é uma boa ideia, Mila.
— Por quê? Foi muito excitante quando vi vocês dois se beijarem sem querer. — Ela riu. — Tenho que admitir que há algo de muito excitante em ver dois caras gatos se pegando. Na verdade, eu nem sinto ciúmes. É como se... parece que não conta, sabe?
Alexander conseguia entender o ponto de vista dela: ele também não se incomodaria se visse Mila se pegando com outra garota gata. Mas o problema era...
Ele suspirou, passando a mão pelos olhos. Como ele poderia dizer a ela que tinha um pressentimento péssimo sobre isso?
— É por ele ser um homem? — Mila perguntou quando ele não disse nada. — Se for, é bobagem. Então você é bissexual, grande coisa! É só sexo, não um relacionamento. Vamos lá, vamos tentar! Se você não gostar, não faremos de novo. Simples.
Alexander olhou para a escuridão. Ele não deveria tomar nenhuma decisão quando seu corpo ainda doía de carência e desejo.
Mas ele disse: — Tudo bem.
— Ótimo! Vou falar com ele amanhã, então.
O sentimento de inquietação em suas entranhas não diminuiu. Algo lhe dizia que não seria tão simples quanto Mila fazia parecer.