Capítulo 3 - O fim do silêncio

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 1664 palavras
Data: 04/06/2026 20:28:32

O leitor talvez já tenha aprendido, pela própria experiência ou por observar os outros, que as grandes mudanças raramente se anunciam com trombetas. Quase sempre chegam disfarçadas de rotina, vestidas de coisas comuns, escondidas naqueles dias que parecem iguais aos outros. E foi assim que a amizade entre Luís e Gerson cresceu.

A princípio, havia apenas a convivência inevitável entre dois homens que passavam boa parte do dia trabalhando na mesma propriedade; entretanto, à medida que as semanas avançavam e novembro se aproximava com seu calor pesado e suas promessas de chuva que nunca se cumpriam, a companhia de um começou a tornar-se cada vez mais importante para o outro.

Durante as manhãs, trabalhavam juntos. Durante as tardes, trabalhavam juntos. E mesmo quando o serviço exigia silêncio, aquele silêncio já não parecia vazio, pois ambos haviam descoberto a confortável presença que existe entre duas pessoas que aprenderam a gostar da companhia uma da outra.

Gerson falava muito. Falava sobre lugares por onde passara, sobre peões que conhecera, sobre patrões honestos e patrões canalhas, sobre bois teimosos, sobre rodeios, sobre estradas de terra e sobre cidades que Luís jamais visitara. Luís, por sua vez, escutava. Escutava porque gostava das histórias. Mas também porque gostava da voz que as contava. E talvez essa segunda razão fosse a mais importante.

O rapaz começou a perceber que os dias pareciam menores quando estava perto de Gerson e excessivamente longos quando não estava, o que, para um coração jovem, costuma ser um sinal mais revelador do que qualquer declaração.

À noite, havia um certo ritual. Depois do jantar, João Carlos e Gerson costumavam sentar-se na varanda com algumas cervejas, e ali permaneciam por horas enquanto a escuridão tomava conta dos pastos e os grilos iniciavam sua orquestra habitual. Conversavam sobre trabalho, sobre política, sobre gente da região. Às vezes riam. Às vezes ficavam longos minutos em silêncio, observando a noite. Ficavam ali até altas horas.

Do quarto, Luís frequentemente escutava o murmúrio distante das vozes e imaginava o que os dois estariam conversando. Não porque tivesse grande interesse nas conversas, mas porque qualquer coisa relacionada a Gerson acabava despertando sua atenção.

Foi também nessa época que João Carlos começou a notar mudanças no filho. Primeiro foram mudanças pequenas. Luís parecia mais disposto, mais sorridente, mais presente. Depois vieram outras. O rapaz passou a responder menos. Parecia distraído durante as refeições. Às vezes desaparecia para ajudar Gerson mesmo quando não era necessário. E aquilo começou a irritar João Carlos. Não porque compreendesse o motivo da transformação. Pelo contrário, justamente por não compreender. O pai observava aquelas mudanças como quem percebe uma cerca se inclinando sem descobrir qual estaca está cedendo.

— Cê tá esquecendo serviço agora, Luís? — resmungou certa manhã.

— Não tô esquecendo nada, pai.

— Então presta atenção. Moleque mais tonto, sô!

Outro dia implicou porque Luís demorou a responder. Depois implicou porque respondeu rápido demais. Mais tarde implicou porque o rapaz riu demais durante o almoço. E o curioso é que nem o próprio João Carlos parecia saber exatamente por que estava tão irritado. Talvez sentisse que algo lhe escapava. Talvez enxergasse a distância, que já não era pequena, crescendo entre ele e o filho sem conseguir impedir. Talvez não queria aceitar que o filho encontrou no outro a amizade que ele não conseguia oferecer. Ou talvez apenas estivesse habituado demais à própria solidão para aceitar mudanças com facilidade.

Enquanto isso, a amizade entre Luís e Gerson continuava se aprofundando. Os olhares começaram a durar um pouco mais e agora pareciam dizer alguma coisa. As conversas começaram a se estender além do necessário. E certos silêncios passaram a carregar significados que nenhum dos dois tinha coragem de explicar.

No quarto, antes de dormir, Luís também tinha seu ritual... depois de observar o pai e o amigo conversando pela janela, ele se masturbava ali mesmo de pé, pensando no peão como da primeira vez, o pênis duro feito estaca de braúna saindo pela abertura da perna do short samba-canção ou às vezes se arriscava tirando o short completamente.

Uma vez, ele achou que Gerson o olhava de canto de olho e então se retirou dali foi para cama finalizar o que havia começado. E foi a partir desse dia que ele parou de ter aquele sentimento de culpa e vergonha. Talvez a possibilidade de Gerson tê-lo visto no seu ato de prazer solo mexeu com algo dentro dele.

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Foi no início de dezembro, numa tarde bastante quente, que tudo mudou. João Carlos precisou ir à cidade para tentar um ponto de venda de sua produção dentro de um mercado coberto, e deixou para os dois a tarefa de verificar uma cerca quebrada no limite da propriedade.

Quando terminaram de consertar a cerca, o que não demorou tanto quanto imaginavam, o lógico teria sido regressar imediatamente. Mas nenhum dos dois demonstrou pressa, pois o trabalho do dia estava encerrado e ainda restavam algumas horas até o entardecer. O rio que atravessava uma das extremidades da propriedade corria a poucos minutos dali, escondido entre árvores grandes que ofereciam sombra contra o calor insistente daquela época do ano.

— Já que acabamos cedo, vamos dar um mergulho — disse Gerson, enxugando o suor da testa com a manga da camisa. — Depois desse serviço, eu tô precisando.

Luís hesitou. Pensou no pai, pensou na possibilidade de alguém notar a demora. Mas, antes que pudesse responder qualquer coisa, Gerson já conduzia seu cavalo em direção ao rio, com a tranquilidade de quem não devia satisfações a ninguém.

Quando chegaram à margem, o peão desceu do animal, largou as ferramentas sobre a grama e começou a se despir, ficando apenas com sua cueca de algodão azul marinho. Luís permaneceu alguns instantes sobre seu cavalo, parado na beira, observando o peão tirar a roupa, peça a peça. Observou atentamente o corpo de Gerson com mais atenção, sem pressa. Ele já o tinha visto apenas enrolado na toalha antes, quando o peão precisou usar o banheiro da casa principal, mas por estar perto do pai, não podia ficar olhando. Mas ali, cercado apenas de natureza, ele não tinha nenhum impedimento. Olhou até que ouviu Gerson dentro da água, chamando-o para entrar também.

Acabou mudando de ideia quando percebeu sua ereção marcando na calça. Então, despiu-se rapidamente e pulou no rio. A água estava fria e agradável, oferecendo um alívio imediato ao calor que os acompanhara durante toda a tarde.

Durante algum tempo permaneceram ali, conversando sobre assuntos sem importância, comentando o trabalho do dia, e pequenas histórias da vida no campo. Era curioso como as conversas pareciam sempre mais fáceis quando estavam sozinhos. Talvez porque não houvesse ninguém para observá-los. Talvez porque o silêncio entre eles já não causasse desconforto.

Quando saíram do rio, o céu começava a adquirir os tons dourados do fim da tarde. Secaram-se como puderam, recolheram as ferramentas e caminharam alguns metros até uma área mais alta do terreno, de onde era possível enxergar boa parte dos pastos e dos morros ao longe. Sentaram-se na grama, observando o horizonte. À frente deles, os morros se espalhavam sob a luz amarelada do fim da tarde, enquanto as sombras cresciam lentamente sobre o capim. Por mais algum tempo conversaram. Depois conversaram menos. Até que restou apenas o silêncio. Não um silêncio desconfortável. Mas aquele outro tipo de silêncio que surge quando duas pessoas já disseram tudo o que as palavras conseguem dizer.

Foi então que as mãos deles se encontraram. Nenhum dos dois saberia explicar exatamente como. Um movimento involuntário, ou um gesto inconsciente... uma escolha talvez. O fato é que os dedos se tocaram e permaneceram assim. E, embora o gesto fosse pequeno, produziu em Luís a sensação de que o mundo inteiro havia mudado de lugar.

Seu coração acelerou. Seu pensamento desapareceu. E, pela primeira vez na vida, ele teve a estranha impressão de que não precisava esconder quem era. Quando ergueu os olhos, encontrou Gerson olhando para ele. Não havia surpresa naquele olhar, nem dúvida. Apenas uma honestidade tranquila que, de alguma forma, era ainda mais assustadora.

E então, seus rostos se aproximaram e seu primeiro beijo aconteceu ali mesmo, sob o céu agora carregado de nuvens, sem discursos e sem promessas. Aconteceu porque já estava acontecendo há quase dois meses dentro deles. Porque os olhares já o haviam anunciado. Porque os silêncios já o haviam confessado. Porque ambos estavam cansados de fingir que não percebiam.

Para Luís, que jamais havia beijado ninguém, o instante pareceu grande demais para caber dentro de uma única tarde. Mesmo sem experiência alguma, ele acompanhou o beijo e a língua do peão, por instinto talvez.

Quando se afastaram, ficaram alguns segundos sem dizer nada. Foi Gerson quem respirou fundo primeiro. Passou a mão pelo rosto. Olhou para o horizonte. E então falou:

— Isso é uma má ideia, rapaz.

A frase saiu baixa e sincera. Não como uma repreensão, mas como uma constatação. Como alguém que observa uma tempestade se aproximando e reconhece que não há abrigo por perto.

Luís não respondeu. Continuou apenas olhando para ele. E talvez tenha sido justamente aquele olhar que destruiu a resistência que ainda restava. Porque Gerson suspirou outra vez, balançou a cabeça e, apesar de todas as razões que possuíam para se afastar, acabou voltando para junto dele.

O beijo seguinte foi uma rendição. Gerson se inclinou sobre o jovem e aos poucos conduziu-o à grama, deitando-se sobre ele. Luís finalmente sentiu a barba do peão roçando seu rosto, seu pescoço. Sentiu as mãos pesadas, grandes e ásperas lhe tocando, e o cheiro dele impregnando suas narinas e o excitando com violência.

E exatamente nesse momento a primeira gota de chuva caiu sobre a terra seca. Depois veio outra. E mais outra. Até que o céu finalmente se abriu sobre os pastos, cobrindo o campo inteiro com o som da água. Os dois permaneceram ali naquele beijo por uns instantes sem perceber que a tempestade que realmente mudaria suas vidas não estava chegando do horizonte...

Já havia começado.

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