A luz da manhã não invade o apartamento de Ricardo; ela se infiltra, tímida e filtrada pelas persianas motorizadas, desenhando faixas cinzentas sobre o linho escuro das camas. Marco acorda não com um sobressalto, mas com uma pulsação rítmica e dolorosa entre as pernas, um lembrete constante da armadilha de metal que ancora sua genitalidade. O anel de prata com o detalhe de serpente que Ricardo usa brilha levemente no criado-mudo ao lado, mas é o peso do próprio corpo de Marco que o chama de volta à realidade.
Ele se mexe, e a pele desliza sobre os lençóis de seda egípcia. Não é o atrito áspero de um corpo coberto de pelos, mas o toque suave, quase infantil, de uma pele depilada, tratada com loções que cheiram a baunilha e almíscar. Ele tenta sentar-se, e os músculos que outrora ergueram caixas pesadas no depósito e sustentaram sua postura de gerente arrogante agora protestam, flácidos e lentos. O peitoral, antes uma placa rígida de orgulho masculino, agora apresenta uma maciez alarmante, as mamas inchadas e sensíveis ao toque, mamilos escurecidos pelos hormônios que pulsam em suas veias como um veneno doce.
Ricardo não está na cama. O espaço vazio ao lado ainda mantém o calor do corpo dele, e Marco instintivamente estende a mão, os dedos trêmulos procurando a presença do dono. O chão está gelado quando seus pés tocam o mármore. Ele caminha até o espelho de corpo inteiro emparelhado na parede do closet, andando de forma estranha, os quadris balançando mais do que a intenção de sua mente ordena, um resultado inevitável das alterações ósseas e musculares que os químicos impuseram.
O reflexo no vidro é de um estranho. Marco encosta a testa na superfície fria, o embaçando com sua respiração curta. O rosto é o mesmo, e ainda assim, é irreconhecível. Os maxilares, antes angulares e definidos, perderam a aresta, suavizados por uma camada de gordura subcutânea que dá às bochechas um ar perpétuo de juvenilidade. Os lábios, inchados e vermelhos, parecem permanentemente entreabertos, prontos para receber. Ele desce o olhar pelo pescoço, onde nenhuma veia salta, passando pelos ombros que já não parecem tão largos, até a cintura que se curva para dentro antes de alargar-se em quadris que agora rivalizam com os de muitas mulheres.
A gaiola de metal entre as pernas é pequena, risonha em comparação com o que já esteve lá. O pênis, antes uma fonte de poder e agressividade, agora é um clitóris atrofiado, retraído, inútil. Apenas um botão sensível cercado por uma pele lisa e sem pelos. Ele toca o metal com a ponta dos dedos e um gemido baixo escapa de sua garganta — não de dor, mas de uma necessidade torturante que ele aprendeu a chamar de fome.
— Bom dia, putinha.
A voz de Ricardo vem da porta do closet, profunda, rouca, carregando aquele tom de posse que faz os joelhos de Marco falharem. Ele se vira, baixando imediatamente os olhos. Ricardo está vestido, impecável como sempre, a camisa social branca alisada, o cheiro de café fresco e tabaco importado precedendo sua entrada física. Ele não parece um homem que acabou de acordar; parece um juiz que entrou na sala para proferir a sentença do dia.
— Ajeite-se — ordena Ricardo, cruzando os braços. — Hoje temos uma rotina a cumprir. Não fique aí se admirando como uma novinha vaidosa.
Marco obedece. O movimento é automático, gravado nas sinapses de seu cérebro que foram reescritas. Ele se ajoelha no tapete felposo, as coxas abertas, as mãos pousadas nos joelhos, palmas para cima, a coluna ereta mas o peito empinado, oferecendo as mamas inchadas. É a postura da espera. A postura da coisa.
Ricardo caminha até ele, os passos pesados ecoando no silêncio do quarto. Ele para a poucos centímetros, e Marco pode sentir o calor irradiando da calça de alfaiataria. Ele inclina a cabeça, cheirando a virilha de Ricardo através do tecido, inalando o odor de homem que agora é seu único oxigênio.
— Parece que os hormônios estão fazendo efeito — Ricardo comenta, passando a mão pelo cabelo de Marco, que agora cresceu mais, caindo em mechas lisas sobre a testa. — Você está ficando macio. Gostoso. Dói quando eu aperto aqui?
Ele aperta o mamilo de Marco com força, torcendo a carne sensível. Marco grita, seu corpo se arqueando, mas ele não se afasta. Ele se joga contra a mão de Ricardo, buscando mais dor, mais pressão, mais confirmação de que existe.
— Sim... doi, patrão... — a voz de Marco é fina, um sussurro quebrado.
— Você gosta da dor — Ricardo solta o mamilo e acaricia a bochecha vermelha de Marco. — É a única coisa que faz você se sentir vivo agora, não é? Sua rola não funciona mais. Você não é mais homem. É apenas um buraco quente esperando para ser usado.
— Sim... sou seu buraco... — Marco repete, as lágrimas escorrendo pelo rosto, misturando-se com o sorriso de submissão que seus lábios formam involuntariamente.
Ricardo dá um passo atrás e desabotoa a calça. O som do zícer baixando é como um tiro de partida na mente de Marco. O pênis de Ricardo surge, duro, grosso, as veias salientes, a glande roxa e brilhante de precum. Não há necessidade de ordens verbais. Marco rasteja pelo chão, suas mãos subindo para tocar a carne sagrada, seus lábios se umedecendo em antecipação.
Ele leva a boca à glande, beijando-a com reverência, lambendo o líquido transparente que escapa. O gosto é salgado, amargo, familiar. É o gosto de sua vida agora. Ricardo agarra o cabelo de Marco, não com delicadeza, mas firmemente, guiando o ritmo.
— Abre a boca, sua vadia. Vamos ver se você aprendeu a controlar a garganta.
Marco abre a boca o máximo que pode, a mandíbula desconjuntando-se, os olhos fixos no rosto de Ricardo. O homem empurra os quadris para frente, enterrando o pau até a garganta de Marco. O reflexo de vômito é imediato, mas Marco suprime-o, engolindo ao redor da espessura, os músculos da garganta massageando a cabeça do pênis de Ricardo. Ele chora enquanto chupa, as lágrimas borram a visão, mas ele não pisca. Ele quer ver. Quer ver o prazer nos olhos de Ricardo. Quer ver que ele é útil.
Ricardo começa a foder a cara de Marco com força, sacudindo a cabeça dele como se fosse um boneco de pano. O som de chicotadas úmidas enche o quarto. Gargalhadas, engasgos, o som de testículos batendo no queixo. Marco sente o pênis atrofiado tentando endurecer dentro da gaiola de metal, a dor aguda da ereção impedida misturando-se ao prazer avassalador de ser usado. Ele não precisa de seu próprio prazer. O prazer de Ricardo é o dele.
— É isso — Ricardo grunhe, o rosto contraído, o suor começando a surgir na testa. — Essa boquinha é a única coisa que presta em você. Sua carinha de menina foi feita pra engolir pau.
Ele puxa o cabelo de Marco, forçando-o a olhar para cima enquanto a boca ainda está cheia.
— Eu sou dono dessa garganta. Eu sou dono desse corpo. Diga isso com a boca cheia.
Marco tenta falar, mas só consegue emitir um som gutural, ininteligível, um grito abafado de aceitação total. Ricardo ri, um som sombrio e sádico, e aumenta a velocidade. Ele está perto. Marco pode sentir as veias pulsando contra sua língua, a glande inchando ainda mais. Com um rugido, Ricardo arqueia as costas e explode na garganta de Marco, jatos quentes e grossos de esperma sendo bombeados diretamente em seu estômago.
Marco engole avidamente, não deixando uma gota escapar, a língua trabalhando para limpar cada centímetro da carne que o invade. Quando Ricardo finalmente se retira, um fio de esperma conecta a glande aos lábios de Marco antes de arrebentar. Marco fica ali, ofegante, o peito erguendo e descendo rapidamente, o rosto inchado e vermelho, os olhos vidrados de dopamina submissa.
— Limpo — Ricardo ordena, guardando o pênis na calça.
Marco usa a mão para recolher o resto do esperma do rosto e leva à boca, lambendo os dedos com dedicação, garantindo que nada seja desperdiçado.
— Agora, vá se lavar — diz Ricardo, virando as costas. — Vamos sair. Você precisa de ar fresco. E eu preciso de mantimentos.
O mercado é um lugar de luzes fluorescentes baratas e ruído branco, um mundo mundano que parece alienígena para Marco agora. Ele caminha dois passos atrás de Ricardo, vestido com roupas que Ricardo escolheu: uma calça de moletom justa que acentua o formato de seu coração, e uma camiseta de algodão fina que deixa transparecer a ausência de sutiã e o pontinho duro de seus mamilos. Não há underwear por baixo. A gaiola de metal é visível como uma pequena protuberância na frente da calça, um segredo público que apenas eles entendem.
As pessoas passam por eles. Marco mantém os olhos no chão, focado nos tênis brancos que Ricardo comprou para ele. Ele sente o peso dos olhares, mas não consegue interpretá-los. Elas veem um casal? Um pai e um filho estranho? Ou elas veem a verdade? Ele sente a pele coçando, como se as tatuagens invisíveis sob a roupa estivessem queimando. PROPRIEDADE DE RICARDO. SUA PUTA. USE-ME.
Ricardo para na seção de hortifruti. Ele examina um abacate com a mesma atenção crítica que usou para examinar os orifícios de Marco na noite anterior.
— Pegue aquelas maçãs — Ricardo aponta, sem olhar para trás.
Marco estende a mão, mas o movimento é lento. Seus braços, antes fortes o suficiente para carregar caixas de papelão o dia todo, agora tremem levemente sob o peso de uma simples sacola plástica. A falta de testosterona roubou sua força física, deixando-o fraco, dependente. Ele enche a sacola com as maçãs vermelhas, sentindo os músculos delgados do braço se tensionarem.
Eles continuam andando. O cheiro de pão fresco faz o estômago de Marco roncar, mas ele não pede nada. Ele come quando Ricardo permite. Ele bebe quando Ricardo oferece. Sua fome e sua sede foram externalizadas; agora, elas pertencem ao homem que caminha à sua frente.
Eles dobram a esquina para o corredor de laticínios. Marco para subitamente, o sangue fugindo do rosto. Ali, parada em frente ao iogurte grego, está Clara.
Ela parece exatamente como ele se lembrava: o cabelo castanho liso e preso num rabo de cavalo casual, o casaco de inverno bege, a postura de quem não tem nada a esconder. Ela está lendo o rótulo de um pote de iogurte, a testa levemente franzida. Por um segundo, o tempo para para Marco. Ele espera que ela se vire, que seus olhos se arregalem, que ela grite o nome dele. Ele espera que o reconhecimento traga de volta o homem que ele era, o gerente, o amante, o garanhão.
— Vamos, o que é isso? — Ricardo percebe a parada e vira-se, seguindo o olhar de Marco. Ele vê Clara e um sorriso lento, predatório, se espalha por seus lábios. — Ah. A senhorita.
Clara ouve a voz de Ricardo e se vira. Ela olha para o homem alto e impressionante, e então seus olhos deslizam para a figura ao lado dele. Ela olha para Marco.
Marco prende a respiração. Ele se endireita, tentando projetar alguma altura, alguma masculinidade restante. Ele abre a boca para dizer "Clara", para dizer "sou eu", para dizer qualquer coisa que construa uma ponte entre seu passado e seu presente.
Mas Clara apenas sorri polidamente. É o sorriso que se dá a um estranho. Um sorriso vazio, desinteressado. Seus olhos varrem o corpo de Marco — o cabelo liso, o rosto macio, os ombros caídos, a postura submissa — e nada dispara. Não há reconhecimento. Não há flash de memória nos olhos dela. Para ela, ele é apenas... ninguém. Uma garota effeminada andando com um homem mais velho. Uma assistente, talvez. Um filho doente.
— Com licença — diz ela, movendo-se para o lado para passar por eles com o carrinho.
O impacto é físico, um soco no estômago que tira o ar de Marco. Ele não é apenas invisível; ele foi apagado. O garanhão que a conquistou, o homem que a fez gemer na cama do hotel, o gerente que mandava e desmandava no escritório — esse homem está morto. Clara passa por ele, o ombro dela roçando levemente no braço dele, e ela nem se retesa.
Marco olha para Ricardo, pânico real nos olhos pela primeira vez em meses. Ele espera que Ricardo faça algo, que revele o segredo, que humilhe Marco publicamente apenas para provar que ele existe. Mas Ricardo apenas coloca a mão no pescoço de Marco, apertando suavemente, um gesto de posse que é ao mesmo tempo reconfortante e aterrorizante.
— Você vê? — Ricardo sussurra no ouvido de Marco, sua voz baixa e cheia de veneno doce. — Ela não tem ideia. Você é um fantasma. O homem que ela conheceu desapareceu. Tudo o que sobrou foi essa putinha fofinha e inofensiva.
Marco balança a cabeça, as lágrimas bemando nos olhos. Ele quer gritar, quer correr atrás dela, quer sacudir ela e dizer "olhe para mim!". Mas seus pés estão colados ao chão. E mais do que isso, ele sente a verdade nas palavras de Ricardo. Ele sente a gaiola entre as pernas, a fraqueza em seus braços, a suavidade de sua pele. Ele não é aquele homem. Ele não consegue fingir ser aquele homem.
— Está bem — Ricardo aperta a nuca de Marco, forçando-o a continuar andando. — Vamos embora. Temos coisas melhores para fazer em casa do que perder tempo com fantasmas do passado.
Marco caminha, o coração partido, mas ao mesmo tempo, uma onda de alívio quente se espalha por seu peito. Ele não precisa mais manter a fachada. Ele não precisa mais ser o homem forte. Ele é apenas a propriedade de Ricardo, e nesse papel, não há expectativas, não há decepções, apenas a obediência simples e cega.
De volta ao apartamento, a porta se fecha, bloqueando o mundo lá fora. O silêncio pesado e seguro do santuário de Ricardo envolve-os. Marco não espera ordens. Ele sabe o que é esperado dele.
Ele se despe no meio da sala, a calça de moletom escorregando pelas pernas, a camiseta sendo puxada por cima da cabeça. Ele fica nu, exceto pela gaiola de metal, a luz do teto refletindo em sua pele pálida e sem marcas de sol. Ele se ajoelha no tapete persa, a testa tocando o chão, as nádegas levantadas, expondo o orifício que agora é o centro de seu universo sexual.
— Espero — ele sussurra para o chão.
Ricardo demora. Ele ouve o som do gelo sendo batido num copo, o som da TV sendo ligada e depois desligada. A espera aumenta a tensão, o corpo de Marco tremendo não de frio, mas de antecipação. Ele precisa ser preenchido. O vazio dentro dele é uma dor física.
Finalmente, Ricardo se aproxima. Marco ouve o som do cinto sendo desfeito, o som da roupa caindo. Ele não levanta a cabeça. Uma mão forte agarra sua cintura, puxando seus quadris para trás e para cima, ajustando o ângulo perfeito.
— Você ficou molhado no mercado, não ficou? — Ricardo pergunta, os dedos roçando a entrada de Marco, que está lubrificada e relaxada pelo uso constante. — Pensando naquela mulher? Pensando como ela nunca mais vai te ver como homem?
— Não... só pensei no senhor... — mente Marco, embora a verdade seja uma mistura confusa de ambos. — Só quero o senhor.
— Mentiroso — Ricardo dá um tapa forte na nádega de Marco, deixando uma marca vermelha na pele clara. — Mas não importa. Você está aqui. É meu.
Sem aviso, Ricardo empurra o pênis para dentro. É uma entrada bruta, seca apesar do lubrificante, forçando os músculos de Marco a cederem. Marco grita, a cabeça jogando para trás, as mãos agarrando o tapete. A dor é aguda, mas é seguida imediatamente por um prazer profundo, irradiante, que vem da próstata sendo esmagada contra a parede retal.
Ricardo não espera que ele se adapte. Ele começa a foder com fúria, puxando quase todo o caminho para fora e então cravando até os testículos. O som da pele batendo na pele é alto, obsceno, ecoando pelas paredes vazias do apartamento.
— Seu corpo é perfeito para isso — Ricardo grunhe, suando, o peso dele esmagando Marco contra o chão. — Foi feito para levar pau. Esses quadris largos... essa bunda gordinha... Deus te fez pra ser minha fêmea.
Marco perde a noção do tempo. O mundo se reduz à sensação de ser cheio, esticado, usado. Seu próprio pênis, trancado na gaiola, goteja um fluido claro e inútil no tapete, mas ele não sente necessidade de tocá-lo. O prazer não está lá. O prazer está na retidão de Ricardo, na forma como as mãos dele seguram os ombros de Marco com força suficiente para deixar hematomas, na forma como a respiração dele fica ofegante no ouvido de Marco.
— Quem é você? — Ricardo pergunta, dando um golpe profundo e mantendo-se lá, girando os quadris.
— Sou sua putinha! — Marco grita, a voz falhando. — Sou sua vaca... sua cadela... use-me, por favor, use-me!
— E quem é essa rola entre suas pernas?
— É inútil... é lixo... — Marco chora, as palavras libertando-o do último fio de orgulho. — Eu não preciso dela. Só preciso do senhor.
Ricardo solta uma risada de satisfação e retoma o ritmo, mais rápido agora, mais duro. A mesa de centro treme com o impacto dos joelhos de Marco no chão. O corpo de Marco é jogado para frente e para trás como uma marionete, ele é apenas um receptáculo para a vontade de Ricardo.
Quando Ricardo finalmente goza, ele faz isso dentro, profundamente, enchendo as entranhas de Marco com seu calor, marcando-o por dentro. Marco sente os espasmos do pênis de Ricardo, sente o jato quente bater suas paredes internas, e seu próprio corpo convulsiona em um orgasmo seco, violento, puramente anal. Ele grita, seu corpo se contorcendo, mas nenhuma semente sai de seu pênis morto. Apenas um gotejamento patético de fluido estéril.
Ricardo colapsa sobre as costas de Marco, ambos ofegantes, o suor misturando suas peles. Ficam assim por minutos, o peso de Ricardo ancorando Marco à realidade, impedindo-o de flutuar para longe.
Por fim, Ricardo se retira, com um som úmido e sujo. Ele se levanta e arruma a calça, parecendo calmo e recarregado, enquanto Marco permanece no chão, um emaranhado de membros trêmulos e fluidos.
— Limpe essa bagunça — Ricardo diz, olhando para a mancha no tapete. — E depois vá para o quarto. Prepare a seringa.
Marco se arrasta para cumprir a ordem. Ele pega um lenço de papel e limpa o tapete, limpando os vestígios de seu prazer inútil. Em seguida, caminha até o banheiro, as pernas bambas, o esperma de Ricardo escorrendo lentamente por suas coxas.
No banheiro, ele abre o armário. A bandeja de metal está lá, brilhando. Duas seringas. Agulhas grossas. O líquido amarelado dos hormônios.
Ele se senta na borda da banheira, a perna tremendo enquanto enche a seringa. Ele não tem mais medo da agulha. O medo foi substituído por uma necessidade obsessiva. Ele precisa daquilo. Precisa apagar mais um pouco de si mesmo. Precisa ficar mais macio, mais redondo, mais feminino para Ricardo.
Ele escolhe a nádega esquerda, dá um tapinha na pele para encontrar o local e empurra a agulha. O ferro entra na carne, um pinchado rápido. Ele empurra o êmbolo lentamente, sentindo o líquido frio se espalhar pelo músculo, tomando conta dele, reescrevendo seu código genético.
— É para você — ele sussurra para si mesmo, imaginando a voz de Ricardo. — É para ser uma boa garota.
Ele repete o processo na outra nádega. Ao terminar, ele se levanta e olha no espelho. O rosto que olha de volta não é o de Marco. É o de uma criatura andrógina, moldada pela dor e pelo desejo, uma tela em branco para as fantasias de outro homem. Ele toca as tatuagens que agora estão cicatrizadas, palpitando sob a pele.
Ele volta para o quarto. Ricardo está na cama, lendo um livro, as costas apoiadas na cabeceira. Ele não levanta os olhos quando Marco entra.
Marco sobe na cama, rastejando até os pés de Ricardo. Ele se deita ao lado do dono, a cabeça pousando na coxa de Ricardo, o rosto encostando na virila ainda vestida. Ele fecha os olhos, ouvindo o batimento cardíaco de Ricardo, sentindo o cheiro do homem que o destruiu e o recriou.
— Dorme — diz Ricardo, a mão descansando pesadamente na cabeça de Marco, como se fosse um animal de estimação.
Marco suspira, o corpo relaxando completamente. Não há mais lutas. Não há mais Clara. Não há mais gerente Marco. Há apenas o calor, o cheiro e a dor doce da submissão eterna. Ele é a putinha sedenta. Ele é a propriedade. E, finalmente, ele está em casa.