Quando Ninguém Está Perto

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2519 palavras
Data: 03/06/2026 23:01:53
Última revisão: 03/06/2026 23:07:24

Depois da noite na estrada dos eucaliptos, alguma coisa mudou, se não entre nós, pelo menos dentro de mim. Não melhorou, não piorou, mudou. Como uma casa antiga depois de uma rachadura no alicerce. De fora, tudo parece igual. As paredes continuam em pé, as portas ainda fecham, as janelas ainda abrem. Mas quem mora ali sabe, sabe que existe uma fissura, sabe exatamente onde ela está. E nunca mais deixa de vê-la.

Porque até então eu tinha conseguido sustentar uma ilusão confortável: a de que tudo aquilo era apenas desejo, um acidente hormonal, uma combinação infeliz de juventude, calor, proximidade e um rapaz bonito demais para o próprio bem. Mas agora eu conhecia a voz de Leandro quando ela tremia. Conhecia os silêncios dele, conhecia as coisas que ele não dizia, e isso tornava tudo muito mais perigoso.

Os dias continuaram, lentos, o verão parecia interminável. O galpão continuou, as planilhas continuaram, o calor continuou. As tardes transformavam o galpão numa fornalha. O cheiro de metal aquecido impregnava as roupas. Caminhões chegavam cobertos pela poeira vermelha das estradas rurais. O rádio insistia nas mesmas músicas sertanejas sobre traição, saudade e bebida.

Às vezes eu me perguntava se aquele lugar inteiro não era uma metáfora particularmente cruel. Homens tentando sobreviver ao calor, homens tentando sobreviver a si mesmos. Mas a vida tem uma característica muito específica: ela não interrompe a rotina para acomodar crises emocionais.

Na segunda-feira seguinte, às oito da manhã, Paulo continuava reclamando do Galo. Júlio continuava errando a grafia das palavras mais simples da língua portuguesa. Sandra continuava tentando administrar uma empresa inteira à base de café e ameaças. E eu continuava atraído por alguém que provavelmente não saberia definir a palavra apaixonado sem consultar um dicionário.

Leandro continuava igual, ou pelo menos fingia continuar. Brincava, provocava, xingava o rádio, reclamava dos clientes, fingia que nada estava acontecendo. Mas eu começava a perceber as pequenas rachaduras. Ele aparecia no escritório sem motivo, se sentava na cadeira em frente à minha mesa, ficava mexendo em alguma peça qualquer enquanto eu trabalhava.

— Você gosta mesmo disso?

— Do quê?

— Papel.

Olhei para a pilha de documentos.

— É um conceito amplo de diversão.

— Eu preferia morrer.

— Eu acredito.

Leandro sorriu, depois ficou me observando, silenciosamente. Tempo demais.

— O quê? — perguntei.

— Nada.

— Você sempre fala nada quando é alguma coisa.

— E você sempre insiste.

Aquela conversa não levava a lugar nenhum e, estranhamente, eu gostava disso. A verdade é que eu estava começando a compreender qual era o verdadeiro obstáculo entre nós. Não era o desejo, o desejo funcionava perfeitamente. Também não era a atração, essa parte chegava a ser constrangedoramente fácil. O problema era mais profundo, mais silencioso. Eu queria ser escolhido, Leandro queria sobreviver. E essas duas coisas nem sempre cabiam na mesma história.

O maior problema de Leandro não era o medo, era o hábito. Ele havia passado a vida inteira aprendendo a ser um determinado tipo de homem. Os gestos, as roupas, as conversas, as piadas, as namoradas, o futebol, o jeito de se sentar, o jeito de andar. Tudo nele parecia ter sido treinado para caber dentro de uma moldura invisível.

E eu estava começando a entender que, para algumas pessoas, abandonar uma máscara não é libertador, é aterrorizante. Porque depois de muitos anos ninguém sabe exatamente onde termina a máscara e começa o rosto.

Numa terça-feira particularmente quente, Sandra me pediu para organizar arquivos antigos num depósito nos fundos do escritório. Era um trabalho tedioso. Caixas, poeira, contratos, notas fiscais de anos atrás. O tipo de tarefa capaz de fazer alguém questionar a própria existência. Por volta das três da tarde, ouvi passos conhecidos entrando na sala. Leandro. Sem bater. Como sempre.

— Achei você.

— Parabéns.

— Tá fazendo o quê?

— Descobrindo que a empresa existe desde a invenção da roda.

Ele riu, encostou na porta, observando. Era uma coisa curiosa sobre Leandro, ele gostava de observar. As pessoas achavam que ele era impulsivo porque falava pouco e agia rápido, mas não. Leandro prestava atenção em tudo, principalmente nas pessoas.

— Você parece infeliz.

— Estou catalogando notas fiscais de 2004.

— Justo.

Silêncio. Depois:

— Quer fugir?

Levantei os olhos.

— Fugir?

— Tomar um refrigerante.

— Isso não é fugir.

— Pra mim é.

Sorri e, pela primeira vez naquela semana, senti a tensão no peito diminuir um pouco. A lanchonete ficava duas quadras da empresa. Uma dessas lanchonetes de cidade pequena que vendem de tudo. Pastel, sorvete, hambúrguer, peça de moto. Talvez até serviços bancários.

O ventilador girava preguiçosamente no teto. Uma televisão exibia um programa de auditório sem som. O cheiro de óleo de fritura impregnava as paredes. Nos sentamos no fundo, longe da janela, instintivamente. Nenhum dos dois comentou isso, o que talvez fosse pior.

— Você vai prestar vestibular esse ano? — Leandro perguntou.

A pergunta me surpreendeu.

— Vou.

— Pra quê?

— Direito.

Ele assobiou baixo.

— Chique.

— Nem um pouco.

— Pra mim parece.

Mexeu no copo de refrigerante, pensativo.

— Você vai embora daqui.

Não era uma pergunta, era uma constatação. Olhei para ele.

— Talvez.

— Vai sim.

O jeito como falou aquilo me incomodou, como se estivesse descrevendo o clima, como se fosse inevitável.

— E você?

Leandro deu de ombros.

— Eu trabalho.

— Isso não responde nada.

— Responde bastante.

Ali estava outra diferença entre nós. Eu vivia olhando para frente, Leandro vivia olhando para o chão que pisaria amanhã. Quando voltamos para a empresa, o incidente aconteceu. Pequeno, quase banal, mas suficiente para mudar o rumo das coisas.

Um dos fornecedores estava conversando com Sandra perto da entrada. Homem de cinquenta e tantos anos, barriga generosa, camisa aberta demais, bigode de autoridade duvidosa. Ele me cumprimentou, cumprimentou Leandro, e então sorriu. Aquele sorriso, aquele tipo específico de sorriso que homens usam quando acreditam ter entendido alguma coisa.

— Vocês dois andam juntos pra todo lado, hein?

Nada demais. Uma frase comum, uma brincadeira qualquer. Mas eu vi, vi imediatamente. A mudança no rosto de Leandro, o endurecimento, o sorriso desaparecendo, os ombros ficando tensos. A mesma reação do carro naquela noite. Medo, instantâneo, primitivo.

O fornecedor nem percebeu. Continuou falando, continuou rindo, mas eu percebi. E, pela primeira vez, senti raiva. Não dele, mas de toda a situação. Porque bastava uma frase, um olhar, uma suspeita. E Leandro voltava a ser um homem acuado.

Naquela noite, não nos encontramos. Nem na seguinte, nem na outra. O silêncio começou a crescer. Devagar, como mato. E eu conhecia aquele tipo de silêncio. Era o silêncio das pessoas que estão tentando decidir se algo vale o risco, ou se é melhor abandonar antes que fique impossível voltar atrás.

O outro incidente aconteceu na sexta-feira, pouco antes do fim do expediente. Uma sexta banal. As mais perigosas. Sandra havia saído para resolver alguma questão no banco. Eu estava sozinho no escritório organizando planilhas. Lá embaixo, o galpão funcionava normalmente. Marteladas, motores, risos. A rotina de sempre.

Até que ouvi vozes na escada. Duas. Uma delas era de Leandro. A outra, feminina, desconhecida. Levantei os olhos automaticamente e a vi. Ela devia ter uns dezoito anos. Bonita, muito bonita. Cabelo escuro preso num rabo de cavalo, jeans justo, camiseta branca. Naturalmente confortável naquele ambiente, como alguém que já conhecia o lugar.

— A Sandra tá aí? — perguntou ela.

Antes que eu pudesse responder, ele apareceu atrás dela. E algo aconteceu, algo mínimo, mas devastador. O rosto dele mudou, não para melhor, não para pior, só mudou. O sorriso que ele me dava não era aquele. A postura não era aquela. A voz não era aquela. Ali estava outra versão de Leandro, uma que eu nunca tinha visto. Uma versão pública, social, aceitável.

— Mateus, essa é a Taís.

Ele falou o nome com naturalidade, como se eu devesse saber quem era. E talvez devesse, afinal, ela era sobrinha da dona da firma. Mas bastou o jeito que ela tocou o braço dele para eu entender. Namorada. Ou algo muito próximo disso. Meu estômago afundou imediatamente.

A conversa continuou, normal, civilizada, mas eu praticamente não ouvi nada. Taís comentava alguma coisa sobre faculdade. Leandro fazia piadas. Ela ria. E eu observava. Como um antropólogo estudando uma espécie rara. Porque aquilo explicava muitas coisas, talvez todas. Leandro não estava apenas escondendo algo, ele estava construindo uma vida inteira. Uma narrativa, uma versão de si mesmo, e eu não sabia onde me encaixava nela. Ou se me encaixava.

Depois que ela foi embora, o escritório ficou silencioso. Leandro permaneceu parado perto da porta, as mãos nos bolsos, o olhar evitando o meu. Pela primeira vez desde que o conheci, quem falou primeiro fui eu.

— Sua namorada?

Leandro demorou alguns segundos.

— Não exatamente.

— Resposta interessante.

— A gente já ficou.

— Já ficou.

Ele suspirou.

— Mateus...

— Não precisa explicar.

Mas precisava. Nós dois sabíamos. O problema é que eu não tinha certeza se queria ouvir. Lá fora, o sol da tarde começava a descer lentamente sobre os telhados da cidade. O calor diminuía, os sons do galpão pareciam mais distantes e, pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, eu tive a sensação incômoda de que o verdadeiro conflito entre nós não era o desejo, nem o medo, nem a cidade. Era algo muito mais difícil.

Eu queria descobrir quem Leandro era, mas talvez o próprio Leandro ainda não soubesse. E ninguém consegue amar uma pessoa antes que ela encontre a si mesma. Quando ele finalmente levantou os olhos para mim, havia algo diferente ali. Não culpa, não vergonha. Preocupação. Como se soubesse que alguma coisa importante acabara de se romper, ou de começar.

— A gente precisa conversar — ele disse – Mas não aqui.

E, pela primeira vez, eu não tinha certeza se queria aquela conversa.

_________

A conversa que Leandro disse que precisava ter nunca aconteceu. Ou melhor: aconteceu do jeito dele. Em pedaços, em frases interrompidas, em silêncios longos dentro do carro, em diálogos pela metade. Leandro parecia incapaz de sustentar qualquer assunto que chegasse perto demais do que existia entre nós. Era como se ele aceitasse o desejo, mas não suportasse a ideia de colocá-lo em palavras. E eu começava a entender que havia homens que sabiam transar antes mesmo de aprender a conversar sobre o próprio coração.

Taís voltou outras vezes. Sempre sorridente, sempre confortável. Ela entrava no galpão trazendo cheiro de perfume doce e protetor solar barato, como alguém que já conhecia a rotina dali havia muito tempo.

Leandro mudava perto dela, não completamente, mas o suficiente. Ficava mais alto, mais performático, mais homem no sentido esperado da palavra. Encostava nas coisas com descuido calculado, falava mais grosso, fazia piadas idiotas com os outros funcionários. E o pior: ele era bom naquele personagem. Dolorosamente bom. Uma quarta-feira, ela apareceu no fim do expediente com duas garrafas de Coca-Cola geladas e uma sacola de salgados.

— Trouxe comida porque vocês vivem nesse lugar insalubre — anunciou.

— Escutou, Paulo? — Leandro gritou do galpão — Agora temos fiscalização sanitária.

Ela riu. E eu odiei perceber como eles pareciam naturais juntos. Não apaixonados, mas possíveis, e talvez fosse ainda pior.

— Você tá estranho comigo.

A voz de Leandro surgiu ao meu lado no depósito no final daquela tarde. Já passava das seis. Quase todo mundo tinha ido embora. Restava só o barulho distante de uma lixadeira funcionando em algum canto. Eu continuava conferindo notas fiscais sem olhar pra ele.

— Tô trabalhando.

— Tá me evitando.

— Você é muito emocionado pra um cara que não gosta de conversar sobre sentimentos.

Leandro soltou uma risada curta pelo nariz, depois encostou numa pilha de caixas. Braços cruzados, me observando.

— Você não gostou da Taís.

— Não é isso.

— É sim.

Finalmente levantei os olhos.

— E você queria o quê? Que eu virasse amigo dela?

— Ela não é minha namorada.

— Ainda assim você muda perto dela.

Aquilo acertou, eu vi imediatamente. Leandro desviou o olhar por um segundo, depois coçou a nuca, desconfortável.

— Você fica analisando tudo.

— Alguém precisa analisar, já que você vive no piloto automático.

Ele riu, mas sem humor.

— Eu trabalho desde os quatorze anos, Mateus. Não sobra muito tempo pra essas crises existenciais bonitas que você gosta de ter.

A frase veio afiada, mais afiada do que ele provavelmente pretendia. E o pior é que havia verdade nela. Nós éramos diferentes de um jeito estrutural. Eu podia me perder em pensamentos porque minha vida inteira havia sido construída para isso. Estudar, refletir, imaginar o futuro. Eu trabalhava naquele lugar porque a minha mãe achava que aquilo seria bom para formar o meu caráter, não para ajudar no sustento da casa, era diferente.

Já Leandro sobrevivia. Mesmo tão jovem, o mundo dele era concreto. Dinheiro, turno, cansaço, gasolina, contas. Presente imediato. Talvez por isso ele habitasse tão bem o próprio corpo. Pensar demais era um luxo para quem precisava continuar andando.

— Ela gosta de você — falei.

Leandro ficou quieto.

— Talvez.

— E você?

Silêncio, longo, incômodo. Então ele deu de ombros.

— Taís faz sentido.

Meu peito apertou de um jeito ridículo, porque eu entendi exatamente o que ele queria dizer. Taís fazia sentido, eu não. Ela cabia na vida dele, eu acontecia nas bordas dela.

Lá fora começou a chover, pesado. As gotas batendo nas telhas metálicas do galpão produziam um som quase hipnótico. O depósito inteiro ficou mergulhado numa penumbra azulada de fim de noite. Leandro me observava em silêncio agora, como se tentasse decidir alguma coisa.

— Você acha que eu sou covarde.

Não era pergunta.

— Acho que você tem medo.

— Dá no mesmo.

— Não dá.

Ele aproximou um passo. Só um, mas meu corpo inteiro percebeu.

— E você? — perguntou baixo — Tem medo de quê?

Sorri sem vontade.

— De virar segredo na vida de alguém.

A resposta ficou suspensa entre nós. Crua demais, honesta demais. Leandro passou a língua lentamente pelos dentes, nervoso, um gesto que ele sempre fazia quando estava sem resposta. Depois veio mais perto, devagar, sem pressa. A chuva engrossando do lado de fora. O cheiro de óleo, metal e terra molhada invadindo o depósito.

— Você fala umas coisas… — murmurou.

— Verdadeiras?

Ele me encarou com intensidade, daquelas perigosas.

— Difíceis.

O espaço entre nós já era mínimo agora. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele. A tensão, a hesitação, tudo. E talvez o mais enlouquecedor em Leandro fosse isso: ele parecia sempre dividido entre fugir de mim ou me beijar.

— Então facilita — falei baixo.

Os olhos dele desceram para minha boca. Voltaram.

— Você não faz ideia do efeito que tem em mim quando começa a falar assim.

Meu coração tropeçou feio dentro do peito. Porque aquela frase não vinha do Leandro debochado do galpão, nem do cara performático perto da Taís. Vinha do outro, do homem cansado de sustentar personagem o tempo inteiro, o homem que só aparecia quando ninguém estava olhando.

Ele segurou minha cintura devagar, como se ainda estivesse decidindo se podia, ou se devia. Então um barulho explodiu no galpão, a porta metálica principal abrindo. Nós dois nos afastamos imediatamente, automáticos, violentos quase. Paulo entrou encharcado pela chuva.

— Vocês ainda tão aqui?

Leandro pegou uma caixa qualquer no impulso.

— Tava ajudando o aprendiz a não falir a empresa.

Paulo riu, nem desconfiou, mas minhas mãos ainda tremiam. Porque, por um segundo, eu tinha esquecido do mundo lá fora. E esse começava a ser o verdadeiro perigo entre nós.

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