Meu nome é Gustavo. Tenho vinte anos, curso Odontologia e trabalho em uma clínica durante o dia para ajudar a pagar a faculdade. Minha vida sempre foi simples: trabalho, faculdade e casa.
Sempre ouvi comentários sobre minha aparência, embora nunca tivesse dado muita importância a isso. Minha pele era muito clara, os cabelos pretos contrastavam com os olhos azuis e, graças aos anos em que pratiquei esportes, meu corpo era bem definido, sem exageros. Nunca fui vaidoso, mas gostava de me cuidar.
Depois de meses vivendo apenas entre livros, provas e pacientes, percebi que precisava mudar alguma coisa.
Queria voltar a treinar.
Não apenas pelo corpo.
Precisava aliviar a mente.
Foi assim que, numa segunda-feira à noite, entrei pela primeira vez na Academia Evolution.
Assim que atravessei a porta de vidro, fui recebido pelo som das anilhas, pelo cheiro característico de borracha dos aparelhos e pela música alta que preenchia todo o ambiente.
Olhei ao redor.
A academia estava cheia.
Pessoas treinavam intensamente enquanto outras conversavam perto dos aparelhos.
Respirei fundo.
— É… acho que estou precisando mesmo disso.
Caminhei até a recepção.
— Boa noite. Gostaria de fazer uma matrícula.
A atendente sorriu.
— Claro. É sua primeira vez aqui?
— É, sim.
Enquanto preenchia a ficha de cadastro, observava discretamente as pessoas ao redor.
Foi quando ouvi uma voz firme atrás de mim.
— Boa noite.
Levantei a cabeça.
À minha frente estava um homem que chamava atenção sem precisar fazer esforço.
Era alto, de ombros largos, peito forte e cintura estreita. O corpo atlético deixava claro que treinava havia muitos anos, mas sem exageros.
Vestia uma camiseta preta justa com o logotipo da academia, que parecia ter sido feita sob medida para ele.
Os cabelos castanho-escuros estavam levemente bagunçados. A barba curta valorizava o maxilar e os olhos castanhos tinham uma intensidade difícil de ignorar.
Mas o que mais chamava atenção não era sua aparência.
Era sua presença.
Rafael caminhava com tranquilidade, mantinha a postura ereta e falava com uma voz firme, calma e segura.
Era naturalmente simpático.
O tipo de pessoa que fazia qualquer ambiente parecer mais leve.
Enquanto ele se aproximava, percebi algumas mulheres olhando discretamente em sua direção.
Uma delas interrompeu o próprio treino apenas para cumprimentá-lo.
Outra sorriu quando ele passou.
Uma terceira fez uma pergunta sobre um exercício que claramente já sabia executar.
Rafael respondia a todas com educação, mas sem dar qualquer abertura para interpretações.
Parecia completamente acostumado àquela atenção.
Então seus olhos encontraram os meus.
Por um instante, tive a impressão de que todo o restante da academia desapareceu.
Ele sorriu.
Não era um sorriso forçado.
Era tranquilo.
Sincero.
Estendeu a mão.
— Sou Rafael. Um dos instrutores. Seja bem-vindo.
Apertei sua mão.
O aperto era firme.
Confiante.
Por um segundo a mais do que seria considerado normal, nossas mãos permaneceram unidas.
Foi ele quem soltou primeiro.
— Gustavo.
Ele repetiu meu nome como se tentasse gravá-lo na memória.
— Faz tempo que não treino.
— Então vamos começar devagar. O importante é criar o hábito.
Enquanto caminhávamos pela academia, Rafael me explicava como funcionavam os aparelhos.
Mas, por dentro, outra coisa acontecia.
⸻
Rafael.
Nunca havia perdido a concentração por causa de um aluno.
Recebia gente nova praticamente todos os dias.
Mas havia alguma coisa naquele rapaz.
Os olhos azuis.
Os cabelos negros.
A pele muito clara.
O jeito educado.
O sorriso discreto.
Era bonito.
Bonito de um jeito que chamava atenção imediatamente.
“Controle-se”, pensou.
“É só mais um aluno.”
Precisava agir como sempre fazia.
Mesmo assim, seus olhos insistiam em procurar Gustavo sempre que tinham oportunidade.
⸻
— Primeiro vamos para a esteira.
— Certo.
Durante dez minutos caminhei observando o movimento da academia.
Em vários momentos percebia Rafael orientando outros alunos.
Corrigia a postura de um.
Ajudava outro a terminar uma série.
Brincava com alguns alunos mais antigos.
Era impossível não notar o carinho que as pessoas tinham por ele.
Em determinado momento, uma mulher muito bonita aproximou-se.
Ela sorriu, segurou levemente o braço de Rafael enquanto conversava e riu de alguma coisa que ele disse.
Sem perceber, acompanhei aquela cena por alguns segundos.
Então desviei o olhar.
“O que você está fazendo, Gustavo?”
Balancei a cabeça.
Era apenas um instrutor.
Nada além disso.
Quando terminei o aquecimento, Rafael voltou.
— Preparado?
Sorri.
— Acho que sim.
Durante quase uma hora ele acompanhou todo o meu treino.
Corrigia minha postura.
Explicava cada exercício com calma.
Incentivava quando eu achava que não conseguiria terminar uma série.
Nunca me senti tratado como apenas mais um aluno.
Ao final do treino, entregou-me uma garrafa de água.
— Primeiro dia vencido.
Sorri.
— Obrigado pela paciência.
— Amanhã tem mais.
Despedi-me e caminhei até o estacionamento.
Antes de entrar no carro, olhei por impulso para a entrada da academia.
Rafael conversava com alguns alunos.
Como se tivesse sentido minha presença, levantou a cabeça.
Nossos olhares se encontraram.
Desta vez, nenhum dos dois desviou imediatamente.
Foram apenas alguns segundos.
Mas, por algum motivo, pareceram muito mais longos.
Entrei no carro tentando entender por que aquele homem havia despertado tanta curiosidade dentro de mim.
Enquanto dirigia para casa, uma única pergunta insistia em ocupar meus pensamentos.
Por que eu continuava pensando em alguém que acabara de conhecer?