Foi numa terça-feira à tarde. Beraldo tinha saído para uma visita pastoral em outra cidade. Daniel estava em casa, no quarto, jogando no computador com fones de ouvido. Natália e Sara estavam na sala.
O clima entre elas nos últimos dias era elétrico. Cada toque durava um segundo a mais. Cada olhar carregava uma promessa. As brincadeiras tinham se tornado mais raras — como se ambas soubessem que o próximo passo não podia ser disfarçado de humor.
Sara estava sentada no sofá. Natália, em pé, arrumava almofadas.
— Senta um pouco — Sara pediu. — Você não para nunca.
— Tem que arrumar a casa.
— A casa está arrumada. Senta.
Natália suspirou. Sentou-se ao lado de Sara. Não tão perto quanto queria. Não tão longe quanto deveria.
— Assim — Sara disse, puxando Natália pelo braço. — Mais perto.
Natália deixou. Seus ombros se tocaram. As coxas também.
O calor do corpo de Sara atravessava o tecido fino do vestido. Natália sentiu cada centímetro de contato.
— Você está nervosa — Sara observou.
— Não estou.
— Está. Seu coração está acelerado.
— Você não pode saber sobre meu coração.
Sara colocou a mão no peito de Natália. Bem no meio, onde as batidas eram mais fortes.
— Posso sentir — disse.
Natália prendeu a respiração. A mão de Sara pesava leve sobre seu peito. Através da blusa, através do sutiã, Natália sentia a palma quente.
— Sara… — murmurou.
— O quê?
— Tire a mão.
— Você quer que eu tire?
Natália olhou nos olhos de Sara. Estavam escuros, profundos, cheios de uma coisa que Natália já não conseguia mais chamar de outra coisa senão desejo.
— Não — confessou.
Sara sorriu. Não removeu a mão. Ao contrário, deslizou os dedos lentamente, subindo em direção ao pescoço de Natália.
Natália fechou os olhos. A cabeça caiu levemente para trás, apoiada no sofá. Sentiu os dedos de Sara percorrerem sua clavícula, a base do pescoço, a curva da mandíbula.
— Você é tão bonita — Sara sussurrou.
Natália abriu os olhos. O rosto de Sara estava muito próximo. Ela podia ver os olhos, a boca, a pele macia.
— Não diga isso — pediu.
— Por quê? É verdade.
Sara aproximou o rosto. Natália viu os lábios de Sara vindo em sua direção. Devagar. Dando tempo para ela recuar, desviar, dizer não.
Natália não recuou. Não desviou. Não disse não.
A boca de Sara estava a um centímetro da sua.
Foi quando ouviram.
O barulho do quarto de Daniel abrindo. O barulho de passos no corredor.
Natália e Sara se afastaram como se tivessem levado um choque. Natália pegou a revista que estava no sofá e abriu em uma página qualquer. Sara cruzou as pernas e olhou para a televisão, que estava ligada no mudo.
Daniel entrou na sala. Olhou para as duas.
— Mãe, cadê o carregador do meu notebook?
— No armário do corredor — Natália respondeu, a voz estranhamente alta.Segunda gaveta.
Daniel foi até o armário. Encontrou o carregador. Voltou pela sala.
— Tudo bem com vocês? — perguntou, franzindo a testa. — Vocês estão estranhas.
— Estamos vendo televisão — Sara disse, com um sorriso que Natália achou convincente demais.
Daniel deu de ombros. Voltou para o quarto. A porta fechou.
O silêncio que ficou foi ensurdecedor.
Natália largou a revista. As mãos tremiam.
— Por pouco — ela sussurrou.
— Por muito pouco — Sara concordou. A voz dela também tremia.
As duas ficaram imóveis, ouvindo os passos de Daniel do outro lado do corredor. A música baixa do computador dele. A porta trancada.
— Ele não pode saber — Natália disse. — Nunca.
— Eu sei.
— Se ele descobre…
— Eu sei, Natália.
Natália colocou a mão no rosto. Estava ardendo.
— O que a gente está fazendo? — perguntou, mais para si mesma do que para Sara.
— A gente está se aproximando de algo — Sara respondeu. — E isso é perigoso.
— Perigoso? Isso é loucura. Eu sou casada. Com o pai dele. Ele é meu filho.
— Você está dizendo isso como se eu não soubesse.
— Então por que a gente não para?
Sara não respondeu imediatamente. Olhou para as próprias mãos.
— Porque eu não consigo — disse, finalmente. — Você consegue?
Natália pensou. Pensou em Beraldo. Pensou em Daniel. Pensou na igreja, na comunidade, no exemplo de conduta moral que todos esperavam dela.
Pensou na boca de Sara a um centímetro da sua.
— Não — respondeu. — Também não consigo.
O sol entrava pela janela da sala. Lá fora, uma criança brincava na rua. A vida normal continuava. Mas dentro da sala, as duas mulheres sabiam que tinham atravessado uma linha invisível.
— A gente tem que ter mais cuidado — Natália disse.
— Muito mais cuidado.
— Não pode mais acontecer de quase sermos pegas.
— Não vai — Sara prometeu. Mas seus olhos diziam outra coisa.
Natália levantou do sofá.
— Vou fazer um café.
— Vou com você.
Foram para a cozinha. Enquanto a água esquentava, ficaram em silêncio. Uma de cada lado do balcão.
O risco que haviam corrido ainda ecoava dentro delas. Daniel poderia ter entrado um minuto antes. Teria visto os lábios quase se tocando. Teria visto a mão de Sara no peito da mãe.
O que ele faria? Contaria para Beraldo? Sairia de casa? Nunca mais olharia na cara de nenhuma das duas?
Natália serviu o café. A xícara tremia na mão.
— Está com medo? — Sara perguntou.
— Muito.
— Eu também.
E esse medo compartilhado, paradoxalmente, as aproximava ainda mais. Como se o perigo tivesse um gosto doce.
Tomaram o café em silêncio. Cada uma perdida em seus próprios pensamentos. Cada uma ciente de que o beijo que não aconteceu ainda ia acontecer.
A única questão era quando. E se sobreviveriam às consequências.
Naquela noite, Sara não conseguiu dormir.
Deitada na cama da edícula, olhava para o teto de madeira. As telhas que Beraldo tinha consertado. O cheiro de mofo que nunca ia embora. O silêncio do quintal.
O rosto de Daniel vinha à sua mente. Não o Daniel que ria de vídeos bobos ou comia cereal direto da caixa. O Daniel que confiava nela. O Daniel que a apresentou aos pais como "a mulher que eu amo". O Daniel que disse "a gente continua" depois que ela contou sobre Verônica.
Ele era bom. Inocente. Fiel.
Ela estava prestes a traí-lo. Não apenas com qualquer pessoa. Com a própria mãe dele.
O rosto de Natália veio em seguida. Os olhos castanhos. Os cabelos presos no mesmo grampo de sempre. A boca que quase beijara horas antes. O medo no olhar quando Daniel apareceu.
Sara sentou-se na cama. Abraçou os joelhos.
— O que eu estou fazendo? — sussurrou para o escuro.
Ela pensou no que dissera a Natália: "Eu não consigo parar." Era verdade. Mas isso a tornava uma pessoa horrível?
Ela veio para essa igreja para recomeçar. Para deixar Verônica para trás. Para ser uma mulher nova. Uma mulher de Deus.
E agora?
Agora estava repetindo os mesmos padrões. Se envolvendo de forma escondida. Mentindo. Desejando o que não podia ter.
Verônica era mais velha. Natália também. Verônica não era casada,mas havia saído de um relacionamento com um homem quando se envolveram e ele soube. Natália era casada há anos. Verônica a manipulava. Natália… Natália era diferente. Natália era boa. Mas ainda assim, o cenário era perigosamente parecido.
Sara levantou da cama. Acendeu a luz. Olhou para a Bíblia em cima da mesa. Não abriu.
Não queria ouvir o que Deus tinha a dizer. Já sabia. Condenação. Arrependimento. "Afasta-te do mal."
O problema é que ela não queria se afastar.
Mas também não queria destruir Daniel. Não queria destruir Natália. Não queria destruir a família que a acolheu quando ela não tinha nada.
— Existe um jeito — disse em voz alta — de querer duas coisas ao mesmo tempo?
A resposta era não.
Ela passou o resto da noite em claro. Pensou em cada detalhe. Cada toque. Cada olhar. O cheiro de Natália. A voz de Natália dizendo "Sara, para com isso". A mão de Natália no ombro dela.
No amanhecer, a decisão estava tomada.
Não seria fácil. Não seria limpa. Mas seria a única coisa certa a fazer.
Ela tomou banho. Vestiu-se. Esperou o café.
Quando Natália apareceu na cozinha, Sara já estava lá, sentada à mesa.
— Bom dia — Natália disse, indo para o fogão.
— Bom dia.
Natália preparou o café. Enquanto a água esquentava, sentiu que algo estava diferente. O silêncio de Sara não era o mesmo de sempre. Era mais pesado.
— Você dormiu bem? — perguntou Natália.
— Não.
Natália virou-se. Viu o rosto de Sara. Estava pálido. Os olhos marejados.
— O que aconteceu?
Sara respirou fundo.
— Eu decidi terminar com Daniel.
Natália soltou a colher que estava segurando. Ela caiu no chão com um barulho metálico.
— O quê?
— Eu vou terminar com Daniel. E vou sair da edícula.
Natália ficou parada, olhando para Sara. O coração parecia ter parado.
— Por quê? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
Sara levantou os olhos. As lágrimas que estavam nos cantos desceram.
— Porque eu não posso mais fingir. Porque eu acordo pensando em você e durmo pensando em você. Porque eu quase beijei a mãe do meu namorado na sala enquanto ele estava no quarto. Porque isso não é certo. Porque isso vai destruir todo mundo.
Natália aproximou-se da mesa. Sentou-se na cadeira em frente a Sara.
— Você não precisa ir embora — disse, baixo.
— Preciso. Se eu ficar, uma hora a gente não vai conseguir parar. E aí vai ser pior. Muito pior.
Natália queria dizer que Sara estava errada. Queria dizer que elas poderiam controlar. Que não precisavam terminar nada. Que podiam simplesmente… continuar. Do jeito que estava. Os olhares. As brincadeiras. O quase-beijo.
Mas sabia que era mentira.
Não dava para continuar. O desejo só crescia. A cada dia, a cada toque, a cada palavra. Era uma montanha-russa sem freios.
— O que você vai dizer para ele? — perguntou Natália.
— Vou dizer a verdade. Não toda. Mas parte. Dizer que não estou pronta para um namoro. Que preciso me encontrar sozinha. Que preciso de espaço pra pensar melhor.
— Ele vai sofrer.
— Eu sei. — Sara enxugou as lágrimas com as costas da mão. — Mas vai sofrer menos do que se descobrisse a verdade inteira.
Natália ficou em silêncio. As mãos sobre a mesa. Perto das mãos de Sara. Não tão perto quanto queriam.
— E você? — Sara perguntou. — Como você vai ficar?
Natália demorou para responder.
— Do mesmo jeito que sempre fiquei — disse. — Seguindo em frente.
Era mentira. Sara sabia. Natália também sabia.
Daniel apareceu na cozinha, ainda com sono, o cabelo bagunçado.
— Bom dia — disse, bocejando. — Que horas é o almoço?
— Uma hora — respondeu Natália, com a voz que conseguiu manter firme.
Daniel pegou um pão. Saiu para a sala.
Sara e Natália ficaram em silêncio. O café esfriou nas xícaras.
Mais tarde, Sara pediu para conversar com Daniel. Foram para o quintal. Natália ficou na cozinha, lavando a louça do café, mas não ouvia nada além do próprio coração.
Quando voltaram, o rosto de Daniel estava vermelho. Os olhos brilhando.
Ele não olhou para Natália. Foi direto para o quarto e fechou a porta.
Sara entrou na cozinha. Seu rosto também estava molhado.
— Ele está muito magoado — disse.
— Eu imaginei.
— Vou começar a arrumar minhas coisas.
Sara foi para a edícula. Natália ficou na cozinha, olhando para a xícara de café frio.
O que ela sentia não era alívio. Não era tristeza. Era um vazio enorme no peito.
Ela percebeu, naquele momento, que já estava apaixonada por Sara.
E que Sara ia embora.
Sara ficou mais três dias na edícula, arrumando as malas, guardando as poucas coisas que trouxera. Era pouco. Duas malas e uma caixa de sapatos. Cabia tudo no bagageiro de um carro pequeno.
No último dia, ela pediu para se despedir da família.
Foi à tarde. Beraldo estava na sala. Daniel estava no quarto, de porta fechada, desde o dia do término. Natália estava na cozinha, lavando louça que já estava limpa.
Sara entrou na sala primeiro. Beraldo levantou-se ao vê-la.
— Então é verdade que você vai embora? — perguntou.
— É, senhor Beraldo. Preciso seguir meu caminho.
Beraldo a olhou com seus olhos de pastor. Não havia julgamento. Havia apenas tristeza.
— Você sempre terá um lugar aqui, Sara. A porta da nossa casa está aberta para você.
— Obrigada. O senhor e dona Natália foram anjos na minha vida.
Ela se aproximou. Deu um abraço em Beraldo. Ele apertou seus ombros com as mãos grandes.
— Que Deus te abençoe, menina.
— Amém.
Depois, Sara bateu na porta do quarto de Daniel.
— Pode entrar — a voz dele saiu abafada.
Ela entrou. Fechou a porta atrás de si.
Natália, na cozinha, ouviu o som da porta fechando. Parou de lavar a louça. Ficou imóvel, ouvindo. Mas não dava para entender as palavras. Apenas o som grave da voz de Daniel, o som mais agudo da voz de Sara, às vezes pausas longas.
Uns dez minutos depois, a porta abriu. Sara saiu. Daniel não apareceu.
Sara foi para a cozinha.
Natália estava de costas, fingindo que arrumava os potes de tempero.
— Dona Natália — Sara disse.
Natália demorou para se virar.
— Você vai mesmo?
— Vou.
Os olhos de Sara estavam vermelhos. Natália sabia que os seus também deviam estar, mas vinha se segurando havia dias. Apertava as pálpebras com força quando sentia a lágrima querer cair. Mordia o lábio. Respirava fundo.
— Para onde? — perguntou Natália.
— Tenho uma prima no outro lado da cidade. Ela vai me receber por uns meses. Depois eu vejo.
Natália assentiu. Não sabia o que dizer. Havia tanta coisa que queria dizer, mas nenhuma palavra saía.
Sara deu um passo à frente.
— Eu queria — começou, mas parou.
— O quê?
— Eu queria te agradecer. Por tudo. Por ter me acolhido. Por ter me ouvido. Por não ter me julgado.
— Não precisa agradecer.
— Preciso, sim.
Sara se aproximou mais. Estendeu a mão. Tocou o rosto de Natália. A palma quente contra a bochecha.
— Cuide de você — disse, em voz baixa. — A senhora cuida de todo mundo, mas não cuida de você.
Natália sentiu a lágrima que vinha segurando há dias finalmente escorrer.
— Vai com Deus — conseguiu dizer.
Sara tirou a mão. Pegou as malas que estavam no corredor. Beraldo apareceu para ajudar. Levou as malas até o carro de uma irmã da igreja que tinha se oferecido para dar carona.
Sara entrou no carro. Acenou para Beraldo, na porta. Acenou para Natália, que estava na janela da cozinha.
O carro partiu.
Natália ficou na janela até o carro desaparecer no fim da rua.
Depois foi para o quarto. Fechou a porta. Sentou na cama.
O choro que ela segurara por dias veio como um rio que rompe a barragem.
Não foram lágrimas bonitas, silenciosas. Foram soluços feios, barulhentos, que sacudiam o corpo inteiro. Ela se deitou de lado, abraçou o travesseiro, e chorou.
— Sara — sussurrou entre os soluços. — Sara, Sara, Sara.
O nome saía como uma prece. Como um lamento. Como uma confissão.