O nome de Leandro apareceu duas vezes.
A primeira, num pagamento antigo, de quatro meses antes, quando ainda dava para fingir que era resquício de uma época em que ele organizava parte da pelada.
A segunda, não.
A segunda era recente.
Muito recente.
Duas semanas antes.
André ficou olhando para a tela do celular com a mesma sensação de quem encontra uma digital no vidro depois de jurarem que ninguém entrou. O comprovante estava ali, simples, frio, ridículo de tão objetivo.
Valor: R$ 180,00.
Descrição: ajuste quadra.
Destinatário: Leandro Martins.
Rafael estava sentado na beira da cama, ainda com o cabelo úmido do banho, o corpo parcialmente coberto pelo lençol, a luz da manhã atravessando a cortina e batendo no peito dele. A noite anterior ainda existia na pele dos dois, mas o celular tinha trazido a quadra para dentro do quarto.
André passou o aparelho para Rafael.
Rafael leu.
A mandíbula endureceu.
— Esse é o valor que estava faltando — André disse.
Rafael não respondeu.
— Cento e oitenta.
Rafael continuou olhando para a tela.
— Foi o valor que Nivaldo cobrou no outro sábado.
— Exato.
Rafael levantou, pegou a bermuda no chão e vestiu sem pressa, mas com uma tensão que mudava o ar. O corpo dele parecia trocar de temperatura. O homem que tinha ficado na cama, que tinha aprendido a não fugir de uma mensagem, agora voltava para algum lugar antigo.
Não o gol.
A defesa.
— Rafael.
Ele parou.
— Não vai resolver isso na pancada.
— Eu não disse nada.
— Teu ombro disse.
Rafael soltou o ar pelo nariz.
— Ele está roubando o grupo.
— Talvez.
— Não talvez.
— Talvez com Nivaldo. Talvez usando Nivaldo. Talvez Nivaldo usando ele. Talvez seja mais burro do que criminoso. A gente precisa entender.
Rafael olhou para André.
— Você fica muito calmo quando está bravo.
— Trabalho com número. Número só grita depois que alguém tenta esconder.
Rafael quase sorriu.
Quase.
André levantou também, pegou uma camiseta e vestiu. O corpo ainda estava cansado da semifinal, da noite, da tensão acumulada. Mas a cabeça tinha acordado de vez.
— Marcelo mandou todos os comprovantes?
— Disse que mandou o que tinha.
— Então não mandou tudo.
— Provavelmente não porque não sabe onde enfiou o resto.
Rafael pegou o próprio celular.
— Vou falar com ele.
— Espera.
— André.
— Espera. Se você ligar puto, Marcelo vai ficar puto, Nivaldo vai se fechar e Leandro vai saber que a gente viu antes de a gente entender o caminho do dinheiro.
Rafael ficou parado com o celular na mão.
— Você quer fazer o quê?
— Planilha.
Rafael olhou para ele.
— Planilha?
— Sim.
— Você está falando sério?
— Seríssimo.
Rafael passou a mão pelo rosto.
— O Leandro volta, provoca todo mundo, mexe com teu nome, com o Caio, com dinheiro, e tua primeira arma é uma planilha?
— Minha primeira arma é saber onde atirar.
Rafael ficou em silêncio.
Depois assentiu.
— Tá.
André pegou o notebook.
Na mesa da cozinha, os dois organizaram os comprovantes. A manhã ficou estranhamente doméstica e investigativa: café requentado, pão de ontem, celulares abertos, prints ampliados, datas, valores, nomes, chaves Pix. Rafael tinha pouca paciência para os detalhes, mas prestava atenção quando André apontava padrões.
— Olha aqui — André disse. — Nos meses em que o pagamento vai para a chave do Nivaldo, bate. Quando vai para essa chave antiga, começa a faltar.
— Essa chave é do Leandro.
— Sim. Mas olha a descrição: “quadra”, “mensal”, “ajuste”, “reserva”. Não parece aleatório. Parece que alguém mandou pagar por ali achando que ainda era oficial.
— Nivaldo.
— Ou alguém se passando por Nivaldo.
Rafael fechou a cara.
— Leandro fazia isso.
— O quê?
— Mandava mensagem de outro número, falava em nome dos outros, dizia que estava resolvendo. Nunca direto o suficiente para ser pego, nunca longe o suficiente para não mandar.
André anotou.
— Temos prints dessas mensagens?
— Eu não tenho.
— Caio pode ter?
Rafael ficou imóvel por meio segundo.
André percebeu.
— Você pode sentir ciúme depois. Agora usa o cérebro.
Rafael olhou para ele.
— Eu não disse nada.
— Teu silêncio disse.
Rafael respirou fundo.
— Manda você.
André pegou o celular.
Abriu a conversa de Caio.
Digitou.
ANDRÉ:
Você tem mensagens antigas do Leandro ou do Nivaldo falando para pagar mensalidade em outra chave?
Caio respondeu depois de dois minutos.
CAIO:
Bom dia para você também, investigador do tesão.
André quase riu.
Rafael viu a expressão.
— O quê?
— Nada útil.
Outra mensagem chegou.
CAIO:
Tenho umas. Por quê?
ANDRÉ:
O pagamento recente para Leandro apareceu na planilha.
A resposta demorou.
CAIO:
Quanto?
ANDRÉ:
180.
Caio visualizou.
Não respondeu.
Um minutoEntão mandou:
CAIO:
Filho da puta.
Depois:
CAIO:
Mando os prints.
Rafael ficou olhando para a tela de André.
— Ele tinha.
— Tinha.
— Por que não falou antes?
André largou o celular na mesa.
— Rafael, você realmente quer seguir por esse caminho?
Ele entendeu.
Baixou os olhos.
— Não.
— Caio tentou falar várias coisas. Vocês estavam ocupados demais achando que tudo que vinha dele era provocação.
Rafael sentou mais para trás.
A frase o atingiu de um jeito justo.
— Eu sei.
— Sabe agora.
— Você está bravo comigo?
— Estou.
Rafael assentiu.
— Com razão.
André fechou o notebook por um segundo.
— Eu estou bravo porque eu gosto de você.
Rafael olhou para ele.
A frase não saiu como declaração bonita. Saiu irritada. Cansada. Quase administrativa. Mas talvez por isso tenha sido mais íntima.
— E porque eu gosto de você — André continuou —, eu fico irritado quando percebo que você ainda reage ao Caio como se ele fosse só o problema, quando muitas vezes ele foi o alarme.
Rafael ficou quieto.
— E eu estou bravo comigo também — André disse.
— Por quê?
— Porque uma parte de mim gosta de perceber que você fica com ciúme.
Rafael levantou os olhos.
André não desviou.
— Eu não sou santo nessa história. Eu gosto de ser olhado. Gosto de ser escolhido. Gostei quando Caio me quis. Gostei quando você percebeu. Isso existe. E eu prefiro dizer antes que vire veneno.
Rafael respirou fundo.
— Obrigado.
— Não agradece. É feio.
— Mas é verdade.
— Eu sei.
Rafael estendeu a mão sobre a mesa. Não segurou André imediatamente. Deixou ali, disponível.
André olhou para a mão dele.
Depois colocou a sua por cima.
O gesto durou pouco.
O celular vibrou.
Caio mandou sete prints.
As mensagens eram de um número sem foto, salvo por ele como “Nivaldo quadra novo”, mas em uma delas a assinatura escapava.
“Fala com o Leandro que ele está fechando essa parte.”
Outra:
“Pode mandar nessa chave aqui que depois eu compenso com o Nivaldo.”
Outra, mais recente:
“Esse mês faz o ajuste pelo Leandro para não embolar no caixa.”
André ampliou.
Rafael leu por cima do ombro dele.
A proximidade física era quase absurda em meio à raiva. O peito de Rafael encostava levemente nas costas de André. A mão dele apoiada na mesa. O cheiro de banho, café e pele.
André tentou focar.
— Isso não prova roubo sozinho — disse. — Mas prova que alguém direcionou pagamento para ele.
Rafael respondeu:
— Esse número não é do Nivaldo.
— Como sabe?
— Nivaldo escreve tudo errado.
André olhou para ele.
— Isso é teu critério técnico?
— E manda áudio de quarenta segundos para dizer “ok”.
André não conseguiu evitar o sorriso.
— Justo.
Caio mandou outra mensagem.
CAIO:
Esse número apareceu quando Leandro ainda jogava. Depois sumiu. Voltou faz pouco.
ANDRÉ:
Você sabe de quem é?
CAIO:
Não. Mas desconfio.
ANDRÉ:
De quem?
CAIO:
Pergunta para o paredão se ele lembra do chip que Leandro usava para falar com a quadra.
André mostrou a Rafael.
Rafael fechou os olhos.
— Era dele.
— O número?
— Sim.
— Então temos um problema maior.
Rafael pegou o próprio celular.
— Agora eu vou ligar para Marcelo.
André não impediu.
Dessa vez, havia munição.
Marcelo atendeu no viva-voz.
— Fala, cunhado da confusão.
André piscou.
Rafael olhou para ele.
— Cunhado? — Rafael perguntou.
— Modo de dizer — Marcelo respondeu rápido demais. — Quer dizer, não sei. Estou me adaptando. O que houve?
André segurou uma risada.
Rafael foi direto:
— O dinheiro que faltava caiu para o Leandro.
Silêncio.
Depois:
— Como é que é?
André assumiu:
— Marcelo, abre os comprovantes. Tem um pagamento recente de cento e oitenta para ele. E Caio mandou prints de mensagens direcionando mensalidade para uma chave antiga.
Marcelo ficou mudo por três segundos.
Três segundos raros.
Depois explodiu.
— Eu vou matar o Nivaldo.
— Não vai — André disse.
— Vou matar o Leandro.
— Também não.
— Então eu mato a mim mesmo por ser burro.
— Isso também atrapalha a final — Rafael disse.
Marcelo respirou alto do outro lado.
— Eu sabia que aquela planilha tinha energia ruim.
— A planilha não tem culpa — André disse. — A tua desorganização tem.
— Eu sou artista, não banco.
— Você é gerente de pelada com prancheta.
— Instituição.
Rafael cortou:
— Marcelo. Chama uma reunião antes do treino de quinta. Só quem paga e joga. Sem Leandro.
— E Nivaldo?
André respondeu:
— Com Nivaldo. Mas sem avisar demais o assunto. Diz que é para fechar os valores da final.
Marcelo demorou.
— Vocês acham que ele está junto?
Rafael respondeu:
— Acho.
André completou:
— Ou foi usado. Mas ele desviou o olhar quando Leandro falou de dinheiro.
Marcelo ficou quieto outra vez.
— Eu não gosto disso.
— Ninguém gosta — Rafael disse.
— E o Caio?
André olhou para o celular.
— Já sabe.
Marcelo suspirou.
— Claro que sabe. Caio sabe das coisas antes da coisa virar coisa.
— Dessa vez, talvez devêssemos ter ouvido antes — André disse.
Do outro lado, Marcelo pareceu entender que aquilo era maior que dinheiro.
— Quinta, então. Eu chamo.
A reunião de quinta virou assunto no grupo.
Marcelo tentou ser discreto.
Falhou.
MARCELO:
Senhores atletas e devedores, quinta antes do treino vamos fechar os valores da semifinal/final e organizar a vida financeira desta instituição.
CAIO:
A instituição tem CNPJ ou só trauma?
RODRIGO:
Eu paguei.
MARCELO:
Você sempre diz isso antes de descobrirmos que não pagou.
JUNINHO:
Eu paguei duas vezes.
CAIO:
Juninho financia o futebol nacional.
NIVALDO:
Não quero bagunça na minha quadra.
CAIO:
Tarde.
Rafael não respondeu no grupo.
André também não.
Leandro, claro, não estava no grupo oficial. Mas meia hora depois, mandou mensagem para Rafael.
Rafael mostrou a André no fim do dia, quando passou em seu apartamento depois do trabalho.
LEANDRO:
Soube que vocês estão fazendo reunião. Cuidado para não criar problema onde só teve confusão.
André leu.
— Ele já sabe.
Rafael estava encostado na pia da cozinha, braços cruzados.
— Nivaldo contou.
— Ou alguém do grupo.
— Nivaldo.
— Você está com raiva.
— Estou.
— Vai fazer besteira?
Rafael olhou para ele.
— Estou aqui em vez de estar lá.
André assentiu.
— Ponto para você.
Rafael respirou.
— Eu queria quebrar a cara dele.
— Isso não resolveria.
— Eu sei.
— E daria a ele o papel que ele quer.
— De vítima.
— Exato.
Rafael ficou em silêncio.
André se aproximou.
— Você tem medo dele ainda?
Rafael demorou.
— Tenho raiva. Às vezes parece medo.
— E é?
— Um pouco.
André tocou o braço dele.
— Medo de quê?
Rafael olhou para o chão.
— De ele me lembrar de quem eu fui e eu perceber que não mudei tanto.
André absorveu.
— Você mudou quando ficou.
Rafael olhou para ele.
— Uma noite não muda ninguém.
— Não. Mas mostra que dá.
Rafael fechou os olhos por um segundo, como se aquela frase doesse mais que acusação.
— Eu quero dar — ele disse.
André arqueou uma sobrancelha.
Rafael percebeu o duplo sentido tarde demais.
— Dar certo — corrigiu.
André riu.
— Péssima construção.
Rafael riu também.
Foi uma risada pequena, mas real.
Depois o silêncio mudou.
André estava perto demais. Rafael também. O corpo ainda sabia o caminho entre eles e, por um instante, a tensão do dinheiro, de Leandro, de Caio, do grupo, tudo pareceu recuar.
Rafael tocou a cintura de André.
— Posso ficar hoje?
André olhou para ele.
— Pode.
— Sem fugir amanhã?
— Essa pergunta é para mim ou para você?
Rafael quase sorriu.
— Para mim.
— Então responde você.
Rafael aproximou a testa da dele.
— Fico.
André fechou os olhos.
O beijo veio sem pressa. A intimidade entre eles começava a ganhar outro peso. Ainda havia desejo, ainda havia corpo, ainda havia aquela memória bruta da quadra, do vestiário, do suor, mas agora existia também um aprendizado estranho. Rafael perguntava mais. André respondia com menos defesa. Nem sempre. Mas às vezes.
Naquela noite, não houve incêndio.
Houve presença.
O que talvez fosse mais difícil.
Na quinta-feira, todos chegaram cedo.
Isso, por si só, já era sinal de tragédia.
O vestiário estava cheio antes do treino. Não cheio de corpo sem camisa e piada como nos outros dias, mas cheio de tensão administrativa. Marcelo estava com a prancheta e o celular. André levou o notebook. Caio chegou com uma pasta de plástico, o que causou silêncio imediato.
— Que foi? — Caio perguntou. — Eu também sei ser insuportável com documentação.
Rodrigo levantou a mão.
— Eu paguei.
Todos responderam ao mesmo tempo:
— A gente sabe.
Nivaldo apareceu na porta, mais nervoso que o normal. Usava a mesma pochete de sempre e uma camiseta velha da quadra. Tentou sorrir.
— Que reunião é essa? Eu tenho horário depois.
Marcelo falou:
— É rápida.
Caio murmurou:
— Igual promessa de homem.
Rafael estava encostado no armário, quieto. André percebeu que ele estava fazendo esforço para não ocupar o centro da sala. Aquilo também era novo. Antes, Rafael calava de um jeito que mandava. Agora tentava deixar espaço.
Marcelo começou.
— Vamos fechar os pagamentos dos últimos três meses. André organizou aqui.
— André agora é tesoureiro? — Nivaldo perguntou.
— Auditor convidado — Caio disse.
André abriu o notebook em cima do banco.
— A conta é simples. Valor da quadra, dividido pelos jogadores fixos, extras abatidos, pagamentos avulsos. O problema é que parte dos pagamentos foi para chaves diferentes.
Nivaldo coçou a cabeça.
— Normal. Às vezes muda.
André olhou para ele.
— Mudou para uma chave do Leandro.
O vestiário ficou imóvel.
Rodrigo falou baixo:
— Eu paguei para essa chave uma vez.
Juninho levantou a mão.
— Eu também.
Marcelo olhou para Nivaldo.
— Por quê?
Nivaldo ergueu os ombros.
— Leandro me ajudava a organizar antes.
Rafael falou pela primeira vez:
— Antes.
A palavra cortou.
Nivaldo desviou.
— Às vezes ficava coisa pendente.
André abriu os prints.
— E essas mensagens? Esse número mandou jogadores pagarem para o Leandro há duas semanas.
Nivaldo olhou.
— Não sei.
Caio deu um passo.
— Sabe, sim.
Nivaldo se irritou.
— Você fica quieto, rapaz. Só sabe fazer graça.
Caio sorriu.
— Hoje eu trouxe pasta. Estou adulto.
Abriu a pasta e tirou dois papéis impressos.
André quase riu de surpresa.
— Você imprimiu?
— Dramaturgia exige materialidade.
Caio entregou um papel a Marcelo.
— Esse número era do Leandro. Tenho conversa antiga com ele usando esse mesmo contato. Ele trocou depois, mas esqueceu que eu guardo rancor e print.
Marcelo pegou o papel.
Olhou.
Depois olhou para Nivaldo.
— Você sabia?
Nivaldo ficou vermelho.
— Eu não sabia que ele ainda usava.
Rafael se afastou do armário.
— Mas sabia que era dele.
Nivaldo se calou.
A resposta estava no silêncio.
Rodrigo passou a mão pelo rosto.
— Então eu paguei e vocês disseram que eu estava devendo?
— Você devia outros meses — Marcelo disse automaticamente.
— Marcelo! — André chamou.
— Tá. Desculpa. Foco.
Nivaldo começou a se defender.
— Olha, Leandro disse que ia acertar umas pendências antigas. Eu deixei porque ele tinha crédito comigo.
— Crédito de quê? — André perguntou.
Nivaldo não respondeu.
Caio riu baixo.
— Aí está.
Rafael olhou para Caio.
— Você sabe?
Caio ficou sério.
— Desconfio.
Todos olharam para ele.
Caio respirou.
— Quando Leandro saiu, ele não saiu limpo. Tinha dinheiro dele na reforma do vestiário. Tinha gente devendo para ele. Tinha Nivaldo devendo favor. Ele nunca deixou de ter uma chave aqui dentro.
Nivaldo apontou para Caio.
— Você não sabe de nada.
— Sei que você deixou ele voltar antes da semifinal. Sei que ele sabia do valor faltando. Sei que ele ofereceu pagar exatamente o buraco que ele mesmo abriu. E sei que ele gosta de parecer salvador depois de esconder a boia.
O vestiário ficou em silêncio.
André percebeu que Caio não estava improvisando. Aquela fala estava guardada havia tempo.
Rafael olhava para ele de outro jeito.
Não com ciúme.
Com reconhecimento atrasado.
Nivaldo perdeu a paciência.
— Quer saber? O Leandro ajudou essa quadra mais que vocês. Quando vocês atrasavam, ele cobria. Quando quebrava lâmpada, ele pagava. Quando precisava comprar rede, ele resolvia. Aí agora fica todo mundo fazendo escândalo por causa de cento e oitenta reais?
Marcelo explodiu.
— Não é por cento e oitenta reais! É porque você fez a gente de idiota!
— Você não precisava de ajuda — Caio murmurou.
Marcelo virou para ele.
— Agora não.
— Desculpa.
André interveio:
— Nivaldo, a questão é simples. Se houve dívida antiga com Leandro, isso precisava ser separado da mensalidade atual. O que aconteceu foi jogador pagando para uma chave que não era oficial e depois sendo cobrado como inadimplente. Isso é, no mínimo, má-fé.
— Má-fé é palavra forte.
— É a palavra educada — Rafael disse.
Nivaldo olhou para Rafael.
— Você fala muito para quem também já deixou coisa mal explicada nesse vestiário.
A sala gelou.
Leandro não estava ali.
Mas sua mão apareceu.
A frase era dele, mesmo saindo da boca de Nivaldo.
Rafael ficou imóvel.
Caio avançou antes.
— Não mistura.
Nivaldo sorriu nervoso.
— Por quê? Agora todo mundo é santo?
Rafael deu um passo, mas André segurou seu braço.
Não com força.
Com presença.
Rafael parou.
André falou, olhando para Nivaldo:
— A vida pessoal deles não paga quadra. Nem justifica cobrança errada. Volta para o dinheiro.
Nivaldo se calou.
Marcelo respirou fundo.
— Você vai devolver o que foi cobrado errado.
— Eu?
— Você e Leandro se resolvam. Para a gente, quem cobrou foi a quadra.
— Não tenho esse dinheiro agora.
Caio ergueu a pasta.
— Então formaliza. Por escrito.
Marcelo olhou para ele.
— Você veio armado mesmo.
— Eu disse que estava adulto.
No fim, Nivaldo assinou uma declaração simples, escrita por André no notebook e ajustada por Marcelo com linguagem dramática demais, reconhecendo divergências nos pagamentos e se comprometendo a abater os valores na mensalidade seguinte. Não era justiça plena. Não era vingança. Mas era alguma coisa concreta.
E, mais importante: Leandro perdia uma entrada.
Quando a reunião acabou, o treino quase não aconteceu.
Todos estavam esgotados.
Mesmo assim, Marcelo insistiu.
— A final não vai ganhar sozinha.
Caio respondeu:
— Depois dessa reunião, se a final tiver juízo, foge.
Foram para a quadra.
O treino foi estranho, mas produtivo. Havia uma raiva nova no grupo, agora direcionada para fora. Não apenas para Leandro, mas para a sensação de terem sido manipulados.
Rafael defendia com firmeza.
Caio jogava mais coletivo.
André corria como se a cabeça finalmente tivesse encontrado uma função para o corpo.
Em um lance, Caio recebeu de André e devolveu de primeira para Rafael sair jogando com os pés. Rafael dominou mal, quase entregou a bola.
Caio gritou:
— Goleiro com pé é projeto de desastre!
Rafael respondeu:
— Atacante com pasta é ameaça institucional!
A quadra riu.
André também.
A risada dos dois, no mesmo lance, mudou alguma coisa. Não resolveu. Mas mudou. Pela primeira vez, Rafael e Caio pareciam dividir uma piada sem usá-la como faca.
Depois do treino, Caio ficou para trás enquanto os outros iam para o vestiário. André percebeu e se aproximou.
— Você está bem?
Caio olhou para ele.
— Você precisa variar o repertório.
— Estou tentando ser gentil.
— Esse é o problema. Funciona.
André ficou ao lado dele, encostado na grade.
A quadra vazia tinha outro cheiro. Menos suor, mais borracha quente e fim de tarde. O sol começava a baixar, atravessando o alambrado em linhas.
Caio estava quieto.
— Você guardou tudo aquilo por muito tempo — André disse.
Caio sorriu sem humor.
— Rancor organizado é quase Excel.
— Eu respeito.
— Sabia que respeitaria.
Silêncio.
Depois Caio falou:
— Eu tentei falar uma vez. Sobre Leandro. Sobre Nivaldo. Sobre esse jeito dele nunca ir embora de verdade.
— Com quem?
— Rafael.
André não respondeu.
— Ele achou que era ciúme.
— Talvez fosse também.
— Era. Mas não era só.
— Hoje ele sabe.
Caio olhou para a quadra.
— Saber depois é uma especialidade dele.
André sentiu a tristeza na frase.
— Você ainda ama ele?
Caio riu baixo.
— Que pergunta ridícula.
— Ridícula por quê?
— Porque se eu disser sim, pareço patético. Se disser não, pareço mentiroso.
— Então diz de outro jeito.
Caio demorou.
— Eu ainda tenho um lugar machucado que responde quando ele chama.
André ficou quieto.
A frase era bonita demais para virar comentário.
Caio virou o rosto para ele.
— E você?
— Eu gosto dele.
— Não foi isso que perguntei.
André sustentou.
Caio completou:
— Você gosta de mim?
O ar ficou estreito.
André poderia ter fugido.
Não fugiu.
— Gosto.
Caio fechou os olhos por um segundo.
— Merda.
— Eu não disse que...
— Eu sei. Você não disse que escolhe. Não disse que quer. Não disse que vai. Disse só o bastante para eu não conseguir fingir que não ouvi.
André se aproximou um pouco.
— Eu não quero te alimentar de migalha.
Caio abriu os olhos.
— Tarde.
— Caio.
— Calma. Eu sei. Não estou cobrando. Só estou tentando ser honesto antes de virar canalha de novo.
André respirou fundo.
— Eu escolhi tentar com Rafael.
A frase saiu mais firme do que ele esperava.
Caio assentiu.
Doía.
Mas ele assentiu.
— Eu sei.
— Isso não apaga o que aconteceu entre a gente.
— Nem o que poderia.
André não negou.
Caio sorriu triste.
— Obrigado por não negar. Eu ia odiar mais.
Rafael apareceu na entrada da quadra.
Parou ao ver os dois.
Dessa vez, não chamou.
Não interrompeu.
Só ficou.
Caio percebeu pelo olhar de André.
— Ele está aprendendo.
André olhou para Rafael.
— Está.
Caio pegou a mochila.
— Vai lá.
— Você vem?
— Daqui a pouco.
André hesitou.
Caio sorriu.
— Não faz cara de despedida. Eu jogo a final.
— Depois da final?
Caio passou por ele.
— Depois é depois.
No vestiário, Rafael esperava perto do armário.
— Conversaram?
— Conversamos.
— Sobre mim?
— Também.
— Sobre vocês?
André olhou para ele.
— Também.
Rafael absorveu. O velho Rafael teria fechado a cara, endurecido, transformado aquilo em gelo. O Rafael daquele dia respirou fundo.
— Obrigado por falar.
André quase sorriu.
— Está doendo?
— Muito.
— Mas você não virou poste.
— Não.
— Progresso.
Rafael encostou a testa no armário por um segundo.
— Eu odeio progresso.
André riu.
— Eu sei.
Rafael olhou para ele.
— Você escolheu tentar comigo?
André ficou parado.
— Ouviu?
— O suficiente.
André poderia ter se irritado.
Mas viu medo no rosto dele.
Medo e esperança, essa coisa quase constrangedora em um homem grande.
— Escolhi.
Rafael fechou os olhos.
Não sorriu.
Pareceu aliviado demais para sorrir.
— Mas isso não é contrato de posse — André disse.
Rafael abriu os olhos.
— Eu sei.
— Não sabe completamente.
— Estou aprendendo.
— E eu não vou fingir que Caio não existe. Nem que o que eu senti não existiu.
A frase doeu em Rafael.
Mas ele ficou.
— Tá.
— Tá?
— Tá.
André tocou o peito dele com dois dedos.
— Você está mesmo tentando.
Rafael segurou a mão dele.
— Estou.
— Continua.
Rafael beijou os dedos de André.
Um gesto pequeno.
Quase íntimo demais para o vestiário.
André puxou a mão devagar.
— Não me desmonta aqui.
Rafael quase sorriu.
— Desculpa.
— Mentira.
— Um pouco.
Naquela noite, o grupo foi ao bar, mas Leandro não apareceu.
O que tornou sua ausência ainda mais presente.
Marcelo comemorava a vitória administrativa como se tivesse vencido um campeonato.
— Hoje nós recuperamos a dignidade financeira da instituição.
Caio levantou o copo.
— E descobrimos que o presidente não sabe usar Pix.
— Ataque baixo.
Rodrigo, aliviado por não ser o único confuso, repetia:
— Eu falei que tinha pagado.
Juninho respondeu:
— Eu paguei por você, por mim e talvez por uma escolinha infantil.
Rafael ficou mais quieto, mas não isolado. André percebeu que ele estava tentando participar sem controlar. Caio percebeu também.
Em algum momento, Marcelo se sentou ao lado de André.
— Você está no meio de uma coisa grande, né?
André olhou para ele.
— Estou.
— E está tudo bem?
— Não.
Marcelo assentiu.
— Resposta honesta.
— Você está assustadoramente maduro hoje.
— Eu presidi uma reunião financeira sob pressão. Cresci uns sete anos.
André riu.
Marcelo ficou sério.
— Rafael parece diferente com você.
André olhou para o goleiro, que ouvia Rodrigo contar uma história absurda sobre chuteira falsificada.
— Diferente como?
— Menos sozinho.
André não respondeu.
Marcelo continuou:
— E Caio parece triste.
André olhou para o copo.
— Parece.
— Você não é responsável por consertar todo mundo.
A frase, vindo de Marcelo, veio simples e certeira.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
André sorriu sem alegria.
— Estou aprendendo.
Marcelo apontou para Rafael.
— Frase contagiosa.
Mais tarde, quando André e Rafael saíram, Caio ficou na calçada.
A mesma calçada de tantas interrupções.
André parou.
Rafael também.
Caio olhou para os dois.
— Vão lá. Não vou fazer discurso.
Rafael deu um passo.
— Caio.
— Não.
A voz dele veio calma.
— Hoje não. Hoje foi dia demais.
Rafael assentiu.
— Obrigado pelos prints.
Caio riu baixo.
— De nada. Sempre bom usar neurose para fins comunitários.
André sorriu.
Caio olhou para ele.
— Cuida da planilha, auditor.
— Cuida do joelho, atacante.
Caio ergueu dois dedos em despedida e foi embora.
Na picape, Rafael dirigiu em silêncio por alguns minutos.
Depois falou:
— Eu ouvi você dizendo que escolheu tentar comigo.
— Eu sei.
— Eu queria dizer alguma coisa boa na hora.
— Você ficou quieto. Foi bom.
Rafael riu baixo.
— Estou aprendendo que nem todo silêncio é fuga.
André olhou para ele.
— Exatamente.
Rafael estacionou diante do prédio.
— Posso subir?
André pensou.
Não porque não quisesse.
Queria.
Mas queria de um jeito mais complexo agora. Não só corpo. Não só noite. Não só provar que Rafael ficaria. Queria também respirar sozinho, entender o que tinha dito a Caio, entender o que Rafael tinha ouvido, entender onde terminava desejo e começava escolha.
— Hoje não.
Rafael assentiu.
Dessa vez, sem ferir.
— Tá.
André percebeu a diferença.
— Você não vai sumir?
— Não.
— Não vai transformar isso em rejeição?
Rafael respirou.
— Vou tentar não transformar.
— Boa resposta.
Rafael segurou a mão dele.
— Amanhã?
André sorriu.
— Amanhã conversa.
— Conversa é sim com medo?
— Isso é frase do Caio.
— Eu sei.
— Então para de roubar.
Rafael sorriu de verdade.
— Tá.
André saiu da picape.
Antes de fechar a porta, Rafael falou:
— André.
— Fala.
— Obrigado por escolher tentar.
André ficou parado por um instante.
— Não me faz arrepender.
— Vou tentar.
— Rafael.
— Não vou.
André assentiu.
Entrou no prédio.
No apartamento, tomou banho e abriu o notebook mais uma vez.
A planilha estava ali.
Pagamentos.
Datas.
Nomes.
Leandro.
Nivaldo.
Valores pequenos que, juntos, contavam uma história grande.
O celular vibrou.
Mensagem de um número desconhecido.
SEM NOME:
Você parece inteligente. Então seja inteligente: não compra guerra que não é sua.
André leu duas vezes.
O corpo gelou antes da raiva.
Outra mensagem chegou.
SEM NOME:
Rafael sempre deixa os outros pagarem a conta emocional dele.
André não respondeu.
Printou.
Enviou para Rafael.
Depois para Caio.
Caio respondeu primeiro:
CAIO:
Leandro elogiou a fechadura.
Rafael ligou imediatamente.
André atendeu.
— Recebeu?
— Recebi — Rafael disse, voz baixa e dura. — Não responde.
— Não ia.
— Ele não tinha que ter teu número.
— Mas tem.
Silêncio.
Rafael respirava pesado.
— Eu sinto muito.
André fechou os olhos.
— Não começa por culpa.
— Ele entrou em você por minha causa.
— Ele entrou porque é manipulador. A causa é dele.
Rafael ficou quieto.
André olhou para a tela do notebook.
— Agora é guerra minha também.
— André...
— Não. Ele mandou mensagem para mim. Ameaçou do jeito dele. Falou de você. Tentou me colocar no lugar onde ele coloca todo mundo: desconfiando, reagindo, sangrando.
Rafael não respondeu.
— Só que ele errou uma coisa — André continuou.
— O quê?
André olhou para o print, depois para a planilha.
— Eu gosto de recibo.
Do outro lado da linha, Rafael soltou uma respiração quase rindo, quase tremendo.
— Você é perigoso.
— Estou aprendendo com vocês.
Mais tarde, Caio mandou outra mensagem.
CAIO:
Ele vai tentar te separar do Rafael antes da final.
ANDRÉ:
Eu sei.
CAIO:
E talvez tente me usar.
ANDRÉ:
Também sei.
CAIO:
E talvez funcione um pouco, porque eu sou bonito e problemático.
André riu apesar da tensão.
ANDRÉ:
Convencido.
CAIO:
Realista.
Depois de alguns segundos:
CAIO:
Mas dessa vez eu aviso antes de virar faca.
André leu a frase com uma estranha emoção.
ANDRÉ:
Obrigado.
CAIO:
Não acostuma. Eu ainda posso ser insuportável.
ANDRÉ:
Nunca duvidei.
Na sexta, véspera da final, Marcelo mandou no grupo:
MARCELO:
Amanhã 9h. Final. Chegar cedo. Sem atraso. Sem drama. Sem golpe financeiro. Sem ex tóxico. Sem lesão.
CAIO:
Você está proibindo metade do elenco de existir.
RODRIGO:
Eu paguei.
JUNINHO:
Eu também. Acho.
RAFAEL:
Amanhã a gente ganha junto.
A mensagem de Rafael ficou no grupo.
Simples.
Plural.
Caio visualizou.
André também.
Depois Caio respondeu:
CAIO:
Olha o goleiro aprendendo gramática coletiva.
Marcelo mandou:
MARCELO:
É esse o espírito! Português e futebol!
André sorriu.
Mas o sorriso não durou.
Porque, minutos depois, Leandro mandou no privado:
LEANDRO:
Boa final amanhã. Diga ao Rafael que eu ainda sei o canto dele.
André respondeu pela primeira vez:
ANDRÉ:
Saber o canto de alguém não adianta quando a pessoa aprende a esperar.
Enviou.
Printou.
Mandou para Rafael e Caio.
Rafael respondeu:
RAFAEL:
Obrigado.
Caio respondeu:
CAIO:
Bonita frase. Irritante, mas bonita.
André desligou a tela.
Lá fora, a noite de São Paulo seguia quente, barulhenta, comum.
Dentro dele, nada era comum.
A final seria no dia seguinte.
Leandro estava cercando.
Caio estava tentando não virar faca.
Rafael estava tentando não virar muro.
Marcelo estava tentando virar presidente.
E André, que entrara naquela história como substituto, agora segurava os recibos de todos: os de dinheiro, os de desejo, os de medo, os de culpa.
Antes de dormir, Rafael mandou uma última mensagem.
RAFAEL:
Amanhã, independentemente do que ele diga, eu vou esperar.
André respondeu:
ANDRÉ:
Então defende.
Rafael:
RAFAEL:
Sou goleiro.
André sorriu.
Dessa vez, a desculpa não pareceu fuga.
Pareceu promessa.