O ar dentro do cinema tinha aquele cheiro misturado de pipoca doce e ar-condicionado antigo. As poltronas da penúltima fila estavam vazias, exceto por nós dois. Lígia escolhera o canto, como sempre fazia quando estávamos juntos em lugares escuros — um hábito que eu já conhecia há dois anos, desde que ela terminara com o Pedro e nossa amizade se tornara essa coisa estranha, cheia de pausas longas e olhares que nunca pousavam no lugar certo por tempo demais.
A tela ainda exibia os trailers. Luzes azuladas e vermelhas escorriam pelo rosto dela, destacando o contorno dos lábios, a linha fina do maxilar, os olhos azuis que pareciam maiores naquela penumbra. O cabelo castanho caía solto sobre os ombros magros. Ela ria de algo que eu dissera, mas eu já nem lembrava o quê.
— A gente podia fazer uma coisa — falei, inclinando-me para o lado.
Lígia virou o rosto. Nossos ombros quase se tocaram.
— Que coisa?
— Um jogo. Durante o filme. Cada vez que os atores disserem uma palavra específica, a gente paga uma prenda.
Ela estreitou os olhos. A desconfiança chegou antes do sorriso.
— Que tipo de prenda?
— Coisas leves. Primeiro, um beijo no rosto. Depois, talvez um beijo de verdade. Depois... — deixei a frase morrer no ar.
— Depois o quê?
— A gente decide na hora. Só vale se você topar.
Lígia ajeitou a saia sobre os joelhos. Os dedos dela tamborilaram no tecido jeans claro. Tum-tum-tum. Ritmo nervoso.
— Quais palavras?
A pergunta me pegou desprevenido. Eu esperava um não imediato. O coração acelerou. Olhei para a tela, onde uma propaganda de perfume mostrava um casal se beijando sob a chuva.
— Cinco palavras. Cada uma com uma prenda diferente. A gente sorteia a ordem agora, depois presta atenção no filme.
— E se ninguém falar a palavra?
— A gente assiste o filme como duas pessoas normais. — Sorri. — Mas duvido que um romance de época não tenha pelo menos três delas.
Ela soltou um riso curto. A luz da tela bateu nos dentes brancos, no brilho úmido da gengiva. Minha atenção prendeu-se ali por um segundo a mais do que deveria.
— Tá. Mas eu escolho duas palavras. E você escolhe as outras três. E a última prenda não pode ser nada... — Hesitou. Mordeu o lábio inferior. — Nada demais.
— Nada demais — repeti, erguendo a mão direita como quem jura. — Palavra de escoteiro.
— Você nunca foi escoteiro.
— Detalhe.
As palavras escolhidas acabaram sendo: amor, noite, casamento, saudade e chuva. Romance de época é um poço de clichês. Eu sabia que pelo menos quatro daquelas apareceriam nos primeiros vinte minutos.
Estabelecemos a ordem. Amor: beijo no rosto. Noite: beijo nos lábios, rápido. Casamento: beijo com língua. Saudade: eu poderia tocar o corpo dela por cima da roupa, sem áreas perigosas. Chuva: ela escolheria um lugar para eu beijar — e eu não poderia recusar.
— Isso não é nada demais? — ela perguntou, com a voz um tom acima do normal.
— É só um jogo, Lígia. Você pode parar a qualquer hora.
O filme começou. A tela encheu-se de corsets e cartolas, carruagens batendo na calçada de pedra. Eu mantinha os olhos fixos no rosto dela, não na projeção. O primeiro diálogo veio aos três minutos. Uma moça de vestido verde disse amor entre lágrimas.
Virei o corpo. Lígia prendeu a respiração.
— Prenda — murmurei.
Ela ofereceu a bochecha direita. A pele estava quente. Cheirava a um perfume cítrico, misturado com o sal discreto do final de tarde. Meus lábios pousaram ali por dois segundos, talvez três. Senti o músculo da mandíbula dela contrair-se.
— Feito — falei, recuando.
Ela piscou depressa. Os cílios longos lançaram sombras nas maçãs do rosto.
— Fácil — disse ela, mas a voz saíra rouca.
O segundo desafio veio mais rápido. Noite. Um criado comentou sobre a temperatura. Olhei para Lígia e encontrei-a já me encarando. Havia algo diferente no azul daqueles olhos — uma fenda de curiosidade, uma inquietação que não existia antes.
— Não precisa se—
Ela me interrompeu com o movimento. Inclinando-se, os lábios tocaram os meus antes que eu terminasse a frase. O beijo foi uma pressão breve, seca. Mas o bastante para eu sentir a textura exata da boca dela. Macia. Fechada. Um contato que durou o espaço de uma respiração.
Quando ela se afastou, o ar entre nós parecia mais denso.
— Dois — contei.
Lígia alisou o cabelo atrás da orelha. A ponta dos dedos tremia.
O filme prosseguiu. Casamento surgiu aos doze minutos, em meio a uma discussão familiar. Minha vez. Pousei a mão no encosto da poltrona dela. O estofado rangeu.
— Lembra da prenda.
— Com língua — ela completou, num sussurro que arrastou a última sílaba.
— Posso?
Lígia olhou para os lados. A fileira à frente estava vazia. Duas fileiras atrás, um casal conversava alheio a tudo. A escuridão nos envolvia como uma cortina. Ela assentiu.
Levei a mão ao queixo dela. Os dedos encontraram o osso delicado, a pele lisa. Ergui o rosto de Lígia devagar. Ela fechou os olhos quando nossas bocas estavam a um centímetro de distância.
O beijo começou suave. Apenas um encaixe de lábios entreabertos, o hálito quente dela misturando-se ao meu. Depois, a ponta da minha língua tocou o lábio inferior dela. Uma tentativa. Uma pergunta.
A resposta veio com os dentes.
Lígia mordeu meu lábio inferior — uma pressão mínima, controlada, que enviou um pulso elétrico direto para a base da minha espinha. Soltei um som baixo na garganta. Aproveitei a abertura e aprofundei o beijo. Nossas línguas se tocaram. O sabor de Coca-Cola e algo mais doce, algo que era só ela. A boca de Lígia moveu-se contra a minha num ritmo hesitante, como se cada centímetro de contato precisasse ser negociado.
Minha mão escorregou do queixo para a nuca. Os fios de cabelo castanho enroscaram-se nos meus dedos. Puxei de leve. Ela arquejou dentro do beijo.
A separação veio porque o ar faltou. Um fio de saliva brilhou entre nossas bocas antes de romper-se. Lígia levou a mão aos próprios lábios.
— Três — eu disse, com a voz irreconhecível.
Ela não respondeu. Apenas respirou.
O filme continuava. As imagens na tela pareciam borradas, distantes, um ruído visual sem significado. Toda a minha atenção estava presa no movimento do peito dela subindo e descendo, no jeito como os joelhos se apertavam um contra o outro.
Saudade veio aos vinte e cinco minutos. Uma velha senhora falara a palavra com melancolia afetada. Olhei para Lígia. Ela sustentou minha mirada por três batidas cardíacas — as minhas, martelando nas têmporas.
— Você disse que podia tocar — murmurou.
— Posso.
— Onde?
A pergunta saiu como desafio. Os olhos azuis tinham uma intensidade que eu nunca vira antes. Havia um rubor subindo do pescoço para as bochechas, manchando a pele branca com tons de rosa.
— Onde você quiser que eu não toque — respondi.
Ela agarrou meu pulso. A mão dela era fria, os dedos longos pressionando minha pele com força. Guiou minha palma até o joelho dela. Depois, soltou.
— Aqui.
Minha mão pousou sobre o jeans. O tecido era áspero sob meus dedos. Senti o formato arredondado do joelho, a firmeza do osso. Comecei a mover a palma para cima.
Lígia estremeceu.
Subi devagar. A lateral da coxa. O músculo tenso sob o jeans. Cada centímetro arrancava uma micro-reação dela — um prender de respiração, um apertar de olhos, um morder de lábios. Quando meus dedos alcançaram a borda externa da saia que cobria as coxas, ela segurou minha mão.
— Não sobe mais — pediu.
Mas não me afastou. A mão dela apenas repousava sobre a minha, os dedos frios misturados aos meus dedos quentes. Ficamos assim por quase um minuto, imóveis. O contato queimava.
— Quatro — anunciei, recolhendo a mão.
Lígia respirou fundo. Passou a língua nos lábios.
— A gente pode parar — falei.
— Já estamos no meio — ela rebateu. — Só falta uma.
Chuva demorou a aparecer. Quarenta minutos de filme. Os diálogos escorriam sem a palavra que precisávamos. Enquanto isso, algo mudara na postura de Lígia. Ela não mantinha mais distância. O ombro dela roçava o meu. O joelho também. A coxa.
Quando finalmente um ator olhou pela janela e disse chuva, ela virou o corpo inteiro para mim.
— Prenda final. Eu escolho o lugar.
— Escolhe.
Lígia baixou os olhos para a minha boca. Depois, para o pescoço. Depois, mais abaixo. Parou no peito. Ela esticou o indicador e tocou a minha camisa, bem sobre o esterno.
— Aqui.
— Tem certeza?
— Você prometeu que não podia recusar.
Desabotoei lentamente os dois primeiros botões da camisa. O ar do cinema tocou minha pele exposta. Lígia aproximou-se. A luz da tela pintava listras horizontais no rosto dela. Inclinou a cabeça. Os lábios tocaram a base do meu pescoço primeiro — um beijo seco, contido. Depois desceram. Boca entreaberta agora. Hálito quente descendo pelo esterno. A ponta da língua tocou a saliência óssea.
Fechei os olhos.
Ela beijou meu peito. Os lábios pressionaram a pele com uma mistura de hesitação e fome. Senti a ponta dos dentes roçar o músculo. Uma mordida leve. A dor minúscula dissolveu-se em calor.
Minha mão agarrou a poltrona. O couro sintético rangeu.
Lígia afastou-se. Os olhos azuis brilhavam.
— Cinco. Cabô.
Ficamos nos olhando. A respiração dos dois estava descompassada. O filme seguia ignorado atrás de nós, trilha sonora grandiosa para uma cena de baile que ninguém assistia.
— Agora a gente assiste o resto como pessoas normais — ela disse.
— É.
Nenhum dos dois virou o rosto para a tela.
O joelho dela pressionou o meu. A coxa inteira agora. O calor atravessava as duas camadas de tecido como se não existissem. Senti o perfume cítrico misturado com algo novo — o cheiro da pele aquecida pelo exercício, pelo esforço. Havia uma gota de suor descendo pela têmpora de Lígia.
— Flávio...
— O quê?
— Não sei se a gente devia ter feito isso.
— Por quê?
— Porque eu não quero que pare.
A frase caiu como uma pedra em água parada. Ondas concêntricas de silêncio. Meu corpo inteiro tensionou.
— Então não para — falei.
Ela balançou a cabeça. Os fios castanhos chicotearam os ombros.
— Para. A gente precisa parar. Eu sou ex do Pedro. Você é amigo dele. Isso é... Isso é errado.
— O Pedro terminou com você há dois anos.
— Não importa.
— Importa. — Virei o corpo. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros. — Ele não está aqui. Você não deve nada a ele. E eu não estou te pressionando. Se você quiser parar, a gente para. Agora. Vira a cara e assiste esse maldito filme.
Lígia ficou imóvel. A luz da tela passou do azul para o dourado — uma cena de pôr do sol. O dourado iluminou o rosto dela, acendeu faíscas nos olhos azuis. Os lábios estavam entreabertos, ainda inchados do beijo anterior.
— Não quero parar — repetiu, quase inaudível.
— Então o que você quer?
Ela não respondeu com palavras. Agarrou a frente da minha camisa e puxou. Nossas bocas colidiram. Não era mais um jogo. Não tinha prenda, não tinha palavra-chave. Era só fome.
A língua dela invadiu minha boca sem pedir licença. Os dentes morderam meu lábio inferior com força. Senti o gosto metálico misturado com saliva. Minhas mãos foram para a cintura dela, apertaram. O corpo magro tinha curvas que eu só imaginara. Os ossos do quadril encaixaram nas minhas palmas.
Lígia gemeu dentro do beijo.
O som vibrou na minha boca, desceu pela garganta, explodiu no peito. Puxei-a para mais perto. A poltrona rangeu de novo. O braço de apoio entre nossos assentos era um obstáculo idiota, uma barreira de plástico que nos impedia de colar os corpos.
— Isso é loucura — ela sussurrou, afastando-se por um instante. — A gente tá num cinema.
— Tem quase ninguém aqui.
— Mas tem alguém. Duas fileiras atrás.
— Então fica quieta.
Ela riu. Uma risada nervosa, trêmula.
— Você é idiota.
— Sou.
Beijei-a de novo. Minha mão subiu da cintura para as costelas. Polegares encontraram a base dos seios por baixo da blusa fina. Lígia arqueou as costas. O movimento empurrou o corpo dela contra as minhas mãos. Senti o formato do sutiã, o calor da pele através do tecido.
— Flávio — ela arfou. — Não aqui. Não assim.
— Onde, então?
A pergunta pairou. Ela olhou para o corredor, para a luz de emergência verde na saída, para o chão de carpete gasto entre a primeira fileira e a tela.
— A gente vai sair do cinema — eu disse. — Você vem comigo.
— Não. — Ela agarrou meu braço. — Se a gente sair agora, eu vou pensar melhor. Vou lembrar do Pedro. Vou lembrar de tudo que pode dar errado. Vou desistir.
— Então o quê?
Lígia levantou-se da poltrona. Olhou para os lados. A fileira estava vazia — inteiramente vazia. Atrás, o casal conversava alheio a tudo. A tela mostrava um baile, música clássica alta o bastante para cobrir sussurros.
Ela não falou nada. Apenas deslizou da poltrona para o chão.
O carpete era áspero, vermelho-escuro, manchado com décadas de refrigerante derramado. Lígia ajoelhou-se ali, entre as duas fileiras de poltronas vazias, e me olhou de baixo para cima.
O coração parou.
— Vem — ela disse.
Minha vez de hesitar. Alguém podia entrar. Alguém podia olhar para trás. Qualquer funcionário com uma lanterna podia estragar tudo.
Meu corpo ignorou o cérebro.
Desci da poltrona. O carpete recebeu meus joelhos com dureza. Ficamos frente a frente. A luz da tela dançava no rosto de Lígia, no meu, no espaço mínimo entre nós. Música clássica abafava o som das respirações ofegantes.
Ela agarrou minha nuca e me puxou para um beijo. Agora sem regras. Sem prendas. Sem palavras sorteadas. A boca de Lígia era um território que eu explorava com urgência, a língua invadindo e recuando, os dentes mordendo o lábio inferior com uma violência contida que arrancava pequenos gemidos dela.
Senti as unhas dela arranhando minha nuca.
Empurrei-a de leve para trás. As costas de Lígia tocaram a base da poltrona atrás dela. O barulho foi abafado pela trilha sonora. Minha mão desceu pelo pescoço, clavícula, esterno — repetindo o caminho que ela fizera antes. Só que agora eu não parava. Dedos encontraram o primeiro botão da blusa.
— Posso?
— Sim. — A resposta veio num arquejo.
DesabotoeiA blusa abriu-se como uma cortina, revelando o sutiã rendado, preto, simples. A pele branca do abdômen contrastava com a renda escura. Abaixei a cabeça. Meus lábios tocaram o vale entre as clavículas dela.
Lígia estremeceu.
Desci. Beijo abaixo do pescoço. A saliência do esterno. A renda do sutiã. O cheiro dela mais intenso ali, mais quente. A ponta do meu nariz roçou o tecido.
Ela segurou minha cabeça com as duas mãos. Dedos enroscaram-se no meu cabelo. Puxaram.
— Flávio...
Olhei para cima. O rosto de Lígia estava ruborizado. Os olhos azuis tinham um brilho líquido. A boca entreaberta deixava escapar uma respiração que era quase um gemido contínuo.
— O quê?
— Ninguém pode ver.
— Ninguém vai ver.
Minhas mãos encontraram o fecho do sutiã nas costas dela. Os dedos tatearam os ganchos. Lígia arqueou o corpo para facilitar. O movimento era uma rendição. O sutiã soltou-se.
Puxei as alças pelos ombros. O tecido escorregou. Os seios dela surgiram — brancos, redondos, os mamilos retesados e escuros apontando para mim como acusações silenciosas.
Abaixei a cabeça e tomei um deles na boca.
Lígia gemeu alto. A mão dela voou para a própria boca, abafando o som. Senti a língua circulando o mamilo, senti a textura enrugada da auréola, senti o gosto salgado da pele. Chupei com força. Os quadris dela pressionaram-se contra os meus.
O contato fez o mundo girar.
Ela estava molhada. Eu não sabia ainda, não tinha tocado, mas cada movimento dos quadris dela contra os meus denunciava o que a calça jeans escondia. O corpo de Lígia falava uma língua mais honesta que a boca.
Soltei o mamilo com um estalo úmido. Subi beijando o pescoço, o queixo, a boca. Nossas línguas se encontraram de novo. Minha mão desceu pela barriga dela, contornou o umbigo, alcançou o botão do jeans.
— Posso? — perguntei de novo.
Os olhos de Lígia encontraram os meus. Havia medo ali. E havia algo mais. Algo que queimava.
— Se você perguntar mais uma vez, eu vou embora — ela disse.
Abri o botão. O som do zíper descendo foi o som mais alto do mundo, abafado apenas pelo clímax da música clássica na tela. Minha mão deslizou por dentro da calça dela. A ponta dos dedos encontrou a renda da calcinha, já úmida, já quente, já pulsando.
— Isso é loucura — ela repetiu, mas agora os quadris empurravam contra minha mão.
— Sempre foi — respondi.
Meus dedos afastaram a renda para o lado e encontraram o centro dela.