Existe uma regra não escrita em cidades pequenas, ninguém sabe de nada, mas todo mundo sabe de tudo. Demoro para perceber que alguma coisa mudou, talvez porque eu esteja feliz, e pessoas felizes costumam ficar distraídas.
A segunda-feira começa como qualquer outra. O galpão já está quente às duas da tarde, o cheiro de óleo diesel, ferro aquecido e café se mistura no ar. Uma empilhadeira passa zunindo, alguém liga um rádio velho. Sertanejo, sempre sertanejo.
Estou organizando algumas notas fiscais quando sinto, não vejo. Sinto aquele silêncio estranho, curto, artificial. Como quando você entra numa sala e interrompe uma conversa. Levanto os olhos, três funcionários perto da porta. Conversando ou fingindo conversar. Quando percebem que estou olhando, desviam, imediatamente. Estranho, mas sigo trabalhando.
Às três da tarde acontece de novo, desta vez perto do almoxarifado. Passo por dois motoristas, um deles interrompe a frase no meio, o outro solta uma risada abafada. Não consigo ouvir, mas consigo sentir. E às vezes sentir é pior. Na hora do café encontro Leandro, ele está sentado sozinho. Comendo rápido, como sempre.
— Tá acontecendo alguma coisa? – pergunto.
Ele continua mastigando, sem me olhar. Meu estômago afunda, porque eu conheço esse comportamento. Conheço bem demais.
— Leandro.
Ele suspira.
— Não.
Mentira.
— O que foi?
Ele larga o garfo.
— Nada.
Mentira de novo.
— Você é péssimo mentindo.
— E você é insistente.
— Porque eu não sou idiota.
Agora ele me encara, pela primeira vez. Os olhos parecem cansados.
— Só deixa isso pra lá.
Meu coração acelera. Porque quando alguém diz "deixa isso pra lá", normalmente significa exatamente o contrário. Significa: alguma coisa aconteceu. Descubro uma hora depois, por acidente, como quase todas as coisas importantes da vida. Estou levando uma pasta para a moça de compras quando escuto meu nome.
— O menino da patroa.
Risadas.
— O intelectualzinho.
Mais risadas, vou passando. Até ouvir a próxima frase.
— O namorado do Leandro.
O mundo para, não dramaticamente, não como nos filmes. Só um pequeno solavanco, como quando um caminhão passa num buraco. Silêncio. Depois alguém fala:
— Cê tá maluco.
— Uai. Tô falando mentira?
Outra gargalhada.
— Eu vi os dois saindo juntos semana passada.
— E daí?
— E daí nada. Só tô falando.
— Tá parecendo casal.
Mais risadas. Fico imóvel, do outro lado da parede. Sem respirar, sem pensar. Sem conseguir decidir se entro, se saio, se finjo que não ouvi. É ridículo. Porque ninguém falou nada diretamente. Nada concreto, nada objetivo, mas basta. Às vezes uma insinuação faz mais estrago do que uma acusação.
Quando encontro Leandro no fim do expediente ele já sabe, claro que sabe. Ele está fechando a carroceria de um caminhão, com força demais. Metal contra metal. CLANG. O som ecoa pelo galpão inteiro.
— Você ouviu – eu digo.
Não é uma pergunta, é uma constatação. Ele não responde, só pega um pano sujo e começa a limpar as mãos. Esfrega. Esfrega. Esfrega. Como se pudesse remover alguma coisa.
— Quem foi? – pergunto.
— Não importa.
— Importa sim.
— Não.
A voz dele sai dura, mais dura do que eu já ouvi.
— Não importa quem falou. Importa que agora tão falando.
O silêncio que vem depois é pesado, quase físico. Lá fora o sol está se pondo, o galpão inteiro fica alaranjado. Sombras compridas, ferrugem brilhando.
— Você tem vergonha? – pergunto.
A pergunta escapa, imediatamente me arrependo. Leandro fecha os olhos, por um segundo. Só um segundo. Mas vejo, vejo perfeitamente. A dor, quando ele fala, a voz sai baixa.
— Não tenho vergonha de você.
Aquilo me desmonta, porque não era a resposta que eu esperava, nem a que eu temia. Ele continua olhando para o chão.
— Tenho vergonha do que podem fazer comigo, do que podem fazer com você.
Nenhum de nós fala, porque não existe resposta simples para isso. Não numa cidade pequena, não naquele trabalho, não naquele mundo. O vento entra pela porta do galpão, levantando poeira, movendo papéis. Leandro ri, mas sem humor.
— Engraçado.
— O quê?
— Você acha que o difícil é desejar alguém – ele me olha – O difícil é sobreviver depois.
Voltamos para casa separados naquele dia, pela primeira vez em meses. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhum encontro. Só o silêncio e, pela primeira vez desde que tudo começou, eu tenho a sensação de que existe alguma coisa maior do que nós dois. Não é desejo, não é medo, não é amor, é o mundo. E o mundo finalmente percebeu que nós existimos.
Na tarde seguinte, quando chego ao galpão, encontro um bilhete escrito com marcador preto na minha mesa. Uma única frase, torta, mal escrita, cruel. E, naquele instante, eu entendo. Os boatos acabaram, agora começou a guerra.
O bilhete ficou sobre a minha mesa até o fim da tarde. Não porque eu quisesse, mas porque eu não sabia o que fazer com ele. Era um pedaço pequeno de papel, arrancado de algum bloco qualquer da empresa. Dobrado duas vezes, simples, anônimo. A frase, escrita em letra de forma torta, parecia ainda mais agressiva pela falta de criatividade:
“Leandro gosta de dar ou comer?”
Só isso. Nenhuma assinatura, nenhuma explicação, nenhuma coragem. Passei os dedos sobre o papel uma dúzia de vezes enquanto fingia organizar notas fiscais. O ar do escritório estava pesado naquele dia, o ventilador de teto girava lentamente, empurrando o cheiro de poeira, café e papel velho de um lado para o outro.
Durante o resto da tarde, tentei trabalhar. Tentei, a palavra talvez seja generosa demais. Os números na tela do computador já não eram números; eram desenhos pretos que meus olhos percorriam sem realmente enxergar. O telefone tocou várias vezes, respondi às ligações quase no automático, assinei documentos sem lembrar o conteúdo deles poucos segundos depois. Até o café, que normalmente chegava da cozinha forte o bastante para dominar o escritório inteiro, parecia ter perdido o cheiro.
O bilhete permanecia dobrado dentro da gaveta, eu sabia exatamente onde ele estava, como se o papel tivesse adquirido peso. Algumas frases conseguem isso, não importam as palavras que as compõem; importam as possibilidades que elas abrem. Ou destroem. Às vezes eu abria a gaveta apenas alguns centímetros, olhava para o papel amassado e a fechava novamente, como quem verifica se um pesadelo continua existindo. Continuava.
No fim do expediente encontrei Leandro perto da oficina. Ele estava sozinho, sentado na carroceria de um caminhão vazio, desmontando uma lanterna traseira com a concentração exagerada de quem precisava ocupar as mãos para impedir que a cabeça pensasse.
O rádio tocava uma moda sertaneja antiga em algum canto do galpão. O cheiro de óleo diesel misturado ao calor do cimento fazia o ar parecer mais pesado do que realmente era. Me aproximei devagar, ele levantou os olhos, sorriu. Foi um sorriso pequeno, tão pequeno que só existiu porque eu já conhecia o rosto dele de memória.
— Cê tá com uma cara péssima.
— Tenho um trem pra te mostrar.
Ele largou a chave de fenda ao lado da perna.
— Aconteceu alguma coisa?
Tirei o bilhete do bolso, sem dizer nada. Leandro pegou o papel, desdobrou, leu. Não houve explosão, não houve palavrão, não houve pergunta. O que houve foi pior, o corpo dele simplesmente parou. Os ombros endureceram, a respiração diminuiu.
O olhar perdeu aquele movimento inquieto que parecia acompanhá-lo o tempo todo. Era como assistir alguém escutar uma notícia antiga, uma notícia que apenas mudava de endereço. Demorou quase um minuto inteiro até ele dobrar novamente o papel, com um cuidado absurdo. Como se tocar demais naquelas palavras pudesse sujar seus dedos.
— Quem viu?
A pergunta saiu baixa, rouca.
— Não sei.
— Quem deixou isso?
— Também não sei.
Ele permaneceu olhando para o chão, depois sorriu. Mas havia uma diferença enorme entre aquele sorriso e todos os outros que eu conhecia. Não existia humor, só uma resignação amarga.
— Demorou mais do que eu imaginava.
— O quê?
Ele levantou os olhos.
— Isso.
Fez um gesto pequeno com o papel.
— Cidade pequena sempre descobre alguma história. A questão nunca foi "se". Sempre foi "quando".
Me sentei ao lado dele, a carroceria ainda guardava o calor do sol da tarde. Por alguns segundos nenhum de nós falou, o rádio mudou de música. Lá fora um caminhão deu partida, o motor grave atravessou o galpão inteiro antes de desaparecer estrada afora.
— Você tá com medo? — perguntei.
Leandro respirou fundo, demorou para responder.
— Não deles.
Olhou para as próprias mãos, as unhas ainda carregavam resíduos de graxa que nem sabão conseguia tirar completamente.
— Tenho medo de mim.
Aquilo me atingiu mais do que qualquer declaração de amor teria atingido. Porque era honesto, cru, sem enfeite.
— Eles fazem isso desde sempre.
— Isso o quê?
Ele deu de ombros.
— Escolhem alguém.
Ri sem vontade.
— Tá dizendo que isso é normal?
— Não. Tô dizendo que funciona.
No dia seguinte o galpão parecia diferente, não era algo visível, era percebido. As conversas diminuíam quando alguém passava, as pessoas olhavam rápido demais, ou demoravam demais. Os dois extremos costumam significar exatamente a mesma coisa. Sandra apareceu no escritório pouco depois das duas da tarde. Entrou segurando uma pasta azul de documentos, parou ao meu lado.
— Você viu o Leandro?
Balancei a cabeça.
— Ainda não.
Ela suspirou.
— Ele fez besteira.
Meu estômago enrijeceu.
— Que tipo de besteira?
Sandra fechou os olhos por um instante, como quem já estava cansada antes mesmo de começar a explicar.
— Brigou.
Descobri o resto aos pedaços, como sempre acontece nos ambientes de trabalho. Nunca existe uma versão, existem fragmentos. Segundo um motorista, Leandro acertou um soco em um dos rapazes da oficina. Segundo outro, foram dois. Um terceiro jurava que tinham sido três. Ninguém sabia o motivo, mas todo mundo parecia saber exatamente qual era.
Encontrei Leandro atrás do depósito, sentado sobre um pallet de madeira. O lábio inferior estava cortado, o nó dos dedos da mão direita apresentava pequenas feridas recentes. Ele observava um cachorro magro atravessar o terreno da empresa como se aquele fosse o acontecimento mais importante do dia. Me sentei ao lado dele, nenhum dos dois falou imediatamente. Foi ele quem rompeu o silêncio.
— Eu errei.
Olhei para o corte na boca.
— Bateu em alguém.
— Bati.
— Valeu a pena?
Ele sorriu de lado, dessa vez havia humor. Pouco, mas havia.
— Não.
— Então por que fez?
Leandro demorou tanto para responder que pensei que não responderia. Quando finalmente falou, a voz saiu quase num sussurro.
— Porque eu cansei de fingir que não escuto.
O vento levantou um redemoinho de poeira entre nós, as folhas secas riscaram o chão de cimento com um ruído fino. Foi então que uma motocicleta entrou pelo portão da empresa. Sandra saiu da recepção para receber alguém, alguns funcionários olharam discretamente na mesma direção.
Uma moça desceu da moto. Bonita, jeans escuro, tênis branco já um pouco gasto. O cabelo preso de qualquer jeito denunciava que ela jamais perdera tempo tentando parecer impecável. Ela tirou o capacete, passou os dedos pelos cabelos, e caminhou decidida até nós. Leandro fechou os olhos por um segundo, como quem reconhece uma tempestade antes da primeira gota.
— Ah... não...
Ela parou diante de nós, olhou primeiro para o machucado no rosto dele. Depois para mim, depois voltou para ele.
— Você continua resolvendo tudo com os punhos?
A voz não carregava raiva, carregava cansaço. Um cansaço íntimo, antigo. Leandro soltou um riso curto.
— Oi pra você também, Taís.
Ela ignorou a tentativa de humor, continuou olhando para ele por alguns segundos antes de finalmente voltar a atenção para mim. Seu sorriso era gentil, mas havia curiosidade por trás dele. Daquelas curiosidades perigosas.
— Tá tudo bem com você, Mateus?
Senti um desconforto difícil de explicar. Não era ciúme, ainda não. Era a estranha sensação de ter chegado ao meio de uma conversa iniciada muitos anos antes de eu existir nela. Taís percebeu, percebeu imediatamente. Sorriu de lado.
— Relaxa, eu não vim atrapalhar. Na verdade...
Ela olhou outra vez para Leandro.
— Eu acho que vocês dois já fizeram isso sozinhos.
Leandro passou a mão pelo rosto, pela primeira vez desde que o conheci, parecia genuinamente sem resposta. E foi naquele instante que compreendi uma coisa. Taís não conhecia apenas o Leandro de agora, ela conhecia o rapaz que ele tinha sido e, talvez, fosse justamente esse rapaz que ele passara anos tentando esconder de mim.
