Foi numa tarde de quinta-feira. Beraldo havia saído para uma reunião do presbitério. Daniel estava na faculdade. A casa estava vazia.
Natália e Sara terminaram de arrumar a cozinha mais cedo. Não havia mais nada para fazer. Sentaram-se na varanda dos fundos, uma de frente para a outra, com uma xícara de chá cada uma.
O sol da tarde começava a esfriar. O vento balançava as folhas da árvore perto do muro.
— Dona Natália — Sara começou, os dedos rodeando a borda da xícara - Posso te contar uma coisa?
— Pode.
— Sobre a advogada.
Natália ergueu os olhos. Não disse nada. Apenas esperou.
Sara respirou fundo.
— Ela se chamava Verônica. Conheci num bar. Eu tinha dezenove anos. Ela tinha trinta e dois. Era bonita. Usava terninhos de alfaiataria, perfumes caros. Chegava nos lugares e as pessoas olhavam.
Natália levou a xícara aos lábios. Não bebeu.
— No começo foi lindo — Sara continuou. — Ela me levava para jantares. Me dava presentes. Dizia que eu era a coisa mais preciosa da vida dela. Eu nunca tinha ouvido aquilo de ninguém. No início era amizade,gostava muito da companhia dela.Depois, a coisa foi ficando mais…sentimental.
— E você gostava dela? — perguntou Natália.
Sara demorou para responder.
— Passei a gostar. Foi algo crescente, gradativo,à medida que me sentia bem na presença dela.No início,ela era muito carinhosa,mas foi ficando meio pocessiva. Ela queria me controlar. Queria saber onde eu estava o tempo todo. Com quem eu falava. Se eu usava o celular, ela queria ver. Se eu usava uma roupa que ela não aprovava, ela dizia que eu estava querendo chamar atenção.
Natália colocou a xícara no chão.
— Com o tempo, foi piorando — Sara disse. — As discussões ficaram mais feias. Ela me chamava de ingrata. Dizia que eu não valorizava nada do que ela fazia por mim. Que sem ela eu não era ninguém.
— E você acreditava?
— Acreditava. Achava que o problema era eu. Que eu não sabia amar direito. Que eu estragava tudo.
Sara parou. Olhou para as próprias mãos.
— Até que um dia eu descobri que ela estava me traindo. Com a própria sócia do escritório.
Natália prendeu a respiração.
— Eu fiquei tão brava — Sara continuou. — Tão brava que não me reconheci. Quebrei um copo na parede. Gritei coisas horríveis. Ela também gritou. Foi uma briga feia. No final, ela me expulsou de casa. Jogou minhas roupas na escada do prédio. Eu fui embora com uma sacola e a Bíblia que uma senhora tinha me dado na rua semanas antes.Pior que eu nunca fui ciumenta assim.Me revoltei com ela porque eu percebia eu estava perdendo um lugar de conforto.
— Foi quando você procurou a igreja?
— Foi. Não tinha mais nada. Não tinha família que prestasse. Não tinha casa. Não tinha amor. Só tinha aquela Bíblia e um buraco no peito.
Sara enxugou os olhos com as costas da mão.
— Por isso que eu disse que aquela Sara morreu. Não é frase bonita. É verdade. A mulher que amou a Verônica era fraca. Era cega. Era idiota. Eu não quero ser mais aquela pessoa.
O vento soprou mais forte. As xícaras já estavam frias.
Natália ficou em silêncio por um longo tempo. Depois se inclinou para frente.
— Você não era idiota — disse. — Você era jovem. E ela era mais velha. Sabia o que estava fazendo.
Sara levantou os olhos. As lágrimas já tinham secado.
— A senhora acha?
— Tenho bem mais idade que você. Sei como a gente pode se perder quando alguém mais experiente resolve nos manipular.
Natália hesitou. Depois completou, mais baixo:
— Não que eu saiba por experiência própria. Mas imagino.
Sara olhou para ela. Algo naquele olhar atravessou Natália.
— A senhora nunca se perdeu, dona Natália?
Natália não respondeu imediatamente. Pegou a xícara fria, levantou-se.
— Vou fazer mais chá — disse. — Você quer?
Sara assentiu.
Enquanto Natália se afastava para a cozinha, Sara ficou olhando suas costas. A saia abaixo do joelho balançando. O cabelo preso no mesmo grampo de sempre.
Ela pensou em Verônica. Pensou em como Natália era diferente. Mais quieta. Mais cuidadosa. Mais… verdadeira.
Natália voltou com o bule. Serviu as duas xícaras. Sentou-se novamente.
— Eu nunca contei isso para ninguém daqui — disse Sara. — A senhora é a primeira.
— Por que contou para mim?
Sara pensou.
— Porque a senhora não me olha com nojo. A senhora me olha como se eu fosse normal.
Natália baixou os olhos para o chá.
— Você é normal — disse.
O sol já estava quase se pondo. A luz alaranjada entrava pelos fundos da casa.
Ficaram em silêncio. O vento. As folhas. As xícaras quentes entre as mãos.
Nenhuma das duas disse mais nada sobre Verônica naquela tarde.
Natália dormiu cedo naquela noite. Beraldo ainda lia na sala. O quarto estava escuro, apenas o vão da porta deixando entrar uma tira de luz.
Ela sonhou.
Não se lembrava de ter começado a sonhar. Apenas estava lá.
No sonho, era dia. Uma luz dourada, como a da tarde na varanda dos fundos. Sara estava na cozinha, mas a cozinha era diferente. Maior. Mais silenciosa. Não havia barulho de panela, de água, de nada.
Sara usava uma camisola branca, fina, alças finas, o cabelo solto caindo sobre os ombros. Estava de costas, mexendo em algo no balcão.
Natália se aproximou.
— Sara — chamou.
Sara se virou. Seu rosto estava mais próximo do que Natália esperava. Os olhos escuros brilhavam. A boca estava levemente aberta, como se fosse dizer alguma coisa.
Mas não disse nada.
Em vez disso, ergueu a mão e tocou o rosto de Natália. A ponta dos dedos percorreu sua testa, sua têmpora, descendo lentamente pela bochecha.
No sonho, Natália não se afastou. Não disse não. Não pensou em Beraldo, em Daniel, na igreja, em nada.
Apenas sentiu.
Sara inclinou o rosto. Os lábios dela encostaram nos lábios de Natália. Foi suave. Um toque de pétala. Depois mais firme.
A mão de Sara desceu pelo pescoço de Natália. Os dedos percorreram a curva do ombro, descendo pelo braço até encontrar a mão. Entrelaçaram os dedos.
Natália sentiu o corpo inteiro responder. Um calor que começava no peito e descia. Uma umidade entre as pernas. Um aperto no estômago.
Sara a puxou para mais perto. Os corpos se encostaram. Natália sentiu os seios de Sara contra os seus, a barriga contra a barriga, as coxas se tocando.
— Natália — Sara sussurrou no sonho. Não "dona Natália". Apenas Natália.
Natália abriu a boca para responder.
E acordou.
O quarto estava escuro. A tira de luz da porta havia sumido — Beraldo já tinha apagado a luz da sala e vindo dormir. Ele estava ao seu lado, de costas, roncando baixo.
Natália estava ofegante. O coração batia tão rápido que doía. A camisola estava grudada no corpo de suor. E entre as pernas, uma sensação molhada, pulsante, que ela conhecia mas não sentia há muito, muito tempo.
Ela se sentou na cama. Levou a mão ao peito. O coração não queria desacelerar.
Fechou os olhos. A imagem de Sara na cozinha, a camisola branca, os lábios se aproximando, veio imediatamente. Ela os abriu de novo. Ofegante.
— Não — sussurrou no escuro. — Não, não, não.
Levantou-se. Foi até o banheiro. Fechou a porta. Não acendeu a luz.
Apoiou as mãos na pia. Olhou para o próprio reflexo no espelho escuro, apenas um vulto.
A sensação entre as pernas não passava. Pelo contrário. Ficava mais forte a cada batida do coração.
Natália encostou a testa no espelho. O vidro frio contra a pele quente.
— O que está acontecendo comigo? — murmurou.
Nenhuma resposta veio.
Ela ficou ali por muito tempo. A respiração foi se acalmando aos poucos. O corpo foi se aquietando. A umidade entre as pernas permaneceu.
Finalmente, voltou para a cama. Deitou de lado, de frente para a parede. As costas viradas para Beraldo.
Fechou os olhos. O rosto de Sara apareceu outra vez. Ela os abriu.
Passou o resto da noite assim. Alternando entre fechar e abrir os olhos. Entre a imagem que vinha e o esforço para afastá-la.
Quando o sol finalmente nasceu, Natália estava exausta. Mas ainda sentia.
Nos dias seguintes, Natália não conseguia se olhar no espelho.
O sonho não saía da sua cabeça. Estava ali o tempo todo: enquanto ela coava o café, enquanto arrumava a cama, enquanto sentava no banco da igreja ao lado de Beraldo.
Os pensamentos vinham sem aviso.
Sara descendo para pegar algo no chão, a blusa abrindo um pouco na altura do peito. Sara rindo, a cabeça jogada para trás, a curva do pescoço exposta. Sara molhando os lábios com a língua antes de falar.
Coisas normais. Coisas que Natália jamais teria notado antes.
Agora cada gesto de Sara virava um anzol fisgado na sua carne.
Ela tentava lutar. Quando o pensamento vinha, apertava os olhos com força e repetia versículos mentalmente.
"Foge das paixões da mocidade."
"Tudo o que é verdadeiro, puro, amável, nisso pensai."
Não funcionava. Os versículos se misturavam com a imagem do rosto de Sara se aproximando, a camisola branca, os dedos entrelaçados.
Natália passou a evitar o contato físico. Quando Sara chegava perto, ela dava um passo para trás. Quando Sara estendia a mão para pegar alguma coisa perto dela, Natália se afastava.
Sara percebeu.
No terceiro dia, aconteceu na cozinha. Natália estava no fogão, mexendo o arroz. Sara veio até o fogão para temperar o feijão. Seu braço encostou no ombro de Natália.
Natália saltou como se tivesse levado uma choque.
— Dona Natália? — Sara franziu a testa. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Estou bem.
— A senhora não está bem. A senhora está estranha há dias.
Natália não respondeu. Apertou a colher de pau com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Sara desligou o fogo. Virou-se de frente para Natália.
— A senhora está me evitando — disse. Não era uma pergunta. — O que foi que eu fiz?
— Você não fez nada.
— Então o quê? Foi o que eu contei sobre a Verônica? A senhora está com nojo de mim agora?
— Não! — A palavra saiu mais alta do que Natália queria. Ela se controlou. Mais baixo, repetiu: — Não. Não é isso.
— Então me diga o que é.
Natália olhou para os olhos de Sara. Escuros. Preocupados. Honestos.
Ela quis dizer. Abriu a boca. A confissão estava na ponta da língua.
— Eu… — começou.
O celular de Sara tocou.
Natália largou a colher de pau como se queimasse.
— Atende — disse, virando as costas. — Pode ser importante.
Sara ficou parada por um segundo. Depois foi atender.
Natália apoiou as mãos no balcão. A cabeça baixa. A respiração presa.
Quando Sara voltou,
- Era Daniel quem estava ligando. Marquei de sair com ele mais tarde,ele queria confirmar o horário.
Sara guardou o celular. Olhou para Natália, que ainda estava de costas.
— Dona Natália — disse, com uma voz mais calma. — A senhora não precisa me contar agora. Mas quando a senhora precisar, eu estou aqui.
Natália não se virou. Apenas concordou com a cabeça, uma vez.
Sara suspirou. Voltou a temperar o feijão.
O resto da tarde foi em silêncio. Um silêncio pesado, cheio de coisas não ditas.
À noite, no quarto, Natália deitou-se na cama. Beraldo veio beijá-la na testa antes de dormir.
— Você está nervosa, amor? — perguntou.
— Um pouco — respondeu.
— Vamos orar.
Natália fechou os olhos enquanto Beraldo orava. Pedia paz para o lar. Pedia proteção. Pedia que Deus guardasse os pensamentos de todos.
No "amém", Natália repetiu com os lábios. Mas dentro dela, a imagem de Sara continuava.
Ela virou para o lado. Puxou o lençol até o queixo.
A luta continuaria.
Era noite. Beraldo estava na sala vendo um programa na televisão. Daniel tinha saído com amigos da faculdade. O jantar havia terminado há uma hora.
Natália percebeu que deixara o pano de prato na edícula. Ou talvez não. Talvez estivesse procurando uma desculpa. Ela mesma não sabia mais.
Foi até os fundos da casa. A edícula estava com a luz acesa. A porta estava fechada,mas as cortunas da janela deixavam uma nesga de luz.
Natália ia bater na porta. A mão já estava erguida.
Então ela ouviu.
Um gemido. Baixo. Abafado.
Natália congelou. Seu coração deu um salto. Ela sabia que não devia olhar. Sabia. Mas o corpo não obedeceu. Foi até a janela.
Inclinou-se ligeiramente Olhou pela fresta que restava,deixada pela cortina mal fechada.
Sara estava deitada na cama. A camisola estava levantada acima da cintura. A mão direita estava entre as pernas, movendo-se num ritmo rápido e contínuo. A cabeça jogada para trás. Os olhos fechados. A boca aberta.
— Ai,Natália,tesuda…não faz isso... — ela gemeu. Não "dona Natália". Apenas Natália. — Natália…
Natália recuou como se tivesse levado um tiro no peito.
Levou a mão à boca para não gritar. Afastou-se da porta em passos silenciosos, os pés descalços quase não tocando o chão. Subiu os degraus dos fundos. Entrou na casa. Passou pela sala sem que Beraldo notasse — ele estava com os olhos fixos na televisão.
Entrou no quarto. Fechou a porta. Trancou.
Apoiou-se na porta. As pernas fraquejaram. Deslizou pelo chão até sentar-se no tapete ao lado da cama.
O choro veio como uma onda.
Não foi um choro bonito. Foi feio. Foi soluçado. Foi baboso. Natália colocou as duas mãos sobre o rosto e deixou sair tudo o que estava preso há dias, semanas, talvez anos.
Os soluços sacudiam o corpo inteiro. As lágrimas escorriam entre os dedos. Ela tremia.
— Meu Deus — sussurrava entre um soluço e outro. — Meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Não sabia se estava orando ou apenas repetindo as únicas palavras que restavam.
Ficou ali por muito tempo. O tapete ficou molhado debaixo dela. O rosto ardia. O peito doía.
As imagens se repetiam na sua cabeça. Sara na cama. A mão entre as pernas. A boca aberta. O nome.
Natália.
Ela apertou os olhos com força. As imagens não iam embora.
Natália.
— O que eu fiz? — perguntou em voz alta para o quarto vazio. — O que eu fiz para merecer isso?
Mas no fundo, ela sabia. Não era sobre merecer. Era sobre sentir. E ela sentia. Esse era o problema.
Sentia um calor que não conseguia apagar. Sentia um desejo que o sonho tinha despertado e que agora a realidade só alimentava.
Ela levantou-se cambaleando. Foi até o banheiro. Molhou o rosto. Olhou-se no espelho. Os olhos vermelhos, o nariz inchado, a pele manchada de choro.
— Você é casada — disse para o próprio reflexo. — Com um pastor. Você é mãe. Você é evangélica. Você não pode sentir isso. Você não pode.
O reflexo não respondeu.
Ela voltou para o quarto. Deitou-se na cama. Encolheu-se como um bicho ferido. Puxou o travesseiro e abraçou contra o peito.
Não conseguia parar de pensar em Sara. Na mão de Sara. Nos lábios de Sara pronunciando o seu nome.
O choro voltou. Mais baixo agora. Mais cansado.
Quando Beraldo entrou no quarto, uma hora depois, Natália fingiu que estava dormindo. Ele apagou a luz. Deitou-se ao lado dela.
— Boa noite, amor — disse.
Natália não respondeu. As lágrimas secas grudavam em seu rosto.
Ela ficou acordada até muito tarde. Pensando. Aflita. Preocupada.
Não sabia o que fazer.
Não sabia o que sentir.
Não sabia mais quem ela era.