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De Mulher Exemplar Para Um Exemplo de Mulher parte II

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Um conto erótico de Carvuna Editoria
Categoria: Lésbicas
Contém 2661 palavras
Data: 23/06/2026 10:32:16
🤖 Texto produzido com auxílio de inteligência artificial

Na manhã seguinte, Natália acordou com a decisão tomada.

Tomou café em silêncio. Beraldo leu o devocional em voz alta, como fazia todos os dias. Daniel apareceu de camisa passada, pegou um pão e saiu correndo para a faculdade.

— A Sara vai ajudar na limpeza hoje? — perguntou Beraldo, já com o paletó no braço.

— Vai — respondeu Natália. — Ela vem depois do café.

Beraldo a beijou no alto da cabeça e saiu.

Natália lavou a louça. Secou as mãos no pano de prato. Arrumou o cabelo no espelho do corredor. Respirou fundo.

Foi até os fundos da casa.

A edícula tinha a porta entreaberta. Natália bateu com os nós dos dedos na madeira.

— Sara?

— Um minutinho, dona Natália!

Houve um barulho de pés no chão, uma gaveta fechando. Sara abriu a porta. Estava com o cabelo solto e uma camisola fina de alça. O sol das oito horas entrava pelas costas dela, iluminando seus ombros nus. Ela sorriu, piscando contra a claridade.

— A senhora precisa de mim? Já vou me trocar e vou pra cozinha.

— Preciso conversar com você — disse Natália. A voz saiu mais firme do que ela esperava. — Agora. Aqui.

O sorriso de Sara desapareceu devagar, como se fosse recolhido. Ela afastou o corpo para deixar Natália entrar.

— Pode sentar na cama — ofereceu. Sentou-se ela mesma na beirada, as mãos sobre os joelhos.

Natália entrou. Fechou a porta atrás de si. Sentou-se na cadeira de plástico branca ao lado da cama.

A edícula era pequena. Dava para ver tudo de onde estava: a Bíblia aberta sobre a mesa, o batom sobre a Bíblia, uma calça jeans dobrada em cima da mala. O ar tinha cheiro de sabonete barato e cabelo úmido.

Natália olhou nos olhos de Sara.

— Eu soube de uma coisa sobre você. Não sei se é verdade. Por isso estou aqui.

Sara piscou algumas vezes. Seus dedos apertaram os joelhos por baixo da camisola.

— O quê, dona Natália?

— Que antes de se converter, você namorou com uma advogada. Que moraram juntas. Que o término foi feio.

O silêncio que veio em seguida foi grosso, quase sólido.

Sara desviou o olhar. Olhou para a Bíblia fechada. Olhou para a própria mão. Depois voltou para Natália.

— É verdade — disse. A voz saiu baixa, mas limpa. Não tremeu. — É tudo verdade.

Natália prendeu a respiração sem querer.

— Por que não contou?

— Porque ninguém perguntou — Sara respirou fundo. — Porque eu me arrependi. Porque eu vim pra igreja pra começar de novo. O que eu fiz antes… isso não existe mais. Aquela Sara morreu. É o que quero acreditar,me reconstruir.

— Você não achou que Daniel merecia saber?

Sara baixou a cabeça. O cabelo caiu sobre o rosto.

— Eu ia contar. Ia. Quando tivesse coragem. Toda noite eu ensaiava. De manhã eu hesitava. Fui covarde, dona Natália. A senhora tem razão de estar brava.

— Eu não estou brava — disse Natália. E era verdade,não havia mágoa ali.

Levantou-se da cadeira. Não sabia direito o que fazer com o corpo agora que estava em pé. Olhou para Sara, que continuava sentada na cama, os cabelos cobrindo o rosto, os ombros nus tremendo levemente.

— Levanta — disse Natália.

Sara levantou.

Ficaram as duas em pé dentro da edícula pequena, uma de frente para a outra. Natália olhava para o rosto de Sara. Havia lágrimas nos olhos dela, mas nenhuma tinha caído ainda.

— Eu não vou contar para ninguém — disse Natália. — Por enquanto. Mas você vai contar para Daniel. Você mesma. Hoje.

Sara assentiu.

— Vou. Prometo.

Natália virou-se para sair. A mão já na maçaneta quando Sara falou:

— Dona Natália?

Ela parou.

— Obrigada por não ter me julgado antes de me ouvir.

Natália não respondeu. Abriu a porta e saiu. O sol da manhã bateu no seu rosto. Ela levou a mão aos olhos.

Na cozinha, abriu a geladeira. Tirou os legumes para o almoço.

Sara chegou dez minutos depois, vestida, cabelo preso, olhos ainda úmidos mas firmes.

Pegaram as facas. Começaram a cortar.

Nenhuma das duas disse mais nada sobre o assunto naquela manhã.

Naquela noite, depois do jantar, Sara pediu que Daniel a acompanhasse até a edícula.

— Preciso te contar uma coisa — disse. A voz estava diferente. Daniel percebeu.

Foram. Sentaram-se na cama. A mesma cama onde Natália estivera sentada na cadeira branca horas antes.

Daniel esperou.

Sara ficou em silêncio por quase um minuto. Os dedos enrolavam a barra da blusa.

— Antes de eu me converter — ela começou, devagar —, eu tive uma vida. Uma vida que eu não contei pra você.

Daniel inclinou a cabeça.

— Todo mundo tem um passado, Sara. Eu também.

— Não é qualquer passado. É um que a igreja… que seu pai…

Ela parou. Respirou.

— Eu namorei uma mulher. Uma advogada. Moramos juntas quase dois anos.

As palavras ficaram no ar da edícula. O vento lá fora balançava as folhas da árvore perto da janela.

Daniel não falou nada.

— O término foi muito feio — continuou Sara, os olhos agora fixos nas próprias mãos. — Bater de porta, confusão, briga feia. Ela começou a ter ataques de ciúme, ficou possesiva com o tempo.Foi depois disso que eu procurei a igreja. Foi depois disso que eu quis mudar. Eu não te contei antes porque tive medo. Medo de você me olhar diferente. Medo de você não me querer mais.

Ela ergueu os olhos.

— Mas a sua mãe soube. Alguém contou pra ela. Ela veio falar comigo hoje de manhã. E ela disse que eu precisava te contar. Ela me deu um dia. Eu estou te contando agora.

Daniel continuou em silêncio. O rosto dele não mostrava raiva. Não mostrava nojo. Não mostrava nada que Sara conseguisse ler.

— Fala alguma coisa, por favor — pediu ela.

Daniel coçou a nuca. Olhou para a Bíblia em cima da mesa. Olhou para o batom ao lado da Bíblia. Olhou para Sara.

— Você gosta de mim? — perguntou.

— O quê? Claro que gosto.

— Você gosta de mim ou você gosta de ter um homem pra mostrar que mudou?

Sara abriu a boca. Fechou. Os olhos encheram d'água.

— Eu gosto de você, Daniel. Só de você. O que eu tive com ela… acabou. Morreu. Eu sou outra pessoa agora. Eu sempre gostei de meninos,o que tive com ela foi acidental,ela me deu teto quando as coisas em casa estavam se deteriorando,tenho uma família complicada,e você sabe disso. Eu queria fugir, ela me deu espaço,e com o tempo fui me adaptando e gostando do afeto, um afeto que nunca tive.

Daniel respirou fundo.

— Eu não sei o que sentir — disse. — Não é todo dia que a gente descobre uma coisa dessas.

— Eu sei.

— Eu não vou terminar com você agora. Mas eu também não vou fingir que não doeu.

Sara apertou as mãos nos joelhos.

— O que você quer fazer?

Daniel se levantou.

— Eu quero refletir. Pensar. Dormir. A gente conversa amanhã.

Ele foi até a porta. Parou. Sem se virar, disse:

— Obrigado por ter contado.

E saiu.

Sara ficou sentada na cama. As lágrimas que estavam nos olhos desde o começo finalmente desceram.

Lá dentro da casa, Natália estava na cozinha guardando a louça do jantar. Viu Daniel passar pelo corredor, o rosto fechado, e entrar no quarto batendo a porta.

Ela parou de guardar os pratos. Ficou imóvel, um pano na mão.

Olhou pela janela escura em direção à edícula.

Não foi até lá. Não chamou ninguém. Apenas ficou parada na cozinha, no meio da noite, ouvindo o silêncio.

Na manhã seguinte, Daniel acordou cedo. Tomou café sozinho. Natália estava na varanda dos fundos, varrendo as folhas secas. Beraldo já tinha saído para uma visita pastoral.

Daniel terminou o café, lavou a xícara e foi até a edícula.

Bateu na porta.

— Sou eu.

Sara abriu. Estava com a mesma camisola da véspera, o cabelo preso de qualquer jeito. Os olhos estavam inchados. Não dormiu.

— Pode entrar — disse.

Daniel entrou. Dessa vez não sentou na cama. Ficou em pé, encostado na parede. Sara sentou-se na cadeira branca.

— Pensei a noite toda — disse Daniel.

Sara esperou.

— Eu fiquei com raiva. Não de você. De ter descoberto assim. De não ter sido você a me contar antes. Mas aí fiquei pensando também se eu teria contado alguma coisa difícil do meu passado, se fosse o contrário. Se eu teria coragem.

Sara não falou nada.

— Eu gosto muito de você, Sara. Muito mesmo. Mais do que gostei de qualquer outra pessoa.

Ele passou a mão no rosto.

— Então eu decidi. Vou continuar com você.

Sara soltou o ar que estava segurando sem perceber.

— Você tem certeza?

— Tenho. Mas você precisa saber de uma coisa. Se a gente continuar, não pode ter mais segredo. Nada. Se tiver mais alguma coisa do seu passado que eu precise saber, é agora.

— Não tem. Juro por Deus que não tem. Você sabe tudo. O pior você já sabe.

Daniel assentiu.

— Então tá. A gente continua.

Sara levantou da cadeira. Foi até ele. Abraçou forte. Enterrou o rosto no peito dele. Daniel colocou as mãos nas costas dela. Ficaram assim por um longo tempo.

Lá dentro da casa, Natália varria a cozinha. Olhou pela janela e viu os dois abraçados na porta da edícula.

Parou de varrer.

O coração deu uma volta dentro do peito. Não era alívio. Não era tristeza. Era alguma outra coisa que ela não sabia nomear.

Voltou a varrer. Mais devagar.

Mais tarde, Sara entrou na cozinha para ajudar no almoço. Seus olhos estavam vermelhos, mas havia um sorriso pequeno no canto da boca.

— O Daniel falou contigo — disse Natália, sem perguntar.

— Falou — respondeu Sara. — A gente vai continuar.

Natália cortou a cebola. Os olhos começaram a arder. Ou era a cebola.

— Que bom — disse.

Sara aproximou-se da pia. Lavou os tomates. Por um momento, as duas ficaram lado a lado, ombros quase se tocando.

— Dona Natália?

— Hum?

— A senhora me ajudou muito. Mesmo. Obrigada.

Natália não respondeu. Apenas continuou cortando a cebola.

Mas por um segundo, antes de piscar, ela sentiu o calor do braço de Sara perto do seu. Um calor que não vinha do fogão.

Piscou. O momento passou.

— Passa o sal — pediu.

Sara passou.

Os dias se passaram. Sara continuou morando na edícula. Continuou ajudando Natália nas tarefas da casa. Mas agora havia algo diferente.

Sara chegava mais cedo. Natália passou a preparar café para duas. Sentavam-se à mesa da cozinha antes que o resto da casa acordasse.

— A senhora dormiu bem? — perguntava Sara.

— Mais ou menos — Natália respondia. E contava. Sobre o sono que não vinha. Sobre o barulho da rua. Sobre o joelho que doía quando o tempo ia mudar.

Coisas pequenas. Coisas que ela nunca contava para ninguém.

Sara escutava. Não dava conselhos. Não citava versículos. Apenas escutava, com a xícara entre as mãos, os olhos fixos no rosto de Natália.

Certa manhã, Natália estava passando roupa na sala. Sara apareceu com um cesto de roupas dobradas.

— A senhora quer que eu passe também? Sei passar.

— Sabe?

— Minha mãe me ensinou. Faz tempo, mas não esqueci.

Natália entregou o ferro. Sentou-se no sofá. Ficou olhando Sara passar as camisas de Beraldo. O movimento cuidadoso. A mão firme alisando o tecido. A expressão séria, concentrada.

— Você faz bem — disse Natália.

Sara sorriu sem tirar os olhos da tábua.

— A senhora me ensinou a dobrar do jeito certo. Eu só estou retribuindo.

Natália ficou em silêncio. Mas não saiu da sala. Ficou lá, vendo Sara trabalhar. A luz da manhã entrava pela janela. O som do ferro chiando no tecido. O cheiro de roupa limpa.

Ela gostava de olhar.

Não sabia explicar. Não tentava explicar. Apenas gostava.

Outro dia, Natália cortou o dedo na cozinha. Um corte pequeno, mas que sangrou mais do que devia.

— Deixa eu ver — Sara pegou a mão de Natália antes que ela pudesse recusar. Levou até a pia. Lavou com água corrente. Enrolou um pedaço de gaze em volta do dedo. Fez um nó cuidadoso.

Durante todo o tempo, Natália ficou imóvel. Sentia os dedos de Sara tocando os seus. A pele quente. A pressão leve.

— Pronto — disse Sara, soltando a mão.

Natália puxou a mão de volta devagar. Guardou os dedos dentro do punho fechado.

— Obrigada — disse. A voz saiu um pouco rouca.

Sara já estava lavando a faca que causou o corte. Não olhou para trás.

Naquela noite, Natália demorou mais tempo no banho. Passou as mãos pelo próprio braço. Pelo próprio ombro. Pensou em nada. Pensou em tudo.

Ao sair, vestiu o pijama e foi para a cama. Beraldo já dormia.

Deitou de lado. Encolheu os joelhos. Abraçou o travesseiro.

Fechou os olhos.

Antes de dormir, viu o rosto de Sara. Os olhos escuros. A boca entreaberta quando se concentrava.

Virou-se para o outro lado. O ronco de Beraldo preenchia o quarto.

— Senhor — sussurrou outra vez, sem saber o que estava pedindo.

O sono veio. Não respondeu.

As semanas se transformaram em dois meses. Algo mudou na rotina da casa.

Natália passou a sorrir mais. Beraldo notou.

— Você está diferente — disse ele certa manhã, enquanto ela colocava o café na mesa. — Mais leve.

Natália apenas deu de ombros.

— O tempo está bom.

Não era o tempo.

Sara agora chegava na cozinha sem bater. Abria a geladeira sozinha. Sabia onde ficavam os pratos, as panelas, os temperos. Não perguntava mais o que precisava ser feito. Simplesmente fazia.

— A senhora hoje vai descansar — disse Sara numa tarde, tirando a vassoura das mãos de Natália. — Eu varro. A senhora senta.

Natália sentou. Viu Sara varrer a cozinha, o corpo curvando-se para alcançar debaixo da mesa, os quadris balançando no ritmo da vassoura.

— Você é teimosa — disse Natália, sorrindo.

— Aprendi com a senhora — respondeu Sara, sem parar de varrer.

Natália riu. Um riso solto, que ecoou pelos azulejos. Fazia tempo que ela não ria assim.

Daniel passou a notar também.

— Mãe, você não para de sorrir — disse ele no jantar.

— Estou feliz que meu filho está feliz — respondeu ela, lançando um olhar rápido para Sara.

Sara estava à sua direita. Sorriu também. Os dentes brancos, os lábios sem batom, a pele limpa.

Sob a mesa, sem querer ou talvez querendo, os joelhos de Natália e Sara se tocaram. Ambas se mexeram ao mesmo tempo, afastando-se. Nenhuma das duas olhou para a outra.

Mas Natália sentiu o lugar onde os joelhos haviam se encostado. Uma mancha quente que demorou a passar.

Depois do jantar, Sara ajudou a lavar a louça. Natália secava os pratos.

— Dona Natália — Sara falou baixo, enquanto o som da água corria.

— Diga.

— A senhora é a pessoa mais boa que eu já conheci.

Natália parou de secar.

— Não sou boa coisa nenhuma — disse. Mas estava sorrindo.

— É sim. A senhora me acolheu. Não me julgou. Me deu um lugar para ficar. Me deu… — Sara hesitou, os olhos nos pratos molhados — …me deu amizade.

Natália ficou em silêncio. Depois estendeu a mão e tocou no braço de Sara. Apenas um segundo. Apenas um toque.

— Você também me deu coisas — disse. Não especificou o quê.

Sara olhou para o ponto onde a mão de Natália tinha estado. Seu rosto corou ligeiramente.

Terminaram a louça em silêncio. Um silêncio confortável. Um silêncio que quase falava.

Mais tarde, Natália foi até o quintal para estender uma toalha. Sara estava sentada no degrau da edícula, olhando o céu.

— Quer companhia? — perguntou Natália.

— Quero.

Natália sentou-se ao lado dela. Os ombros quase se tocando.

O céu estava estrelado. O vento soprava morno.

— Eu gosto de ficar aqui — disse Sara. — Ouvindo os grilos. Sentindo o cheiro das plantas.

— Eu também — disse Natália. E pensou: gosto de ficar com você.

Não disse. Mas o pensamento ficou.

Quando se levantou para voltar para dentro, Natália passou a mão nos cabelos de Sara. Um gesto rápido, como se fosse uma mãe.

Sara fechou os olhos por um segundo.

— Boa noite, dona Natália.

— Boa noite, Sara.

Dentro do quarto, Beraldo já dormia. Natália deitou-se ao lado dele. Ficou olhando o teto.

O lugar onde seus dedos tocaram os cabelos de Sara ainda ardia.

Ela sorriu no escuro.

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