Sentados numa sala da delegacia, Nogueira interroga Geraldo que treme e ofega:
- Então vocês dois encontraram o corpo juntos invadindo uma residência?
- Sim! Quer dizer, o nosso... O meu! O meu impulso foi ajudar. Eu ouvi um tiro e depois vi um cara sair correndo, eu só quis ajudar. E o Hiran, coitado, ele tava tentando me impedir, me proteger. Eu devia ter ouvido ele, agora eu trouxe ele pra essa bagunça. Como ele tá? Libera ele, a culpa é toda minha!
- Foco. Você viu um cara sair correndo?
- Sim, sim! Ele deve ser o assassino, tinha um capuz amarelo.
- O que mais você lembra desse cara? Algum outro detalhe?
- Foi muito rápido e tava chovendo, ele era alto e usava uma blusa de frio com capuz amarelo, infelizmente é tudo o que eu lembro.
- Você disse que estava com raiva de Tadeu por ele ter deixado você na chuva e eu te encontro próximo ao corpo morto dele. Você tem que concordar que as possibilidades apontam muito contra você.
- Eu não fiz nada, o senhor precisa acreditar em mim.
- Eu preciso descobrir a verdade. Você está liberado, porém saiba que a investigação está apenas começando e você pode ser convocado a depor novamente a qualquer momento. Colaborar com a polícia é sempre interessante.
Num surto de desespero, Geraldo passa a sua perna na perna de Nogueira e diz:
- Eu faço o que você quiser. - Geraldo parecia menos desesperado e mais em controle de si com seu olhar firme buscando alguma reação favorável de Nogueira.
- Pode ir em bora. – seco, Nogueira aponta a porta. Geraldo desvia o olhar refletindo se havia piorado a sua situação. Hesita e obedece saindo da sala.
Nogueira está de pau duro.
***
Geraldo encontra Hiran no corredor e logo dispara:
- E aí? Como foi?
- Tá tudo bem, eu só falei a verdade: a gente não fez nada.
- Não fizemos, mas eu tô preocupado, eu acho que eu...
- Você o quê?
- Esquece. Eu tô muito cansado, preciso ir em bora. E você? Como você tá? Me desculpa por ter te metido nisso.
- Geraldo, eu te segui porque eu quis, você não me obrigou.
- Se eu não tivesse sido tão infantil, a gente não estaria aqui agora.
- É, e você provavelmente nunca mais ia falar comigo.
- Sério mesmo que você vai me cantar aqui e agora? – Geraldo solta um sorriso forçado.
- Desculpa, eu tô tentando melhorar o clima, a gente passou por algo muito louco. O som do tiro, o corpo do Tadeu ainda estão em loop na minha mente.
- Vamos precisar de muita terapia pra superar o dia de hoje. – Geraldo suspira, observa Hiran - Obrigado, você é muito mais legal do que eu imaginava.
- Vamos em bora? Vou chamar um Uber pra gente.
***
Um policial traz um relatório pra Nogueira em sua sala:
- Nogueira, sabia que um dos seus suspeitos já cumpriu pena por homicídio?
- E esse caso fica ainda mais interessante... Qual dos dois?
***
Geraldo entra no apartamento de Hiran:
- Valeu por me deixar ficar aqui, não tô legal pra ficar em casa sozinho.
- Que isso. Eu também moro só e nesse momento não tô podendo dispensar companhia. Quer tomar banho?
- Quero sim. – Hiran traz uma toalha, entrega pra Geraldo que segue – Você conhecia o Tadeu?
- Não. Por quê?
- Sei lá, de repente a vida de nós três se emaranhou, três estranhos pelo visto. – Geraldo se despe no banheiro e liga o chuveiro. Hiran olha sua bela bunda e logo desvia o olhar.
- Pois é. Eu só queria transar e agora não sei quando vou sentir tesão de novo.
- Te entendo. Sabe, a gente tem que se ajudar, descobrir por conta própria, eu não confio na polícia.
- Por que não? Se a gente não contar com a polícia, a gente vai contar com quem?
- Esse detetive Nogueira não me passou confiança, ele tá convencido de que fomos nós.
- É impressão sua, esse é o trabalho deles. Acho que a sua proatividade já enfiou a gente em cilada demais, concorda?
- Tem razão, vou ficar na minha. Mas quem é o Tadeu? O que mais você sabe sobre ele?
- Já disse que nada. Só o que o perfil dele no Grindr dizia: Passivo ortodoxo, afim de tudo.
- Eu tenho uma teoria sobre pessoas dispostas a tudo. – Geraldo desliga o chuveiro.
- Qual?
- Elas perderam o controle e desistiram de recuperá-lo. – diz saindo do banheiro.
- Não sei se entendi. Você acha que ele já esperava a própria morte?
- Talvez, sabe quando tudo ao seu redor começa a dar tão errado que você apenas espera pelo pior? Você sente vindo, cada vez mais próximo. Você sabe que vai chegar, é inevitável.
- E você conseguiu deixar o clima entre nós ainda mais pesado.
- Desculpe, vou ficar quieto pelo resto da noite.
- Não foi o que eu quis dizer.
- Eu prefiro.
Hiran entra para o banho e Geraldo se deita ainda de toalha. Pensa em Tadeu, tenta entender o que aconteceu com ele, quem fez, por que fez? Procura algum outro álibi. Logo lembranças de um passado distante voltam à sua cabeça, lembra de quando...
- Posso apagar a luz? – Hiran com cheiro bom de sabonete o faz emergir de seus pensamentos.
- Pode sim.
- Boa noite. - Hiran ajeita um colchão no chão.
- Ei. Me abraça?
Hiran deita na cama e envolve Geraldo numa conchinha.
***
Nogueira sai da delegacia cansado depois do dia que teve. Entra em seu carro e dá partida. Um homem de bicicleta que estava o observando do outro lado da rua o segue.
Depois de uns cinco minutos em movimento, Nogueira estaciona, sai do carro com outra camisa e boné e adentra um estabelecimento escuro iluminado por um letreiro laranja néon escrito Dédavos.
O homem que o seguiu sorri surpreso e murmura:
- Por essa eu não esperava.
Estaciona a bicicleta e vai até o estabelecimento. Apresenta documento de identidade e vai até o caixa:
- Oi! Meu nome tá na lista.
- E qual é o nome?
- Você deve ser novo... – se aproxima do microfone – Geraldo. Geraldo Almeida.
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