André passou o domingo inteiro sem responder ninguém.
A mensagem de Rafael ficou na tela como uma coisa mal fechada.
RAFAEL:
Eu devia ter esperado.
A de Caio, logo abaixo, parecia rir dela.
CAIO:
Você beija como quem quer resposta ou como quem quer problema?
André abriu uma, depois a outra. Leu, releu, apagou respostas que não enviou. Para Rafael, quase escreveu: esperar o quê? Para Caio, quase escreveu: você quer descobrir? Mas as duas respostas pareciam convites, e naquele domingo André não queria convidar ninguém para nada. Queria apenas entender como uma pelada de sábado tinha se transformado numa segunda vida.
A mochila ficou fechada no canto do quarto até o fim da tarde.
Quando finalmente a abriu, o cheiro escapou.
Não era forte como no vestiário, mas estava ali: grama sintética, roupa úmida, suor seco, desodorante vencido, toalha mal arejada. André ficou parado com a mochila aberta, como se tivesse libertado um animal pequeno dentro do apartamento.
A camiseta usada estava enrolada no fundo. A toalha, ainda úmida. A bermuda de jogo tinha uma mancha escura de borracha na lateral. A chuteira nova já não era nova. Havia pedacinhos pretos grudados na sola.
Ele pegou tudo e levou para a área de serviço.
Mas antes de jogar a roupa no cesto, encostou a camiseta no rosto.
Foi rápido.
Ridículo.
Quase involuntário.
O cheiro da quadra subiu inteiro, e com ele veio Rafael ajoelhado diante dele, o gelo na coxa, a toalha baixa, a boca quente, a mão na nuca. Veio Caio parado na entrada do vestiário, ferido e debochado, como se tivesse flagrado não só um beijo, mas uma traição antiga que apenas mudara de corpo.
André jogou a camiseta no cesto com força.
— Patético — murmurou para si mesmo.
Mas o corpo não se convenceu.
No espelho do banheiro, viu a marca roxa na coxa. Ainda estava sensível. Tocou de leve e lembrou da mão de Rafael ali, firme, cuidadosa, quase clínica. O toque tinha durado pouco, mas deixara mais memória que a pancada.
Algumas marcas não vinham da violência.
Vinham do cuidado.
E isso era muito pior.
Na segunda-feira, tentou trabalhar como se nada tivesse acontecido.
Às dez da manhã, abriu uma planilha e ficou dez minutos olhando a mesma célula. Às onze, respondeu um e-mail com “segue em anexo” e esqueceu o anexo. Ao meio-dia, no restaurante, deixou o prato esfriar porque o celular vibrou na mesa.
Era Rafael.
RAFAEL:
A coxa melhorou?
André quase riu.
Caio tinha razão. O cuidado de Rafael vinha vestido de manutenção predial. Nada de “pensei em você”. Nada de “queria te ver”. Nada de “aquele beijo ficou na minha boca”. Só a coxa. A lesão. O gelo. A parte do corpo que permitia a ele se aproximar sem confessar a aproximação.
André respondeu:
ANDRÉ:
Está roxa. Mas funciona.
Rafael visualizou.
Demorou.
RAFAEL:
Gelo de novo hoje.
André apoiou o cotovelo na mesa e passou a mão pela boca. Era uma ordem com cara de recomendação. Uma preocupação com disfarce de protocolo.
ANDRÉ:
Você vai fiscalizar?
O tempo entre o envio e a resposta pareceu indecente.
Um minutoAndré imaginou Rafael lendo, travando, pousando o celular, pegando de novo, escolhendo uma frase que não o entregasse demais.
Então veio:
RAFAEL:
Posso.
André sentiu a palavra na pele.
Não era explícita. Com Rafael nunca era. Era uma fresta. Uma porta aberta só o suficiente para que o outro se culpasse por entrar.
André respondeu antes que perdesse coragem.
ANDRÉ:
Então vem.
Dessa vez, Rafael demorou doze minutos para visualizar.
Doze minutos em que André almoçou sem sentir gosto.
Quando a resposta apareceu, foi seca:
RAFAEL:
Manda o endereço.
André mandou.
Depois se arrependeu.
Depois sorriu.
Depois passou o resto do expediente imaginando a campainha.
À noite, arrumou o apartamento com raiva de si mesmo. Não queria parecer que tinha arrumado. Esse era o problema. Guardou copos, dobrou uma manta, lavou a louça, tirou do sofá uma camiseta que não lembrava de ter usado. Depois bagunçou de leve as almofadas, porque organização demais entregava intenção.
Tomou banho.
Escolheu uma camiseta.
Trocou.
Escolheu outra.
Trocou de novo.
No fim, usou uma camiseta velha, macia, cinza-escura. Simples demais para parecer tentativa. Justa o bastante para ser mentira.
Às 20h37, o celular vibrou.
RAFAEL:
Estou na frente.
André ficou alguns segundos parado antes de descer.
Quando saiu do prédio, viu a picape estacionada do outro lado da rua. Rafael estava encostado na porta do motorista, braços cruzados, camiseta preta, jeans escuro, barba aparada, cabelo ainda úmido como se tivesse tomado banho pouco antes de sair.
Sem o gol atrás, sem as luvas, sem a quadra, ele parecia menos personagem.
Mas não menos perigoso.
André atravessou.
— Você trouxe gelo mesmo? — perguntou.
Rafael levantou uma sacola de farmácia.
— Trouxe.
André olhou para a sacola, depois para ele.
— Isso é absurdo.
— Você mandou vir.
— Eu mandei você vir. O gelo foi desculpa.
Rafael sustentou o olhar.
— Eu sei.
A resposta passou pelo corpo de André como corrente.
Ali, na calçada, com ônibus passando na avenida, cheiro de gasolina, pastel de feira velha vindo de algum bar e gente atravessando a rua sem olhar, a frase pareceu mais íntima do que deveria.
Rafael desencostou da picape.
— Melhor subir.
— Está com medo da rua?
— Estou com medo de mim.
André não respondeu.
Subiram em silêncio.
No elevador, o espaço ficou estreito demais. Rafael ficou de um lado, André do outro, ambos olhando para a porta de metal como se ela exibisse algo interessante. O reflexo mostrava os dois juntos: Rafael grande, contido; André aparentemente calmo, mas com os ombros tensos.
O elevador parou no quarto andar.
André abriu a porta do apartamento.
— Entra.
Rafael entrou devagar, olhando pouco. Esse era um detalhe dele: não invadia o ambiente com os olhos. Não comentava decoração, não vasculhava, não fazia piada para aliviar. Apenas entrava e ficava. E ficar, vindo dele, já era quase uma declaração.
— Água? Cerveja? Café? — André perguntou.
— Água.
— Claro. Homem emocionante.
Rafael quase sorriu.
André foi até a cozinha, pegou dois copos, sentiu Rafael atrás dele sem precisar olhar. O apartamento parecia menor com o goleiro dentro. Mais baixo. Mais quente. Como se os móveis tivessem sido escolhidos sem prever um homem daquele tamanho.
Entregou o copo.
Os dedos se tocaram.
Pouco.
Suficiente.
Rafael bebeu metade da água em silêncio.
— Onde está o gelo? — André perguntou.
Rafael levantou a sacola.
— Aqui.
— Você realmente pretende começar pela fisioterapia?
— Você está machucado.
— Você está fugindo.
Rafael abaixou o copo.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era quase uma respiração.
— Senta — ele disse.
André riu baixo.
— Você tem uma mania irritante de mandar.
— E você obedece quando quer.
— Perigoso achar isso.
— Perigoso negar.
André sentou no sofá.
Rafael pegou a sacola, tirou uma bolsa de gelo instantâneo e um rolo pequeno de gaze.
— Você comprou gaze?
— Para não encostar direto na pele.
— Você é sempre assim?
— Como?
— Cuidadoso até parecer frio.
Rafael olhou para ele.
— Só quando estou tentando não fazer outra coisa.
A frase ficou no ar.
André sentiu o peito aquecer.
Puxou a barra da bermuda para cima, expondo a coxa. A mancha roxa estava mais escura no centro, amarelada nas bordas. Rafael se agachou diante dele e tocou a pele ao redor com os dedos, sem apertar.
André inspirou fundo.
— Dói?
— Agora doeu menos pela pancada.
Rafael ergueu os olhos.
A proximidade repetia o vestiário, mas sem o vestiário. Sem Marcelo gritando sobre dinheiro, sem Caio na porta, sem chuveiros, sem armários, sem a desculpa coletiva de que homens se encostavam por causa do jogo.
Ali não havia jogo.
Só Rafael ajoelhado entre as pernas dele, a mão quente perto de sua coxa, o apartamento fechado, a noite do lado de fora e uma sacola de farmácia fingindo inocência na mesa de centro.
Rafael envolveu o gelo na gaze e encostou na pele.
O frio veio violento.
André contraiu a perna.
— Arde.
— Segura.
— Você fala isso e espera que eu não pense besteira?
Rafael parou por um segundo.
Depois pressionou o gelo de novo.
— Eu espero pouca coisa de você.
— Mentira.
— Talvez.
A mão de Rafael segurava o gelo no lugar. Os dedos dele, nus agora, tocavam a pele de André nas bordas da compressa. Nada demais. Nada que um médico não fizesse. Mas Rafael não era médico. E André não estava deitado numa maca. O corpo sabia a diferença.
A excitação veio devagar, mas sem piedade.
Primeiro como calor. Depois como peso. Depois como uma consciência inconveniente da própria bermuda, do tecido, da posição, da proximidade daquele homem. André tentou mudar um pouco o corpo, mas o movimento apenas denunciou mais.
Rafael percebeu.
Sempre percebia.
O olhar dele desceu.
Ficou só o necessário.
Depois voltou.
Não havia deboche. Havia outra coisa. Reconhecimento. Desejo contido. E talvez uma satisfação escura, quase involuntária, por saber que causava aquilo.
— Acontece — Rafael disse.
André soltou uma risada sem humor.
— Você gosta dessa palavra.
— É útil.
— É covarde.
Rafael não respondeu.
André inclinou o corpo um pouco para frente.
— Você fala “acontece” como se não estivesse acontecendo com você também.
A mão de Rafael apertou levemente a gaze.
— Está.
A palavra saiu baixa.
Quase áspera.
André sentiu o estômago contrair.
— Então olha para mim quando diz.
Rafael olhou.
A sala ficou pequena demais.
O ventilador girava no teto, fazendo um som seco. Um carro passou na rua. Alguém riu no corredor do prédio. A vida comum insistia, mas dentro do apartamento havia outra temperatura.
Rafael tirou o gelo da coxa dele e colocou sobre a mesa.
A pele ficou fria no ponto tocado, mas todo o resto queimava.
— Eu pensei em você o domingo inteiro — Rafael disse.
Não houve beleza na frase. Ela saiu quase como acusação.
André ficou parado.
— Isso era para ser romântico?
— Não sei fazer romântico.
— Percebi.
— Mas é verdade.
André engoliu seco.
— Pensou no quê?
Rafael demorou.
— No beijo.
— Só?
— Na tua boca. Na tua perna tremendo quando eu encostei o gelo. No jeito que você me olhou como se eu fosse perder o controle antes de você.
A voz dele ficou mais baixa.
— Pensei em como eu queria ter ficado.
André respirou fundo.
A confissão não veio macia. Veio física. Cheia de imagens. Rafael parecia arrancar as frases de algum lugar que não gostava de ser aberto.
— E por que não ficou?
Rafael apoiou as mãos no sofá, uma de cada lado do corpo de André.
Não encostou ainda.
Apenas cercou.
— Porque o Caio viu.
— Antes dele ver, você já queria.
— Sim.
— Depois dele ver, você quis menos?
— Não.
— Então?
Rafael fechou os olhos por meio segundo.
— Eu não queria fazer com você o que fiz com ele.
André sentiu a frase mudar tudo.
— O que você fez com ele?
Rafael abriu os olhos.
— Dei o bastante para ele acreditar. Tirei quando ficou real demais.
André ficou em silêncio.
Rafael continuou:
— Eu dizia que não era nada. Depois procurava. Depois sumia. Depois ficava com ciúme quando ele ria com outro. Depois dizia que não tinha direito de cobrar. Eu fiz isso por meses.
— E ele deixou?
— Deixou porque queria. Eu deixei porque tinha medo.
— De quê?
— De ser visto.
André olhou para ele. Rafael estava perto, grande, sério, mas havia uma rachadura clara agora. O monumento tinha voz de homem cansado.
— E agora você não tem medo?
Rafael soltou um ar curto.
— Tenho. Mas com você está ficando difícil fingir que isso me protege.
André tocou o braço dele.
A pele estava quente.
— Eu não sou reabilitação emocional de goleiro.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
— Estou tentando saber.
— Isso é pouco.
— É o que eu tenho agora.
André encarou Rafael por alguns segundos.
O correto seria pedir mais.
O corpo pediu menos conversa.
Rafael percebeu a mudança antes que André se movesse. Aproximou-se mais um pouco. A respiração dele tocou o rosto de André. O cheiro vinha limpo, mas por baixo havia sal, pele, homem. A camiseta preta desenhava o peito dele com a luz fraca da sala.
— Posso? — Rafael perguntou.
A pergunta desmontou André mais do que qualquer ordem.
— Pode.
O beijo veio lento.
Diferente do vestiário.
Ali não havia flagrante, nem pressa inicial, nem banco rangendo sob o peso dos dois. A boca de Rafael tocou a dele com uma contenção que durou pouco. André sentiu primeiro a barba raspando, depois o calor da língua, depois a mão de Rafael subindo para sua nuca, firme, como no sábado.
O corpo inteiro de André respondeu.
Rafael se levantou sem quebrar o beijo e empurrou André de leve contra o encosto do sofá. O gesto era controlado, mas o controle tremia. André percebeu isso e gostou. Gostou de sentir Rafael grande, próximo, perdendo a própria geometria.
As mãos de André agarraram a camiseta dele.
Puxaram.
Rafael deixou.
O beijo ficou mais pesado.
A sala encheu de respiração.
A mão de Rafael desceu pela lateral do corpo de André, parou na cintura, apertou ali como se procurasse um lugar permitido. André arqueou um pouco, e esse pequeno movimento mudou o ar. Rafael respondeu com o corpo, aproximando-se mais, deixando evidente que o desejo dele também já não cabia na pose.
André sentiu.
Sorriu contra a boca dele.
— Acontece? — provocou.
Rafael soltou uma respiração quase raivosa.
— Não começa.
— Você começou.
— Eu estou tentando ir devagar.
— Está falhando.
Rafael encostou a testa na dele.
Os dois estavam ofegantes.
— Eu não quero fazer merda — Rafael disse.
André levou a mão ao rosto dele, segurando a mandíbula.
— Você já está fazendo. Só decide se vai fazer direito.
Rafael fechou os olhos.
Por um momento, pareceu que ia ceder totalmente. A mão dele apertou a cintura de André, a outra afundou no sofá. A boca encontrou o pescoço de André, subindo pelo maxilar, quente, úmida, contida por um fio. André soltou um som baixo antes de conseguir impedir.
Esse som atravessou Rafael.
O corpo dele pesou mais.
A perna de André se abriu por instinto para recebê-lo melhor no espaço do sofá. Rafael entrou nesse espaço sem pressa e sem inocência. O contato dos dois ficou claro, físico, impossível de disfarçar. André sentiu a rigidez de Rafael contra ele, e Rafael sentiu a dele. Não havia mais subtexto. Havia corpo reagindo, tecido pressionado, calor, respiração curta.
Rafael parou de novo.
— Merda.
André riu, quase sem ar.
— Você tem um vocabulário péssimo quando está excitado.
Rafael olhou para ele.
— Você acha engraçado?
— Acho bonito.
A resposta pegou Rafael desprevenido.
— Bonito?
— Você perdendo o controle.
O rosto de Rafael mudou. Como se aquela frase tocasse mais fundo que o desejo. Ele beijou André de novo, agora com menos defesa. A mão foi para a nuca, depois para o peito, depois parou sobre o coração dele, sentindo a batida acelerada por cima da camiseta.
André segurou a barra da camiseta de Rafael.
— Posso?
Rafael assentiu.
André puxou.
A camiseta saiu devagar, revelando primeiro o abdômen, depois o peito, os ombros, a pele quente, a cicatriz perto da costela. O corpo de Rafael sem o vestiário parecia diferente. Não menos impressionante. Mais humano. A luz da sala não era branca e cruel como a do banheiro da quadra. Era amarela, doméstica. Mostrava as marcas sem transformá-las em espetáculo.
André tocou a cicatriz.
— Isso?
Rafael olhou para baixo.
— Obra.
— Trabalho?
— Queda de andaime. Não minha. Fui segurar uma chapa, a chapa ganhou.
André passou o polegar perto, não em cima.
— Dói?
— Não mais.
— Mentira.
Rafael olhou para ele.
— Você está falando da cicatriz?
André não respondeu.
Rafael entendeu.
A boca dele voltou à de André com outra coisa agora. Menos fome, mais necessidade. Como se ser tocado com cuidado fosse mais perigoso que ser desejado com força.
André sentiu a mão de Rafael entrar por baixo de sua camiseta, a palma quente subindo pela barriga, pelo peito. O toque era firme, mas atento. Quando os dedos roçaram sua pele, André estremeceu. Rafael parou.
— Tudo bem?
— Não para.
Rafael não parou.
A camiseta de André subiu também. Caiu no chão junto da de Rafael. Pele contra pele não veio de uma vez. Veio aos poucos, primeiro o peito de Rafael tocando o dele, depois o abdômen, depois os braços se fechando. André sentiu o calor inteiro do homem, o peso, a textura da pele, o cheiro mais próximo. Não era vestiário. Não era quadra. Era Rafael no apartamento dele. Rafael sem função. Sem luvas. Sem desculpa.
O celular vibrou na mesa de centro.
Uma vez.
Os dois ignoraram.
Vibrou de novo.
Rafael não parou imediatamente, mas o corpo dele mudou. Ficou mais duro. Não de desejo. De alerta.
André soube antes de olhar.
Caio.
O aparelho vibrou pela terceira vez.
Rafael se afastou o suficiente para ver a tela iluminada.
CAIO:
Ele está aí?
O ar da sala quebrou.
André pegou o celular e virou para baixo.
— Não responde — Rafael disse.
— Eu não ia.
— Ele faz isso.
— O quê?
— Entra onde tem fresta.
André olhou para ele, ainda sem camisa, ainda excitado, ainda com a pele marcada pelo toque de Rafael.
— E você deixa fresta porque nunca fecha porta nenhuma.
A frase acertou.
Rafael levantou do sofá.
O corpo dele, segundos antes tão entregue, voltou para dentro de uma armadura invisível. Passou a mão pelo rosto, pegou a camiseta no chão e ficou segurando-a sem vestir.
— Eu vou embora.
André soltou uma risada seca.
— Claro.
— André...
— Não. Você veio até aqui. Comprou gelo. Sentou entre as minhas pernas fingindo que era atendimento médico. Me beijou. Tirou a camisa. Ficou duro de medo e vontade. Aí Caio manda uma mensagem e você vira estátua de novo?
Rafael fechou os olhos.
A crueza da frase atravessou a sala. Não era vulgaridade. Era verdade física. O desejo dos dois estava ali, evidente, respirando, inacabado.
— Eu não quero repetir erro — Rafael disse.
— Então para de repetir fuga.
Rafael vestiu a camiseta devagar.
André também se levantou, pegando a própria do chão, mas não vestiu. Ficou de peito nu, diante dele, cansado de esconder o quanto aquilo o atingia.
— Eu não sou o Caio — André continuou. — Não vou correr atrás de você no corredor do vestiário pedindo para você admitir o que quer.
Rafael olhou para ele.
— Eu quero você.
A frase veio baixa.
André ficou parado.
Rafael repetiu, mais firme:
— Eu quero você.
— Mas não sabe o que fazer com o resto.
— Não.
— Então não coloca o resto em mim.
Rafael absorveu como pancada.
O celular vibrou de novo.
André nem olhou.
Rafael olhou para a mesa, depois para a porta.
— Eu preciso resolver com ele.
— Precisa.
— Antes de continuar com você.
A frase era sensata.
Por isso doeu.
André vestiu a camiseta.
— Você percebe que sempre usa uma coisa correta para fazer uma coisa covarde?
Rafael empalideceu um pouco.
— Talvez.
— Você vai falar com ele porque é certo ou porque te dá uma saída daqui?
Rafael não respondeu rápido o bastante.
André assentiu.
— Foi o que eu pensei.
— Não é simples.
— Nada aqui é simples. Mas é muito conveniente você lembrar disso sempre que está perto de atravessar alguma coisa.
Rafael pegou a sacola da farmácia da mesa. Depois pareceu perceber o gesto inútil e a deixou ali.
— Eu sinto muito.
André sorriu sem alegria.
— Eu também.
Rafael caminhou até a porta.
Com a mão na maçaneta, parou.
— Eu não fui embora porque não queria ficar.
André olhou para ele.
— Eu sei.
— Isso não melhora?
— Não.
Rafael assentiu.
Abriu a porta.
Saiu.
Quando a porta fechou, o apartamento ficou maior e mais vazio de uma vez.
André permaneceu parado no meio da sala, camiseta colada ao corpo, boca ainda quente, coxa fria no lugar onde o gelo tinha estado, pele acesa no lugar onde Rafael tinha tocado. O desejo não foi embora com ele. Ficou. Pior: ficou sem destino.
O ventilador continuava girando.
Na mesa, o celular vibrou outra vez.
André respirou fundo e pegou.
Caio.
CAIO:
Pelo silêncio, acertei.
André sentou no sofá.
O mesmo sofá.
Agora desarrumado, marcado pelo peso dos dois.
Respondeu:
ANDRÉ:
Você quer mesmo saber ou quer só cutucar?
Caio respondeu quase na hora.
CAIO:
Quero saber se ele fugiu antes ou depois de te deixar querendo.
André fechou os olhos.
Caio era insuportável porque acertava.
Digitou:
ANDRÉ:
Antes de terminar. Depois de começar.
A resposta demorou um minuto.
CAIO:
Clássico.
Depois:
CAIO:
Comigo você não ia ficar no quase.
André encarou a tela.
Sentiu raiva.
De Caio por dizer.
De Rafael por provar.
De si mesmo por imaginar.
Levantou-se, foi até a cozinha, bebeu água direto da torneira, como se isso pudesse apagar alguma coisa. Não apagou. A água desceu fria, mas o corpo continuava quente. O apartamento ainda tinha cheiro de Rafael. Não forte. Só o bastante para ser cruel.
Voltou ao sofá.
O celular estava na mesa como uma provocação.
André digitou:
ANDRÉ:
Então prova.
Ficou olhando para a frase.
Não enviou.
Apagou.
Digitou outra:
ANDRÉ:
Você fala demais.
Enviou.
Caio respondeu:
CAIO:
Falo. Mas eu fico.
André sentiu a frase de um jeito que não esperava.
Rafael queria, mas fugia.
Caio provocava, mas ficava.
O problema era que ficar também podia ser uma forma de invadir.
André largou o celular e foi tomar banho.
A água caiu sobre ele, levando o gelo, o cheiro da rua, o toque incompleto. Mas não levou o beijo. Não levou o peso de Rafael sobre ele no sofá. Não levou a mensagem de Caio. Não levou a sensação incômoda de estar sendo puxado por dois homens que desejavam de formas opostas e igualmente perigosas.
Quando saiu do banho, havia uma mensagem de Rafael.
RAFAEL:
Desculpa.
André encarou.
Não respondeu.
Minutos depois, outra:
RAFAEL:
Eu vou falar com ele.
André também não respondeu.
Então apareceu uma de Caio:
CAIO:
Não responde ele hoje.
André riu, sozinho, de toalha na cintura, no meio do quarto.
Digitou:
ANDRÉ:
Você está dando conselho ou tentando ganhar vantagem?
Caio:
CAIO:
Os dois.
Depois:
CAIO:
Mas o conselho continua bom.
André sentou na beira da cama.
O corpo estava cansado, mas a cabeça não. A noite parecia longe de terminar, embora nada mais fosse acontecer. Talvez esse fosse o castigo: permanecer aceso sem incêndio.
Às 23h48, Rafael mandou a última mensagem.
RAFAEL:
Eu queria ter ficado.
André sentiu a frase onde não queria.
Dessa vez, respondeu.
ANDRÉ:
Querer não é ficar.
Rafael visualizou.
Não disse mais nada.
Caio mandou pouco depois:
CAIO:
Sexta eu passo aí.
André respondeu:
ANDRÉ:
Não convidei.
Caio:
CAIO:
Ainda.
André deveria ter encerrado.
Mas ficou olhando para a tela.
Caio digitando.
Parando.
Digitando de novo.
Por fim:
CAIO:
Boa noite, André.
Foi a primeira vez que ele escreveu o nome sem apelido, sem piada, sem veneno.
André demorou para responder.
ANDRÉ:
Boa noite, Caio.
Largou o celular no criado-mudo e deitou.
A cama parecia grande. O apartamento, quieto. A coxa latejava de leve. A boca ainda guardava Rafael. A cabeça, por mais que resistisse, já abria espaço para Caio.
Antes de dormir, André percebeu que o capítulo daquela noite não tinha sido sobre o que aconteceu.
Tinha sido sobre o que não aconteceu.
E, às vezes, o quase deixava mais marcas do que a entrega.
Porque a entrega terminava.
O quase ficava duro dentro da memória, respirando, esperando a próxima chance.