São oito da manhã, e a vejo fumando um cigarro.
Ela está debruçada no guarda-corpo de sua varanda, olhando a rua, encarando as pessoas como uma criança encara formigas.
-Bom dia, Senhora Marta. — Grito de baixo, espiando sua altivez.
Ela acena pra mim, abre um sorriso e pergunta se tem pão fresco.
-Para a Senhora, terei pão fresco a qualquer hora!
Ela ri, enquanto uma brisa balança suas mechas soltas. Fico admirando sua forma, seus cabelos pretos, seus braços robustos, sua pele macia, seu vestido branco florido. E fico desejando subir àquela sacada.
Marta é a visão que me alegra quando chego ao trabalho. Marta é linda. Marta tem a capacidade de me deixar de joelhos.
Literalmente.
Ao findar do dia, voltarei para a minha casa, tomarei um belo banho e prepararei um tributo. Algo que possa agradá-la, que me faça merecer a honra de sua companhia. Assim que tudo estiver pronto, amarrarei o presente com uma fita vermelha e voltarei àquela rua, desta vez, não a trabalho.
São nove horas da noite, em ponto, e eu estou à sua porta. Toco a campainha e me ajoelho, estendendo os braços, levantando a oferenda. Abaixo a minha cabeça em sinal de respeito, esperando que minha Senhora abra a porta, ansiando que ela aceite o que lhe trouxe.
Ouço as chaves, a porta se abre.
Espero em silêncio pela aprovação. “Vamos ver o que você me trouxe.” — Disse, com a voz firme e serena. Estremeço. Toda santa vez. É como um ritual, entregando a minha alma para ter a atenção de um ser iluminado e superior. Uma deusa ou uma demônia?
-Razoável. Mas hoje estou de bom humor, então aceito.
Entro ajoelhado, ainda de cabeça baixa. Não tenho permissão para olhá-la antes que ela mande. Mas consigo ver seus pés. Lindos e macios, descalços. Ela não se importa com saltos altos. Ela não precisa deles.
-O que achou do meu vestido? Fiz bom uso da sua última oferenda. Levante-se, quero testar algo.
Essa foi minha deixa para vê-la. Meus olhos se fartaram com tamanha magnificência. Seu vestido de agora possuia um tom carmesim, com alças e saia plissada. Parecia uma rainha, uma a qual eu estava disposto a servir.
Assim que levantei, a vi entrando no escritório. Se é que posso chamar uma sala de torturas de escritório, mas é como foi combinado de nomeá-lo. Ela não ordenou que eu a acompanhasse, então eu fiquei, imóvel. Suando, mas com a garganta seca, apreensivo, amedrontado, explodindo em satisfação.
-Venha. — Ordenou.
Eu, obediente, fui. Eu sei que, a partir da porta de entrada de seu apartamento, tudo o que for dito é uma ordem. E desobedecer estas ordens não costuma ser uma experiência boa. Bom, também não posso dizer que é ruim.
Assim que chego ao escritório, ela aponta para um móvel, que mais parece um instrumento medieval, e me manda tirar a roupa. Minha camisa escondia as marcas do nosso último encontro: rasgos, hematomas, sinais de mordidas. Como anseio que as marcas sejam renovadas!
O móvel se chama cavalete, e, por mais que seja acolchoado, não é feito para te deixar confortável. Subo, completamente nu, e olho para a mesa ao lado, tentando adivinhar como a minha Deusa se divertirá hoje. Ela gosta sempre de enfileirar seus instrumentos, normalmente na ordem que serão usados, já que ela odeia surpresas. Mas nem sempre ela segue a ordem, já que ela adora quebrar expectativas.
Hoje a noite vai ser longa. Em cima da mesa vejo um flogger, dois paddles, três canes, quatro facas, cinco chibatas e um maçarico.
Espera… Um maçarico?
Tremi. Olhei para ela, claramente desesperado, mas quieto, como um prisioneiro à beira da guilhotina pedindo clemência ao seu algoz.
Ela me respondeu sorrindo. E me vendando.
“Agora fodeu”, pensei. Eu, numa posição completamente vulnerável, e ela, sorrindo pra mim. Comecei a arfar, desesperado, gemendo baixo, tentando fazer algumas palavras de piedade escaparem.
Ela me amordaçou.
E logo ela prendeu meus braços no cavalete. Se eu tive a oportunidade de fugir, agora não tenho mais. Apesar de que, de suas teias, uma pobre mosca inútil como eu não iria muito longe. Ela adora caçar seu alimento, se empanturra com o sofrimento da presa.
Senti um leve calor se aproximando. “Vamos começar?”, ela disse ao meu ouvido. Não era uma pergunta, era um aviso. E, assim que ela se afastou, senti uma das facas tocar o meu pescoço.
Bom, serei franco, eu conheço suas facas. E sei bem que, de quatro facas apresentadas à mesa, duas eram cegas. Mas qual ela tinha pego?
Ela apertou a ponta da faca logo abaixo do meu queixo. Com uma mão, ela brincava de me matar, com a outra, arranhava as minhas costas. As costas machucadas e cortadas, ainda sensíveis. Ela sabia e adorava, meu sofrimento lhe enchia os olhos.
A faca escolhida foi deixada de lado, enquanto ela caminhava até a minha bunda, aberta de uma maneira humilhante e vulnerável. Deu três petelecos em minhas bolas e disse “Vamos brincar de adivinhe o instrumento?”. Novamente, uma ordem em tom amigável, como se me desse o poder de escolha. Uma escolha que, por decisão minha, me é negada.
-A regra é: cada vez que eu te bater, você vai contar e dizer qual é o instrumento. Se acertar, continuamos. Se errar o instrumento, o número ou ficar em silêncio, eu fecho os olhos, escolho uma faca aleatoriamente e corto a sua bunda. Divertido, não acha?
Sim, um jogo enganoso onde eu só tenho a perder. E então ela tirou a minha mordaça.
-Pois bem, vamos começar.
-Um, paddle.
-Dois, flogger.
-AI! Três, peteleco nas bolas.
Ela ria enquanto a contagem subia até o cinquenta. O saldo final foi de 12 acertos e 38 cortes. Quanto mais eu errava, mais nervoso ficava. Com o nervosismo, eu errava mais. Com o erro, tinha a chance de ganhar um corte. E com o corte, mais difícil era acertar. Minha bunda sangrava e ela gargalhava.
Ela continuou com sua diversão. Surra atrás de surra, ela mandava eu agradecer, enquanto minha perna ficava dormente por estar há horas na mesma posição. Um por um, ela usou todos os seus instrumentos em mim, se deliciando ao ver meu sangue respingar na decoração cara.
Espera. Não, ela não usou todos.
Eu estava exausto, e podia ouvir ela ofegante e feliz. Então, ela chegou perto do meu rosto, me amordaçou novamente, me deu um beijo no rosto e disse, bem baixo no meu ouvido:
-Você é o meu lixinho mais obediente. E está na hora de você realmente ser só meu.
Eu não consegui compreender como uma frase, dita com uma voz tão doce, poderia soar tanto como uma ameaça. Foi então que eu a ouvi apagar a luz do escritório e sair, me deixando no escuro.
Após uma meia hora, em completo silêncio e escuridão, comecei a sentir um delicioso cheiro de pernil. Então, a meu ver, mais uma hora se passou, e eu na agonia de não saber o que estava acontecendo, com dor, humilhado, sentindo uma brisa de uma possível janela aberta.
Eis que ela volta, e eu a ouço arrastando algo metálico. Parece pesado, e isso me faz começar a hiperventilar, novamente arfando na mordaça. O medo tomou conta de mim, e meu instinto era o de me livrar daquela situação e correr. Mas como, se eu estava amarrado, nu e totalmente machucado?
Foi assim que eu ouvi o som do maçarico que eu comecei a entender.
-Aguente por mim, sim?
Eu me debatia naquele cavalete com todas as minhas forças. Cada segundo que se passava era um martírio, só esperando a confirmação dos meus medos. E então, uma dor tomou conta do meu corpo, partindo de um ponto na minha perna direita, logo abaixo da nádega. Mais parecia uma descarga elétrica, me paralisando, seguido de um cheiro pungente de carne queimada.
A partir daquele momento, eu não era nada além de uma posse, um objeto, uma coisa, um treco. Um nada marcado a ferro quente.
-Acho que acabamos por aqui, haha. Que tal um banho?
Partimos para o aftercare. Ela me banhou, me curou, me acariciou e disse que me amava. E logo fomos desfrutar da sua ausência de uma hora e meia durante a sessão: um belo jantar, preparado com carinho por suas mãos de fada. Mãos essas que, minutos antes, me abriram como uma fruta madura.
São seis da manhã, e eu estou a caminho de casa. Marta arquitetou a noite para coincidir com o próximo dia, que será minha folga. Um descanso para o corpo, mas que ressoará na minha mente por longos dias.
O prazer de me tornar por completo o novo brinquedo, assinado com um “M”, para a mulher mais divina que eu já conheci, é indescritível. Me motiva a estar sempre disposto a todos os seus caprichos, apenas um cordeiro esperando a data do abate.
E a dor da marca me faz ansiar ainda mais pelo que virá nos próximos dias. Me lembra de seu amor e de minha devoção. Mal posso esperar para ver seus lindos olhos azuis novamente, fumando em sua varanda, agraciando os transeuntes com sua beleza, enquanto, na minha humilde insignificância, a olho de meu nível inferior e a saúdo:
Bom dia, Senhora Marta.
