Castelo de Areia - Temporada 2: Época da Fundação. Cap.2.0 - Amizades renovadas

Um conto erótico de Manfi
Categoria: Heterossexual
Contém 5093 palavras
Data: 20/05/2026 23:45:47

Castelo de Areia - Temporada 2: Época da Fundação

*Fundação (ou alicerce) é a estrutura base de uma construção, essencial para transmitir com segurança as cargas da edificação ao solo, garantindo estabilidade e evitando assentamentos, rachaduras ou desabamentos.*

Capítulo 2.0 - Amizades Renovadas.

(Tauane)

Depois que voltamos daquela viagem, tudo mudou.

Na verdade, acho que a palavra certa seria: tudo desmoronou.

Eu senti tanta vergonha que evitava ao máximo falar com Carlos. O modo como ele estava naquela conversa no escritório… aquilo nunca saiu da minha cabeça. O olhar vazio tentando esconder o quanto estava destruído por dentro. A tentativa desesperada de parecer frio, racional, indiferente… enquanto claramente estava quebrando diante da gente.

Tenho pesadelos com o rosto dele daquele jeito há mais de vinte anos.

Na escola, logo no início, tentei transformar a vida da Luana num inferno. Mas rapidamente percebi uma coisa cruel: boa parte da minha popularidade vinha exatamente do tipo de coisa que aconteceu naquela viagem.

Do imaginário masculino.

Do desejo.

Os meninos me desejavam, queriam o que ouviam falar sobre mim. Já muitas meninas desejavam ocupar o meu lugar. Queriam ser vistas como eu era vista.

Só que tinha um problema.

Eu não queria mais ser aquilo.

Não queria mais precisar usar meu corpo como ferramenta social. Não queria mais viver presa naquele personagem que eu mesma construí ao longo dos anos. A garota confiante, desejada, inacessível… tudo aquilo começou a me dar nojo.

Já a Luana…

A vagabundinha nasceu pra aquilo.

Ela não esperou nem eu me formar para assumir aquele espaço.

E o pior é que eu deixei.

Sem brigar.

Sem disputar.

Porque, pela primeira vez, aquele “reino” já não fazia sentido pra mim.

Acabei me voltando completamente para os estudos e para o vestibular. Só duas amigas continuaram realmente ao meu lado naquele período. Os meninos ainda tentavam se aproximar — principalmente Miguel —, mas, pela primeira vez na vida, minha necessidade de fugir de tudo aquilo foi maior do que qualquer desejo.

Tati permaneceu no grupinho dela do primeiro ano. Como sempre, parecia conseguir tudo sem esforço. O grupo dela ganhou ainda mais força no colégio, enquanto o terceiro ano simplesmente observava tudo de longe, esperando a formatura chegar para fingir que nenhum drama existia.

As duas — Luana e Tati — pareciam jogar muito melhor aquele jogo do que eu.

Não se expunham.

Não precisavam aparecer.

Agiam nos bastidores.

E isso começou a me preocupar em relação à minha irmã. Mas aí eu lembrava que, poucas semanas antes, era eu quem estava naquele lugar. Reinando sobre um ambiente sujo, superficial, cruel.

Avisei a mamãe sobre algumas coisas.

Depois simplesmente liguei o foda-se.

Já Carlos…

Ele fez exatamente o que prometeu.

Se isolou completamente no próprio mundo.

Mas havia algo diferente nele agora. Uma determinação silenciosa que começou a assustar todo mundo. Entrou na academia e não desistiu depois de duas semanas, como quase todos os meninos faziam. O corpo dele começou a mudar rápido. Os ombros ficaram maiores, a postura mudou, o jeito de andar ficou mais firme.

Mas não era só físico.

Pela primeira vez, parecia existir uma confiança real nele. Não aquela tentativa desesperada que vi naquele dia do escritório.

Algo tinha mudado de verdade.

Fiquei sabendo que mamãe saiu para jantar com ele no aniversário dele. E, sinceramente, fiquei feliz. Ninguém merece passar aquela data sozinho.

Dias depois, mamãe me contou sobre a conversa que teve com ele.

E aquilo me marcou profundamente.

Pela primeira vez na vida ela não parecia a mulher firme e segura que sempre controlava tudo. Enquanto falava, parecia emocionalmente exposta… quase vulnerável. Ela comentou sobre o relacionamento que teve com os pais dele, principalmente com a mãe do Carlos, e eu finalmente entendi o quanto aquilo tinha sido sério.

Muito sério.

Ela falou algo sobre “preencher o vazio deixado pela morte do papai”. Citou momentos simples que viveu com Carlos, coisas pequenas que acabaram fortalecendo o vínculo entre os dois. O jeito como falava…

Ela realmente o via como um filho.

E foi impossível não sentir um misto absurdo de emoções naquele instante.

Primeiro veio algo parecido com ciúme.

Um ciúme horrível.

Infantil.

Como se uma parte de mim se incomodasse por aquele espaço emocional existir entre eles.

Mas logo depois veio outra sensação.

Muito pior.

Uma imagem invadiu minha cabeça sem pedir permissão, me obrigando a enxergar tudo o que fizemos com ele através do olhar da minha mãe.

A dor.

A humilhação.

O abandono.

Foi ali que algo realmente mudou dentro de mim.

Eu já sabia racionalmente que tinha errado.

Mas começar a enxergar Carlos como alguém verdadeiramente próximo — não como fantasia, desejo ou disputa emocional — me destruiu.

Fiquei muito feliz quando ele foi à minha colação.

Muito.

Cheguei a insistir para que fosse à festa também, mas a falta de resposta dele me machucou mais do que eu gostaria de admitir.

A vida universitária acabou virando meu refúgio.

O fato da faculdade ficar em outra cidade, algo que antes pareceria um problema, virou exatamente o que eu precisava. Pela primeira vez em muito tempo eu tinha um objetivo real. Uma rotina nova. Um futuro que não girava em torno de aparência, popularidade ou relacionamentos.

E eu gostei disso.

Gostei muito mais do que achei que gostaria.

A comemoração da minha aprovação no vestibular acabou sendo minha última esperança de me reconectar minimamente com Carlos antes da mudança. Mas ele preferiu comemorar com os amigos da academia, e aquilo apenas confirmou algo que eu já sentia havia meses:

Ele podia amar mamãe.

Mas não se importava mais comigo nem com Tati.

E fui para São Paulo carregando exatamente esse sentimento.

Não acho necessário entrar em muitos detalhes sobre meu primeiro ano lá.

Eu vivi como qualquer universitária vive.

Festas.

Bebidas.

Trabalhos.

Amizades.

Caos.

Em relação à faculdade em si, não há muito o que dizer. O curso era difícil, puxado, cansativo… mas aquilo não importa agora.

Na parte pessoal, tive duas paqueras mais sérias. Dois “contatinhos”, como Tati falava. Um fazia engenharia civil comigo, o outro cursava Direito.

E preciso deixar claro que não aconteceram ao mesmo tempo.

Os dois eram mais velhos e, de certa forma, me ajudaram a amadurecer. Não através de trauma, manipulação ou jogos emocionais… apenas através de convivência normal. Coisa que talvez eu nunca tivesse vivido antes.

Foram relações leves.

Gostosas.

Mas que, por algum motivo, nunca passaram disso.

Talvez porque uma parte minha continuasse emocionalmente presa em outro lugar.

Uma última observação importante: mamãe ficou absurdamente empolgada com a ideia da filha cursando engenharia civil na USP e me ofereceu um carro, mesmo depois de tudo que aconteceu.

Eu recusei na hora.

Não achava que merecia.

Muito pelo contrário.

A turma também organizou uma viagem de formatura para Fernando de Noronha, mas nem cogitei ir. Não queria mais aquele tipo de ambiente. Não queria criar espaço para situações que lembrassem quem eu tinha sido.

Com o passar dos meses, tanto mamãe quanto Tati começaram discretamente a tentar me reaproximar de Carlos.

Mamãe principalmente.

Ela começou a pedir ajuda dele em viagens para São Paulo, dizendo que precisava de alguém para ajudar com pequenas manutenções no apartamento. Nunca parecia algo forçado… mas, no fundo, era impossível não perceber a intenção.

E provavelmente Carlos percebia também.

A gente saía para almoçar, jantar, fazer compras. Sempre os três. Nunca sozinhos.

Tudo leve.

Educado.

Quase normal.

E foi justamente aí que comecei a perceber o quanto ele realmente tinha mudado.

Os treinos transformaram o corpo dele. Os ombros mais largos, o peito definido, os braços maiores… mas não era isso que mais chamava atenção.

Era a postura.

A presença.

A segurança silenciosa.

Comecei a perceber os olhares das outras mulheres quando saíamos juntos. Principalmente os olhares da Angela, minha colega de apartamento.

E isso despertou um ciúme estranho em mim.

Um ciúme que eu não tinha o direito de sentir.

Eu tinha medo de demonstrar qualquer coisa.

Não tinha esse direito.

No fundo, achava que merecia alguém como Hugo.

Ou talvez Antônio.

Nunca alguém como Carlos.

A comemoração do aniversário dele me pegou de surpresa. Eu estava pensando em ir para São Paulo apenas para vê-lo, talvez organizar alguma surpresa simples… mas descobri que a comemoração “em família” aconteceria dois dias antes do aniversário.

E justamente naquele fim de semana eu tinha marcado um trabalho em grupo no apartamento com o pessoal da faculdade.

Não dava mais para cancelar.

Liguei para ele.

Conversamos.

Mas não como eu queria.

Não como eu precisava naquele momento.

Dias depois, mamãe comentou sem querer que ele estava saindo com uma garota.

E eu sinceramente não consigo colocar em palavras o que senti quando ouvi aquilo.

Foi como se alguma coisa afundasse dentro do meu peito.

Eu já estava fragilizada, cansada, emocionalmente perdida naquela fase. Pela primeira vez na vida me sentia realmente sozinha.

Ou talvez não exatamente sozinha.

Era pior.

Era a sensação constante de que faltava alguma coisa dentro de mim.

Como um buraco sufocante no peito que nada conseguia preencher.

Minhas unhas estavam destruídas.

As cutículas machucadas de tanto ansiedade.

E nada fazia aquela angústia passar.

A verdade é que eu sempre fui vista como a garota perfeita.

A menina bonita.

Popular.

Segura.

A que controlava tudo.

Mas ninguém via o quanto eu precisava sustentar aquilo o tempo inteiro. O quanto eu me cobrava. O quanto dependia da validação dos outros para continuar me sentindo suficiente.

Em São Paulo, longe de casa, longe da minha mãe, longe até daquela versão antiga de mim mesma… tudo isso começou a cair de uma vez.

Acabei bebendo demais numa festa e quase pedi a hora no dia seguinte. O olhar de decepção do meu grupo, dos professores… aquilo me atingiu mais do que deveria.

Pensei seriamente em desistir.

Não só do curso.

De tudo.

Porque naquele momento eu queria apenas minha mãe, minha irmã… e ele.

Estar longe de todos começou a doer de verdade.

E essa dor veio inteira, sem aviso.

Tati me ligou naquele mesmo dia e percebeu imediatamente que eu não estava bem.

Não sei se ela já vinha pensando nisso antes ou se decidiu naquele instante, mas me contou que queria fazer uma festa surpresa para o aniversário da mamãe.

Seria num sábado.

Eu poderia ir.

E confirmei sem pensar duas vezes.

……………..

(Carlos)

Após o que fizemos no sofá, Lady levantou e pegou minha mão. Fomos até o quarto dela.

Estranhamente, me senti mais aliviado quando entrei ali.

O quarto parecia… normal.

Não havia nada daquela personagem do palco. Nada exagerado, sensual ou artificial. Era o quarto de uma garota comum. Algumas fotos espalhadas, livros perto da cama, roupas jogadas numa cadeira, perfumes organizados sobre uma cômoda. Havia fotografias dela com amigos, familiares, em viagens, aniversários… versões diferentes da mesma pessoa.

E, como sempre acontecia comigo, comecei a observar tudo sem perceber.

Cada detalhe.

Cada padrão.

Cada pequena contradição entre a mulher do palco e a mulher daquele quarto.

Lady entrou na cama e bateu de leve no colchão, me chamando para sentar ao lado dela. Quando percebeu meu olhar vagando pelo ambiente, riu baixinho.

— Você realmente é especial. Essa sou eu… sem filtros.

Aquilo me deixou ainda mais nervoso.

Levantei quase automaticamente e comecei a andar pelo quarto olhando as fotos espalhadas. Parei em frente a uma em especial.

Ela estava usando um vestido vermelho impressionante. Elegante. Um vestido de baile, provavelmente formatura. Na foto, aparecia abraçada aos pais, sorrindo de um jeito muito diferente do sorriso provocativo que usava comigo.

Parecia leve.

Feliz de verdade.

Lady percebeu onde eu estava olhando, pegou a foto na mão e voltou a sentar na cama. Ficou observando a imagem em silêncio por alguns segundos, mantendo um sorriso discreto… mas havia algo errado naquele sorriso.

Algo pesado.

Sentei novamente ao lado dela.

— O que aconteceu? Você está linda nessa foto.

Ela me olhou por alguns segundos antes de perguntar:

— Você não percebeu, né?

Fiquei perdido.

Confuso.

Sem entender do que ela estava falando.

Ela então virou a foto na direção da luz e apontou discretamente.

— Olha com atenção.

Passei alguns segundos analisando até perceber.

O cabelo dela parecia diferente. Menos volumoso. Mais artificial. E havia pequenas manchas avermelhadas perto da testa e da orelha.

Muito discretas.

Mas estavam lá.

— Essa foto é da minha formatura do colégio. Eu tinha 18 anos.

Olhei novamente para ela.

E entendi.

Segurei sua mão em silêncio, deixando que continuasse no próprio ritmo.

— Fazia três meses que eu tinha terminado meu namoro. O filho da puta me traiu com uma prima dele. Isso que eu tenho… o nome técnico é psoríase. Psoríase nervosa.

Ela tentou continuar falando normalmente, mas a voz começou a falhar. Antes mesmo que eu reagisse, ela me puxou para um abraço.

— Eu sempre fui ansiosa. Sempre tive essa mania de querer ser perfeita… de precisar ser perfeita. Enquanto meu avô estava vivo, as críticas começavam desde pequena…

Ela tremia levemente enquanto falava.

E aquilo me atingiu de um jeito estranho.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava diante de alguém tentando me consertar, me analisar ou me proteger. Eu estava diante de alguém quebrado também.

Alguém que entendia a sensação de inadequação sem que eu precisasse explicar.

Enquanto ela chorava no meu ombro, comecei a perceber pequenas coisas que antes tinham passado despercebidas. O jeito como escondia certas partes do cabelo. Como evitava luz muito forte diretamente no rosto. Como a segurança exagerada dela parecia, em alguns momentos, quase ensaiada.

E talvez tenha sido exatamente ali que comecei a confiar nela de verdade.

Não pela sedução.

Não pelo desejo.

Mas porque, pela primeira vez, alguém parecia me enxergar sem me tratar como um problema a ser resolvido.

— Quando eu soube da traição, a psoríase chegou. Em pouco tempo eu quase não tinha cabelo. Não era só cair… eu arrancava. De desespero. Não era apenas coceira… era desespero…

O choro dela ficou mais forte.

Ficamos abraçados por algum tempo até ela finalmente conseguir respirar melhor.

Depois limpou o rosto, me encarou por alguns segundos e então, inesperadamente, sorriu.

Um sorriso cansado.

Mas provocativo outra vez.

Ela levantou e me puxou pela mão até o banheiro.

No chuveiro, a água quente ajudava a diminuir a tensão do meu corpo, mas também deixava tudo mais íntimo. Lady me observava como se analisasse cada reação minha enquanto a água escorria lentamente pelo seu rosto e pelos ombros.

Então ela sorriu novamente e deslizou a mão lentamente pelo meu corpo até chegar em minha virilha. Subitamente pegou meu pau com uma das mãos.

— Tenho que limpar essa delícia direito… tratar bem, pra que queira sempre.

Meu pau reagiu imediatamente.

Na verdade, eu já estava perto do limite fazia algum tempo.

— Srrr. Calma. Olha pra mim.

Abri os olhos e encontrei os dela.

Firmes.

Atentos.

Controlando completamente a situação.

— Você precisa aprender a se controlar. Vamos conversar. Foca na conversa… não no que minha mão tá fazendo aqui embaixo.

Não consegui responder.

Só assenti.

E, estranhamente, obedeci.

— Tenho que ser a mais honesta possível com você. Como eu já disse… eu prefiro garotas.

A mão dela continuava em movimentos lentos e constantes. O prazer ainda estava lá, intenso, mas aos poucos eu começava a entender o que ela queria.

Ela estava me ensinando a permanecer consciente mesmo excitado.

— Depois do que aconteceu comigo, eu quase nunca mais saí com homens. Você tem sorte, gatão.

Ela acelerou um pouco os movimentos, e aquilo quase acabou completamente com meu foco.

Quase.

— Eu tenho uma namorada. Ela é da minha faculdade. E tenho certeza que vai amar te conhecer… mas eu sou ciumenta, entendeu?

Quando falou “ciumenta”, apertou um pouco mais forte.

Meu corpo reagiu imediatamente.

Mas permaneci em silêncio.

Ela sorriu.

— Muito bem, gatinho. Tá aguentando melhor do que eu esperava.

A água continuava escorrendo pelos dois enquanto ela mantinha aquele controle absurdo sobre meu corpo e, principalmente, sobre minha atenção.

— Tenho uma proposta pra você. Minha namorada já sabe de tudo isso. Falei com ela antes de te chamar pra sair. Ela praticamente gozou aceitando.

Aquilo me atingiu de forma violenta.

Minha respiração falhou por um instante.

Lady percebeu imediatamente e interrompeu os movimentos, segurando firme e apertando a base de meu pau com uma mão e com a outra fez massagem no meu saco.

— Sempre que você for perder o controle, me avisa. Você só vai até o final no momento certo, entendeu?

Assenti com a cabeça.

Ela sorriu satisfeita.

E voltou a falar.

— Eu quero que você descubra todo o potencial que tem. Essa facilidade absurda de perceber padrões, reações, mudanças de comportamento… você enxerga coisas que a maioria das pessoas simplesmente não percebe.

Aquelas palavras me atingiram de forma quase desconfortável.

Porque pareciam uma continuação das conversas que eu tinha com Verônica.

Ou das sessões com Márcia.

— Você nasceu pra comandar o mundo. Mas não pode continuar deixando as pessoas te dominarem emocionalmente tão fácil. Precisa parar de reagir pra qualquer provocação. Eu posso te ajudar nisso. Posso te ensinar muita coisa sobre comportamento, psicologia, desejo… sobre pessoas. Cada microexpressão. Cada mudança de voz. Respiração. Olhar. Você pode deixar de ser tão manipulável.

Ela parou de falar.

E ficou apenas me encarando.

Diretamente nos olhos.

Os movimentos da mão ficaram mais intensos outra vez, mas, naquele momento, o que mais me desestabilizava já não era só prazer.

Era a sensação estranha de estar sendo compreendido.

De verdade.

Ela então riu baixo.

Um riso satisfeito.

— Perfeito. Melhor do que eu esperava.

Ela então se ajoelhou e começou a usar a boca, olhando diretamente nos meus olhos. Eu quase perdi o controle imediatamente, mas consegui me segurar.

— então, gatão… uma lição que Bruna, minha namorada atual, me ensinou e pela qual eu pagaria muito dinheiro para ter aprendido anos antes. Aproveita, porque isso a gente normalmente aprende vivendo… e, na maioria das vezes, de forma traumática.

Ela falava enquanto me masturbava lentamente e, quando parava de falar, colocava meu pau na boca e sugava forte.

— A satisfação é o combustível de um relacionamento. Essa é a verdade… cruel, injusta, mas é a verdade. Mantenha sempre sua parceira satisfeita.

Disse isso e voltou a chupar, repetindo tudo exatamente da mesma forma.

— você não precisa ser uma boa pessoa, um bom marido, uma boa esposa… basta manter a satisfação sexual.

Ela falou aquilo, beijou a cabeça do meu pau e voltou a chupar da mesma maneira intensa e controlada.

— Veja a quantidade de pessoas que fazem o mal, que batem, humilham, machucam, traem… seus companheiros e companheiras. E, mesmo assim, essas vítimas continuam com essas pessoas. Parecem não se importar e até defendem elas de críticas, ataques e denúncias. Se deixam isolar. Se voltam contra as pessoas mais importantes da própria vida.

Ela parou por alguns segundos.

Estava visivelmente emocionada. Os olhos lacrimejavam e já não me encaravam com a mesma firmeza de antes. Percebi um leve tremor em suas mãos.

Depois de alguns segundos respirando fundo, ela voltou a usar as mãos lentamente enquanto continuava falando. Tentei acariciar seu rosto, mas ela não deixou. Apenas continuou.

— Agora deixa sua namorada insatisfeita. Você pode ser o melhor parceiro do mundo, o melhor pai, namorado, marido… pode fazer tudo certo, tratar ela como uma princesa ou como uma rainha. Se ela estiver sexualmente insatisfeita, sempre vai encontrar uma desculpa para trair, para te destruir.

Depois dessa frase, ela voltou a usar a boca, mas dessa vez com uma intensidade absurda.

Esse foi o meu primeiro boquete.

A primeira vez que gozei na boca de uma garota.

Uma sensação completamente nova tomou conta de mim. Minha respiração falhou, minhas pernas ficaram fracas e, por alguns segundos, tive a sensação real de que estava no paraíso.

Talvez por isso eu tenha entendido tudo errado naquele momento.

Achei que aquela “lição” fosse apenas uma maneira de me distrair, de desviar meu foco para conseguir aguentar mais tempo sem perder o controle rápido demais.

Não percebi o quanto aquela conversa — e tudo que ela tentava me ensinar — era importante.

Esse foi um erro.

Um enorme erro.

Lady levantou logo depois e me beijou.

Um beijo intenso, demorado, completamente diferente dos anteriores. E, por incrível que pareça, não me incomodei nem um pouco com o fato de ter gozado na boca dela segundos antes.

Ela interrompeu o beijo devagar e voltou a olhar diretamente nos meus olhos.

— portanto, gatinho… você precisa aprender a satisfazer uma mulher. Como ficou claro, consegue se controlar, consegue se segurar. Agora precisa aprender a jogar o jogo. A sair de armadilhas e não demonstrar tanto os seus sentimentos. Ou, se minhas expectativas estiverem certas… aprender a demonstrar apenas quando for interessante para você. Você precisa aprender a não reagir tanto. A ser imune a jogos de sedução… ou melhor, precisa aprender a ser o protagonista desse jogo.

— Você acha que eu consigo?

— se eu não achasse, não teria te ligado e te chamado pra sair.

Respondeu sem hesitar.

— Depois que conversei sobre você com a Bruna, ela mesma deu essa ideia. Você precisa fortalecer sua inteligência emocional. Você percebe reações, padrões de comportamento, expressões… você já tem uma inteligência acima da média, mas inteligência emocional é tão importante quanto Q.I. Se conseguir amadurecer emocionalmente, vai ser imparável. Só toma cuidado pra não se deixar enfeitiçar, pra não se perder porque ficou apaixonadinho. Senão você pode acabar cego… ou pior ainda, paranoico, enxergando coisas além da realidade. Seu cérebro funciona de uma forma mais intensa. Isso pode ser positivo ou negativo.

Não consegui responder nada.

Apenas assenti.

E, durante muito tempo, achei que tinha entendido tudo o que ela tentou me ensinar naquele dia.

Conheci Bruna naquela mesma semana.

Uma mulata simplesmente sensacional. Parecia a Globeleza do carnaval.

Também conheci outras amigas de Lady, da faculdade e da academia. Começamos a sair juntos com frequência.

E não preciso nem dizer que nunca mais quis saber de Marcos e Maurício.

Com o tempo, ficou natural colocar em prática tudo o que elas me ensinavam. Passei a não reagir mais como antes. Muito pelo contrário. Comecei a perceber padrões de comportamento com mais clareza, identificar aberturas apenas pelo olhar, pela postura, pelas reações físicas e faciais das garotas.

Passei, de fato, a jogar o jogo.

Lady e Bruna lidavam com tudo de forma leve, natural. Continuei me relacionando com Lady, mas Bruna não gostava nem de assistir.

Com o tempo, comecei a me sentir mal por ela.

E, algumas semanas depois da minha primeira vez, resolvi conversar com as duas.

— claro, gatinho. Se você prefere, vamos apenas ser amigos. Melhores amigos.

Lady então me beijou e completou:

— Você só precisa melhorar um pouco mais esse oral.

Rimos juntos.

— Você tem muitas garotas à disposição. Mas não fica convencido. Foque em satisfazer. Tem meninas que gostam de controlar, outras gostam de ser controladas. Fica atento a tudo. E joga o jogo.

Disse Bruna.

Naquele momento, eu não queria nenhum relacionamento sério.

Estava vivendo uma ótima fase.

E, naquela época, aquilo pareceu suficiente.

…………………

(Tauane)

Cheguei em casa na sexta-feira à tarde. Falando a verdade, a saudade e a ansiedade por reencontrar todo mundo eram tão grandes que “matei” a aula da tarde da faculdade sem pensar duas vezes.

Durante toda a viagem de ônibus até em casa, meu peito parecia apertado. Eu tentava me distrair olhando a estrada, ouvindo música, pensando na faculdade, nos trabalhos acumulados… mas nada funcionava. A sensação era sempre a mesma: uma necessidade absurda de voltar.

Voltar para casa.

Voltar para eles.

E talvez, principalmente, voltar para ele.

Tati não estava. Tinha saído com as amigas. Carlos estava com a namorada. Apenas mamãe estava em casa.

Assim que me viu entrando pela porta, abriu os braços sem falar nada. E, no momento em que me abraçou, eu desabei.

O choro veio forte.

Não aquele choro bonito de filme.

Veio feio.

Pesado.

Como se eu estivesse segurando tudo fazia meses.

Mamãe, num primeiro momento, apenas me manteve em seus braços. Não perguntou nada. Não tentou racionalizar meus sentimentos. Apenas ficou ali, fazendo carinho no meu cabelo enquanto eu chorava como uma criança cansada demais para continuar fingindo que estava bem.

Depois de algum tempo, nos soltamos. Ela segurou meu rosto por alguns segundos e perguntou:

— O que aconteceu, minha filha?

É impressionante como mamãe me conhece.

Precisou de poucos segundos para perceber que havia algo errado.

Tentei negar. Tentei mudar de assunto. Perguntei da festa, da Tati, da viagem dela naquela semana… mas com mamãe aquilo nunca funcionava.

Nunca.

Respirei fundo e resolvi falar a verdade.

— Estou me sentindo sozinha. Ficar naquele apartamento, sem vocês…

Mas não consegui dizer o que realmente estava me destruindo por dentro.

Ela foi direto ao ponto.

Sem rodeios.

Sem hesitar.

— É sobre o Carlos, certo?

Fiquei completamente sem reação.

— Eu… eu…

— O relacionamento dele com Lady é diferente. Na verdade… não é um relacionamento.

Levantei os olhos imediatamente.

— Como assim?

Perguntei surpresa demais para tentar esconder.

Mamãe apenas suspirou de leve antes de responder:

— Converse com ele. Seja sincera. Se vocês dois não falarem o que realmente sentem, vão continuar distantes… mesmo com todo esse amor que existe entre vocês.

Aquela frase ficou ecoando dentro da minha cabeça pelo resto do dia.

Continuamos conversando sobre outros assuntos, mas mamãe não quis entrar mais naquele tema. E ela tinha razão. Da última vez que tentou interferir, tudo terminou da pior forma possível.

Mesmo assim… alguma coisa mudou dentro de mim depois daquela conversa.

O desânimo, a falta de perspectiva, aquela sensação constante de vazio… tudo começou a dar espaço para algo diferente.

Esperança.

Pequena.

Frágil.

Mas esperança.

E, pela primeira vez em muito tempo, resolvi tentar.

No sábado, dia da festa, saí cedo de casa e fui para o salão de beleza. Passei horas lá. Depois fui ao shopping comprar um vestido.

Escolhi um simples.

Bonito sem parecer exagerado.

O corte valorizava minhas pernas sem mostrar demais. O decote fazia a mesma coisa. Pela primeira vez em meses, eu não queria chamar atenção. Só queria… me sentir bonita.

Quando cheguei em casa, encontrei Tati.

— Onde você estava? Nem almoçou em casa.

Ela sorriu daquele jeito típico dela, pegou minha mão e me puxou para o quarto.

Enquanto eu terminava de me arrumar, ela falava sem parar. Estava feliz. Leve. E aquilo me fazia bem.

— Ele mudou muito. Você vai gostar… se bobear eu roubo ele.

Falou rindo.

Insisti no assunto da tal namorada.

— não são namorados. Mas é melhor não me meter. Conversa com ele. Fala o que sente. Ahh… e faz terapia… poupa a mamãe…

Ela falou rindo e mostrando as próprias mãos.

Pela primeira vez em muito tempo, não havia sinais da ansiedade que costumava destruir suas cutículas.

Foi naquele instante que decidi começar terapia também.

Terminei de me arrumar. Tati e eu tiramos uma foto no espelho do banheiro e, por alguns segundos, tive uma sensação absurda e perigosa:

talvez tudo pudesse voltar ao normal.

Saímos do quarto e encontramos Carlos na sala.

Ele ajudava duas garotas a arrumar a decoração da mesa.

Mas, no instante em que me viu, tudo ao redor pareceu desaparecer.

Carlos sorriu.

E meu Deus…

Que sorriso.

Ele estava ainda mais forte do que da última vez que o vi pessoalmente. Mas não era só isso. O jeito de andar, a postura, o semblante… havia uma segurança nele que simplesmente não existia antes.

Ele chamaria atenção em qualquer lugar.

E aqueles meses deixaram isso muito claro.

Carlos caminhou na minha direção sem desviar os olhos dos meus em nenhum momento. Quando parou na minha frente, me abraçou devagar.

E meu Deus…

Que homem cheiroso.

— Seja bem-vinda, Tau.

Falou no meu ouvido, com a voz baixa.

Senti meu corpo inteiro reagir imediatamente.

Nos afastamos devagar, mas ele continuou me olhando.

Não era um olhar comum.

Não era o tipo de olhar masculino ao qual eu estava acostumada.

Parecia controlado.

Intenso.

Como se ele estivesse tentando enxergar alguma coisa muito além do meu corpo.

— Você está maravilhosa nesse vestido.

Sorri automaticamente.

E, naquele momento, não me senti a Tauane de sempre.

Parecia uma garota tímida tentando sobreviver ao olhar de um predador paciente.

Ficamos nos encarando por alguns segundos até as duas garotas se aproximarem.

Desviei o olhar para elas.

Uma era uma mulata absurda de bonita. Rosto, cabelo, corpo… tudo nela parecia perfeito demais. A outra era uma nissei baixinha, magra, com um sorriso naturalmente sedutor.

As duas pareciam modelos.

E minha primeira reação foi automática.

Quase involuntária.

“Claro… garotas de programa.”

O pensamento veio tão rápido que me assustou.

Segundos depois percebi o quanto aquilo era preconceituoso. E pior ainda: o quanto aquele pensamento diminuía o próprio Carlos de alguma forma.

Me forcei imediatamente a afastar aquilo da cabeça.

Hoje percebo que aquilo era defesa emocional.

Porque, se elas fossem “apenas isso”, talvez eu ainda tivesse alguma chance contra elas.

Eu era bonita.

Mas bonita de forma comum.

Na faculdade, cercada por garotas incríveis, percebi rapidamente que eu não era tão especial quanto imaginei a vida inteira.

Já elas…

Elas pareciam inalcançáveis.

— Carlos, essa é a gatona que você tanto fala? A que roubou seu coração?

Perguntou a japonesa — que depois descobri se chamar Lady.

Acho que até o próprio Carlos se assustou por um instante, mas reagiu muito melhor do que teria reagido meses antes.

— essa mesma. A loirinha da minha vida.

Tati entrou na conversa imediatamente:

— pensei que eu fosse a loirinha da sua vida.

Todos riram.

E eu sinceramente me senti perdida.

Parecia que era a única pessoa ali que não entendia exatamente o que estava acontecendo.

A conversa continuou leve. Tati fazia perguntas que claramente já sabia as respostas. Elas explicaram como conheceram Carlos, como se aproximaram dele, como ensinaram “algumas coisinhas”.

Contaram até que ele tinha pedido para parar de ficar com Lady por causa do relacionamento das duas.

Mas o que mais me desconcertava era outra coisa.

Carlos praticamente não tirava os olhos de mim.

Parecia observar cada reação minha.

Cada expressão.

Cada mudança de comportamento.

E havia desejo naquele olhar.

Desejo de verdade.

Aquilo me deixou profundamente desconfortável.

E absurdamente excitada ao mesmo tempo.

Mamãe chegou pouco depois, acompanhada de uma amiga, e ficou emocionada com a festa surpresa. Ela realmente esperava apenas um almoço simples em família no domingo.

Depois dos parabéns, enquanto todos ainda conversavam e riam ao redor da mesa, Carlos se aproximou outra vez.

— Tau, podemos conversar?

Demorei alguns segundos para responder.

Acho que apenas balancei a cabeça concordando.

E, naquele momento, alguma coisa dentro de mim teve certeza de uma coisa:

depois daquela conversa, nossa relação nunca mais seria a mesma.

Talvez a amizade pudesse voltar.

Talvez algo muito maior também..

Continua.

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Comentários

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Querido Manfi, tentei mas não consegui ler o capítulo anterior...

Esse chegou com muita qualidade, o que já era esperado. Sendo assim fico aqui no aguardo do próximo.

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