A gótica esquisita da faculdade

Um conto erótico de Haedrig
Categoria: Heterossexual
Contém 5538 palavras
Data: 20/05/2026 16:28:55

O estacionamento da faculdade parecia mais deprimente no turno da noite. Talvez porque tudo ficava com aquela iluminação branca de hospital psiquiátrico barato. Talvez porque eu estivesse cansado demais para romantizar qualquer coisa. Fiquei no carro esfregando os olhos, tentando dispersar o cansaço. Desci esfregando o rosto e conferi o horário no celular. Para variar, atrasado de novo.

Desde que troquei do período da manhã para a noite minha vida virou um ciclo interminável, acordar cedo, carregar caixa, resolver problema no rancho, ajudar meu avô a levantar porque ele está velho demais para fazer alguma serviço braçal, tomar o café forte e sem açúcar da minha avó (a melhor parte de tudo isso) e chegar morto na faculdade.

Meu avô dizia que o trabalho de dia e estudo a noite criava caráter. Pessoalmente, eu achava que estava criando depressão. Atravessei o corredor principal da faculdade ouvindo o eco dos meus próprios passos e entrei na sala. O velho do professor abaixou os óculos na ponta do nariz assim que me viu entrando.

— Senhor Gabriel, atrasado de novo, não esperava menos.

— Boa noite pro senhor também.

Algumas pessoas riram, poucas. A turma da noite tinha energia de velório. Passei os olhos rapidamente pela sala procurando uma cadeira vazia enquanto o professor voltava a falar sobre alguma coisa relacionada a grupos de trabalho, todo mundo já estava organizado em panelinhas.

— Certo, agora tem duas pessoa sem grupo — o professor murmurou olhando a lista. Depois levantou os olhos pra sala.

Os olhos dele foram direto para o fundo seguido de uma expressão de desaprovação. Segui o olhar dele e foi aí que percebi ela, sozinha de uma maneira preocupante. Tinha literalmente uma cadeira vazia em cada lado dela. Cabelo preto curto, quase masculino, moletom preto largo, o short jeans preto curtíssimo e um olhar de quem parecia odiar profundamente qualquer um que se aproximasse. A maquiagem preta também não ajudava, deixava a cara de poucos amigos pior ainda. Ela mascava chiclete encarando o próprio caderno enquanto rabiscava alguma coisa. O professor suspirou.

— Garota do fundo?

Ela levantou os olhos devagar, como se estivesse acostumada a ser chamada por tudo, menos pelo nome. Pelo olhar, agora entendia o porque estava no fundo e sozinha, eu poderia falar que ela parecia deprimida se não fosse pelo olhar de ódio. Ela ficou encarando o professor em silêncio enquanto mascava chiclete.

— É Charlotte, seu velho. Toda semana eu te falo meu nome e mesmo assim você esquece? Tá com alzheimer? — respondeu finalmente.

— Gabriel, você pode fazer dupla com ela — o professor falou, claramente ignorando a resposta da garota. — A Charlotte é… um pouco difícil, mas extremamente inteligente.

— Que elogio horrível — ela murmurou para si mesma, nem erguendo os olhos do caderno.

Soltei uma risada pelo nariz sem querer, ela ouviu, certeza que ouviu, porque me lançou um olhar rápido, assassino também, pois parei de risadinha na hora, como se ela estivesse decidindo se eu merecia viver ou não. De qualquer maneira, puxei uma cadeira e sentei ao lado dela.

— Boa noite — tentei.

Nada.

— Me chamo Gabriel.

— Eu sei — ela respondeu. — O professor falou seu nome duas vezes desde que você entrou atrasado.

Decidi não insistir. Eu estava cansado demais para tentar socializar com uma entidade gótica hostil às nove da noite. O professor voltou para frente da sala e voltou a explicar o trabalho, ouvi alguma coisa sobre seminário, pesquisa, apresentação oral e entrega no fim do semestre.

— Eu quero morrer com esses seminários de merda desse velho idiota senil — ela murmurou baixo, revirando os olhos.

Ri silenciosamente por dentro dessa vez, aquilo foi engraçado, mas não me atrevi a dar nenhum tipo de risada que ela pudesse ouvir, talvez eu não resistiria a outro olhar assassino daquele.

A aula continuou se arrastando lentamente enquanto o professor falava sobre metodologia, normas da ABNT. Apoiei o rosto na mão tentando prestar atenção, mas meu corpo inteiro parecia pesado demais depois de um dia de trabalho pesado no rancho. Minhas costas doíam, meus braços também, e eu tinha quase certeza que ainda tinha terra grudada no meu corpo. Charlotte continuava quieta ao meu lado, apenas o som ininterrupto dela mascando chiclete devagar enquanto rabiscava alguma coisa no caderno, sem levantar a cabeça uma vez sequer. Em certo momento, inclinei um pouco o rosto tentando entender o que ela tanto escrevia.

Não entendi porra nenhuma.

Parecia um misto de anotações da aula, letras de música e símbolos estranhos que eu honestamente não fazia ideia do significado. Passei a mão no rosto outra vez, sentindo o cansaço bater ainda mais forte agora que finalmente tinha sentado. Acho que cheguei a fechar os olhos por alguns segundos, porque quando percebi, Charlotte estava olhando pra mim. Os olhos dela desceram devagar pelos meus braços, minhas mãos, minhas roupas sujas de poeira. Observei ela reparar nos pequenos cortes perto dos meus dedos, provavelmente das cercas do rancho. Depois subiu de novo pro meu rosto. Ela franziu levemente a testa.

— Porra… você tá com muita cara de cansado.

— Obrigado… eu acho.

— Não foi um elogio — Charlotte apoiou o queixo na mão de novo, ainda me encarando de lado. — Você tá com uma cara genuína de quem não dorme há uns três dias.

— Trabalhei o dia inteiro antes de vir.

— Fazendo o quê?

Aquilo me pegou desprevenido, era a primeira pergunta minimamente normal que aquela criatura estranha tinha feito desde que eu sentei ali.

— Ajudo meu avô num rancho.

— Que bom, pelo menos esse professor idiota não me colocou junto com um playboy mimado — ela respondeu após ficar em silêncio por alguns segundos. — Isso também explica as mãos

Olhei automaticamente para as minhas mãos apoiadas na mesa. Cheias de pequenos cortes, marcas vermelhas e poeira seca perto das unhas.

— Explica o cheiro de madeira também — ela completou.

— Você tava me cheirando? — rebati arqueando a sobrancelha.

— Infelizmente você tá perto o suficiente para não precisar esforço nenhum — ela respondeu desviando os olhos, então voltando a encarar o caderno como se aquela conversa inteira nunca tivesse acontecido.

— Você é meio estranha, sabia?

— Meio? — Charlotte nem levantou os olhos do caderno.

Aquilo me arrancou outra risada baixa, mas decidi parar por ali. Honestamente, eu já estava cansado demais pra continuar tentando entender aquela garota. Apoiei o braço na mesa e voltei a olhar pro quadro enquanto o professor seguia falando sem parar sobre seminários, apresentações e sei lá mais o quê.

Ao meu lado, Charlotte voltou a escrever. De tempos em tempos eu percebia ela olhando discretamente para mim. Primeiro para as minhas mãos apoiadas na mesa. Depois para os arranhões perto dos dedos. Em outro momento, para o estado da minha camisa amarrotada. O professor bateu uma das mãos na mesa da frente da sala, chamando atenção da turma.

— Na próxima semana eu quero a divisão completa dos tópicos e o cronograma das apresentações.

A sala inteira começou a virar uma bagunça imediatamente. Gente arrastando cadeira, trocando número, reclamando do tema, combinando horário. Virei o rosto lentamente para Charlotte já esperando o pior. Ela arrancou uma folha do caderno sem falar nada e empurrou na minha direção, peguei a folha confuso e então fiquei encarando aquilo por alguns segundos, tinha tudo, divisão de tópicos, datas, referências, estrutura do seminário, ordem dos slides, possíveis perguntas que o professor poderia fazer. Até observações sobre tempo de fala. Levantei os olhos pra ela.

— Que porra…

Charlotte continuava mascando chiclete como se aquilo fosse completamente normal.

— O quê?

— Você fez isso tudo durante a aula?

Charlotte finalmente levantou os olhos para mim de novo e ficou olhando por tempo demais, o suficiente para me deixar desconfortável. Então desviou os olhos lentamente e puxou o caderno de volta para perto do corpo, no canto inferior da folha que ela tinha me dado tinha um nome rabiscado. Charlotte, e logo abaixo, um número de telefone.

O professor então finalmente nos dispensou, toda a turma começou a levantar num caos barulhento. Continuei sentado por alguns segundos olhando a folha que Charlotte tinha me entregado. Quando percebi, ela guardava as coisas, rápido, enfiou o caderno dentro da mochila, pegou o estojo preto cheio de adesivos descascados e foi embora sem olhar para trás.

Que garota estranha.

Guardei a folha dentro da mochila e fui embora também. O estacionamento da faculdade já estava quase vazio quando entrei no carro. A viagem até em casa foi silenciosa demais pro meu cérebro cansado. Quando cheguei em casa, tomei banho quase no automático, depois peguei o celular, gravei o número dela e mandei um “oi”. Depois comi qualquer coisa e me joguei na cama sentindo o corpo inteiro pesado. Achei que fosse apagar imediatamente. Perto das onze da noite, o celular vibrou, franzi a testa antes de abrir. Charlotte.

— Eu não vou apresentar.

Fiquei encarando a tela por alguns segundos, abri a foto de perfil, uma silhueta preta num fundo escuro, aquilo era a cara dela.

— Boa noite para você também — respondi

— Apresentar seminário é humilhação pública.

— Então qual exatamente é seu plano genial?

— Eu faço o trabalho, você apresenta.

— Isso parece injusto.

— Você tem cara de quem consegue falar com pessoas sem querer morrer.

— E você tem cara de quem pisaria num padre.

Mensagem visualizada, nenhuma resposta. Achei que talvez tivesse exagerado.

— Depende do padre.

Balancei a cabeça rindo sozinho outra vez. Aquela garota era completamente problemática.

— Aliás, você realmente tá exausto — ela continuou.

— Como sabe?

— Você força o olho esquerdo quando tenta ficar acordado.

— Você percebeu isso?

— Você faz bastante.

Minha testa franziu automaticamente, porque eu honestamente não fazia ideia de que tinha esse costume. E muito menos de como ela tinha percebido isso depois de poucas horas.

— Você observa demais as pessoas.

— Não, as outras pessoas não me aprecem tão interessantes.

— Isso foi estranhamente específico.

— Eu sou estranhamente específica, não percebeu ainda?

Larguei o celular no peito. Charlotte era definitivamente a garota mais estranha que eu já tinha conhecido. E, estranhamente, isso estava começando a me deixar curioso. A conversa morreu ali. Ou achei que tinha morrido. Porque quase vinte minutos depois, já perto de apagar de sono, o celular vibrou outra vez.

— Tem um gato me encarando na rua.

— Ok, preciso dormir agora, boa noite.

— Ele parece decepcionado comigo.

— Você manda mensagem desse jeito para todo mundo?

— Não converso com pessoas normalmente.

— Isso explica bastante coisa.

— Você também não parece gostar muito de gente.

— Não tenho problemas com isso, só fico cansado.

— Você parece cansado o tempo inteiro.

— Obrigado pela preocupação.

— Não foi preocupação.

Acabei dormindo pouco depois daquilo, e infelizmente acordei pensando nela. Só tentando entender que tipo de pessoa mandava mensagem sobre um gato depressivo perto da meia-noite. Na noite seguinte cheguei mais cedo na faculdade. Um milagre. O corredor ainda estava relativamente vazio quando entrei na sala, Charlotte já estava lá, sozinha, obviamente. Sentada no fundo como sempre, usando fones enormes pretos enquanto desenhava alguma coisa no caderno. Parei do lado da mesa.

— Você chega cedo só para sofrer mais tempo aqui dentro?

Ela levantou os olhos devagar, nenhuma surpresa, Charlotte puxou um dos fones do ouvido.

— O ônibus passa mais cedo, não tenho escolha.

Sentei ao lado dela, ela não reclamou, o que parecia uma conquista absurda, Charlotte fechou o caderno imediatamente, rápido demais.

— Você desenha bem.

— Invasivo você olhar caderno alheio.

— É difícil não olhar e tentar entender esse monte de rabisco.

Ela ficou me olhando por um segundo longo demais outra vez, então abriu a mochila preta ao lado da cadeira e empurrou uma lata de energético na minha direção.

— Toma.

— Isso é suborno?

— Você tá com cara de quem vai morrer antes da segunda aula.

— De qualquer forma, obrigado — peguei a lata ainda confuso.

Charlotte apoiou o rosto na mão, ela deu de ombros como se aquilo não tivesse importância nenhuma.

— Só não acostuma.

Tomei um gole enquanto a sala começava a encher lentamente. Algumas pessoas entravam falando alto demais pro horário, outras já reclamavam da aula antes mesmo dela começar. Charlotte automaticamente colocou o fone de volta em um dos ouvidos.

Toda vez que alguém passava perto da mesa dela, ela parecia se fechar um pouco mais. Os ombros endureciam. O olhar ficava irritado. Como um gato de rua esperando alguém encher o saco. Foi aí que um cara parou perto da nossa mesa. Camisa social apertada, perfume forte, aquele cabelo perfeitamente alinhado que claramente demorava mais que o meu banho inteiro. Charlotte revirou os olhos imediatamente. Não precisava de muito para saber que aquele era exatamente o tipo de pessoa que ela odiava.

— Eu odeio gente desse tipo.

— Você odeia bastante gente.

— Porque bastante gente merece.

Não consegui evitar a risada baixa, ela me encarou por um segundo.

— Você tá rindo demais perto de mim ultimamente.

— E você tá falando demais comigo ultimamente.

Charlotte ficou em silêncio, longo o suficiente para eu achar que talvez tivesse exagerado, ela desviou os olhos devagar pro caderno.

— Você não cansa minha cabeça e isso é bom.

Aquilo me pegou completamente desprevenido, ela falou tão baixo, tão sincero, parecia ter escapado sem querer. Charlotte percebeu no mesmo segundo, os dedos apertaram a caneta, Ela claramente queria voltar atrás.

— Quer dizer… você fica quieto às vezes.

— Uau. Que declaração emocionante.

— Cala a boca — ela rebateu com o rosto ficando levemente vermelho.

A aula começou poucos minutos depois, vulgo tortura coletiva.

O professor entrou carregando uma pilha de papéis e imediatamente começou a falar no seu tom de voz suave, me induzindo o sono quase que imediatamente. Em menos de quinze minutos metade da sala já estava mentalmente morta.

Charlotte apoiava o rosto na mão enquanto girava a caneta entre os dedos sem prestar atenção nenhuma. Às vezes ela rabiscava alguma coisa, às vezes só encarava o vazio. Em certo momento olhei discretamente pro caderno dela esperando encontrar anotações da matéria. Ela desenhava um morcego usando moletom.

Não perguntei, nem sequer queria saber o significado daquilo.

Perto da metade da aula o professor resolveu apagar as luzes pra passar alguns slides no projetor. Erro fatal. O ambiente inteiro ficou silencioso, escuro e abafado. Perfeito para destruir qualquer resquício de consciência humana. Passei a mão no rosto tentando continuar acordado. Do meu lado, Charlotte me observava de novo.

— Você vai apagar.

— Tô tentando não apagar.

— Seu olho tá tremendo outra vez.

— Para de reparar nisso e presta atenção na aula.

Voltei a olhar pro quadro enquanto ela continuava me encarando por tempo demais antes de finalmente desviar os olhos. A aula seguiu lentamente até o professor suspirar cansado perto das dez da noite.

— Certo, podem ir mais cedo hoje.

A sala praticamente reviveu. Gente levantando feliz, guardando material correndo e saindo antes mesmo do homem terminar a frase. Comecei a guardar minhas coisas também enquanto Charlotte permanecia sentada, quieta.

— Gabriel.

Foi a primeira vez que ela falou meu nome daquele jeito. Olhei pra ela, Charlotte desviou os olhos imediatamente.

— Você veio de carro?

— Vim.

Ela ficou em silêncio por dois segundos longos demais, claramente desconfortável. Então puxou a manga do moletom até cobrir metade da mão antes de falar:

— Meu ônibus vai demorar para passar.

— Você tá pedindo carona?

— Infelizmente.

Aquilo me arrancou uma risada baixa, Charlotte revirou os olhos imediatamente.

— Não faz parecer um evento histórico.

— É que eu honestamente achei que você preferiria andar vinte quilômetros na chuva do que pedir ajuda.

— Normalmente eu preferiria.

— E o que mudou?

Silêncio, ela puxou a mochila pro ombro antes de responder baixinho:

— Anda logo antes que eu mude de ideia.

Saímos da sala junto com o resto da multidão barulhenta da faculdade. Charlotte caminhava ao meu lado em silêncio, as mãos escondidas dentro das mangas do moletom preto enquanto desviava automaticamente de qualquer grupo de pessoas no corredor. O estacionamento estava úmido da chuva fraca que tinha começado a cair enquanto estávamos na aula. Destranquei o carro e Charlotte entrou rápido demais.

O caminho começou silencioso, não um silêncio ruim, ao mesmo tempo confortável e estranho. O rádio tocava baixinho enquanto as luzes da cidade passavam refletidas no vidro molhado. A chuva começou a ficar mais forte, Charlotte observava tudo pela janela com o rosto parcialmente escondido pela gola do moletom.

— Se eu quebrasse a perna… você me carregaria? — Ela perguntou, do mais absoluto nada.

— Que tipo de pergunta é essa? — franzi a testa de imediato.

— Só pensei nisso — ela deu de ombros.

— Do nada?

— Responde a pergunta!

— Você me deu o energético, então acho que carregaria sim.

— Sem dificuldade? — Ela sustentou meu olhar por alguns segundos antes de perguntar.

— Acho que sim.

— Você deve ser forte, faz trabalho braçal todos os dias — ela apoiou o rosto na mão devagar. — Hum.

O silêncio voltou por alguns segundos, Charlotte continuava olhando para mim de vez em quando, não discretamente como fazia na sala.

— Você provavelmente conseguiria me carregar sem esforço nenhum — ela murmurou mais baixo dessa vez.

— Você pesa o quê? Cinquenta quilos? — soltei uma risada curta.

— Cinquenta e três.

— Então sim.

Charlotte mordeu lentamente o piercing no canto da boca enquanto desviava os olhos pro vidro outra vez, e pela primeira vez desde que conheci aquela garota, senti que ela tinha ficado nervosa. Os dedos dela apertavam a manga do moletom de leve enquanto o silêncio dentro do carro ficava cada vez mais apertado, quente, estranhamente íntimo.

— Você tem cara de quem seria perigoso se percebesse o efeito que tem nas pessoas.

— Que tipo de comentário é esse?

— Só uma observação — Charlotte deu de ombros.

— Você fala umas coisas absurdas do nada — murmurei.

O carro parou num semáforo vermelho. Quando virei o rosto rapidamente na direção dela, Charlotte já estava olhando para mim outra vez, não desviou.

A luz vermelha do semáforo atravessava parcialmente o vidro molhado e iluminava o rosto dela de um jeito estranho. O cabelo curto bagunçado. O olhar cansado. A boca parcialmente escondida pela manga do moletom. Ela sustentava contato visual.

— Você encara bastante as pessoas — falei tentando soar casual.

— Não pessoas.

— Ah, claro.

— Você fica desconfortável quando eu olho muito? — ela inclinou levemente a cabeça como se quisesse olhar melhor minha reação.

— Um pouco.

— Por quê?

— Charlotte, você faz perguntas perigosas para alguém que parece odiar interação humana.

Ela finalmente sorriu, um sorriso pequeno, quase torto. Mas foi provavelmente o sorriso mais bonito que eu tinha visto nela até agora. O semáforo abriu. Voltei a dirigir tentando ignorar o fato de que meu coração tinha acelerado por causa de um sorriso mínimo.

Que coisa mais ridícula.

O silêncio voltou, mas agora parecia carregado demais para ser confortável. Charlotte apoiou a cabeça no vidro enquanto observava a chuva.

— Você fica diferente quando ri.

— Diferente como?

— Menos cansado — ela falou após alguns segundos.

A chuva tinha engrossado no caminho. Estacionei em frente ao prédio pequeno e antigo que Charlotte apontou. Desliguei o carro, o silêncio veio imediatamente, só o som da chuva batendo no teto. Ela continuou parada no banco do passageiro por alguns segundos, olhando para frente, como se estivesse pensando demais. Ela soltou o cinto devagar, mas não abriu a porta. Virei um pouco o rosto na direção dela, Charlotte estava me olhando outra vez, aquele olhar fixo, intenso, estava começando a mexer comigo.

— O que foi?

— Nada — ela desviou os olhos pela primeira vez em vários minutos.

Mentira, dava para perceber facilmente quando ela mentia porque ficava mais quieta ainda, os dedos dela apertavam nervosamente a manga do moletom.

— Você quer subir? — ela perguntou, tímida.

— Hum? Ah, que estranho, por um momento achei que tivesse perguntado se eu queria subir para o seu apartamento.

— Esquece. Pergunta idiota — Charlotte apoiou a cabeça no banco, claramente arrependida da pergunta no exato instante em que ela saiu da boca.

— Não, eu só…

— Você fica muito lento quando eu pego você desprevenido.

— Você faz isso de propósito.

— Talvez.

— Você tá me chamando para entrar porque tá chovendo ou porque não quer ficar sozinha?

— As duas coisas parecem uma resposta humilhante.

— Então acho que vou subir — Olhei para ela por mais um segundo antes de destravar o cinto.

Parecia ser a resposta que ela precisava, ela sorriu, agora um sorriso leve, não torto. Mas a chuva lá fora ficou mais pesada, do tipo que não dava espaço sequer para abrir a porta. Ela olhava pela janela, frustrada, então voltou seu olhar para mim, algo tinha mudado, parecia mais determinada, seus olhos estavam um pouco fechados, ela me olhava demais, um olhar diferente.

Decidi seguir meu instinto, me aproximei dela e rezei para estar certo. Passei o braço pela sua cintura e a beijei.

Ela retribuiu, graças a Deus, senão morreria ali mesmo. Ela fechou os olhos e se entregou, retribuindo o beijo, agarrei sua cintura forte e seu quadril e a puxei para o meu colo, ela era leve demais.

Afastei um pouco o banco para termos mais espaço e ela se aconchegou, abriu o zíper do moletom e de forma desleixada tentou tirar enquanto nosso beijo ainda acontecia. Era a primeira vez que a via sem aquela peça de roupa. Seus braços eram finos, pequenos, usava alguns adereços como colar, anéis que não havia percebido antes, fora as tatuagens que cobria seus braços.

— Eu tinha planejado fazer isso lá dentro — ela disse entre os beijos.

— Acho que a chuva estragou seus planos — disse antes dela morder meu lábio inferior e puxar um pouco.

O beijo dela era voraz, cheio de desejo, como se tivesse reprimido isso por tempo demais. Nossas línguas dançavam nas nossas bocas, ao mesmo tempo, ela arranhava minhas costas, suas mãos pequenas apertavam meus braços que eram consideravelmente maiores que os dela. Eu apertava suas coxas, seu quadril, sua bunda, sua cintura. Era tudo tão perfeito.

Ela não usava o mesmo short jeans de ontem, era de um tecido mais fino, tão fino que podia sentir sua buceta molhada esfregando por cima do jeans da minha calça. Dei um tapa em sua bunda, um leve, dei outro um pouco mais forte, ela gemeu. Um som suave demais, como quem havia gostado e quisesse pedir mais sem dizer nenhuma palavra. Dei outro tapa agora mais forte, ela revirou os olhos e jogou a cabeça para trás.

— Eu gosto disso — ela falou, mordendo os lábios.

Tentei puxar seu short de lado enquanto ela tentava abrir o zíper da minha calça. Meu pau pulou para fora entre suas pernas, ela pegou com força, deu um sorriso quando sentiu latejando em suas mãos. Me descontrolei um pouco e rasguei aquele short, era mais fácil que simplesmente tirar. Ela se posicionou, encaixou meu pau na entrada de sua buceta encharcada e começou a descer. Sentia meu pau arrombando as paredes de seu interior enquanto ela descia lentamente.

— Merda, é mais grosso do que eu pensei — ela murmurou para si mesma.

— Ficou pensando muito nisso?

— Você não tem ideia — ela falou se aproximando e me beijando novamente. — Fiquei o dia todo pensando em como seria seu pau, como seria o tamanho, a grossura e principalmente em como ele ia me arrombar hoje a noite.

Agarrei a cintura e a forcei um pouco para baixo, sentia seu sexo me apertar mais, sentia o fundo de sua buceta cada vez mais e mesmo assim sobrou alguns centímetros para entrar.

— Merda, espera — ela suspirou, dando alguns tapas no meu ombro. — Eu não tô acostumada com isso.

— Não tá acostumada a fazer sexo ou com o tamanho?

— Os dois.

Ficamos ali parados um pouco, a respiração dela estava pesada, os olhos fechados, às vezes apertava minha camisa. Enquanto isso, tentava entender aquelas tatuagens, acariciava seu corpo, perfeito demais para ficar escondido por baixo aquele moletom excessivamente grande. Ela suspirou de novo, senti seu quadril mexendo, para cima e depois lentamente para baixo, fazendo o restante do meu pau entrar. Sua buceta estava tão molhada que escorria.

— Uh, consegui! — ela sorriu, ainda com os olhos fechados.

Fiquei ali parado, observando aquela garota estranha que havia conhecido ontem e já estava prestes a pular no meu pau. Ela abriu os olhos e olhou no fundo dos meus, passou os braços pelo meu pescoço e se aproximou, me beijando novamente, agora subindo e descendo devagar. Agarrei sua coxas e deslizei as mãos até sua bunda, apertando e dando um outro tapa forte. Ela desgrudou nossas bocas e soltou um gemido, começou a sentar mais rápido. Dei outro tapa, mais forte, ela mordeu o lábio, sentando mais forte.

— Sadomasoquista, combina com você — falei, pensando um pouco alto.

— É, eu gosto, é demais pra você? — ela abriu os olhos e me encarou, só aumentando o ritmo da sentada.

— Problema nenhum, gosto assim também.

Apertei mais forte sua bunda, dando uma sequência de tapas fortes em sua bunda, ela rebolava como quem pedisse por mais, sentia sua respiração ofegante bem próximo, o vidro do carro ficando embaçado e por um momento me peguei pensando em como aquilo tinha escalado tão rápido. Observei aquela gótica gostosa pulando no meu pau e imaginando a sorte grande que havia tirado por causa do professor, ou talvez pelo destino que me fazia sempre chegar atrasado. Se sempre chegasse a tempo antes da aula começar, nunca formaria uma dupla com ela.

Voltei a prestar atenção no momento quando os gemidos dela começaram a ficar mais altos, mais agressivos, até ela parar um pouco, mais ofegante que antes.

— Gozou?

— É, gozei sim — ela dizia jogando o cabelo para trás e apoiando as costas no volante. — A chuva parou, quer subir?

Nem foi preciso uma resposta. Ela foi para o banco do passageiro, vestiu seu moletom que cobria todo o resto do corpo, eu me ajeitei e sai do carro. Subimos tão rápido que sequer prestei atenção quantos andares a gente subiu, entramos no seu apartamento e no momento que ela virou a chave para trancar a porta, eu a agarrei e voltei a beijá-la, a empurrei até chegar numa parede, forcei ela a se ajoelhar e abri o zíper, fazendo meu pau ainda melado de sua buceta pular para fora.

— Uow, gostei disso.

— Só preciso da sua boca para me chupar agora, ok? — rebati, pegando meu pau pela base e forçando em sua boca.

Ela manteve o contato visual, vi seus olhos marejando quando enfiei meu pau em sua garganta a ponto dela engasgar. Ela mal conseguia aguentar metade na boca. As mãos dela entraram em ação, uma passou a massagear minhas bolas, a outra a punhetar meu pau enquanto a língua se concentrava na cabeça. Não precisei mais forçar, não precisei sequer usar as mãos, Charlotte já fazia o resto do serviço. As mãos eram habilidosas, punhetava meu pau, as vezes se apoiava na minha coxa, outrora mamava feito uma bezerra, tentava engolir tudo, engasgava. Ela estava se divertindo com tudo aquilo, conseguia ver seu sorriso mesmo com meu pau preenchendo sua boca.

— Tá gostando de sentir o gosto da própria buceta no meu pau? — perguntei.

Ela só respondeu com um sorriso mais largo que os anteriores. Ela se levantou.

— Quero que você me foda em cada canto dessa casa — ela ficou na ponta dos pés, caçando um beijo.

A beijei novamente, minhas mãos deslizaram até suas coxas e a ergui, indo até o sofá da sala, lentamente a deitei. Ela abriu o moletom, mas antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, arranquei o que sobrou daquele short, agora havia percebido que estava sem calcinha. Não perdi tempo, mirei meu pau em sua buceta e comecei a meter forte, sentia falta daquela buceta apertada em torno do meu cacete. A fodi freneticamente, erguia suas coxas e as puxava contra mim a cada estocada, sentindo cada vez mais fundo sua buceta.

— Tá batendo no meu útero, tô sentindo — ela gemia e em momento nenhum desviou o olhar. — Tá tão fundo, caralho, tão fundo.

Ver ela se contorcendo, ouvir ela falando daquele jeito me causava a necessidade de que deveria meter cada vez mais forte e fundo. Aquela gótica em público, mal olhava para outras pessoas, mas para abrir as pernas e levar um caralho ali no meio, a história era outra.

— Me leva pro quarto, quero sentar em você de novo!

Ela se agarrou no meu pescoço, a posição estava fácil apenas para pegá-la, agarrei cada coxa em cada braço, ela cruzou as pernas na minha cintura, em momento nenhum tirei meu pau de dentro dela e andei até o que eu acharia que era o quarto dela. Fui para colocá-la na cama, mas do lado percebi um espelho grande, então tive uma ideia mirabolante.

— Olha ali naquele espelho enquanto eu fodo você.

O rosto dela estava apoiado do meu ombro, ela ergueu e olhou para o espelho, tínhamos uma visão ampla dela grudada em mim. Agarrei melhor suas coxas, flexionei um pouco os joelhos e passei a meter novamente, em pé, com ela agarrada em mim e suspensa.

— Caralho, caralho, caralho... — ela me abraçou, gemia no meu ouvido enquanto o barulho do choque dos nossos corpos tomava conta do ambiente.

Aquilo era excitante pra caralho, foder uma garota menor, pegar ela no colo daquele jeito e afundar minha rola nela enquanto gemia no meu ouvido. Não duramos muito tempo naquela posição, em pouco tempo ela gozou, em pouco tempo meus músculos começaram a pedir arrego. Mesmo que o tesão tenha me dando um gás, ainda continuava cansado. A larguei na cama, ela ficou ali, ofegante, tentando recuperar as energias. Achei que tinha acabado ali então me deitei ao lado dela.

— Isso foi golpe baixo, se aproveitou que eu sou leve e me usou feito uma boneca sexual — ela sorriu, um sorriso malicioso agora enquanto se arrastava para cima de mim. — Mas ainda quero sentar mais nesse pau, não tô satisfeita ainda.

Ela ficou de pé, por cima de mim, então ela agachou, ficou de cócoras, encaixou a buceta no meu pau e começou a sentar com força. Não acreditava ainda que aquela garota de um e cinquenta de altura fosse aguentar tanto tempo, mas para não sair desmoralizado, combinei o ritmo das quicadas dela e aproveitei para forçar um pouco meu pau no fundo da buceta dela. Mas ter a visão da flor de mel dela engolindo todo o meu cacete não ajudava em nada.

— Acho que você vai gozar logo — ela disse sorrindo sem diminuir nada a velocidade das quicadas.

— Se continuar assim, vou mesmo.

Ela então saiu de cima e se sentou ao lado, agarrou meu pau com a boca e começou a chupar, enfiando o máximo que conseguia na garganta enquanto punhetava meu pau. Não demorou muito, comecei a gozar em sua boca, sentia o pau latejando entre dos lábios dela. Terminei de gozar, ela engoliu tudo e se deitou também, obviamente exausta.

— Foi divertido, garoto do rancho — ela falou.

— É, foi divertido, repentino, mas divertido.

— As melhores coisas acontecem assim, do nada — ela puxou a coberta. — Se quiser dormir aqui, não tem problema.

A voz dela estava diferente, mais baixa, mole. Passei a mão no rosto tentando recuperar alguma consciência.

— Eu preciso acordar cedo.

— Então fica só cinco minutos — Charlotte soltou um som frustrado pelo nariz sem nem abrir os olhos.

Olhei para ela, para a bagunça do quarto, para a chuva fina que continuava batendo lá fora. Meu corpo inteiro parecia pesado naquela hora.

— Cinco minutos — concordei.

Claramente o pior erro da minha noite. Charlotte se agarrou em mim. Nem lembro exatamente quando apaguei. Só lembro do celular despertando violentamente, abri os olhos assustado no mesmo instante. O toque alto ecoava no quarto enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. O celular ainda estava no bolso da calça que eu nem tirei do corpo. Do meu lado, Charlotte resmungou alguma coisa incompreensível e puxou a coberta mais para cima.

— Desliga essa merda… — a voz dela saiu rouca de sono.

Peguei o celular na calça e desliguei o despertador no mesmo instante. Olhei para o relógio, marcava cinco da manhã. O quarto voltou ao silêncio, Charlotte abriu um dos olhos devagar, claramente destruída de sono.

— Que horas são?

— Cinco.

Ela fez uma cara de sofrimento legítimo e apenas fechou os olhos, só para abrir novamente para me observar abotoar a calça, colocar os sapatos. Ela puxou a coberta até metade do rosto. Terminei de me arrumar perto da porta enquanto Charlotte permanecia deitada me observando quieta. Quando olhei para ela uma última vez antes de sair, ela sustentou meu olhar sem desviar. Assenti levemente com a cabeça, ela fez o mesmo, e foi assim que nos despedimos.

Trinta minutos depois eu estacionava no rancho. O sol ainda nem tinha nascido direito quando desci do carro naquele frio absurdo da manhã. Meu avô já estava acordado, o encontrei sentado perto da varanda tomando café.

— Dormiu fora? — ele perguntou me olhando por cima da caneca.

— Trabalho da faculdade, acabei ficando na casa de um colega para terminar umas coisas.

Meu avô simplesmente assentiu, pronto. Qualquer coisa envolvendo faculdade automaticamente fazia ele parar de questionar qualquer detalhe da minha vida, na cabeça dele, faculdade era coisa séria.

— Vai tomar café antes de começar ou vai virar zumbi no meio do curral? — ele perguntou.

Olhei pro céu clareando devagar. Depois pensei rapidamente na Charlotte, aquela garota que não deveria ter nem um e cinquenta de altura, enrolada no cobertor com ele cobrindo metade de rosto, o olhar sonolento dela. Veio uma vontade de dirigir de volta para a cidade só para me atirar na cama dela de novo.

— Café — falei alto demais. — Definitivamente preciso de um café.

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