Só Um Pouco Hétero - Capítulo Três

Um conto erótico de M.K. Mander
Categoria: Gay
Contém 5469 palavras
Data: 20/05/2026 01:18:32
Assuntos: Gay, Homossexual

Capítulo 3

— Mas para onde estamos indo? — Emily perguntou, puxando a mão de Shawn. — Quem vai vir nos buscar? — Bee perguntou, pulando animada e puxando a outra mão dele. Shawn olhou para aqueles rostinhos animados e fez uma careta internamente. Aquela era uma ideia terrível. — Um amigo — disse ele, optando por responder a Bee, já que não tinha ideia de para onde estavam indo. Presumivelmente, visitar o pai de Rutledge. Parecia que Rutledge e o pai estavam em pé de guerra — para dizer o mínimo —, então Shawn duvidava que seria uma reunião familiar calorosa, mesmo sem levar em conta o fato de que Rutledge claramente o estava levando junto apenas para irritar o velho.

Arrastar Emily e Bee para aquilo não era uma boa ideia, mas por outro lado... três mil dólares. Ele não teria que se preocupar com o salário da Sra. Hawkins por alguns meses.

— É ele? É ele? — Os pulos de Bee ficaram ainda mais empolgados enquanto ela apontava para o Mercedes preto que parara em frente ao prédio. — Provavelmente — disse Shawn. — Vamos lá. — Ele pegou a mala deles e segurou a mão de Bee com a outra. Dava para confiar que Emily ficaria por perto e não sairia correndo; Bee, não.

As portas do Mercedes se abriram quando chegaram perto. Shawn ficou surpreso ao descobrir que Rutledge já havia instalado cadeirinhas infantis de segurança. — Ei — disse ele para Rutledge, sentindo-se estranho e desestabilizado. Rutledge nunca deveria conhecer suas irmãs. — Emily, Melissa, digam olá para o Sr. Rutledge. — Eu não sou Melissa! — Bee disse com um biquinho. Shawn escondeu um sorriso. — Emily, Bee, digam olá para o Sr. Rutledge. — Olá, Sr. Rutledge! — disseram as duas juntas, e Shawn sentiu uma onda de orgulho. Elas tinham apenas quatro anos, mas eram muito espertas e articuladas. Pareciam anjinhos de cabelos dourados, sorrindo timidamente para o homem. Qualquer pessoa com coração teria sorrido de volta.

Aparentemente, Derek Rutledge não. Ele estudou as meninas como se fossem criaturas estranhas de outro planeta antes de assentir levemente e se voltar para Shawn. — Coloque-as nos assentos. Vou colocar sua mala no porta-malas. Shawn apenas revirou os olhos, perguntando-se o que havia transformado Rutledge em um maníaco por controle. Era uma ordem completamente desnecessária.

Quando as meninas já estavam presas atrás, Rutledge retornou ao banco do motorista. Shawn olhou para as irmãs uma última vez antes de fechar a porta com cuidado e ocupar seu lugar. — Antes de partirmos, quero deixar uma coisa clara — disse Shawn, baixando a voz para que as meninas não ouvissem. — Sei muito pouco sobre sua família, mas você não vai arrastar as meninas para seus problemas com seu pai. Se alguém tratá-las mal, nós vamos embora. Que se dane o dinheiro. Entendeu? Rutledge o encarou por um momento. — Ninguém vai tratá-las mal — disse ele antes de se inclinar, agarrar o queixo de Shawn e cobrir os lábios dele com os seus.

Shawn franziu o cenho — não era a hora nem o lugar —, mas Rutledge segurou seu rosto com firmeza, seus lábios duros e famintos, a língua explorando profundamente a boca de Shawn, confiante e possessivo. Logo, Shawn se viu completamente dominado pela intensidade do beijo. Aquilo continuou, e continuou, e continuou... — Shawn, você está machucado? Com um sobressalto, ele empurrou Rutledge e focou o olhar em Emily. — O quê? Não! Um vinco apareceu entre as sobrancelhas pequenas dela. — Achei que estivesse machucado. Você estava fazendo barulhos. Com o rosto quente, Shawn evitou terminantemente olhar para Rutledge. — Eu não estava fazendo barulhos. — Estava sim! — disse Bee, parecendo confusa. — Mentir é feio! Você mesmo disse! Emily assentiu. — E por que o Sr. Rutledge colocou a língua na sua boca? — Porque o seu irmão queria algo para chupar — comentou Rutledge, dando partida no motorista. Corado, Shawn chutou a canela dele, mas, para sua surpresa, as gêmeas pareceram satisfeitas com a explicação e começaram a falar de outra coisa.

Ele se recostou no banco. Shawn não olhou para Rutledge. Não conseguia. Ainda estava com o corpo quente, a pele tensa e a respiração irregular. Porra. O que estava acontecendo com ele?

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— Então, qual é o problema com seu pai? Eles estavam dirigindo há mais de uma hora e as meninas dormiam. Os olhos de Rutledge estavam fixos na estrada à frente. — Desde quando isso é da sua conta? — Não sei — disse Shawn, não sem sarcasmo. — Você está me arrastando — e a minha família — para a casa do seu pai, sem convite. Algo me diz que ele não vai ficar feliz em nos ver. — Não vai. Mas se serve de consolo, ele também não vai ficar feliz em me ver. Shawn encostou-se no banco e estudou o perfil dele. — Achei que ele tivesse convidado você. Rutledge soltou uma risada curta. Era um som gélido. — Meu pai nunca engoliria o orgulho para me convidar. Quinze anos atrás, ele disse que eu voltaria rastejando quando o dinheiro acabasse. Ele odeia estar errado. Os olhos de Shawn se arregalaram. — Quer dizer que você não vai para casa há quinze anos? — E eu ficaria longe por mais quinze com prazer. Ainda não estou convencido de que minha irmã não esteja mentindo sobre a saúde dele. Aquele velho desgraçado vai enterrar todos nós. Shawn ficou um pouco perturbado. O que o pai de Rutledge fizera para merecer tanto ódio do próprio filho? — Hum, ele batia em você quando era criança? O canto da boca de Rutledge tremeu. — Joseph Rutledge nunca faria algo tão plebeu. — Ah. — Shawn hesitou. — Ele te expulsou por causa da sua sexualidade? Os dedos de Rutledge apertaram o volante com mais força. — Ele nunca me expulsou. Eu saí por conta própria.

Shawn sentia que era mais complicado do que aquilo. Se o pai de Rutledge queria que o filho se casasse com uma mulher, significava que ainda não aceitara a sexualidade dele; provavelmente achava que era algo "curável". Mas como Shawn não conhecia o pai de Rutledge, só podia especular. — Como ele é? Rutledge deu de ombros levemente. — Típico aristocrata de família tradicional. Orgulhoso, prepotente e inflexível. — Hmm, ele me lembra alguém, então. Rutledge ficou visivelmente rígido.

Shawn observou a tensão nos ombros largos dele, o ângulo agressivo de seu perfil. A barba por fazer dava a ele um aspecto rústico, mais bruto. Os olhos de Shawn desceram pelos braços de Rutledge, dos bíceps forçando as mangas da camisa até os dedos que apertavam o volante um pouco mais do que o necessário. Shawn lambeu os lábios secos, encarando as mãos de Rutledge. Ele se lembrava delas apertando seu queixo, seu pescoço... — Se continuar me olhando desse jeito, vai acabar com o meu pau dentro de você antes que a viagem termine. Shawn desviou o olhar bruscamente para o rosto de Rutledge. Rutledge continuava olhando para a estrada. Com o rosto fervendo, Shawn disse: — Não sei do que você está falando. Rutledge apenas bufou.

O silêncio caiu entre eles, espesso, carregado, formigando com a consciência um do outro. Finalmente, Shawn não aguentou mais. — O que você quis dizer? — Você sabe o que eu quero dizer. Apesar das suas notas baixas, você não é completamente estúpido. — Uau, obrigado. Vou marcar esse dia no calendário. "O Professor Rutledge disse que eu não sou completamente estúpido". Me sinto tão especial, sabe. — Wyatt. — Rutledge ainda não olhava para ele. — Você não é tão hétero quanto acredita. Para ser direto: você me olha como se quisesse chupar o meu pau. Shawn abriu a boca, mas a fechou sem dizer nada. Então ele riu. — Você tem uma opinião muito elevada de si mesmo.

Rutledge suspirou, parou o carro no acostamento e desligou o motor. Sem uma palavra, saiu do carro, caminhou até o lado do passageiro, abriu a porta e arrastou Shawn para fora. — Ei! — disse Shawn, olhando para as gêmeas, mas elas continuavam em sono profundo. Rutledge bateu a porta e arrastou Shawn para longe do carro, em direção à mata. — Escuta... — Shawn começou, mas foi interrompido quando Rutledge o empurrou contra o tronco largo de uma árvore e colocou as mãos de cada lado do rosto de Shawn. Os olhos escuros o perfuraram. — Eu não tenho paciência para ataques de pânico de gays enrustidos. Não dou a mínima se você se ilude achando que é totalmente hétero. Mas quando estiver comigo, não quero ouvir essas bobagens. Shawn riu incerto. — Você não acha um pouco presunçoso dizer que sabe melhor do que eu se sou hétero ou gay? — Na verdade, acho que você é bissexual, mas isso não vem ao caso agora. Não estou dizendo que sei melhor do que você o que te excita. Mas eu tenho olhos. Consigo perceber facilmente quando um cara quer chupar o meu pau. — Eu não quero chupar o seu pau. Eu só chupo porque você me paga para fazer isso. — Sim, eu te pago — disse Rutledge em voz baixa. — Mas isso não significa que você não goste. Você tem um pouco de fixação oral, Wyatt. Sua boca é muito sensível. Você gosta de ter a boca cheia. Gosta de ser beijado. Gosta de ser fodido na boca. Shawn estremeceu. — Não gosto. Rutledge ergueu as sobrancelhas. — Você continua chupando o meu pau mesmo depois de eu gozar.

Com a pele esquentando, Shawn desviou o olhar. Sim, ele se pegara fazendo aquilo algumas vezes, mas... — Mesmo que o que você diz seja verdade, não prova nada. — "Fixação oral" era, na verdade, uma boa explicação para o porquê de ele gostar dos beijos de Rutledge e por que ter o pau de Rutledge na boca parecia... aceitável. — Você tem razão — disse Rutledge. — Gostas de chupar o pau de outro homem não te torna gay. — Para de zombar de mim. — Não estou zombando. Eles se olharam em silêncio. Shawn umedeceu os lábios com a língua. Rutledge ergueu a mão e acariciou o lábio inferior de Shawn com o polegar. Shawn ficou muito imóvel, mal respirando. Rutledge empurrou lentamente o polegar para dentro da boca dele, afastando gentilmente os lábios de Shawn, enquanto continuavam a se encarar. Shawn roçou tentativamente a ponta da língua no polegar e então... Ele chupou.

Rutledge inspirou bruscamente. Ele começou a empurrar e puxar o polegar para dentro e para fora da boca de Shawn, o tempo todo olhando-o nos olhos. Isso fez Shawn corar — ele estava chupando o polegar do seu professor, pelo amor de Deus —, mas que Deus o ajudasse, ele estava amando aquilo, o interior de sua boca formigando. Não conseguia parar de chupar. Queria continuar com aquilo. Ele soltou um pequeno ruído quando Rutledge removeu o polegar. — Definitivamente fixação oral — murmurou Rutledge antes de se inclinar e substituir o polegar pela língua.

Vários minutos depois, Shawn se viu na grama, com o corpo pesado de Rutledge sobre o seu. Ele gemia enquanto sugava vorazmente a língua de Rutledge, com as mãos enterradas nos cabelos do homem. Não conseguia mais fingir que não estava gostando, então não tentou suprimir os suspiros e gemidos de prazer enquanto Rutledge fodia sua boca profundamente com a língua. — Você é barulhento — rosnou Rutledge, dando mordiscadas ao longo da mandíbula de Shawn e descendo pelo pescoço. Shawn sentia-se desorientado demais para responder e apenas o puxou de volta para seus lábios. Queria mais beijos. Precisava de mais beijos. Rutledge atendeu, beijando-o profundamente, sua mão tateando entre eles, fazendo... algo. Os olhos de Shawn se arregalaram quando sentiu Rutledge envolver a mão nos paus de ambos. Ele ficou tenso. Ele estava duro. Estava duro. — Esqueça os rótulos, porra — disse Rutledge e começou a punheta-los rápido, beijando Shawn de forma mais profunda e suja.

Shawn não pôde fazer nada além de gemer. Estava longe demais para protestar. Queria gozar. Antes que pudesse se conter, começou a mover os quadris, acompanhando os movimentos de Rutledge, sentindo o pau de Rutledge roçar no seu, e porra, o simples pensamento — era errado e excitante ao mesmo tempo. Não demorou muito. Eles nem estavam mais se beijando — era mais como se tentassem engolir um ao outro, lábios e dentes mordendo e sugando. Shawn girou um pouco e enganchou uma perna sobre a de Rutledge, prendendo-os juntos. O fogo queimou através dele em um brilho branco incandescente, e ele podia senti-lo se acumulando em sua barriga, espalhando-se para fora em ondas. Sentiu Rutledge rosnar, baixo e rouco, estremecendo enquanto gozava, o calor úmido e pegajoso acumulando-se entre eles. Mais alguns movimentos e Shawn estava gozando também, gemendo e cravando as unhas nas costas de Rutledge.

Ele abriu os olhos lentamente e encontrou Rutledge já de pé, fechando o zíper da calça. Percebendo que seu pau ainda estava exposto, Shawn rapidamente se guardou e fechou o zíper, com os dedos trêmulos. Ele ouviu Rutledge caminhar de volta para o carro. — Uma delas acordou. Shawn levantou-se. — Delas? — disse ele, ainda incapaz de pensar em qualquer coisa além do fato de que acabara de ter relações com um homem. — Uma das crianças — disse Rutledge, ocupando o banco do motorista. Do jeito que Rutledge disse a palavra "crianças", ele poderia muito bem estar falando de alienígenas. Quase fez Shawn sorrir. Quase.

Shawn caminhou até o carro e sentou-se. Bee ainda dormia, mas Emily não. Ela estava chupando o polegar com sono, olhando entre Shawn e Rutledge. — Vocês não estavam aqui quando eu acordei. Shawn inclinou-se e beijou a testa dela. — Sinto muito, bebê. Ficou com medo? — Eu não sou um bebê — disse Emily. — Sou grande. Já chegamos? — Não — disse Shawn. — Então por que o carro parou? Shawn limpou a garganta. Como ele deveria responder aquilo? — Porque o Sr. Rutledge e eu precisávamos conversar. Rutledge deu partida no motor. Emily bocejou. — Por que não podiam conversar no carro? — Porque... porque não queríamos acordar vocês. Emily franziu o cenho, mas pareceu aceitar a explicação. Seus olhos começaram a fechar novamente. Soltando o ar, Shawn desviou-se dela e olhou para a paisagem que passava. — Coloque o cinto — ordenou Rutledge depois de um tempo. Shawn colocou o cinto e murmurou: — Maníaco por controle. — Então, já terminou seu ataque de pânico? — O tom de Rutledge era sardônico. — Eu não estava tendo um ataque. — Percebendo que falara um pouco alto demais, Shawn baixou a voz. — Por que eu teria? Então você me deu uma punheta. Grande coisa. Não transo há eras, e você sabe que beijos me excitam.

Rutledge não disse nada e voltou a olhar para a estrada, com o rosto completamente ilegível. Shawn o estudou. — Sabe, estou curioso sobre uma coisa — murmurou. — Por que eu? Por que você me paga uma quantia obscena por alguns boquetes? Você nem precisa pagar por sexo. Tenho certeza de que muitos gays transariam com você de bom grado. Digo, não é como se você fosse feio nem nada. Então, por que eu? — Está cavando elogios? — Não. Estou genuinamente curioso. — Eu quis te foder desde o momento em que você entrou na minha sala de aula, meses atrás. É simples assim. Shawn umedeceu os lábios, sentindo o estômago dar um pequeno nó. — Você me quis por todo esse tempo? Rutledge bufou, sem olhar para ele. — Eu não estava sofrendo de amor, Wyatt. Eu queria enfiar o meu pau em você. Você faz o meu tipo. — Loiro? — Não. Não me refiro à sua aparência. Se formos apenas pela aparência, seu amigo, Ashford, faz mais o meu tipo do que você.

As entranhas de Shawn se contraíram. Ele não sabia por que estava surpreso. Christian era extremamente atraente. Inferno, todo mundo se sentia atraído por ele. E com seu cabelo castanho-escuro, olhos expressivos e lábios vermelhos sensuais, ele era o oposto completo de Shawn. Shawn sempre se sentia pálido e sem graça perto do amigo. — Então, se fosse o Christian quem oferecesse sexo por uma nota, você aceitaria? Rutledge lançou-lhe um olhar estranho. — Não. Os músculos no estômago de Shawn relaxaram. — Por que não? — Porque eu não quero fodê-lo — disse Rutledge grosseiramente. Ele começava a parecer irritado, por algum motivo. — Achar alguém fisicamente atraente não é a mesma coisa que querê-lo. — Então o que você quis dizer quando disse que eu faço o seu tipo?

Rutledge ficou em silêncio por tanto tempo que Shawn começou a achar que ele não responderia. Havia um toque de autodepreciação em sua voz quando falou: — É tudo muito clichê. Quando eu estava na escola, eu era o estereótipo do nerd impopular. — Sério? — Olhando para aquele homem seguro de si e arrogante, Shawn tinha dificuldade em acreditar nisso. — Claro que era. Consegui meu doutorado aos vinte e três anos, Wyatt. Não tive exatamente tempo para socializar. — Isso explica muita coisa — murmurou Shawn. — Deixe-me adivinhar: havia um atleta popular por quem você era apaixonado e eu me pareço com ele? — Ele não se parecia nada com você. — Então como isso é relevante? — Se você parar de me interromper, vai descobrir. — Os lábios de Rutledge se curvaram. — Ele era o estereótipo do atleta popular. Obviamente hétero como uma flecha e agia como se fosse o dono do mundo, e eu queria... Eu olhava para ele e imaginava forçar o meu pau garganta abaixo dele. Imaginava prendê-lo e fazê-lo implorar para ser fodido. Fazer um garoto hétero implorar pelo meu pau.

Shawn engoliu em seco e olhou para as meninas para garantir que dormiam. — Onde você quer chegar com isso? Rutledge deu de ombros levemente, os olhos na estrada. — Bonito, hétero e inalcançável: esse é basicamente o meu tipo. Se você deixar eu te foder, vou ficar entediado de você. Eu sempre fico entediado deles. Shawn cruzou os braços sobre o peito, sentindo um frio repentino. — Quem fez isso com você? — perguntou finalmente, olhando para a paisagem rural. Estava escurecendo. — O quê? — Alguém te quebrou. — Shawn virou a cabeça para ele. — Não é saudável entrar em relacionamentos sabendo que estão fadados ao fracasso — que você perderia o interesse no cara depois de fodê-lo. E é realmente doentio ter "caras héteros e inalcançáveis" como seu tipo. Você tem medo de compromisso? Ou de outra coisa?

A mandíbula de Rutledge estava tão apertada que os tendões do pescoço saltavam. — Poupe-me da sua análise pseudopsicológica. A explicação é, na verdade, muito mais simples: eu apenas gosto de corromper e foder garotos héteros. Isso me excita. E antes que você me chame de babaca: eu sou sempre honesto com eles. A maioria dos caras "héteros" curiosos eventualmente quer voltar para suas vidas héteros de qualquer maneira, e eu não entro em relacionamentos de longo prazo. Então é uma situação em que todos ganham. Sem amarras. — Por que você não entra em relacionamentos de longo prazo? Você tem trinta e três anos. — E? — disse Rutledge. — Não sou o tipo de homem que quer uma casinha com cerca branca e dois filhos e meio. Shawn olhou para Emily e Bee. — Não sei — disse lentamente. — Sempre achei que os gays não eram muito diferentes dos héteros e que gostariam de sossegar eventualmente. Até o Christian quer isso. — Christian? — Rutledge parecia um pouco confuso. Shawn franziu o cenho. — Meu melhor amigo? — Ah. Você quer dizer Ashford. — Sério? Você não sabe o primeiro nome dele? — Por que eu iria querer saber o primeiro nome dele? Ele é meu aluno. — Eu também sou seu aluno, Professor. Rutledge olhou para ele, o canto da boca se curvando. — Quem disse que eu sei o seu primeiro nome, Wyatt? Shawn riu baixinho. — Ok. Para sua informação, é Simon. — Não, não é. — Á-há! Balançando a cabeça, Rutledge voltou a olhar para a estrada. — Eu obviamente sei o seu nome, mas não penso em você como Shawn. — Justo. Eu também não penso em você como Derek. — Até dizer o nome em voz alta era estranho, na verdade. Shawn sentiu o nome na língua. Derek. Não. Rutledge era Rutledge. Shawn ficaria muito preocupado no dia em que começasse a pensar em Rutledge como Derek. — Fico feliz que nos entendamos — murmurou Rutledge, com um toque de diversão na voz. — Agora venha aqui e me beije. Shawn piscou. — O quê? Você está dirigindo. Não é seguro. — Vou manter meus olhos abertos — disse Rutledge secamente, sem olhar para ele. Shawn olhou para a estrada — estava vazia em ambas as direções, e Rutledge dirigia devagar, mas ainda assim. — Você está falando sério? — Você já deveria saber que eu falo sempre sério. Estou perdendo a paciência. Shawn olhou para os lábios de Rutledge e disse: — Ok. Mas só um beijinho rápido. Não é seguro.

Ele se aproximou. Rutledge virou a cabeça ligeiramente e o beijou. Shawn suspirou e deixou a língua de Rutledge entrar. Depois de... algum tempo, Rutledge mordeu o lábio inferior de Shawn pela última vez e o afastou. — Você deveria me deixar te foder — disse ele sombriamente. Recostando-se no banco, Shawn limpou os lábios úmidos e inchados e respirou fundo. Sua pele ainda ardia por causa da barba por fazer de Rutledge.

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Já estava escuro quando eles chegaram.

Ao saírem do carro, Shawn olhou para a casa e disse, não sem humor: — Na verdade, agora algumas coisas sobre você estão começando a fazer um sentido terrível. — Era quase piada chamar aquilo de casa.

Bee bateu palmas, animada. — Um palácio!

— Não seja boba — disse Emily, em um tom superior. — Reis e princesas vivem em palácios. Nosso país não tem lealdade.

— Realeza — corrigiu Rutledge, travando o carro. — Se você vai chamar alguém de bobo, certifique-se de não cometer erros você mesma.

Bee abriu um sorriso radiante para Rutledge e agarrou a mão dele. — Eu gosto de você, Sr. Rutledge!

Rutledge olhou para a garotinha com uma expressão vagamente confusa antes de encarar Shawn.

Segurando um sorriso, Shawn disse: — Deixe o Sr. Rutledge em paz, Bee. Venha, pegue a minha mão.

Bee fez beicinho, mas soltou a mão de Rutledge e pegue a de Shawn. Emily pegou a outra mão dele, enquanto alguns funcionários apareciam para levar a bagagem para dentro.

— Eu não gosto dele — disse Emily enquanto caminhavam para a casa.

— Não seja rude, querida — disse Shawn, lançando um olhar para o homem em questão, que caminhava ao lado deles. — O Sr. Rutledge pode te ouvir.

Os olhos de Rutledge estavam focados na casa; ele não dava sinal de estar ouvindo a conversa.

Shawn desviou o olhar. Era difícil acreditar que, apenas algumas horas atrás, ele tinha esse homem de terno impecável e rosto severo gemendo e se movendo em cima dele.

— Mas eu não gosto dele — insistiu Emily, embora tenha baixado o tom de voz. — Não gosto do jeito que ele olha para você.

— Do jeito que ele olha para mim? — Shawn repetiu.

— Igual à Bee olhando para uma panqueca.

Shawn forçou um sorriso. Aquilo era um nível totalmente novo de constrangimento. — Você só imaginou isso, docinho.

— Mas...

— Você só imaginou — repetiu Shawn, esperando que Rutledge não tivesse ouvido as palavras de Emily.

O rosto de Rutledge estava duro e frio, desprovido de qualquer cor. Aquele era um homem voltando para a casa do pai após quinze anos. Ele parecia tão feliz quanto um condenado a caminho da prisão.

Um mordomo — um maldito mordomo — abriu a porta e cumprimentou Rutledge com um discreto: — Mestre Derek.

Shawn conduziu as meninas para dentro. Elas pareciam tímidas e nervosas, e Shawn tinha que admitir que não estava menos nervoso que elas; ele apenas era melhor em disfarçar.

Sua primeira impressão do hall foi de imensidão. Era mais do que um pouco intimidador.

— Derek!

Shawn olhou para cima. Uma mulher alta, de cabelos escuros, descia as escadas com um sorriso vagamente aliviado nos lábios. Ela abraçou Rutledge e deu-lhe um beijo no rosto.

— Vivian — murmurou Rutledge. — Você está ótima.

Então aquela era a irmã que o convencera a vir. Shawn a observou com curiosidade. Dava para ver perfeitamente a semelhança familiar. Ela parecia alguns anos mais velha que o irmão, talvez uns trinta e cinco.

Vivian se afastou e encarou Shawn e as meninas por cima do ombro de Rutledge, mas antes que ela ou Shawn pudessem dizer algo, dois senhores idosos entraram na casa.

Um deles, o mais alto, tinha uma semelhança impressionante com Rutledge. Na verdade, poderiam ser gêmeos se o homem não fosse uns trinta anos mais velho. Shawn concluiu que aquele devia ser o pai de Rutledge, Joseph Rutledge.

— O filho pródigo retorna — disse Joseph com um escárnio. — Eu sabia que este dia chegaria.

— Então você estava errado — disse Rutledge friamente. — Eu só vim porque a Vivian não parava de me amolar. Pelo visto, você está praticamente no leito de morte.

— Derek! — disse Vivian, parecendo ultrajada.

— Terei que te decepcionar, então — disse Joseph. — Estou com uma saúde excelente. — Ele estava mentindo. Sua pele tinha um tom quase acinzentado. — Então você não vai colocar as mãos no meu dinheiro tão cedo.

— Você sabe que eu não preciso do seu dinheiro — retrucou Rutledge.

Eles se encararam gélidos, e a semelhança entre os dois era gritante. Shawn se perguntou se Rutledge percebia isso e se sentia ressentido.

Nesse momento, Joseph mudou o foco para Shawn. Seus olhos escuros e afiados o varreram de cima a baixo, fazendo Shawn sentir-se dolorosamente consciente de suas roupas velhas e baratas.

Os lábios do Rutledge pai se contorceram em desdém. — E este aqui?

Rutledge deu um passo em direção a Shawn e colocou a mão em seu ombro.

— Este é o meu amante, Shawn Wyatt.

O outro homem idoso soltou um suspiro audível.

O rosto de Joseph não revelou nada, mas, de alguma forma, a temperatura na sala pareceu cair uns dez graus. Shawn fez uma careta internamente, mas não era como se não estivesse esperando por aquilo.

— Shawn, este é meu pai, Joseph Rutledge — disse Rutledge, com a voz estranhamente suave. O babaca estava absolutamente adorando aquilo. — E o velho amigo do meu pai, Nathan Brooks.

— Prazer em conhecê-los — mentiu Shawn, imaginando se o Sr. Brooks era o homem cuja filha Joseph queria que seu filho casasse.

— Entendo — disse Joseph finalmente, antes de deslocar seu olhar pesado para as gêmeas. — E estas são...?

Shawn conteve o impulso de esconder as meninas atrás das costas. — Estas são minhas irmãs, Sr. Rutledge. Emily e Melissa. — Pela primeira vez, Bee ficou quieta e não discutiu sobre seu nome. Ambas as garotas se aproximaram de Shawn.

— Entendo — disse Joseph Rutledge novamente, antes de se dirigir a uma empregada. — Prepare quartos para nossos convidados.

— Prepare um quarto ao lado do meu para as crianças — interrompeu Rutledge. — Obviamente, o Shawn ficará no meu.

Shawn se encolheu um pouco.

A veia na têmpora de Joseph pulsou. Vivian observava o pai com preocupação. O Sr. Brooks tinha uma expressão de nojo no rosto que nem se deu ao trabalho de esconder.

— Faça o que ele diz — sibilou Joseph Rutledge, quebrando o silêncio. — Mostre os quartos a eles. O jantar será em meia hora. Derek, uma palavra.

Shawn se virou para seguir a empregada quando uma mão agarrou seu braço e o parou.

— Vejo você em breve — disse Rutledge, e lhe deu um beijo rápido.

Ou pelo menos era para ser um beijo rápido, mas Shawn sentiu seus próprios lábios se colando e se abrindo, ávidos. Ele sentiu a surpresa de Rutledge antes que o homem agarrasse seu pescoço e o beijasse de verdade. O beijo pareceu durar uma eternidade.

Quando Rutledge finalmente se afastou, Shawn mal conseguia respirar. Ele não olhou ao redor para ver a reação de ninguém — podia muito bem imaginá-la.

Segurando as meninas, ele seguiu a empregada. Seu rosto estava pegando fogo.

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Dizer que o jantar foi constrangedor seria um eufemismo. Não foi apenas constrangedor: foi doloroso.

Haviam se passado apenas dez minutos e Shawn já estava de olho no relógio na parede.

A atmosfera tóxica na sala era tão densa que poderia ser cortada com uma faca. Ele nunca tinha visto tanta passividade-agressividade entre membros de uma mesma família. Agora, Shawn estava grato por Emily e Bee não terem sido autorizadas a comer com os adultos.

A parte irritante era que ninguém dizia nada abertamente; tudo era cuidadosamente escondido atrás de sorrisos insossos e modos refinados. Andrew, o marido de Vivian, era o único que parecia estar lutando para esconder sua aversão pelo cunhado.

Rutledge não dava muita atenção a Andrew, no entanto; suas observações mais cortantes eram reservadas para o pai. Rutledge era bastante infame por sua crueldade na faculdade, mas aquilo não era nada comparado à sua maldade em relação ao pai. Shawn teria sentido pena de Joseph Rutledge se o velho não fosse, na verdade, pior. Nos primeiros dez minutos, Joseph conseguira insultar tudo, desde a inteligência do filho até sua sexualidade, com um tom cheio de escárnio e desprezo.

Observando-os, Shawn começava a entender por que Rutledge havia saído de casa e não voltara em quinze anos. Ele também começava a entender por que Rutledge era um maníaco por controle tão grande. A personalidade de seu pai era tão dominadora que ele provavelmente desenvolvera a necessidade semelhante de controlar tudo como um mecanismo de defesa.

— Eles percebem o quanto são parecidos, não percebem? — Shawn murmurou para Vivian, certificando-se de que Rutledge, que estava sentado do seu outro lado, não pudesse ouvi-lo. Vivian parecia ser o único rosto amigável à mesa.

Ela suspirou. — Acho que é em parte por isso que eles se odeiam — murmurou ela. — Embora, no fundo, eles se importem um com o outro.

Shawn olhou para pai e filho trocando farpas e lançou a ela um olhar cético.

Vivian sorriu sem humor. — Eu sei, é difícil de acreditar, mas o papai se importa com o Derek. — Seus olhos ficaram distantes. — Quando éramos crianças, o papai costumava ter muito orgulho dele. Eu costumava ter inveja do Derek. As coisas ficaram... difíceis quando o papai descobriu sobre a sexualidade do Derek, mas tenho certeza de que ele ainda se importa. Se não se importasse, já o teria deserdado há anos e o removido de seu testamento. — Olhando para o marido, ela baixou a voz. — Andrew está realmente furioso com isso. Ele trabalha na empresa da família há anos e acha que merece herdar tudo.

— Ah — disse Shawn. Isso explicava a animosidade de Andrew.

Falando no homem, Andrew escolheu aquele momento para se virar para Shawn e perguntar: — E então, você trabalha? Ou meu cunhado paga suas contas por você abrir as pernas para ele?

O silêncio caiu sobre a mesa, e Shawn sentiu o rosto arder.

Ele não conseguia acreditar que Andrew tivesse realmente dito aquilo. E, a julgar pelo olhar desconfortável que passou pelo rosto de Andrew, nem ele mesmo parecia acreditar. Mas então Andrew cerrou a mandíbula, parecendo obstinado e determinado: ele podia ter se arrependido de dizer, mas claramente não ia retirar o que disse.

Shawn mordeu o lábio, sem saber o que dizer. As palavras de Andrew atingiram um ponto muito sensível. É claro que ninguém ali sabia a natureza real de seu relacionamento com Rutledge, mas, mesmo assim, ele se sentiu envergonhado e humilhado. Shawn ainda não tinha aceitado totalmente a situação consigo mesmo e agora... sentia-se como uma puta. Era ridículo, mas era a primeira vez que ele realmente sentia isso. Ele não se sentira como uma puta quando chupou o pau de Rutledge por dinheiro; sentia-se como uma puta sentado naquela sala de jantar luxuosa com todas aquelas pessoas esnobes.

— Peça desculpas. — Rutledge. Foi dito em uma voz baixa e ferrenha, mas todos na sala o ouviram.

Andrew encarou Rutledge com raiva. — Por que eu deveria? Todos podemos ver que ele é pobre e está te fodendo por...

— Você vai pedir desculpas — disse Rutledge, seu tom perigosamente suave.

— Andrew, por favor — disse Vivian, sem jeito. — Isso foi desnecessário...

— Peça desculpas — disse Rutledge novamente.

Joseph Rutledge não disse nada, observando a troca entre o filho e o genro como um falcão.

— Está tudo bem — disse Shawn com leveza.

Rutledge o ignorou e continuou fulminando Andrew com o olhar, que parecia cada vez mais desconfortável. — Ele vai pedir desculpas ou nós vamos embora.

Shawn achou que era uma ameaça estranha, porque Andrew claramente ficaria encantado se eles fossem embora, mas Joseph Rutledge franziu a testa. — Peça desculpas, rapaz. Ninguém insulta meus convidados.

Exceto você, pensou Shawn, não sem humor.

Andrew disse rigidamente: — Minhas desculpas se ofendi alguém. Não foi minha intenção.

Rutledge não parecia nem um pouco satisfeito, seu corpo estava tenso e os olhos semicerrados.

— Se você precisa saber — disse Shawn a Andrew. — Sou estudante e trabalho meio período como garçom. Sim, o Derek paga a maioria das minhas contas. Não tenho vergonha disso. Tenho sorte de ter um parceiro tão solidário e confiável. — Ele olhou Andrew nos olhos. — E se eu "abro as pernas para ele", isso não tem nada a ver com o dinheiro, e definitivamente não é da sua conta. — Shawn ergueu as sobrancelhas. — Não sei por que você sequer tocou no assunto, Andrew. A menos que esteja com inveja.

Ele sorriu enquanto o rosto do babaca ficava vermelho lentamente. Shawn nem se importou com o silêncio atordoado e estranho que desceu sobre a sala. Ele pegou o garfo e voltou a comer, ignorando a todos.

Ele podia sentir o olhar de Rutledge sobre ele. Shawn não virou a cabeça.

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