Orgulho em Forma de Filhos

Um conto erótico de Lore <3
Categoria: Lésbicas
Contém 5120 palavras
Data: 18/05/2026 19:30:28
Assuntos: Lésbicas

Acordei bem cedo e, quando virei para o lado, Júlia já estava acordada com nosso neném, que já havia iniciado os trabalhos e mamava.

— Sem me acordar? — perguntei, acariciando as costas dele, e Juh riu.

— Ele até tentou, mas seu sono estava tão pesado que você nem escutou ele chorando — respondeu.

— Esse menino vai dobrar de tamanho, você vai ver — falei, enquanto Juh o ajeitava para arrotar.

— Ai, amor... Tomara... Esse negócio de peso me preocupa... — minha gatinha desabafou.

— Dom vai virar uma bolotinha, te garanto — disse e sentei para ajudá-la.

Júlia me passou Ninho com cuidado e, quando o peguei, ela descansou o corpo no meu.

— Cansou, amor? — perguntei, rindo.

— Me sinto uma vaca — Juh respondeu, também rindo.

— Achou que era fácil que nem no Instagram, agora está acordando às quatro da manhã — cantarolei.

— Eu nunca estive tão cansada e tão feliz — ela me disse, erguendo o olhar para mim.

Dei um selinho nela. Eu a compreendia perfeitamente.

— Você vai buscar meu filho Brad hooooje? — Júlia me questionou, de forma meiga.

— Vou, gatinha, mas deixa dar um horário mais propício para as pessoas estarem despertadas — respondi, com bom humor.

— Porque agora só tem nós três acordados — ela disse, e confirmei com a cabeça.

Dom não dormiu. Seguiu quietinho no meu colo e Juh aproveitou o momento para tomar banho. Foram ótimos dois segundos de paz, até ele perceber que o amor das nossas vidas havia se ausentado, pois teve a ousadia de ostentar um banho. O sensor dele tocou e o moleque abriu o berreiro, começou a chorar.

Primeiro achei que poderia ser a fralda, porém não era. Acreditei que fosse cólica e fiz massagens na barriguinha dele, contudo ele seguia reclamando. Por último pensei que fosse alguma coceira no corpo, passei a mão nele todinho e nada. Como nada resolvia, fui andar um pouquinho pela casa e Milena apareceu na porta do quarto dela.

— O que foi? — perguntou, ainda sonolenta.

— Ele estava achando a casa muito quieta — falei, brincando.

— Será que ele quer eu? — Mih questionou, chamando-o com os braços, e eu o passei para ela.

Dom seguia resmungando.

— Acho que ele quer a mamãe mesmo, ela está no banho — respondi, rindo.

— Tem muito tempo? — perguntou, balançando-o de leve.

— Não tem cinco minutos — respondi, e ela riu.

Nisso, brotou Kaká na porta do quarto dele.

— O que ele tem? — questionou, mais sonolento do que Milena.

— Saudade da mamãe que está no banho — Milena respondeu.

— Neném, pare de chorar, ainda é hora de dormir! — Kaique exclamou, como se Dom entendesse.

— Me dá ele aí, que vocês estão pirando — falei e o peguei de volta.

Retornei para o quarto e os dois vieram juntos. Nós deitamos e tinha top de Júlia na cama. Coloquei sobre o meu busto e foi tiro e queda. A solução de todos os problemas no meu bebezinho.

— Oxe, parou? — Kaká perguntou.

— Ele está se acalmando sentindo o cheirinho da mamãe — respondi, mostrando.

— Nossa, dá uma agonia não saber o porquê dele estar chorando, não é? — Milena questionou, e confirmei acenando com a cabeça.

Pouco tempo depois, Júlia saiu do banho. Dom, Kaique e Milena estavam dormindo e o rosto da minha esposa denunciava o quanto ela estava derretida com a cena.

— Ahhhh, eu vou tirar uma foto de vocês!!! — exclamou.

— Ouviu os berros dele? — perguntei, observando a plenitude do meu bebezinho.

— Ahhh, ele chorou??? Por que não me apressou, amor? — Juh perguntou, abaixando o celular.

— Seu banho foi super rápido, ele que está dependente do seu cheiro — brinquei, mostrando o top.

— É bom a gente começar a usar a naninha, não é? — sugeriu.

— Verdade, nem estava lembrando — comentei.

Coloquei Dom no berço e fui para o banho. Precisava buscar Brad na casa de Lorenzo e levar Milena ao colégio. Quando saí do banheiro, Mih estava amoadinha, com o celular em cima da barriga, e conversava baixinho com Juh.

— Mãe, meu pai não vai poder vir me buscar e perguntou se a senhora pode me levar — disse, em um tom triste.

— Posso, depois do colégio te levo... Você está chateada? — perguntei, tentando entender.

— É porque é o dia que vamos conversar... E a mamãe não vai poder estar lá... Eu precisava que estivesse todo mundo! — exclamou e começou a chorar, encostando em Júlia, que a consolou.

— Eu tinha esquecido desse detalhe, amor... Se você preferir, a gente deixa para outro dia, pode ser? — perguntei, sentando na pontinha da cama.

— Mih... Vai dar tudo certo! Você descobriu algo importante sobre si mesma e eu acho lindo o fato de você querer ser tão transparente com as pessoas que te amam. Sei como esse momento é recheado de medo e tudo de mais intenso por expectativa da aceitação dos que te rodeiam, mas preste atenção: eu quero que você foque em que você é uma menina extremamente corajosa e está apenas mostrando ao mundo quem sempre foi. Não existe nada de errado em ser você. Nada para esconder, nada para sentir vergonha — Juh falou.

— Nem todo mundo vai reagir do jeito perfeito, filha... Às vezes as pessoas precisam de tempo, às vezes se atrapalham, às vezes falam besteira porque não entendem. Mas isso não muda quem você é e nem diminui seu valor. Você continua sendo nossa Mih, a mesma menina maravilhosa de sempre — continuei.

— Eu só queria que estivesse todo mundo comigo... — Mih sussurrou.

— Através do seu coração estamos todos conectados — falei, também fazendo carinho nela.

— Você promete? — perguntou baixinho.

— Prometo que você nunca vai passar por nada disso sozinha — respondi, sem hesitar.

Júlia beijou a testa dela.

— E prometo outra coisa também: independente de qualquer reação, quando você voltar para casa hoje, vai encontrar amor te esperando, muito amor! — disse Juh.

Milena respirou fundo, tentando se recompor.

— Tá... Eu consigo. — falou, ainda emotiva.

Enquanto arrumava meu cabelo, fiquei olhando através do espelho como a minha família é linda. Júlia estava novamente amamentando Dom e Mih babava o irmãozinho, enquanto Kaká estava capotado ao lado delas, com um batom bem vermelho nos lábios, que Milena havia passado.

Tirei uma foto da visão que eu estava tendo e ficou tão linda, tão natural, tão íntima que, por bastante tempo, ficou como papel de parede do meu WhatsApp.

— Já está na hora da senhorita ir se arrumar, não? — questionei.

— Kaká não vai hoje, deixa ele aqui também... — Juh falou.

Estreitei os olhos, mas concordei. Júlia é a pessoa que mais se preocupa com a frequência escolar deles. Se para ela estava tudo bem, para mim também estava.

— Preciso do analgésico hoje — Juh me falou, em um tom baixo.

— Aí tá vendo, amor... Você não me escuta! — exclamei.

— Eu sei, eu sei... Hoje não vou fazer nada demais, só tenho o laser marcado... Vou ficar mais aqui por cima — disse.

— Como está essa dor? — questionei, chegando perto.

— Leve, não é nada demais... É só porque não parei quieta mesmo — respondeu.

— Eu falo para o seu bem, não por chatice — falei e dei um selinho nela.

— Vou ficar quietinha — Juh me garantiu e me deu outro selinho.

— Beija de verdaaaaade — Milena disse e juntou nossos rostos.

Enfiei a mão no rosto dela, fechando os olhos e empurrando contra a cama, e beijei minha bela gatinha.

— E o peito? Também está doendo? Machucou mais? — perguntei, olhando onde conseguia.

— Só aquele machucadinho mesmo, porém está doendo um pouco mais hoje também — respondeu.

— Anos sob meus cuidados e eu nunca machuquei... — brinquei, enquanto tocava com o dedo indicador.

— Amor! — Juh exclamou e me deu um tapinha na mão.

Olhei para Milena e ela estava com os dois olhos bem arregalados para mim. Aí percebi que, por alguns segundos, esqueci que ela estava ali. Mas já tinha saído e não havia muito o que ser feito.

— Vou buscar seu café para você poder tomar seu remédio — falei, rindo.

— É, vai logo... — Júlia disse para mim e depois se direcionou para Milena. — E você não ouviu nada disso!

Desci a escada e a casa já tinha uma movimentação diferente. As novas funcionárias haviam chegado para o primeiro dia e, pela comunicação, já pareciam estar bem adotadas. Minha sogra ajudava Érica no fogão e minha mãe auxiliava Marcela na limpeza.

Eu ia subir com o café de Juh, contudo Dona Jacira já iria fazer isso, então só acrescentei o analgésico e sentei com minha mãe para tomar café. Conversamos sobre a noite anterior e ela disse que havia ouvido o chororô da madrugada. Quando se preparava para levantar, foi o momento em que Dom parou.

Fomos juntas até a casa de Lorenzo. Ela iria ficar um pouquinho por lá. Quando Brad me viu, levantou rápido, porém veio tranquilo até mim. Meu irmão disse que ele não curtiu a hospedagem, ficou tristinho e só se animava para passear.

— Como você pode ver, ele está morrendo de saudade de mim — ironizei.

— Ah, isso é evidente! — ele zoou no mesmo tom.

— Juh está morrendo de saudade dele — falei.

— Imaginei, pela pressa... O pet shop deve estar chegando. Eu não sabia que você viria buscá-lo hoje — Lorenzo disse.

— Dormi e acordei com a gata pedindo para eu vir logo aqui — comentei.

— Como está por lá? — Lorenzo perguntou.

— Tirando o sono picotado, estamos bem. Só de estarmos em casa, já tira um peso imenso dos ombros... — falei e ele sorriu.

— Não vejo a hora de ir lá — disse.

— Esse final de semana vocês podem? — questionei.

— Eu nem vou perguntar a Sarah, porque se tiver outro compromisso iremos desmarcar. Nada é mais importante que isso — Lorenzo falou, todo contente.

— Por isso que meus filhos são todos mimados — fingi lamentar, colocando a mão no rosto.

— Por isso... Até parece que você não tem uma imensa parcela de culpa... — ele brincou e nós rimos.

Estava indo com Brad para casa quando notei que faziam sinal para mim na portaria. Inicialmente, pensei que já era o pet shop. Contudo, foi impossível não notar que um dos rapazes que ali estavam carregava um buquê de rosas vermelhas gigante. Fui até ele e agradeci. No cartão dizia: “Para Drª Lorena e Júlia”. Eu não fazia ideia de quem era, então abri logo.

Aquela letra toda certinha era inconfundível e já entregava quem tinha sido.

“Lore e Júlia, sejam bem-vindas a essa nova fase ainda mais bonita da vida de vocês. Que a chegada de Dom encha a casa de amor, saúde, descobertas e noites minimamente generosas.

Lore, aproveite esse tempo precioso com sua família. Existem momentos em que o trabalho precisa esperar, e esse é um deles. Curta cada segundo, porque eles passam depressa demais.

Júlia, desejamos uma recuperação tranquila, leve e cercada de carinho. Que você siga sendo essa fortaleza doce que todos, mesmo sem te conhecer a fundo, admiram.

Ao pequeno Dom, nossas boas-vindas. Que cresça forte, saudável e muito amado, o que, pelo que eu sei, já está garantido.

Com carinho, Psiquilord.”

Imediatamente peguei o celular e liguei para ele. Assim que atendeu, nem dei espaço para qualquer cumprimento.

— O senhor é maluco? — falei, rindo.

Do outro lado, Psiquilord soltou aquela risada tranquila de quem já sabia exatamente o efeito que tinha causado.

— Bom dia para você também, doutora. Chegou direitinho? — perguntou.

— Chegou, sim... E eu liguei para agradecer... Sério mesmo. Que lindo e delicado da sua parte esse buquê gigantesco. — respondi, ainda olhando as flores.

— Considere investimento em manter minha diretora favorita emocionalmente estável durante a licença — debochou.

— Espertinho... Quer é garantir meu retorno — brinquei.

— Também... Não vou mentir. — respondeu no mesmo tom.

— Falando sério agora... Obrigada pelo carinho com Juh também. Ela vai amar ler isso tudo e obrigada por respeitar esse momento. Nem todo mundo entende e sabemos disso. — falei, com sinceridade.

— Lorena, trabalho nenhum vale mais do que isso que você está vivendo agora. Você passou por muita coisa nos últimos tempos. Cuide dela, cuide de você e curta seus meninos. O resto espera! — exclamou.

— Homem, eu já te amo... Não precisa apelar... — brinquei para não emocionar demais.

E rimos alto.

— Obrigada mesmo, chefe — agradeci.

— Manda um beijo para Júlia, outro nos meninos e um aperto de bochecha em Dom... Ah, e some desse celular porque eu já procurei saber e você anda dando uma forcinha ao pessoal. Eles são competentes, sabem se virar... Vai viver sua casa. — disse.

— Sim, senhor!!! — respondi, rindo.

Desliguei com um sorriso no rosto. Ajeitei Brad na guia e segui para dentro de casa, sentindo aquele calor bom de quando a vida coloca gente boa no caminho da gente.

Todo mundo se surpreendeu com o tamanho daquele buquê e Juh ficou encantada com a sensibilidade do meu chefinho. Ela gravou uma mensagem de voz agradecendo e mandamos uma foto em família com as flores.

— Amor, do jeito que ele escreveu... Não parece algo de pai? — Júlia disse.

— Acho que ele se sente um pouco pai dessa multidão... E para alguns ele é mesmo... — respondi.

À tarde fui levar Milena para a casa do pai. De início, eu queria que Kaique permanecesse em casa porque ele ainda estava abatido por causa da infecção urinária, mais quietinho e sem a energia de sempre. Achei que seria melhor descansar e ficar em casa. Milena, porém, insistiu tanto para que ele fosse junto que acabei cedendo. Também achei injusto negar a presença de Kaká quando ela já não teria a de Júlia naquele momento.

Milena estava um pouco nervosa. Entrou no carro mexendo as mãos, respirando fundo e tentando organizar o que queria dizer. Durante todo o caminho foi ensaiando maneiras de contar ao pai que também gostava de meninas. Tentava começar de um jeito mais direto, depois mudava de ideia e dizia que talvez fosse melhor falar com calma. Em seguida achava que estava sério demais e recomeçava tudo outra vez.

Kaique, também sentado no banco de trás, dava pitacos o tempo inteiro. Dizia para ela falar logo de uma vez, depois sugeria começar perguntando se o pai estava feliz, depois achava melhor elogiar o cabelo dele antes. A cada minuto ele inventava uma estratégia nova.

Fui dirigindo e ouvindo os dois discutirem sobre a melhor forma de fazer aquilo, enquanto ela tentava ganhar coragem e Kaká se colocava como especialista em conversas difíceis.

— Vocês me fizeram de chofer mesmo, hein? Ninguém do meu lado — tentei mudar de assunto e eles dois riram.

— Mãe... Como a gente vai fazer quando for sair com Brad? — Milena me perguntou, pensativa.

— Eita... Não tinha parado para pensar nisso! — exclamei.

— Nem dá para dar carona mais — Kaique falou, rindo.

— Eu vou ter que comprar uma van para caber todos os meus filhos — brinquei.

— Mãe, a gente vai ter mais irmãozinhos??? — Kaká perguntou, animado.

— Não sei, não... Bora curtir o momento, Ninho acabou de chegar em casa — falei.

— Eu acho que a gente poderia ter mais sete — Mih brincou.

— Melhor eu investir em um ônibus então — zoei e nós rimos.

Esse papo foi bom para descontrair e tirar a tensão do ar. Milena riu de verdade pela primeira vez desde que entrou no carro e parou de repetir o que diria. Kaique também se empolgou com a ideia do ônibus lotado de irmãos e começou a falar nomes aleatórios para futuros bebês. Fiquei aliviada por ver que ela estava um pouco menos nervosa antes de chegar.

— Mãe, quando a senhora soube que a vovó sabia... Como foi? — Milena me perguntou, séria.

— Amor, eu não sou o melhor parâmetro para isso porque não vivi esse grande momento de descoberta seguido da preocupação sobre como as pessoas reagiriam. Eu só fui percebendo que gostava de meninos e de meninas e continuei vivendo. Morava em um lugar pequenininho, então a notícia se espalhou rápido, era inevitável que acontecesse.

Muita gente se afastou, muita gente não gostava de ser vista em público comigo e, no off, beijava minha boquinha. O apoio da minha família veio justamente por não tratarem aquilo como algo extraordinário, incomum ou errado. Ninguém se assume hétero, então, na minha cabeça naquela época, eu entendia que também não precisava anunciar que era bi.

Seus avós sempre me deram liberdade para ser quem eu sou e, sinceramente, para aquele tempo, não era algo tão comum de se ver. As pessoas se incomodavam, mas eu não me incomodava e eles também não. Eu só queria viver minha vida e foi assim que Lorena, com treze anos, foi se virando.

Não vejo minha forma como certa ou errada, foi apenas natural dentro da realidade que eu vivia. Mas eu entendo perfeitamente que, para muita gente, esse é um momento importante. E eu amei quando você me contou. Confesso que queria que demorasse mais um pouquinho para você entrar nessa fase, mas estou achando lindo o jeito que você está lidando com tudo isso — disse-lhe.

— A senhora também foi muito corajosa — Milena disse, fazendo carinho no meu braço, e eu dei um beijinho na mão dela.

— Chegamos... Se sente pronta? — perguntei.

Ela respirou fundo e acenou positivamente.

Estacionei o carro e nós três descemos juntos. Milena apertou a alça da bolsa por alguns segundos antes de caminhar e Kaique foi ao lado dela completamente em silêncio. Entrei com os dois e fomos anunciados. Logo depois, nos conduziram até uma sala reservada para aguardarmos. Mih sentou toda reta na cadeira, mexendo os pés de leve no chão. Kaká escolheu a poltrona ao lado e ficou olhando tudo ao redor, pegou um livro aleatório e o folheou. Permaneci perto deles, tentando deixar o ambiente o mais tranquilo possível enquanto esperávamos.

Pouco tempo depois, a avó de Milena apareceu sorridente e nos cumprimentou. Falou comigo, beijou Milena e depois parou olhando para Kaique por alguns segundos, surpresa com o tamanho dele. Disse que da última vez que o tinha visto ele ainda era bem menorzinho e agora já estava um rapaz. Kaique abriu um sorriso imediato, todo satisfeito com o elogio.

Ela perguntou por Dom, quis saber como Júlia estava se recuperando e comentou que Milena só falava dos irmãos. Disse que já conhecia a rotina da nossa casa sem nunca ter pisado lá, de tanto que a neta contava tudo. Mih ficou sem graça e riu baixinho.

Minutos depois, o filho dela chegou. Assim que entrou, ela disse que deixaria nós conversarmos melhor e se retirou, fechando a porta atrás de si.

Ele falou comigo e com Kaká e logo puxou Milena para um abraço apertado. Disse que estava morrendo de saudade da filha e ficou alguns segundos agarrado nela. Quando a soltou, segurou os ombros dela, ainda sorrindo, e perguntou o que era tão importante que ela queria tanto contar.

— Papai, vamos sentar um pouquinho — ela pediu, voltando a ficar nervosa.

— Você aprontou alguma, foi? — o pai dela perguntou, em um tom divertido.

Com a falta de resposta, ele olhou para mim.

— Eu preciso me preocupar? — questionou, com uma expressão de medo.

Milena estava gritando silenciosamente por socorro e isso estava explícito no olhar dela.

— Filha, está tudo bem — reforcei, fitando-a com a alma.

E bem devagarinho, com frases extremamente pausadas, ela começou:

— Papai... Eu queria te contar uma coisa importante porque eu amo o senhor e não queria que soubesse por ninguém além de mim... Eu fiquei nervosa o dia inteiro pensando nisso, ensaiando mil jeitos de falar, mas acho melhor só dizer de uma vez. Eu continuo sendo a mesma Mih de sempre, nada mudou em quem eu sou, no meu coração, no jeito que eu te amo e no quanto eu amo a nossa família... Só que eu entendi uma coisa sobre mim... Eu gosto de meninos e também gosto de meninas.

O homem ficou completamente pálido. Milena olhou para ele e, ao observar a expressão dele mudando, desembestou a falar. O que antes era dito cheio de pausas, agora saía como palavras disparadas desesperadamente. Parecia um sincero desabafo vindo do coração.

— Demorei para conseguir colocar isso em palavras e tive medo de falar errado, medo da sua reação, medo de decepcionar alguém... Mas também não queria esconder, ia me fazer mal e eu não quero viver escondendo quem eu sou das pessoas que eu amo. Não estou te contando para chocar ninguém, nem porque virou moda, nem porque alguém colocou coisa na minha cabeça e não é uma fase. Estou te contando porque isso é verdadeiro para mim. Eu sou assim, eu sou bissexual e queria que o senhor soubesse por mim — Mih finalizou.

Fiquei tão orgulhosa de vê-la se expressando tão bem, com tanta clareza, que por alguns segundos até esqueci a tensão daquele momento. Minha menina estava ali, tremendo por dentro, claramente assustada, porém firme. Sem se esconder atrás de desculpas, sem diminuir quem era para caber no conforto de ninguém. Ela falava com respeito, com amor e, acima de tudo, com verdade. Era impossível não enxergar a coragem gigantesca que existia nela.

Milena ainda era tão nova, mas naquele instante me pareceu imensa. Senti vontade de abraçá-la, de aplaudi-la e de dizer que poucas pessoas adultas possuem a honestidade emocional que ela estava demonstrando diante do próprio pai.

Silêncio. Apenas silêncio.

Ela veio para o meu colo e afundou o rosto em mim, tremendo mais que tudo. Eu a apertei bem forte em um abraço e a enchi de beijinhos.

— Estou tão orgulhosa que estou me segurando ao máximo para não derreter em choro aqui... Você é tão incrível, meu amor... Mih, você conseguiu! — sussurrei, enquanto tentava acalmá-la.

O pai dela olhava para mim sem saber o que falar e eu gesticulava para que ele dissesse algo logo.

— O seu cabelo está muito bonito hoje! — ouvi Kaique dizer.

Era a tentativa desesperada dele em ajudar. Isso fez Milena rir contra o meu ombro.

— Ah... É... Obrigado, o seu também é muito bonito! — ele agradeceu e falou meio sem graça.

— Mih, você quer um pouco de água? Eu posso ir buscar — Kaká tentou.

— Eu peço, eu peço... — o pai dela falou e saiu da sala.

Assim que o homem cruzou a porta, Kaká veio até nós e se juntou ao abraço.

— Eu te amo tanto, você é a pessoa mais corajosa que eu conheço — disse, abraçando-a com mais força do que eu.

— Eu amo vocês! — falei, dando um beijo em cada um.

— Também amo vocês... Obrigada por tudo... — ela disse, um pouco mais calma.

O pai de Mih voltou e trouxe água para todos nós. Percebi que ele enfiou um comprimido na boca e virou o copo dele de vez.

— Papai, o senhor ainda me ama? — Milena perguntou, voltando a chorar.

E aí ele se desesperou.

— Claro que te amo... Vem aqui, eu te amo, minha filha. Isso nunca vai mudar, nunca mesmo. Nunca questione isso porque amor não vai faltar nunca. Eu te amo — declarou.

E Milena, no mesmo desespero, o agarrou.

— Está tudo bem... Por que não mostra a casa para o seu irmão enquanto eu converso com sua mãe? — ele sugeriu.

Não foi uma surpresa. Eu tinha certeza de que isso aconteceria, sabia exatamente quais seriam as falas dele posteriormente.

— Você sabe de quem é a culpa, não é? A culpa é SUA! É claro que, vendo isso dentro de casa, a menina ia entender que era o exemplo a ser seguido... Meu Deus, o que minha filha virou?! — disse, se descabelando todo e andando de um lado para o outro.

— Não... A culpa não é minha e nem existe culpa nenhuma aqui... Vamos começar por onde importa: sua filha não cometeu erro algum para alguém precisar carregar culpa por isso. Milena acabou de fazer uma das coisas mais difíceis que uma pessoa pode fazer, que é se mostrar por inteiro para quem ama. O que aconteceu nessa sala foi coragem, confiança e amor. Só isso.

Dei um passo para mais perto, mantendo a voz firme, apontando para ele e prossegui.

— Ela não “virou” nada porque viu dentro da minha casa. Milena não pegou isso no ar, não aprendeu por convivência e nem foi influenciada por ninguém. Sua filha apenas entendeu quem ela é. Do mesmo jeito que tantas pessoas entendem que gostam de homens, outras entendem que gostam de mulheres e algumas entendem que gostam dos dois.

Ele abriu a boca para retrucar, mas continuei ainda mais enfática.

— E vou te falar outra coisa com toda clareza: se existe alguma influência que minha casa teve sobre Milena, foi ensinar que ela merece viver sem vergonha, sem mentira e sem medo. Foi ensinar que amor não precisa ser escondido e que ninguém deve se odiar para agradar os outros. Se isso te incomoda, então o problema não está nela!

Respirei fundo, controlando minha irritação.

— Você pode estar assustado, confuso, despreparado... Tudo isso eu entendo, porque é algo novo vindo dela e você não estava esperando. Mas não ouse transformar a coragem da sua filha em acusação contra mim ou contra Júlia. Não use Milena para descarregar preconceito disfarçado de preocupação.

Apontei discretamente para a porta por onde ela havia saído.

— Tem uma menina lá fora que estava aqui chorando e tremendo, achando que talvez pudesse perder o amor do pai hoje. É nisso que você precisa focar agora. Não em mim, não na minha casa, não na sua raiva. Nela. Somente nela. Então escolha com sabedoria a próxima coisa que vai dizer, porque Milena vai lembrar desse dia para o resto da vida!

— Eu sabia que era um erro deixar minha filha morando com você! — ele berrou e saiu para ir atrás de Milena.

E ainda bem que ele saiu. Por mais que eu já estivesse preparada para os ataques que sabia que o dito cujo faria, existem assuntos que tocam um lugar muito sensível e particular em mim. Quando sou ferida nesse ponto, minhas reações fogem do que consigo controlar e não me responsabilizo pelo que posso acabar demonstrando.

Eu não queria me descontrolar ali. Meu único desejo era garantir que Milena saísse daquele dia sentindo-se amada e inteira. Queria que, apesar do susto e das palavras tortas que ainda poderiam surgir, ela guardasse na memória que teve colo quando tremeu, abraço quando chorou e vozes firmes lembrando que não havia nada de errado nela.

Todo o resto, a raiva dele, os preconceitos dele, a dificuldade dele em compreender a própria filha, era problema de adulto e cabia a ele resolver. Mih não carregaria aquele peso se dependesse de mim.

Saí daquela sala e fui atrás dos meus filhos. Eles estavam em um balanço e logo eu os avistei.

— Tudo bem? — perguntei para Milena.

— Tudo! Deu tudo certo!!! — ela exclamou feliz e pulou em mim.

— Qualquer coisa você me liga, tá? — falei.

— Certo, mãe, e muito, muito obrigada. Se vocês não estivessem aqui comigo eu não ia conseguir — disse, quase se pendurando no meu pescoço.

— Você é Milena, claro que iria... De um jeito ou de outro, ia conseguir — falei e dei um beijinho nela.

Depois de muito grude dos dois, nos despedimos. Dessa vez não fui chofer porque meu filho fez o favor de sentar comigo na frente.

— Mãe, a senhora também morava aqui? — Kaká quis saber.

— Não, essa é a casa dos avós de Milena, eu morava em outra cidade... Por quê? — quis saber.

— Que lugar... Estranho, não é? Tipo, é muito bonito e tals, mas é frio... Não sei explicar, não parece casa, não é? Todo mundo parece um robô — disse e eu ri.

— É, concordo contigo — falei.

— Não é um lugar que abraça que nem a nossa casa... Ou a casa das vovós, dos meus tios... Estranho, muito estranho... Eu não ia conseguir morar lá, não — Kaique comentou.

— Entre eles é um pouquinho mais caloroso, porém... Concordo contigo, nem se compara ao que temos — concluí.

No caminho ele foi me dizendo que Milena fez uma ligação com Júlia contando que tudo havia dado certo e que estava muito feliz por não ter magoado ninguém.

— Ah! Olha o que o pai de Mih me deu — Kaique disse, me mostrando um xampu a seco.

— Para seu cabelo? — perguntei, rindo.

— Deve ser porque elogiei o dele. Fiquei muito nervoso porque ninguém falava nada — Kaká comentou, em um tom divertido, e nós rimos.

— Você se saiu muito bem — falei, balançando a cabeça dele.

— Mih disse que quando falei do cabelo, ela não aguentou e começou a rir — contou e eu confirmei.

Assim que chegamos em casa, Brad já tinha chegado do pet shop e brincava na área com Juh, que estava sentada com Dom nos braços e jogava um osso gigante para ele.

— Chegaram!!! — ela vibrou, em um sussurro.

— Simmm! — Kaká confirmou e agarrou Brad.

Dei um beijinho na gatinha e sentei ao lado dela.

— Não ia ficar quietinha lá em cima? — questionei.

— Muito tédio — Juh se justificou.

Kaique entrou para o banho e eu deveria fazer o mesmo, porém fiquei mais um pouquinho ali.

— Como foi de verdade? — Júlia perguntou, fazendo carinho no meu rosto.

— Tudo que eu já imaginava... A culpa é minha por ela morar aqui — falei, jogando o corpo para trás.

— E na frente dela um príncipe... — Juh disse.

— Pelo menos não a machucou. Essa era a minha prioridade — falei, sentindo-a deitar no meu braço e a abracei.

— E Mih? Na ligação ela parecia não ter percebido — Juh comentou.

— Amor, ela foi tão incrível... Falou com uma clareza... Impecável essa nossa filha — falei, morrendo de orgulho.

— Kaká me disse... Queria tanto poder estar presente para abraçá-la — Júlia comentou.

— E esse mocinho, se comportou? — questionei, enquanto nós duas trocávamos carícias.

— Só quer colinho! — minha gatinha exclamou e sorriu.

Ficamos mais alguns minutos daquele jeitinho e estava tão gostoso, mas o ciumento do Brad não curtiu que eu cheguei para roubar toda a atenção que estava sendo só dele e latiu para Júlia continuar a jogar o osso gigante.

— Acorde meu filhote, sacana — brinquei.

— Ai... Você precisa ver o vídeo do nosso reencontro — ela disse, pegando o celular.

Comecei a rir assim que o vídeo iniciou. Brad estava completamente fora de si de felicidade, correndo em círculos, latindo fino daquele jeito escandaloso dele e se jogando em cima de Juh como se não a visse há dez anos. Minha gatinha tentava segurá-lo, pedindo silêncio em sussurros inúteis, enquanto nosso cachorro pulava no colo dela, lambia o rosto dela e abanava o rabo com tanta força que parecia que ia decolar. No auge da euforia, o miserável simplesmente parou por meio segundo e fez xixi no chão de tanta empolgação, como se o corpo dele não tivesse conseguido administrar emoções tão intensas.

— Engraçado que comigo não rolou essa comoção toda — fingi me indignar.

— Na vida eu sou Brad quando você chega em casa — Júlia respondeu e me encheu de beijinhos.

Segurei o rosto dela e a beijei.

Tivemos uma madrugada intensa, onde, pelo cansaço fora do comum, queimamos a língua triplamente. Extraímos leite e inauguramos a mamadeira, porque a fissura no peito de Juh estava bastante dolorida. Também o deixamos dormir no nosso meio com a chupeta, que instantaneamente virou a nova melhor amiga de Ninho... E nossa também!!!

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 6 estrelas.
Incentive Lore a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.
Foto de perfil de Lore Lore Contos: 178Seguidores: 52Seguindo: 5Mensagem Bem-vindos(as) ao meu cantinho especial, onde compartilho minha história de amor real e intensa! ❤️‍🔥

Comentários