Primeiros Semestres
Parte 5 — Porta Trancada
Depois daquela noite, ficou impossível fingir que eles ainda estavam apenas “se descobrindo”.
Agora existia expectativa.
O tipo de expectativa que começava cedo, ainda durante as aulas, quando Miguel mandava mensagens provocando Leonardo no meio da manhã:
“Você fica lindo tentando fingir que presta atenção na aula.”
Ou:
“Tô pensando em você desde cedo. Isso tá atrapalhando minha vida acadêmica.”
Leonardo odiava o efeito que aquilo causava nele.
E odiava mais ainda o fato de começar a esperar por aquelas mensagens todos os dias.
Porque Miguel entrava na cabeça dele com facilidade assustadora.
⸻
Na sexta-feira daquela semana, o apartamento estava silencioso outra vez.
Virava um padrão perigoso.
Miguel tinha colocado alguma playlist baixa na caixa de som da sala enquanto os dois tentavam estudar espalhados pelo chão entre livros, anotações e latas de energético vazias.
Tentavam.
Porque Leonardo mal conseguia ler a mesma linha duas vezes sem perceber Miguel olhando para ele.
— Você vai continuar fazendo isso? — ele perguntou sem tirar os olhos do caderno.
— Isso o quê?
— Me encarar.
Miguel sorriu devagar.
— Talvez.
Leonardo respirou fundo, tentando ignorar o calor subindo pelo pescoço.
Inútil.
Miguel apoiou o cotovelo no sofá atrás dele, aproximando-se um pouco mais.
— Você fica nervoso muito fácil.
— Você provoca demais.
— Porque gosto da sua reação.
Aquilo fez Leonardo erguer os olhos finalmente.
Erro.
Miguel estava perto demais outra vez.
O moletom preto largo.
O cabelo bagunçado.
O olhar preso na boca dele como se estivesse tentando se controlar há tempo demais.
A tensão entre os dois parecia diferente agora.
Mais pesada.
Mais íntima.
Como se ambos soubessem exatamente onde aquilo poderia acabar.
E talvez quisessem descobrir.
Leonardo tentou voltar para os apontamentos da aula.
Durou menos de um minuto.
— Você não vai conseguir estudar assim — Miguel murmurou.
— E de quem é a culpa?
Miguel soltou uma risada baixa.
Então segurou o caderno da mão dele e colocou de lado no chão.
Devagar.
Sem quebrar contato visual em nenhum momento.
O coração de Leonardo acelerou imediatamente.
— Miguel…
Mas a voz saiu baixa demais para soar como protesto.
Miguel aproximou a mão do rosto dele lentamente, os dedos deslizando pela sua mandíbula com cuidado quase cruel.
Aquilo arrepiou Leonardo inteiro.
Porque ainda existia delicadeza.
Mesmo quando a tensão parecia prestes a explodir.
O beijo veio lento no começo.
Quente.
Demorado.
Como se os dois quisessem sentir cada segundo daquela proximidade.
Mas durou pouco.
Logo Miguel puxou Leonardo para seu colo no sofá, aprofundando o beijo enquanto segurava sua cintura com firmeza.
Leonardo soltou a respiração trêmula imediatamente.
O corpo inteiro parecia sensível demais agora.
Cada toque.
Cada respiração perto do ouvido.
Cada beijo descendo lentamente pelo pescoço.
Aquilo era novo para os dois.
E exatamente por isso parecia tão intenso.
Miguel encostou a testa na dele por um instante, ainda ofegante.
— Você pode me mandar parar se quiser.
Leonardo sentiu o peito apertar.
Porque havia cuidado na voz dele.
Cuidado real.
E aquilo mexia com ele mais do que deveria.
— Eu não quero que você pare.
A resposta saiu quase num sussurro.
Mas foi suficiente.
Miguel beijou ele outra vez, agora mais urgente, enquanto Leonardo segurava sua camisa com força, tentando entender como alguém podia fazer seu corpo inteiro perder o controle tão rápido.
A chuva começou lá fora novamente, batendo contra as janelas do apartamento.
O som preenchia os silêncios entre os beijos.
As respirações falhando.
Os risos nervosos ocasionais quando um esbarrava desajeitado no outro.
Porque ainda havia insegurança ali.
Ainda havia descoberta.
Mas talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão íntimo.
Quando Miguel puxou Leonardo pela mão até o corredor do apartamento, os dois já estavam completamente sem ar.
Leonardo parou na frente da porta do quarto dele, o coração batendo tão forte que parecia impossível esconder.
Miguel segurou sua cintura devagar.
Esperando.
Dando a ele tempo para pensar.
Tempo para recuar.
Mas Leonardo apenas aproximou mais o corpo do dele.
E foi isso que fez Miguel sorrir daquele jeito lento outra vez.
Perigoso.
Quente.
Como se também estivesse tentando acreditar que aquilo finalmente era real.
Então Miguel abriu a porta do quarto.
E Leonardo entrou primeiro.