Coisas Que Não Dizemos - parte 4

Um conto erótico de Leonardo
Categoria: Gay
Contém 778 palavras
Data: 17/05/2026 00:42:08
Assuntos: Gay

Primeiros Semestres

Parte 4 — Coisas Que Não Dizemos

Dormir no apartamento de Miguel acabou se tornando perigoso rápido demais.

No começo, Leonardo inventava desculpas.

“Tá tarde.”

“Minha aula amanhã é cedo.”

“A chuva tá forte.”

Mas os dois sabiam que não era por conveniência.

Era porque existia algo absurdamente viciante em acordar ao lado um do outro.

Mesmo quando nada acontecia.

Especialmente quando nada acontecia.

Naquela madrugada, por exemplo, eles ficaram horas deitados no sofá-cama da sala, dividindo o mesmo cobertor enquanto conversavam baixo no escuro.

Sobre infância.

Sobre medo.

Sobre futuro.

Miguel contou que queria trabalhar com fotografia algum dia, mas tinha medo de fracassar.

Leonardo confessou que escolheu jornalismo porque sempre foi melhor escrevendo sentimentos do que falando sobre eles.

— Isso explica muita coisa — Miguel murmurou sonolento.

Leonardo virou o rosto.

— Tipo o quê?

Miguel abriu um sorriso pequeno no escuro.

— Você olha como quem sente demais.

Aquilo ficou preso no peito dele.

Porque ninguém nunca tinha reparado nele daquele jeito antes.

E talvez esse fosse o problema.

Miguel reparava.

Em tudo.

Na semana seguinte, Leonardo começou a perceber algo novo crescendo entre eles.

Ciúmes.

Era ridículo.

Ele sabia disso.

Mesmo assim, não conseguiu ignorar a irritação que sentiu ao encontrar Miguel encostado no corredor do bloco de artes conversando com um garoto desconhecido.

O cara era bonito.

Confiante.

Daqueles que pareciam confortáveis demais dentro da própria pele.

Miguel ria de alguma coisa que ele dizia, distraído, leve.

Leonardo sentiu o estômago afundar imediatamente.

E odiou aquilo.

Porque não fazia sentido.

Eles nem tinham definido o que eram.

Nem tinham coragem de falar sobre isso em voz alta.

Ainda assim, a simples ideia de Miguel olhando para outra pessoa daquele jeito fez alguma coisa dentro dele apertar forte.

Ele tentou ignorar.

Tentou agir normalmente durante o resto do dia.

Falhou miseravelmente.

— Você tá estranho — Miguel comentou mais tarde, enquanto os dois caminhavam até o metrô.

— Não tô.

— Tá sim.

Leonardo manteve os olhos na calçada.

— Você ficou ocupado hoje.

Miguel ficou em silêncio por um segundo.

Depois sorriu devagar.

— Ah.

Leonardo odiou aquele “ah”.

— Ah o quê?

— Você tá com ciúmes.

— Não tô.

— Tá muito.

Leonardo soltou uma risada nervosa.

— Você se acha demais.

Miguel parou de andar então.

Leonardo também parou alguns passos depois, confuso.

A cidade ao redor seguia barulhenta, cheia de carros passando e pessoas atravessando a avenida. Mas naquele instante parecia que só existiam os dois.

Miguel deu um passo à frente.

— Você sabe que eu só olho pra você, né?

O coração de Leonardo disparou tão forte que chegou a doer.

Porque Miguel falava aquelas coisas com uma naturalidade absurda.

Como se não tivesse ideia do efeito que causava.

Ou talvez tivesse.

Leonardo abriu a boca para responder, mas nenhuma frase parecia segura o suficiente.

Então Miguel segurou sua mão discretamente, escondendo o gesto entre os próprios casacos.

Pequeno.

Rápido.

Mas íntimo o bastante para mudar completamente o ar entre eles.

— Você ainda fica nervoso quando eu encosto em você — Miguel murmurou.

Leonardo respirou fundo.

— Porque você faz isso do nada.

— E você gosta.

Aquilo arrancou um arrepio imediato dele.

Miguel percebeu.

Claro que percebeu.

O sorriso lento apareceu outra vez.

Perigoso.

Quando chegaram ao apartamento, a tensão já estava insuportável.

Miguel mal fechou a porta e Leonardo já sentia o corpo inteiro quente só pela proximidade.

Era diferente agora.

Os beijos já não carregavam apenas descoberta.

Agora existia desejo consciente.

Vontade acumulada.

Miguel se aproximou devagar, observando ele como se estivesse esperando algum sinal para continuar.

Leonardo nunca foi bom com coragem.

Mas estava começando a aprender.

Segurou a gola do moletom dele e puxou Miguel para perto antes que pudesse pensar demais.

O beijo veio intenso imediatamente.

Quente.

Fome acumulada de dias inteiros se contendo perto um do outro.

Miguel segurou sua cintura com firmeza enquanto o empurrava devagar contra a parede da sala.

Leonardo soltou a respiração tremendo quando sentiu os beijos descerem lentamente pelo seu pescoço outra vez.

Aquilo sempre acabava com ele.

Sempre.

— Você faz ideia do quanto eu penso nisso durante a aula? — Miguel murmurou contra sua pele.

Leonardo fechou os olhos imediatamente.

— Miguel…

A voz saiu fraca.

Quase desesperada.

Miguel ergueu o rosto devagar.

Os dois estavam ofegantes agora.

Próximos demais.

E havia algo perigosamente íntimo no jeito como ele olhava para Leonardo naquele momento.

Não era só desejo.

Era admiração.

Como se ainda estivesse descobrindo partes dele que queria decorar lentamente.

Miguel encostou a testa na sua e soltou uma risada baixa.

— A gente tá muito ferrado, né?

Leonardo ainda tentava recuperar a respiração.

Mas acabou sorrindo mesmo assim.

Porque pela primeira vez na vida…

Talvez estar ferrado não parecesse tão assustador assim.

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