Depois daquela viagem, houve um silêncio. Não imediato. Primeiro vieram as mensagens soltas, os comentários irônicos, alguma foto enviada de madrugada, um “lembrei de você” disfarçado de piada. Depois, aos poucos, aquilo foi rareando até virar intervalo. E intervalo, quando ninguém atravessa, vira distância.
E, quando percebi, nossos encontros já dependiam de coincidência. Aniversários de conhecidos, alguma festa aleatória, cruzamentos rápidos em ruas familiares. Toda vez que eu o via, tinha a mesma sensação estranha. Como encontrar um cheiro antigo, algo que o corpo reconhece antes do pensamento. E o pensamento… o pensamento parecia uma coisa pequena, inofensiva.
Rose ainda reapareceu anos depois, completamente por acaso, numa praia absurdamente esverdeada, num verão distante do litoral da Bahia, queimada de sol, usando um vestido branco transparente sobre o biquíni, como se tivesse saído de uma lembrança mal editada da juventude, atravessando o tempo intacta. Quando me viu, abriu aquele sorriso enviesado de quem sempre enxergava mais do que devia.
— Eu sabia que você iria continuar me assombrando — ela disse.
Mas essa é outra história. Pois aquilo pertencia a outra história, outra versão minha.
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Porque, quando voltamos para nossa cidade, como quem retorna de um incêndio controlado, Rodrigo e eu fizemos o que sempre fazíamos melhor: voltamos para as nossas vidas. Nada parecia destruído, mas também nada permaneceu igual. Nos afastamos sem discussão, sem término, sem sequer uma decisão formal. Apenas aconteceu. As nossas vidas começaram a seguir ritmos incompatíveis. Novos amigos, novas responsabilidades, novos lugares.
Alguma coisa terminou entre nós, sem despedida, sem briga, sem fechar de portas, só do jeito mais cruel e verdadeiro possível: continuando. E deixamos o resto suspenso em algum lugar entre memória e desejo.
E, ainda assim, às vezes eu pensava nele. Do nada. No ônibus, numa aula tediosa, no cheiro de cloro de alguma piscina, no reflexo dourado de fim de tarde em alguém correndo numa quadra qualquer. O pensamento parece uma coisa à toa. Mas como é que a gente voa quando começa a pensar?
Bastava um detalhe mínimo, uma lembrança específica, e meu corpo inteiro lembrava dele antes da memória organizar o resto. A curva do sorriso dele. A voz rouca de sono. O calor do corpo encostando no meu. Porque Rodrigo tinha sido isso, corpo antes de narrativa, desejo antes de significado e, talvez exatamente por isso, tivesse permanecido tanto tempo em mim.
O curioso era perceber que a saudade não vinha do amor. Porque eu sabia, com honestidade brutal, que nunca amei Rodrigo, não no sentido completo da palavra. Não havia fascínio intelectual, não havia admiração profunda, não havia aquela vontade desesperada de ser compreendido. Com Rodrigo, era outra coisa, mais física, mais instintiva. Porque o corpo não argumenta, o corpo insiste.
Contudo, durante muito tempo, nunca mais desejei um homem da mesma forma. Demorou tempo para que outro homem despertasse o mesmo tipo de anseio e desejo. Não daquele jeito físico, imediato, quase irresponsável. E eu odiava admitir isso, não porque significasse alguma coisa romântica, mas porque revelava uma vulnerabilidade quase humilhante.
Com Rodrigo, havia uma ausência total de elaboração. Eu não precisava admirá-lo profundamente, não precisava concordar com ele, não precisava sequer gostar dele o tempo inteiro. E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão perigoso. Ele não acessava minha alma. Acessava algo mais baixo, mais antigo, mais involuntário.
Rodrigo nunca precisou fazer muito. Ele simplesmente existia daquele jeito absurdo dentro de mim. Como um hábito difícil de perder ou um vício elegante demais para parecer destrutivo.
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Numa dessas vezes em que nos encontramos por acaso, ele apareceu de moto. Capacete debaixo do braço, camiseta preta colada no corpo, barba começando a aparecer de forma mais adulta agora. Mais homem, mas ainda moleque.
— Sumido — falou, como se o intervalo entre nós tivesse sido de dias.
— Você também.
Ele sorriu. Sempre aquele sorriso torto.
— Tá diferente.
— Você sempre fala isso.
— Porque é verdade.
Ficamos alguns segundos em silêncio na calçada. Movimento da cidade acontecendo em volta, gente passando, buzina distante, e aquela sensação velha retornando sem pedir licença. Rodrigo me olhou de cima abaixo rapidamente, discreto, mas eu percebia. Sempre percebia.
— Vai partir mesmo pra capital? — perguntou.
— Ainda não fui.
— Mas vai.
Assenti.
— Vou.
Ele chutou uma pedrinha no chão.
— Chique.
Ri baixo.
— Nem tanto.
Pausa.
— E você?
Ele deu de ombros.
— Tô aí.
“Tô aí.”
Era impressionante como Rodrigo transformava a própria vida numa frase curta. Como se simplificar tudo fosse uma maneira de impedir qualquer aprofundamento.
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Os anos passaram rápido depois disso. Ou lentos. Difícil dizer. A faculdade me consumiu primeiro. Depois veio a vontade desesperada de sair da cidade pequena. Eu precisava de movimento, de anonimato, de ar novo. Precisava descobrir quem eu era longe daquelas ruas onde todo mundo já parecia ter decidido por mim. Mudar de cidade, de ritmo, de versão.
Quando terminei a graduação, fui embora para a capital. Lembro do ônibus saindo ainda escuro, minha mãe emocionada demais na rodoviária, o cheiro de café requentado misturado com diesel. A cidade ficando pequena pela janela. E eu sentindo, pela primeira vez, que minha vida talvez finalmente estivesse começando.
A capital me recebeu com aquele caos meio sofisticado, meio cansado, de quem vive rápido demais. E eu gostei. Gostei da sensação de anonimato, das possibilidades, dos bares cheios, das conversas novas, da impressão constante de movimento. Pela primeira vez, senti que minha vida estava realmente começando.
Rodrigo ficou para trás. Pelas notícias que chegavam, sempre fragmentadas, sempre por terceiros, nada mudava muito. Ainda no mesmo curso, repetências e dependências, matérias acumuladas. A mesma namorada de anos antes, as mesmas rodas, os mesmos bares. Como se ele estivesse preso numa espécie de repetição confortável. Ou assustadora.
— O Rodrigo tá enrolando pra formar até hoje — um amigo comentou certa vez, numa visita rápida que fiz ao interior – Reprovou de novo.
Assenti, fingindo neutralidade.
— E continua com a mesma namorada?
— Continua. Vai casar, provavelmente.
Casar. A palavra me causou uma sensação estranha. Não ciúme, nunca foi isso, mas uma espécie de deslocamento. Como se eu estivesse ouvindo sobre um personagem que conheci profundamente num idioma que ninguém mais falava.
Tudo sobre ele carregava uma sensação estranha de repetição, como se a vida tivesse parado num ponto e ele tivesse decidido permanecer ali, ou não conseguido sair. E isso começou a mexer comigo de um jeito inesperado. Porque, durante muito tempo, Rodrigo tinha sido movimento, impulso, desejo. Agora, nas histórias que ouvia dele, havia outra coisa: imobilidade.
Às vezes, tarde da noite no apartamento pequeno que aluguei na capital, eu me pegava lembrando dele. Não das conversas, nem dos momentos bonitos. Mas dos gestos, o jeito dele de inclinar a cabeça quando ria. A mão grande segurando o volante na estrada de terra. O corpo molhado na piscina do clube. A famigerada camisa do Flamengo colada nas costas. O silêncio depois do sexo. Sempre o silêncio.
Rodrigo nunca foi um homem de palavras. E talvez eu tenha passado anos tentando traduzir aquilo em linguagem emocional, quando a verdade era mais simples e mais difícil. Ele só sabia existir através do corpo. O resto ele enterrava.
Uma noite, já morando na capital, sonhei com ele. Nada explícito. Só nós dois andando naquela cidadezinha do meu avô outra vez, as ruas vazias, o céu cheio de estrelas. E Rodrigo mais jovem, olhando pra mim daquele jeito que parecia sempre esconder alguma coisa. Acordei com uma sensação ruim, não tristeza, também não saudade exatamente. Era mais próximo de luto. Mas luto de quê? Do que nunca existiu? Ou do que existiu só até certo ponto?
Uma noite, passado algum tempo, recebi uma mensagem dele. Depois de meses. Talvez mais de um ano. O nome apareceu na tela perto da meia-noite. Rodrigo. Fiquei olhando alguns segundos antes de ler.
“Você sumiu de vez.”
Fiquei olhando a tela por muito tempo antes de responder.
“Você também.”
A resposta demorou. Quando veio, foi curta:
“Mas eu sempre volto.”
Sorri sozinho no escuro. Porque aquilo era a coisa mais Rodrigo do mundo. Sempre voltar, nunca ficar. Conversamos pouco naquela noite. Assuntos superficiais, piadas antigas, comentários sobre pessoas que nem víamos mais. Mas, por baixo de tudo, existia aquela sensação conhecida, como uma música distante tocando em outro cômodo. Baixa, mas constante.
“Como tá aí?”
Olhei pela janela do apartamento a cidade brilhando lá embaixo. Carros passando. Vida acontecendo.
“Diferente.”
“Você sempre quis isso”.
Quis. E consegui. Mas, lendo as mensagens dele atravessando quilômetros no meio da madrugada, percebi uma coisa estranha: algumas pessoas não acompanham a nossa vida. Elas acompanham a nossa formação e ficam presas numa camada específica da gente.
Rodrigo era isso. Não cabia no meu futuro, mas ocupava permanentemente uma parte do meu passado. Uma parte quente, viva, perigosa. E talvez fosse justamente por isso que nunca desaparecia completamente. Antes de dormir, ele mandou outra mensagem.
“Saudade daquela viagem.”
Não especificou qual. E talvez nem precisasse. Fiquei olhando aquilo por muito tempo, depois respondi:
“Eu também.”
Mas não mandei. Apaguei. Bloqueei o celular. E fiquei deitado olhando o teto do apartamento escuro, ouvindo o som distante dos carros da avenida. Pensando nele. Na gente. Ou no que quer que tivesse sido aquilo.
Porque o tempo passou. A vida mudou, nós mudamos, mas havia certas pessoas que continuavam existindo dentro da gente, não como amor, mas como marca. E Rodrigo tinha deixado uma funda demais para desaparecer completamente.
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Voltar para minha cidade depois de tanto tempo tinha algo de deslocamento temporal, como um sonho mal resolvido. As ruas continuavam iguais, mas menores. Os bares onde a gente achava que a vida acontecia agora pareciam cenários decadentes, cansados de uma peça que ficou tempo demais em cartaz.
As pessoas, estranhamente imóveis. Até o cheiro da cidade, mistura de gasolina, poeira e terra quente, parecia preso numa década anterior. Era como se eu tivesse saído de um retrato enquanto todo mundo continuou posando para a mesma fotografia.
Eu tinha mudado, isso era inevitável. A capital tinha me dado outra postura, outro ritmo, outra ambição. Eu já estava há quase dois anos fora. Roupas melhores, rotina acelerada, reuniões, prazos, noites em apartamentos pequenos e caros demais. A vida finalmente tinha começado a andar numa velocidade que fazia sentido para mim (eu achava).
Meu corpo também tinha mudado. Mais magro, mais alinhado, menos menino. Havia gente que dizia que eu parecia mais novo do que antes, o que sempre me soava absurdo, mas talvez fosse verdade. Talvez algumas pessoas envelhecessem pelo peso das escolhas e, outras, pela falta delas.
Rodrigo ficou. E isso, por si só, já dizia muita coisa. Mas, ainda assim, bastou sair do carro naquela cidade abafada para pensar em Rodrigo, o sentimento voltando inteiro para dentro do meu corpo. Não como memória, mas como desejo antigo, irracional, persistente.
Nada parecia resfriar o meu sangue. Eu esperava que a volta à minha terra natal fosse apenas um ritual burocrático, uma visita rápida aos meus pais. Mas passei dois dias tentando ignorar, ensaiando mandar mensagem. Ridículo. Depois de tudo, ainda havia hesitação, ainda havia aquele tipo específico de nervosismo que só existia com ele.
Mas o meu dedo que hesitava sobre a tela do celular traía outra intenção. A mensagem para Rodrigo já estava digitada, pronta para ser enviada há dias, desde que a ideia de cruzar a fronteira do passado se instalara em minha mente como uma coceira insuportável. No fim, mandei um texto simples:
“Tá vivo?”
Simples, direto, desesperado. A resposta veio vinte minutos depois, uma notificação que fez o meu peito dar um salto, não de alegria, mas de reconhecimento de um perigo antigo.
“Sempre.”
Sorri sozinho. O mesmo tom, claro, o mesmo jogo. Como se o tempo não tivesse passado entre nós. Depois ele mandou:
“Tá na cidade?”
“Por uns dias.”
Pausa. Então:
“Vamos beber?”
Eu poderia fingir que era só isso, mas nós dois sabíamos que não era. Encontrei Rodrigo num bar perto da universidade. O mesmo tipo de bar universitário onde a gente passava horas aos vinte e poucos anos, matando aula, achando que estávamos vivendo alguma coisa enorme. O lugar era exatamente como eu lembrava: mesas de plástico, cerveja barata, cheiro de fritura impregnado no ar, música sertaneja baixa demais para ser ignorada e alta demais para conversar direito. E então eu o vi.
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Não é uma pena? Não é uma vergonha? Como partimos os corações e causamos dor uns aos outros? Como tomamos o amor uns dos outros sem pensar sobre isso, esquecendo de retribuir?
Algumas coisas demoram tanto. Como explicar? Quando poucas pessoas conseguem ver que somos todos iguais. É por causa de todas as lágrimas que os olhos não conseguem enxergar a beleza que nos cerca. Não é uma pena?
