Por necessidade ou escolha? — Capítulo 3 — Visita

Um conto erótico de Jujuba
Categoria: Heterossexual
Contém 3307 palavras
Data: 14/05/2026 10:08:07

O aeroporto de Guarulhos tinha aquele cheiro específico de lugar que nunca dorme — café de máquina, plástico novo, o ar condicionado que tenta compensar o calor de outubro lá fora e não consegue completamente. Fiquei ao lado de Rodrigo no saguão de desembarque, ele no celular, eu de bolsa na mão fingindo que estava tranquila.

Não estava tranquila.

Tinha passado o caminho inteiro no banco do passageiro pensando em fotografias do Instagram. Em ombros. Em dezenove anos que eu mal conhecia chegando para dormir na minha casa por dias indefinidos.

É meu sobrinho, eu disse para mim mesma pela décima vez naquele dia.

Continuou não funcionando como antídoto.

O painel mudou — voo de Lisboa, desembarcado. Rodrigo guardou o celular, e eu endireitei a postura como se isso fosse me ajudar em alguma coisa.

Mateus apareceu pelo corredor de desembarque com uma mochila grande nas costas e uma mala de mão puxada pela alça, o cabelo levemente despenteado de avião, uma camiseta simples. Mais alto do que eu lembrava. Os ombros que eu tinha visto nas fotos, agora reais, agora a três metros de distância, agora chegando na minha direção com um sorriso que tinha ficado mais seguro em três anos de Europa.

Rodrigo foi o primeiro — foi na frente com aquela facilidade natural que ele tinha com pessoas, abraçou o primo com aqueles tapas nas costas que os homens fazem, e os dois ficaram um segundo assim, a alegria genuína de primos que cresceram juntos e ficaram tempo demais sem se ver.

— Bem-vindo de volta. — Rodrigo disse.

— Saudade demais. — Mateus respondeu, e a voz tinha ficado mais grave do que eu lembrava.

Rodrigo pegou a mala de mão sem perguntar, jogou no ombro, pronto para ir ao carro.

E então Mateus se virou para mim.

Me olhou por um segundo antes de se aproximar — um segundo que foi longo demais para ser protocolar, que percorreu meu rosto, meu cabelo, minha blusa, e voltou para os meus olhos com uma expressão que eu reconhecia muito bem porque eu mesma a usava profissionalmente.

— Tia Ju. — Disse ele. — Você está linda.

Não era o tipo de coisa que um sobrinho diz para uma tia de cinquenta e seis anos num aeroporto. Não com aquele tom. Não com aquele olhar.

Antes que eu pudesse responder, ele me abraçou.

E foi diferente de qualquer abraço de sobrinho que eu tinha recebido na vida. Os braços dele me envolveram com uma firmeza que não tinha nada de familiar — as mãos espalmadas nas minhas costas, o corpo dele se aproximando do meu sem o espaço educado que as pessoas mantêm em abraços de família. Era o abraço de alguém tomando posse de alguma coisa. Firme. Deliberado. Como se eu fosse algo que lhe pertencesse e ele estivesse finalmente pegando de volta.

Fiquei rígida por um segundo.

Depois, sem que eu tomasse nenhuma decisão consciente, relaxei.

Ele me soltou devagar — mais devagar do que precisava — e quando se afastou ficou a uma distância menor do que havia antes, os olhos nos meus. Castanhos. Diretos. Com aquele sorriso no canto da boca que não era inocente de nenhum ângulo.

Eu o olhei de volta por um momento que durou mais do que devia. Depois — e isso foi involuntário, juro que foi involuntário — meu olhar desceu para a boca dele.

Subiu de volta para os olhos.

Ele tinha visto.

O sorriso cresceu um milímetro.

— Vamos? — A voz de Rodrigo atrás, já com a mala no ombro, olhando para os dois com uma expressão que não consegui ler direito antes de desviar.

— Que calor. — Eu disse, para ninguém em especial, e saí na frente sem esperar resposta, caminhando rápido em direção ao estacionamento com o coração batendo de um jeito que eu não tinha autorização para sentir num saguão de aeroporto na frente do meu filho.

Entrei no carro primeiro. Sentei atrás do banco do motorista.

Precisava de um segundo. De ar. De qualquer coisa que me ajudasse a reorganizar o que tinha acontecido nos últimos três minutos.

É meu sobrinho, pensei de novo.

Desta vez nem tentei fazer a frase funcionar.

Rodrigo dirigia. Mateus sentou atrás do banco do passageiro — diagonal a mim, o banco de trás com espaço suficiente entre nós para ser completamente razoável.

Por enquanto.

A conversa começou natural — Mateus perguntando sobre São Paulo, sobre a faculdade, sobre a cantina. Rodrigo respondendo com aquela facilidade tranquila dele. Eu participando quando era necessário, sorrindo nas horas certas, funcionando no piloto automático enquanto tentava não olhar para o lado.

— Saudade demais de vocês dois. — Mateus disse em algum momento, e eu senti antes de ver — a mão dele pousando na minha perna.

Leve. Aberta. A palma quente através do tecido da saia, logo acima do joelho, com aquela pressão específica de quem não está cumprimentando e sabe muito bem que não está.

Fiquei imóvel.

Rodrigo estava comentando alguma coisa sobre a greve da faculdade. Olhava para a frente, para o trânsito da Dutra.

A mão de Mateus não se moveu — ficou parada, esperando. Com aquela paciência de quem não tem pressa porque sabe que vai conseguir o que quer. A pergunta silenciosa estava toda ali, na palma quente sobre a minha perna.

Fiquei na corda bamba por alguns segundos que pareceram mais longos do que eram.

E então coloquei minha mão sobre a dele.

Não para tirar. Para cobrir — os meus dedos sobre os dele, e num movimento que eu decidi enquanto estava fazendo, deslizei as nossas mãos juntas alguns centímetros para cima. Quase dentro da saia. Quase longe demais para fingir que era acidente.

Mateus se virou para mim.

Eu olhei para a frente.

Do canto do olho eu vi o sorriso — pequeno, satisfeito, o sorriso de quem recebeu a resposta que estava esperando. Ele se deslocou no banco, aproximando-se, usando o movimento de se sentar mais no meio como desculpa para diminuir a distância entre nós.

— Rodrigo. — Ele disse, a voz completamente normal, completamente casual. — Você ainda tá jogando futsal?

Rodrigo se animou com o assunto, os olhos no trânsito à frente, a atenção completamente capturada pela conversa que Mateus tinha puxado com a precisão cirúrgica de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

Com a mão livre, ele começou a subir.

Devagar. Com aquela paciência de quem tem tempo e sabe usar. Os dedos percorrendo o interior da minha coxa através do tecido da saia, centímetro por centímetro, enquanto com a outra parte da sua atenção mantinha a conversa com Rodrigo sobre futsal e sobre Portugal e sobre qualquer coisa que mantivesse meu filho olhando para a frente.

Eu estava olhando para a janela. Para São Paulo passando lá fora. Para absolutamente qualquer coisa que não fosse a mão do meu sobrinho de dezenove anos subindo pela minha saia no banco de trás do carro enquanto meu filho dirigia e conversava animado na frente.

Quando os dedos dele chegaram à calcinha eu prendi a respiração.

Ele não parou.

Afastou o tecido com uma firmeza tranquila — sem pressa, sem hesitação, como quem sabe onde está indo e não tem nenhuma dúvida sobre o caminho — e encontrou o que estava procurando.

Eu mordi o lábio inferior com força suficiente para me manter ancorada.

Fixei o olhar na janela com uma concentração que eu normalmente reservava para fechar o caixa da cantina no fim do dia.

Ele começou devagar — um dedo, explorando, aprendendo, com aquela atenção específica de quem está genuinamente interessado no que está fazendo. Não era a urgência impaciente do aluno no depósito, não era a eficiência metódica do diretor Marcelo. Era outra coisa — tinha curiosidade, tinha intenção, tinha aquela qualidade de alguém que não tem pressa porque está gostando do caminho tanto quanto do destino.

— Tia Ju, você tá bem? — A voz de Rodrigo do banco da frente, olhando pelo retrovisor.

— Tô bem. — Respondi, e minha voz saiu completamente normal porque vinte anos de vida dupla ensinam algumas coisas. — Só cansada com tanta correria essa semana.

— Faz sentido. — Mateus concordou, completamente solícito, a voz estável, os dedos não parando em nenhum momento enquanto falava.

Rodrigo voltou a olhar para o trânsito.

Mateus se inclinou levemente na minha direção, o rosto perto o suficiente para que eu sentisse o calor dele, e adicionou um segundo dedo com uma calma que me tirou o ar completamente. Eu apertei a bolsa no colo com as duas mãos, os nós dos dedos brancos, os olhos fixos na paisagem da Dutra que eu não estava vendo.

Sentia tudo. Cada movimento deliberado, cada ângulo calculado, a pressão do polegar dele encontrando o lugar exato enquanto os dedos se moviam com uma paciência que não combinava com dezenove anos mas que eu não estava em condições de analisar.

Estava em condições de absolutamente nada além de manter a respiração regular e o rosto neutro enquanto meu filho dirigia e meu sobrinho me desmontava silenciosamente no banco de trás.

— Quanto tempo falta? — Mateus perguntou para Rodrigo, completamente casual.

— Uns vinte minutos com esse trânsito. — Rodrigo respondeu.

Vinte minutos.

Mateus se virou para mim com aquele sorriso no canto da boca e acelerou o ritmo.

Eu olhei pela janela e mordi o lábio de novo, mais forte desta vez, enquanto São Paulo continuava passando lá fora completamente indiferente ao que estava acontecendo dentro daquele carro.

Necessidade, pensei automaticamente.

Mas essa palavra não cabia mais em lugar nenhum daquela situação e eu sabia disso muito bem.

Chegamos em casa perto das duas da tarde.

Meu marido ainda estava trabalhando — não voltaria antes das sete. A casa era só nós três, e eu sentia esse fato com uma clareza desconfortável enquanto abria a porta e acendia as luzes da sala.

— Que saudade dessa casa. — Mateus disse, entrando atrás de mim, olhando em volta com aquela expressão de quem está reconhecendo um lugar que ficou tempo demais sem ver.

Rodrigo foi direto para a cozinha beber água. Mateus ficou na sala — e eu senti o olhar dele nas minhas costas enquanto eu fingida arrumava a bolsa na cadeira perto da porta.

— Vou mostrar seu quarto. — Disse, sem virar.

— Claro. — A voz dele tinha aquele tom de quem está sorrindo sem precisar mostrar.

O quarto de hóspedes ficava no corredor, entre o banheiro e o quarto de Rodrigo. Abri a porta, mostrei o armário, disse que tinha toalhas na prateleira de cima. Coisas normais. Coisas que uma tia diz para um sobrinho que vai ficar alguns dias.

Mateus entrou no quarto e jogou a mochila na cama. Depois se virou para mim, que estava parada na porta com a mão na maçaneta, e me olhou da mesma forma que tinha me olhado no aeroporto — aquele olhar que percorria e avaliava e não fingia não estar fazendo isso.

— Obrigado, Tia Ju. — Disse ele.

— De nada. — Respondi. — Descansa um pouco, viagem longa.

Fechei a porta antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

Fui direto para o banheiro do casal, abri a torneira fria, coloquei os pulsos embaixo da água por alguns segundos.

No banco de trás do carro, com Rodrigo dirigindo na frente, Mateus tinha me levado até a beira de alguma coisa com aqueles dedos pacientes e depois simplesmente parado — tinha retirado a mão, ajeitado minha saia com uma calma absurda, e voltado a conversar com Rodrigo sobre futsal como se nada tivesse acontecido — deixando eu suspensa num ponto que não tinha resolução.

Deliberado. Completamente deliberado.

Dezenove anos, pensei, olhando para o meu próprio rosto no espelho.

Dezenove anos e já sabia exatamente o que estava fazendo.

O jantar naquela noite foi quase normal.

Meu marido voltou às sete e meia, cumprimentou Mateus com a cordialidade protocolar de quem recebe o sobrinho da esposa sem ter intimidade suficiente para mais do que isso. Rodrigo animou a mesa com histórias da faculdade. Mateus contou sobre Portugal — Lisboa, o trabalho que tinha feito lá, os amigos que tinha deixado para trás.

Eu servi a comida, enchi os copos, sorri nas horas certas.

Embaixo da mesa, em algum momento entre o prato principal e a sobremesa, o pé de Mateus encontrou o meu. Leve. Poderia ter sido acidente.

Não foi.

Eu não tirei o meu.

Fiquei assim pelo resto do jantar — o pé dele contra o meu enquanto ele conversava com meu marido sobre Portugal com uma desenvoltura admirável — pensando que eu tinha cinquenta e seis anos e estava jogando jogo de pé embaixo da mesa com meu sobrinho de dezenove como se tivesse dezessete.

Depois do jantar, quando meu marido foi para a sala e Rodrigo foi para o quarto, fiquei lavando a louça. Ouvi os passos no corredor, ouvi a porta do quarto de hóspedes abrir e fechar, ouvi a casa ir ficando quieta.

Depois ouvi passos voltando.

Mateus entrou na cozinha com um copo vazio na mão — pretexto transparente de quem não precisava de pretexto nenhum, só de uma desculpa para estar ali.

— Posso? — Disse, apontando para a torneira.

— Claro. — Respondi, me afastando um passo para dar espaço.

Ele encheu o copo. Ficou do meu lado, encostado na pia, bebendo água devagar enquanto eu lavava os últimos pratos sem pressa. A cozinha era pequena. Ele estava perto demais para ser coincidência.

— Você ficou igual. — Disse ele, em voz baixa.

— Três anos é pouco tempo. — Respondi, sem olhar.

— Não é isso. — Uma pausa. — Você sempre foi assim. Eu que demorei pra entender.

Parei de esfregar o prato por um segundo.

— Mateus. — Disse, num tom que tentava ser de tia e não estava conseguindo completamente.

— Tia Ju. — Ele respondeu, no mesmo tom, com o mesmo peso — e havia uma ironia carinhosa nisso, no jeito que ele usava o título como se soubesse que estava ficando oco.

Não disse mais nada. Ele tampouco.

Ficou ali até eu terminar a louça, depois disse boa noite e foi embora, e eu fiquei sozinha na cozinha com as mãos molhadas e a certeza de que a semana de greve ia ser longa de um jeito que eu não tinha previsto.

Na segunda-feira a faculdade estava oficialmente fechada.

Meu marido foi trabalhar. Rodrigo dormiu até tarde — sem aula, sem cantina, sem nenhuma obrigação que o tirasse da cama antes das dez. Eu acordei cedo por hábito, fiz café, fiquei na cozinha com o celular tentando resolver o que conseguia resolver da situação financeira da cantina à distância.

Mateus apareceu às oito e meia.

Descalço, de camiseta e bermuda, o cabelo ainda despenteado, com aquele ar de quem acordou há pouco mas já está completamente acordado por dentro. Pegou uma xícara sem perguntar — já sabia onde ficavam, cresceu nessa casa durante as férias — e sentou na cadeira do lado da minha.

— Como tá a situação da cantina? — Perguntou, olhando para a tela do meu celular.

— Complicada. — Respondi honestamente. — Greve indefinida é o pior cenário.

— Quanto tempo você aguentaria sem movimento?

Olhei para ele. Não era a pergunta que eu esperava de manhã cedo numa segunda-feira de um sobrinho de dezenove anos.

— Umas seis, sete semanas com reserva. — Disse. — Depois começa a apertar.

Ele assentiu, pensativo, como se estivesse realmente processando a informação. Tomou o café devagar.

— Você trabalhou muito pra conseguir essa cantina. — Disse, e havia algo no tom — não era condescendência, era reconhecimento genuíno. — Lembro quando você falou que ia tentar. Todo mundo achou que não ia dar certo.

— Todo mundo achou mesmo.

— Eu não achei.

Olhei para ele de novo. Ele estava olhando para a xícara.

— Você tinha dezesseis anos quando fui atrás da cantina. — Disse.

— Tinha. Mas eu te conhecia. — Levantou os olhos para os meus. — Sei que quando você quer alguma coisa você vai atrás até conseguir.

Havia um peso nessa frase que foi além da cantina e nós dois sabíamos disso.

Desviei o olhar primeiro dessa vez.

A semana foi se construindo em camadas.

Durante o dia a casa tinha a rotina folgada da greve — Rodrigo acordando tarde, saindo às vezes para ver amigos, voltando para o almoço. Meu marido no trabalho até a noite. Mateus presente, sempre presente, com aquela capacidade específica de ocupar espaço sem invadir, de estar perto sem pressionar.

Ele me ajudava com coisas da casa sem que eu pedisse — trocava uma lâmpada, carregava a compra, ficava na cozinha enquanto eu cozinhava e conversava sobre qualquer coisa, Portugal, São Paulo, música, as histórias absurdas dos amigos que tinha feito em Lisboa. Era fácil. Era confortável de um jeito que eu não esperava.

E havia sempre aquela camada por baixo de tudo — os toques que eram um pouco longos demais, os olhares que tinham profundidade demais, a proximidade que ele criava naturalmente e que eu não desfazia.

Na terça à tarde, enquanto Rodrigo tinha saído para ver um amigo e meu marido ainda não tinha voltado, estávamos os dois na sala assistindo alguma coisa na televisão — ele no sofá, eu na poltrona, distância completamente razoável.

Em algum momento ele se levantou para pegar água e voltou sentando no braço da poltrona onde eu estava.

— Mateus. — Disse, sem tirar os olhos da televisão.

— Hmm.

— Tem um sofá inteiro disponível.

— Tem. — Concordou, sem se mover.

Fiquei quieta. Ele ficou quieto. A televisão continuou.

A mão dele desceu do braço da poltrona para o meu ombro — devagar, sem esconder o que estava fazendo, os dedos roçando o meu pescoço num movimento que não tinha nada de casual.

Fechei os olhos por um segundo.

— Você sabe que isso é complicado. — Disse, em voz baixa.

— Sei. — Respondeu, igualmente baixo. — Você quer que eu pare?

Uma pergunta direta. Sem rodeio, sem jogo. Só a pergunta.

Fiquei em silêncio por alguns segundos que responderam antes de mim.

— Não. — Disse finalmente.

A mão dele continuou no meu pescoço, os dedos se movendo com aquela paciência que eu já tinha aprendido a reconhecer como característica dele. Eu fiquei na poltrona com os olhos fechados, a televisão ligada pra ninguém, a casa vazia ao redor.

Na quarta à noite, depois que meu marido dormiu e Rodrigo foi para o quarto, fui buscar água na cozinha.

Mateus estava lá.

Desta vez não havia pretexto. Ele estava encostado na bancada me esperando — ou pelo menos pareceu assim, aquele jeito de quem não está fazendo nada mas está completamente pronto para o que vier.

Entrei na cozinha e fechei a porta atrás de mim.

Ficamos nos olhando por um momento no escuro iluminado só pela luz do micro-ondas.

— Tia Ju. — Disse ele, e desta vez o título não tinha ironia nenhuma, tinha só o peso de quem sabe exatamente o que está dizendo.

Fui até ele.

Ele me encontrou no meio do caminho — as mãos na minha cintura, firmes, como no aeroporto, como se estivesse pegando algo que era dele. Quando me beijou foi direto e sem cerimônia, com aquela mesma paciência que tinha em tudo mas que desta vez tinha urgência por baixo.

Eu deixei.

Mais do que deixei — correspondi, as mãos no peito dele, sentindo a firmeza dos dezenove anos que eu tinha ficado olhando nas fotos do Instagram, deixando aquela semana inteira de acumulação finalmente ter para onde ir.

Ficamos assim por um tempo na cozinha escura — as mãos dele me aprendendo com aquela atenção toda, a minha boca no pescoço dele em algum momento, a respiração dos dois mudando de qualidade enquanto a casa dormia ao redor.

Quando nos separamos eu estava com as costas na bancada e ele estava na minha frente, os olhos escuros no escuro, a respiração um pouco desregulada.

— Essa semana. — Ele disse, baixinho. — Quando a gente tiver espaço.

Não era pergunta. Era promessa.

Eu assentiei.

Voltei para o quarto com o coração batendo num ritmo que eu reconhecia bem — adrenalina, desejo, aquela mistura específica de proibido e inevitável que eu tinha aprendido a identificar ao longo dos anos.

Deitei ao lado do meu marido que dormia sem saber de nada.

Olhei para o teto no escuro.

Por necessidade, pensei, e pela primeira vez em muito tempo a frase me fez sorrir.

Não era necessidade nenhuma.

Era escolha. Completamente, deliberadamente, escolha.

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