Estrada e Desejo – O Motorista e o Segredo da Estrada
Moro com minha companheira num sítio afastado, onde o caminho de terra é a única ligação com a cidade. Trabalho numa madeireira e, para ir e voltar, dependo da linha de ônibus que circula de quatro em quatro horas. Há mais de quinze anos, quem comanda o trajeto é Seu Antônio: homem de idade avançada, corpo forte, cabeça raspada e jeito calado que esconde muito do que pensa. A Mari cuida da casa e complementa o sustento fazendo pães e bolos para vender nas fazendas e na parada perto do bolicho antigo. Com o tempo, percebi mudanças nela: passava a se arrumar melhor ao sair, voltava com o rosto corado e um brilho diferente nos olhos, e à noite sempre tinha um motivo para não ficarmos juntos. Para chegar ao ponto de venda, precisava cortar caminho pela mata, onde havia uma lagoa escondida entre árvores altas.
Um dia, meu trabalho parou por defeito no caminhão e o patrão me levou de volta mais cedo. Esperei até o horário que ela costuma voltar, e como não aparecia, fui a cavalo pela trilha que usava. Ao me aproximar da lagoa, vi que não estava sozinha. Seu Tonhão já estava lá, esperando. Ao se verem, se abraçaram e se beijaram com vontade, como se cada encontro fosse o último. Rapidamente deixaram as roupas pelo chão e ela se posicionou apoiada numa árvore baixa, entregando-se completamente. Ele se colocou por trás, firme e forte, movendo-se com calma e potência, fazendo-a se inclinar cada vez mais para sentir todo o seu peso. Os gemidos que ela soltou eram de quem vivia prazer verdadeiro, algo que nunca ouvi dela dentro de casa. Notei em seu rosto uma alegria plena, como se ali finalmente se sentisse viva e desejada. Ele dominava cada movimento com naturalidade, tratando-a com a segurança de quem conhece cada ponto do corpo dela. Quando terminaram, arrumou suas coisas e seguiu pela estrada, enquanto ela ficou um tempo sentada na beira da água, recuperando o fôlego e sorrindo sozinha. Na volta para casa, Mariana inventou desculpas pelas picadas de mosquito, mas eu já compreendia: não era falta de amor, mas sim algo que ele despertava nela, um jeito de ser mulher que eu não sabia mais alcançar.
No dia seguinte, voltei ao mesmo lugar antes do horário combinado e me escondi entre as árvores. Ele chegou preparado, com repelente e o costume de quem frequenta o espaço há tempos. Quando ela surgiu, foram direto ao que queriam. Ela se ajoelhou sobre a terra macia, e ele a tocou com calma antes de se encaixar, movendo-se sem pressa mas com intensidade. Cada movimento fazia ela se arquear para trás, pedindo mais, entregando-se por inteiro. O jeito rústico e seguro dele fazia com que ela se sentisse protegida e dominada ao mesmo tempo. Havia cumplicidade em cada toque, como se já soubessem exatamente o que o outro precisava. O brilho nos olhos dela mostrava satisfação e realização. Eu percebi então que não se tratava de aparência ou idade, mas de como ele a fazia sentir-se fêmea, desejada e possuída por um homem que carregava consigo a força das gerações antigas. Naquele instante, deixei a raiva de lado e entendi que aqueles encontros eram o que mantinha a luz nos olhos da minha esposa.
Passei a observar com outra visão. Seus dias seguiam entre os afazeres da roça e as idas à parada, onde sempre o encontrava. As conversas entre eles tinham um tom especial, e os olhares trocados diziam tudo o que não precisava ser falado. Comecei a pensar que, ao invés de esconder, poderia fazer parte daquilo que fazia bem a nós dois. Uma semana depois, soube que ele entraria de férias e o encontrei na parada.
— Bom dia, Seu Antônio, tá de folga hoje?
— Tu não vai acreditar, entrei em férias! Quinze dias livres.
— Bah, que bom. Vai poder descansar bastante.
— É, mas não sei ficar parado. Preciso de ocupação.
— Então vamos pra minha casa, hoje tu vai almoçar com nós!
Ele aceitou sem hesitar. Ao chegar, a Mari ficou surpresa e alegre, arrumou a mesa com capricho e serviu o melhor pedaço da carne assada. Conversamos sobre o tempo, a estrada e a vida simples do campo. Ao final da refeição, insisti para que ficasse o resto do dia e dormisse conosco, pois a casa tinha espaço de sobra. Ele concordou, e à noite, sob a luz da lua na varanda, começamos a falar sobre os dias livres que teria pela frente.
— Então, o que tu vai fazer nestes dias?
— Não sei. Não gosto de ficar em casa, vou perambular por aí.
— Por que não vem ajudar Mariana nos pães e nas entregas? Tem bastante encomenda, ganha almoço feito na hora e ainda faz companhia.
— Não sei se ela ia querer um coroa por perto.
Chamei ela que arrumava a cozinha:
— Amor, ele tá de férias e precisa de ocupação. Que ele venha ajudar?
— Seria bom, mas não quero atrapalhar o descanso dele.
— De jeito nenhum, se tu aceitar, eu agradeço — respondeu Seu Tonhão, com um sorriso tranquilo.
A partir do dia seguinte, ele chegou cedo e passou a manhã ao lado dela na cozinha, dividindo farinha e histórias, como se já fizessem aquilo há anos. Durante a tarde, ajudava nos cuidados com os animais e na revisão das cercas comigo. Na hora do jantar, sentávamos os três à mesa, e eu sentia uma paz que antes não existia. Mais tarde, na varanda, com vinho na mão, a conversa tomou outro rumo.
Ele comentou a beleza dela, e eu concordei, dizendo que sabia bem como ela era fora do que os outros viam. Insinuei que ele parecia gostar muito da companhia dela, e ele admitiu que sim, com todo respeito. Eu respondi que não via mal nisso, pois percebia o quanto ela ficava feliz. Disse que para mim, ver bem quem amo é o que importa. Ele ficou surpreso, mas compreendeu que eu sabia de tudo. Falei que poderia ser ainda mais presente, pois nossa porta estava aberta. Ele sorriu e disse que nunca imaginou encontrar tamanha confiança. Eu completei que talvez pudéssemos compartilhar tudo, inclusive os momentos mais íntimos. Ele fez silêncio, pensativo. Expliquei que o desejo que existia entre eles fazia bem a todos nós. Ele balançou a cabeça, concordando que havia algo especial. Disse que sempre teve respeito por nós, mas que não conseguia esconder o que sentia. Afirmei que sabia, e que agora tudo poderia ser diferente. Perguntei se ele aceitava dividir cada instante conosco, e ele respondeu que sim, com o coração tranquilo. Falei que eu também faria parte, pois o amor pode crescer quando há entendimento. Ele disse que era uma forma rara de ver a vida. Eu finalizei dizendo que a estrada nos uniu e que agora seguiríamos juntos.
Naquela mesma noite, depois que ela se recolheu, eu o chamei para entrar no quarto. Ao chegarmos, Mariana estava sentada na cama, esperando, com o rosto corado e o corpo entregue ao desejo. Ele se aproximou devagar e tocou seu rosto com carinho, enquanto eu ficava ao lado observando. Quando ele a abraçou, ela se aconchegou em seu peito, e eu comecei a acariciar seus cabelos. Ele beijou seu pescoço com calma, deslizando as mãos por seu corpo com todo o cuidado. Eu ajudei a despir cada peça de roupa, vendo o brilho aumentar nos olhos dela. Ele se deitou ao seu lado, explorando cada curva, e eu tomei o outro lado, compartilhando o mesmo momento. Seus suspiros eram para nós dois, e cada toque nosso era correspondido com entrega. Ele a segurou com força e doçura, e eu a beijei os lábios enquanto ela se movia entre nós. O prazer era compartilhado, e ela parecia flutuar, sentindo-se amada por inteiro. O momento seguiu com calma e cumplicidade, sem pressa, como se todos os desejos estivessem sendo atendidos. Ao final, ela descansou entre nós, serena e completa.
A partir daí, os dias se seguiram em harmonia. Seu Antônio vinha todas as manhãs, ajudava nos afazeres, dividia as refeições e caminhava com a Mari pela estrada até a parada. Os encontros na mata continuaram, mas agora eu fazia parte do segredo, sabendo e aceitando cada detalhe. As noites na nossa casa passaram a ser compartilhadas, onde os três se entendiam num mesmo sentimento de amor e desejo. Não havia mais esconderijos, pois tudo estava claro e combinado entre nós. Ela continuou sendo a mulher simples e dedicada de sempre, mas agora com a chama acesa, realizada em todos os sentidos. Ele permaneceu o homem forte e reservado, mas que encontrou um lugar para pertencer e amar. Eu segui tocando minha vida na roça, com a certeza de que ao abrir mão de julgamentos, ganhei muito mais: a felicidade de quem amo e uma nova forma de viver o amor. A estrada que um dia serviu apenas para trabalho, agora era o caminho que nos uniu para sempre, num acordo de confiança e paixão que iria durar por todos os anos que ainda viriam.
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