Antes de iniciar o capítulo, preciso começar me desculpando pela demora e sumiço. Infelizmente, tive meses conturbados, com diversos problemas de saúde e psicológicos. Passei por momentos bem difíceis e nem do quarto queria sair, entrei em um estágio depressivo bem forte. Mas enfim, tudo está voltando ao eixo. Estou a um mês tentando escrever para vocês mas não sentia vontade, ficava procrastinando e hoje, finalmente, consegui escrever mais de um capítulo.
Peço que não desistam de mim, e nem do conto, e quero dizer que já tem mais capítulos e vou soltar mais rápido agora. Peço perdão aos meus leitores. 💙
Capítulo 15:
Eu não sei exatamente que horas eram quando acordei. O primeiro som que entrou na minha cabeça não foi o dos grilos nem o vento passando pelas folhas, foi um estalo seco, como o galho de uma árvore sendo pressionado devagar até ceder. Meus olhos abriram sem pressa, ainda pesados, e por um segundo eu não entendi onde estava. A luz da manhã começava a entrar pelas frestas da madeira da casa da árvore, desenhando linhas douradas no chão e no corpo dele ao meu lado. O ar ainda carregava o frio da madrugada, misturado com o cheiro da madeira antiga e da terra úmida lá embaixo. Então tudo voltou. A noite, o vinho, o jeito como a gente se olhou como se o mundo não existisse. E ele.
Virei o rosto devagar e encontrei Caíque ainda dormindo. O peito dele subia e descia num ritmo tranquilo, o rosto relaxado de um jeito raro, como se ali ele finalmente não precisasse ser nada além dele mesmo. Um dos braços estava jogado próximo ao meu corpo, como se, mesmo dormindo, ainda quisesse me manter por perto. Foi quando ouvi o barulho de novo, mais baixo dessa vez. Meu corpo ficou tenso sem que eu percebesse. Levantei um pouco o tronco e olhei pela abertura da madeira, tentando enxergar entre as árvores. Tudo parecia quieto demais. O lago refletia a manhã que nascia, as folhas quase não se moviam, e não havia ninguém. Mesmo assim, aquela sensação não passou. Aquela impressão incômoda de que eu não estava sozinho. De que alguém podia estar ali, escondido, observando.
Fiquei alguns segundos parado, tentando encontrar qualquer sinal de movimento, qualquer sombra fora do lugar, mas não havia nada. Só o silêncio da fazenda acordando devagar. Respirei fundo e fechei os olhos por um instante, tentando afastar aquilo da cabeça. Devia ser coisa minha. Talvez o cansaço, talvez a intensidade da noite, talvez só… imaginação. Não fazia sentido deixar aquilo estragar o que eu estava vivendo.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu estava leve.
Eu tinha feito XVI anos. E aquilo parecia mais do que só um número. Parecia um começo. Como se agora eu estivesse pronto, como se tudo que eu sentia pudesse finalmente existir sem medo. Eu pensei na gente. Pensei em como seria quando voltássemos, em como contaríamos, em como as coisas iam mudar. Pensei no quanto eu queria tentar, de verdade, viver aquilo até o fim. Porque eu não estava mais com medo de amar. Eu estava com medo de perder.
Me aproximei mais dele e encostei minha cabeça no peito dele, sentindo o calor atravessar a camiseta fina. Levei a mão até o cabelo dele e comecei a fazer um carinho devagar, passando os dedos entre os fios, com cuidado, como se aquele gesto fosse uma forma de dizer tudo o que eu ainda não sabia colocar em palavras. Ele se mexeu levemente, soltando um som baixo, ainda preso no sono.
— Bom dia…
Ele demorou alguns segundos para responder. O corpo se ajustou sob o meu, a respiração mudou, até que ele abriu os olhos devagar e me encarou, ainda meio perdido.
— Já tá acordado? — perguntou, com a voz rouca.
— Tô… faz um tempinho.
Ele piscou algumas vezes, olhando ao redor, até entender onde estávamos. Eu vi o momento exato em que ele lembrou. A casa da árvore. A noite. A gente. Um sorriso lento apareceu no rosto dele.
— A gente dormiu aqui mesmo…
— Dormiu.
Ele riu baixo, passando a mão no rosto.
— Minha mãe ia surtar se soubesse.
— A minha também.
Ficamos em silêncio por um momento, mas não era um silêncio estranho. Era confortável, cheio. Ele passou o braço ao redor de mim e me puxou um pouco mais, e eu me encaixei nele como se fosse automático, como se aquele lugar fosse exatamente onde eu deveria estar.
— Você tá feliz? — ele perguntou de repente.
Levantei um pouco o rosto para olhar pra ele.
— Tô.
Ele me observou por alguns segundos, como se estivesse tentando ter certeza.
— De verdade?
— De verdade.
A mão dele subiu até meu cabelo, repetindo o carinho que eu tinha feito antes.
— Eu também.
Meu peito apertou de um jeito bom.
— Caíque…
— Hm?
— A gente vai dar certo.
Falei aquilo antes de pensar demais. Ou talvez porque pensei demais.
Ele ficou em silêncio por um instante, os olhos presos nos meus, e então encostou a testa na minha.
— Eu quero que dê.
Não foi uma promessa. Mas foi sincero. E naquele momento… era tudo o que eu precisava.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo a respiração dele misturada com a minha, o calor, o silêncio da manhã começando a nascer ao nosso redor. E ignorei completamente a sensação que ainda insistia em ficar no fundo da minha mente de que alguém, em algum lugar entre aquelas árvores, podia ter visto tudo.
Descemos da casa da árvore com cuidado, tentando fazer o mínimo de barulho possível, como se ainda estivéssemos protegendo aquele momento só nosso. A grama estava fria sob os pés, molhada do sereno da madrugada que já começava a virar manhã. O céu tinha mudado de cor, um azul claro se espalhando devagar, e o canto dos pássaros começava a substituir o som constante dos grilos. Andamos lado a lado até a casa, em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Era confortável. Era cheio de tudo o que a gente tinha acabado de viver.
Quando abrimos a porta e entramos, o cheiro de café fresco já dominava o ambiente. A cozinha estava viva. Minha mãe organizava algumas coisas na mesa, e a mãe do Caíque estava encostada no balcão, conversando. Assim que nos viu, ela franziu a testa, surpresa.
— Ué… onde vocês estavam? — perguntou, olhando de um para o outro. — Que horas vocês saíram? Nem vi vocês indo dormir.
Meu corpo travou por um segundo. Olhei de relance pro Caíque, que também ficou em silêncio, claramente tentando pensar em alguma resposta.
E foi aí que a porta atrás da gente abriu.
— Bom dia! — a voz do Chico entrou firme, natural, como se nada estivesse fora do lugar.
Ele entrou passando a mão no cabelo, como se tivesse acabado de chegar de algum lugar.
— Levei eles lá na lagoa mais cedo — disse, já se aproximando. — Acordaram cedo, eu falei “bora aproveitar”. Dei um mergulho com eles.
A tensão se dissolveu no ar. Minha respiração voltou ao normal.
Troquei um olhar rápido com ele. Um agradecimento silencioso. Ele entendeu.
Pouco depois, cada um foi para um lado. Eu fui direto para o meu quarto, ainda leve, ainda sorrindo sozinho, com a cabeça cheia de planos. Foi quando bateram na porta.
— Alec?
Era Felipe.
E foi ali que tudo começou a desandar.
— Pode entrar — respondi, terminando de ajeitar a camisa.
Ele abriu a porta devagar e entrou com um ar diferente. Não era o Felipe de sempre, solto, falando alto, brincando. Ele parecia… travado. Meio tenso. As mãos inquietas, o olhar evitando o meu por alguns segundos.
— A gente pode conversar? — ele perguntou.
Eu franzi levemente a testa, estranhando.
— Pode… claro.
Ele assentiu com a cabeça, ainda meio nervoso.
— Lá fora… pode ser?
Aquilo me deixou mais curioso ainda, mas eu só concordei.
— Bora.
Saímos caminhando pela lateral da casa, e quanto mais nos afastávamos da varanda, mais o barulho da família reunida ficava para trás. A fazenda acordava devagar ao nosso redor. O sol da manhã já esquentava a terra, fazendo subir aquele cheiro úmido de capim, madeira antiga e poeira boa de estrada. Perto da cerca, algumas galinhas ciscavam sem pressa, e mais adiante dava para ouvir o som distante dos cavalos no pasto. Felipe caminhava ao meu lado, mas não parecia o Felipe de sempre. Não tinha piada, não tinha aquele sorriso debochado, não tinha comentário exagerado para quebrar o silêncio. Ele andava de cabeça baixa, mexendo nos dedos, como se estivesse segurando alguma coisa pesada demais dentro da boca.
— Felipe… — chamei, tentando entender. — Tá tudo bem?
Ele parou perto de uma árvore grande, daquelas que faziam sombra larga no chão. O vento mexeu nas folhas acima da gente, espalhando pequenos recortes de luz pelo rosto dele. Ele respirou fundo, mas não me olhou de primeira.
— Eu preciso falar uma coisa — disse, a voz mais baixa do que o normal. — E eu preciso que você me escute até o final, tá? Sem me interromper.
Aquilo me deixou gelado por dentro. Assenti devagar.
— Tá.
Felipe finalmente me encarou. Os olhos dele estavam diferentes. Não eram olhos de brincadeira, nem de vergonha boba. Eram olhos de alguém prestes a atravessar uma ponte sem saber se ela ia aguentar.
— Eu tô apaixonado por você, Alec.
Fiquei sem reação. A frase entrou em mim como se tivesse vindo de longe, atravessando o ar quente da fazenda até bater no meu peito. Pisquei uma vez, duas, tentando organizar alguma resposta, mas nada veio.
— Felipe, eu…
— Não, por favor — ele interrompeu rápido, quase desesperado. — Só escuta. Eu sei que isso parece loucura, eu sei que talvez eu esteja estragando tudo, mas eu não consigo mais fingir que não é isso. Eu percebi um pouco antes da viagem. Talvez até antes, mas foi antes da viagem que eu entendi de verdade. Você foi a única pessoa que me olhou sem me diminuir. A única pessoa que ficou do meu lado quando eu parecia invisível naquela escola. Você me escutou quando ninguém escutava. Você me defendeu. Você fez eu me sentir… alguém.
Ele riu de um jeito triste, passando a mão no cabelo.
— Eu tentei convencer minha cabeça de que era só amizade. Juro que tentei. Eu pensei na Júlia, tentei gostar dela, tentei me distrair, tentei fazer qualquer coisa pra não olhar pra você desse jeito. Mas não deu. Porque no fim, tudo voltava pra você. Sempre você.
Meu coração começou a bater rápido, mas não era do mesmo jeito que batia com Caíque. Era ansiedade. Medo. Culpa. Uma sensação horrível de estar diante de alguém prestes a se machucar e não saber como impedir.
— Eu sei que você tem alguma coisa com ele — Felipe continuou, e minha respiração prendeu. — Com o Caíque. Eu não sou idiota. Eu vi. Eu vi vocês se olhando, vi o jeito que ele fica quando você tá perto, vi o jeito que você muda quando ele chega. E ontem… eu vi vocês na casa da árvore.
O chão pareceu sumir por um segundo.
A sensação da manhã voltou inteira. O galho estalando. A impressão de estar sendo observado. O frio estranho na nuca. Não era imaginação. Não era o vento. Era ele.
— Você estava lá? — perguntei, quase sem voz.
Ele abaixou os olhos por um instante.
— Eu não queria… quer dizer, eu fui atrás de você porque acordei e não te encontrei. Aí vi vocês indo pro lago. Eu devia ter voltado. Eu sei que devia. Mas eu fiquei. E quando vi vocês juntos… eu entendi que se eu não falasse agora, eu ia te perder de vez.
Eu dei um passo para trás, atordoado.
— Felipe, isso não tá certo.
— Eu sei — ele disse, os olhos marejando. — Eu sei que não tá bonito. Eu sei que parece errado. Mas eu precisava tentar. Porque eu tenho certeza de que eu faria você feliz. Muito mais feliz. Eu não ia te esconder. Eu não ia te deixar confuso. Eu não ia deixar ninguém te fazer duvidar do que sente. Eu ia cuidar de você, Alec. De verdade.
A garganta apertou. Eu queria ter raiva, mas a tristeza dele era tão exposta que só consegui sentir pena e medo ao mesmo tempo.
— Felipe…
Ele avançou um passo.
— Só me dá uma chance.
— Eu não posso.
— Você nem tentou.
— Porque eu amo ele.
A frase saiu antes que eu pensasse. Clara. Crua. Definitiva.
Felipe ficou parado, como se eu tivesse batido nele sem tocar. O rosto dele mudou, endureceu por um segundo, depois desmontou.
— Você acha que ele vai te escolher sempre? — perguntou, baixo. — Você acha que quando tudo apertar ele vai ficar?
Aquilo me atingiu num lugar feio, porque era exatamente o meu medo. Antes que eu conseguisse responder, Felipe veio na minha direção. Rápido demais. A mão dele tocou meu braço, o rosto dele se aproximou, e quando percebi, ele me beijou.
Foi um segundo. Talvez menos. Mas pareceu longo pelo susto. Meu corpo travou, e logo depois empurrei o peito dele com força suficiente para afastá-lo.
— Felipe, para!
Mas antes que eu conseguisse dizer qualquer outra coisa, ouvi passos firmes na terra atrás de nós. Virei num reflexo, ainda com a respiração presa.
Caíque estava parado a poucos metros, o rosto completamente sem cor, os olhos fixos em nós dois.
Por um instante, ninguém falou nada. O vento passou entre as árvores, mexendo nas folhas acima da gente, e o silêncio ficou tão pesado que parecia impossível respirar.
Caíque olhou para mim. Depois para Felipe. Depois de volta para mim.
A voz dele saiu baixa, mas cortante.
— Graças a Deus eu vim atrás de você.
Meu estômago afundou.
Ele deu mais um passo, os olhos duros, feridos, cheios de uma dor que eu reconheci na mesma hora.
— Que porra tá acontecendo aqui?
O silêncio que ficou depois da pergunta do Caíque não era só pesado. Era esmagador. Eu senti meu peito travar, como se o ar tivesse sumido de repente, como se qualquer palavra que eu escolhesse fosse errada. Meu corpo ainda estava meio virado na direção do Felipe, mas meus olhos estavam presos no Caíque, tentando encontrar alguma forma de alcançar ele antes que fosse tarde demais.
— Caíque… — minha voz saiu mais baixa do que eu queria — não é nada disso que você tá pensando.
Ele não desviou o olhar.
Nem piscou.
— Eu sei que não é nada disso que eu tô pensando — ele respondeu, a voz calma demais para o que estava nos olhos dele. — Porque eu vi tudo.
Aquilo me desarmou por um segundo. Eu não sabia se aquilo era melhor ou pior.
— Eu sei que você não me trairia — ele continuou, dando um passo à frente, o corpo inteiro rígido. — Ainda mais com um moleque desse.
Felipe respirou fundo ao meu lado, e eu senti o corpo dele se tensionar.
— Então eu quero saber — Caíque continuou, agora com a voz mais firme, mais pesada — que porra tá acontecendo aqui… que faz ele achar que tem o direito de beijar você.
O silêncio voltou, mas dessa vez não durou.
Porque Caíque não esperou resposta.
Ele simplesmente avançou.
Foi rápido. Rápido demais. Eu mal tive tempo de reagir. Quando percebi, ele já estava em cima do Felipe, empurrando ele com força, fazendo o corpo dele recuar contra o tronco da árvore. O impacto fez um som seco que cortou o ar.
— Tu tá maluco?! — Caíque explodiu, segurando a camisa do Felipe com força. — Quem você pensa que é?
— Caíque, para! — eu tentei intervir, indo pra cima dos dois, tentando puxar ele de volta.
Mas ele não soltava.
Felipe tentou se desvencilhar, empurrando o braço de Caíque, mas aquilo só piorou a situação.
— Eu não fiz nada de errado! — Felipe respondeu, a voz já alterada, tentando manter o controle, mas claramente tremendo. — Eu só falei o que eu sinto!
— Você não fala assim com ele! — Caíque rebateu, empurrando ele de novo. — Você não encosta nele!
— Ele não é seu! — Felipe disparou, dessa vez mais alto, mais firme.
— Errado! — disse Caíque com os olhos de uma maneira que eu nunca vi — ele é meu! Só meu e ninguém nunca vai encostar nele.
Foi isso.
Aquilo acendeu tudo.
Caíque perdeu completamente o controle. Eu vi o momento exato em que alguma coisa dentro dele quebrou. Ele avançou de novo, dessa vez sem segurar. O corpo dele foi pra cima do Felipe com força, e os dois se chocaram, perdendo o equilíbrio por um segundo antes de se estabilizarem numa luta desajeitada, cheia de empurrões, agarrões, raiva mal contida.
— Para! — eu gritei, tentando entrar no meio, puxando o braço do Caíque. — Para, vocês dois!
Mas era como tentar segurar um incêndio com as mãos.
Felipe reagiu, empurrando Caíque para longe, mas logo Caíque voltava, mais agressivo, mais descontrolado. Os dois começaram a se empurrar com mais força, tropeçando na terra, levantando poeira, os passos descoordenados marcando o chão seco.
— Você não sabe do que tá falando! — Felipe disse, tentando se afastar, mas sendo puxado de volta.
— Eu sei exatamente o que eu tô vendo! — Caíque respondeu, a voz carregada de algo que não era só raiva. Era dor. Era medo.
Eu tentei puxar Caíque pela cintura, depois pelos braços, mas ele simplesmente não cedia. Era como se toda a tensão, todo o ciúme, toda a insegurança que ele vinha carregando desde o começo da viagem tivesse encontrado um ponto de explosão ali.
— Ele não é brincadeira sua! — Caíque gritou.
— E você não é dono dele! — Felipe respondeu, dessa vez empurrando de volta com força.
Os dois quase caíram. Eu me joguei entre eles, tentando separar, empurrando um para um lado, outro para o outro.
— Chega! — gritei, a voz falhando. — Chega!
Mas ninguém estava ouvindo.
Foi quando um terceiro corpo entrou na cena.
Forte.
Rápido.
Chico.
Ele surgiu do nada, como se já estivesse por perto, e entrou no meio dos dois sem hesitar. Segurou Caíque pelo ombro com uma mão firme e empurrou Felipe para trás com a outra, separando os dois de uma vez.
— Já deu! — ele disse, a voz mais alta do que eu já tinha ouvido.
Os dois ainda tentaram avançar, mas Chico se colocou no meio, firme, como uma barreira.
— Acabou! — ele reforçou.
O silêncio voltou aos poucos, pesado, ofegante.
Caíque estava respirando rápido, os olhos ainda presos no Felipe, como se qualquer segundo pudesse avançar de novo. Felipe, do outro lado, também ofegante, a expressão misturando raiva e algo mais fundo, mais dolorido.
Eu fiquei ali, entre eles, sem saber para onde olhar primeiro.
Sem saber o que dizer.
Sem saber como consertar aquilo.
E foi naquele instante, com o sol já alto iluminando tudo, com a terra ainda marcada pela briga, com o silêncio carregado entre nós quatro…
que eu senti.
Aquilo não era só uma discussão.
Era o começo de alguma coisa quebrando.
E sabe o pior de tudo? Depois daquele dia que toda essa merda aconteceu, foi quando tudo começou a desandar.
Caique foi embora, noivou, seguiu a vida com uma mulher e esqueceu de tudo que ele disse. Afinal, ele disse que eu era dele, mas ele não cumpriu com essa promessa.
Acho que o mais difícil disso tudo não foi só perder ele, mas não entender direito o motivo que levou até isso.