Acordei na UTI Residencial e olhei em volta os equipamentos o cheiro era novo, mas de alguma forma conhecido, eu já tinha passado por isso antes, mas esse apartamento era novo, eu respiro fundo ouvindo os aparelhos, com certeza o sinal já foi mandado para o Alberto, se ele estiver em casa, estará comigo em breve e definitivamente, foi bem breve, que ele entrou preocupado, mas aliviado, se eu acordei, significa que estou bem, dessa vez, está tudo bem.
“Você está bem Kelly?”, ele me pergunta preocupado enquanto faz carinho no meu rosto, eu faço que sim com a cabeça, ainda tentando organizar o que pensar sobre o assunto, “Foi só um susto anjo, você está totalmente estabilizada.”, eu sorrio, a notícia é boa, ao menos por enquanto eu continuo viva, isso é bom… Acho… Eu olho para ele, “Acho que preciso de um banho.”, as roupas estavam molhadas, de suor, o travesseiro babado, definitivamente, deve ter sido difícil estabilizar meu corpo.
Alberto não me permitiu o banho, não se deixou desligar os aparelhos ou baixar a guarda, limpou meu corpo com um paninho com água morna, trocou minhas roupas e roupas de cama, sem deixar eu me mover muito, “Desculpa Kelly, quero ter certeza.”, eu fiz que sim com a cabeça, a verdade é que eu já deveria saber, ele não vai baixar a guarda enquanto não estiver certo que pode desligar tudo, um erro pode ser fatal e ele não quer me perder assim.
Eu olho para o teto, as luzes apagadas e respiro fundo… Já fazem 12 anos…
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Eu era bem pequena quando alberto me adotou, tinha sido recém matriculada na escola… Eu lembro dos meus pais, de como meu pai batia constantemente na minha mãe e as vezes em mim, porque estava alterado de drogas e álcool, eu lembro principalmente daquela noite, quando a polícia veio buscá-lo e ele resolveu que ia cair atirando, minha mãe sabia que iam matar todo mundo, então me passou pela janela do banheiro com duas únicas ordens, “Sobreviva e se esconda…”
Eu estava longe, (para alguém tão jovem), e ainda ouvia os tiros e de repente o silêncio… Eles estavam mortos… Eu estava sozinha… Eu não sei se entrei em choque, não sei se foi isso o que aconteceu, Alberto diz que sim, mas ele não sabe o quanto eu lembro, eu só sei que eu sobrevivi… Eu me escondia onde dava, achava que todo mundo queria me machucar e vamos lá uma menina, tão pequena solta na rua, haviam várias pessoas que iriam me machucar.
Eu me escondia em bueiros, quintais abandonados, terrenos baldios e trilhos a noite. Roubava comida do lixo de restaurantes, ou barraquinhas, às vezes era enxotada por seguranças, achando que eu ia pedir algo para os clientes, às vezes crianças mais velhas, achavam, que era hora de fazer alguma maldade com uma criança mais nova.
Em uma dessas vezes eu encontrei aquele que escolheria ser meu pai, não um acidente, não uma falha da pílula, realmente escolhida, eu trombei com ele com força, caí sentada, ele gritou com os meninos que me perseguiam eu esgueirei para fora do campo de visão dele e cheguei no esconderijo que estava daquela vez.
Restos de comida me serviam de café da manhã, uma bolsa cheia de panos sujos de travesseiro, dentro de uma caçamba abandonada, quando ele me achou pensei em fugir, mas ele, me tratou como uma criança, a primeira pessoa a lembrar que debaixo daquela imundice, havia um ser humano frágil que precisava de ajuda e de atenção, ele não precisou insistir para que eu aceitasse ir para o seu colo.
E então eu finalmente chorei…
Aí eu passei a fazer parte de uma grande família, de crianças resgatadas das ruas, diziam que ao menos tínhamos uma chance, nem todas realmente conseguiram receber amor de uma família, nisso eu, Júlia e Gabriel fomos os sortudos, mas então vieram as mortes, eu ainda lembro de vários deles, de seus nomes, Ana, Bruno, Denise, todos eles, mas os números só diminuía a cada nova crise
Gabriel, Helena e Igor foram os últimos, Gabriel e Helena não sobreviveram a terceira crise, eles foram colocados para dormir com a injeção tentando estabilizar a crise em coma induzido, mas todos os remédios falharam, seus corpos foram falhando, eu, Júlia e Igor, apenas observamos distantes o que acontecia, mas Igor se dava melhor com os dois do que com a gente e eu… Eu era a mais nova de todos.
Eu ainda não entendia o que tinha acontecido com os outros, acho que Gabriel e Helena foi a primeira vez que eu realmente senti a morte tão perto.
A depressão de perder Gabriel e Helena ainda tão jovens, acabou levando Igor de nós, sobramos apenas eu e Júlia e ela cuidava tanto de mim, mesmo quando tivemos a terceira crise, eu sentia como se dentro de mim tudo estivesse doendo, sem exceção cada crise é muito mais horrível que a anterior, mas sobrevivemos juntas, éramos mais fortes juntas, Júlia era a única que me entendia, a última que como eu, sabia como é passar por isso.
Estávamos comemorando que ela tinha passado no vestibular, ela era incrível, inteligente, prática, dona de um poder de decisão que parecia nunca errar, da mesma faixa de idade dos outros, em média, quase três anos mais velha do que eu, estávamos nos divertindo, quando vejo ela colocar a mão no peito e olhar para mim, como se pedisse perdão e ali eu sabia que algo horrível aconteceu.
Antes mesmo de escutar o seu grito eu corro até ela e afasto todo mundo, já sabendo, seguro a mão dela apertado e chamo um táxi, precisávamos chegar no laboratório o mais rápido possível, eu escutava os gritos dela, a cada balançar do carro chorando, repetindo ‘que ela ia ficar bem…’, que tudo ia dar certo…’, ‘que ela não ia me deixar…’, foi quando ela acariciou meu rosto, “Desculpa Kelly… Desculpa.”, como se ela sentisse que aquela crise era diferente.
Levaram ela para dentro, Samanta e Alberto, chegaram, Júlia já estava enlouquecendo de dor, gritando, tentando suportar, tentando serrar os dentes, segurar as bordas da maca, mas… A Injeção falhou, os dois se olharam quando ela não entrou em coma minutos depois… Pela primeira vez, eu vi Alberto em pânico… “TIRA A KELLY DAQUI AGORA!!!!”, ele grita para um segurança que me leva para fora da sala enquanto choro em voz alta soluçando.
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Sempre deixavam a gente assistir para não termos medo da injeção, saber que tudo ia ficar bem, mas aquele dia falhou, Alberto depois vai me explicar que estavam tentando conter a dor, com analgésicos, enquanto tentavam o tratamento, mas… Eu não sei como explicar… A dor é tão aguda, que faz você delirar, eu passei por três crises e tinha plena noção da dor que a Júlia estava suportando, enquanto seus órgãos internos diminui a função lançando alertas para seu cérebro de que tudo ia parar.
Após dois dias tentando salvar ela, Alberto me colocou no colo e explicou que iriam aplicar uma anestesia completa nela, uma comum, isso faria ela não sentir dor, mas… Ela dificilmente se recuperaria, porque a anestesia comum, não combina com nossos remédios, mas se ela continuasse como estava, talvez, morresse de dor ou só enlouquecesse.
Mesmo sabendo que a sedação estava retardando os remédios, que a chance de salvá-la era mínima, Alberto e Samanta fizeram tudo, tudo o que podiam, Samanta idolatrava Júlia, ela era a filha que ela escolheu, a filha de sangue da Samanta tinha morrido anos antes de adotar a Júlia, acidente de carro, assim como eu para Alberto era filha que ele não pode ter, tentaram por mais de uma semana, eles ficaram sem dormir direito, sem comer direito, até que ela morreu...
Eu a vi horas antes, parecia dormindo, tão calma, tão finalmente em paz, eu tive permissão de vê-la pelo Alberto, todos já sabiam que ela estava morrendo, seu corpo só estava vivo pelos aparelhos, eu pude me despedir da minha melhor amiga, não, da minha única irmã, e ali me tornava a última de nós, Kelly a 11° e não planejada, ali eu jurei para ela que faria meu melhor para sobreviver, para ajudar com a mãe dela.
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No enterro eu vi nos olhos da Samanta que a morte da filha, como aconteceu, iria assombrar ela para sempre, que os gritos da Júlia estariam lá em cada pesadelo que ela tivesse pelo resto da vida, ela estava abraçada com o Alberto chorando eu sem saber o que fazer prometi no túmulo da minha irmã, que iria fazer meu melhor para viver, para sair dessa bolha onde nos criaram e que tentaria evitar deixar a mesma marca neles quando partisse...
Três anos depois conheci Luiz, depois veio o Christian… E agora… Eu estou um ano mais velha, de quando minha irmã morreu, quando ela teve a 4° e última crise que finalmente conseguiu matá-la… Eu sei que uma hora ela virá e será mortal, mas até lá, eu prometi que vou viver, tudo o que não nos foi permitido, até lá eu não aceito migalhas, sou Kelly Franco, sou uma estrela, sou uma cantora e quando eu partir serei como um cometa, que deslumbrou os olhos de milhões, antes de finalmente se apagar entre as estrelas.
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Voltar para o presente é doloroso, minha mente ficava voltando na discussão com o Chris e com a Bárbara e para as palavras de seus pais Eu já havia sido julgada, quando entrei naquela casa, Dona Ana confiou em mim, o Sr. José, o filho dele e a Bárbara não, não havia chance que eu pudesse explicar, não havia condições, claro que Bárbara fez um excelente trabalho de Bullying me mantendo sem conseguir falar.
Chorei no banho até me sentir bem, apoiada na parede, magoada, eu também sou culpada… Eu saí correndo, deixei o Chris falando sozinho, não pretendo explicar para ele que eu estava morrendo, nem posso, então o que está feito está feito, não era para ser, ‘se isso é verdade porque dói’, foi nessa hora, enquanto estava sentada em uma penteadeira de frente para o espelho que me veio a ideia, triste e cruel, uma letra, uma boa letra, mas…
Escrevo o início da composição, algo feito para o Chris, mas que eu sei que nunca vou cantar, porque ele nunca estará lá, ou ao menos eu pensava assim no dia. Coloquei tudo o que eu queria dizer para ele nessa canção, acho que exatamente por saber que ele não iria ouvir ela, nunca, eu tive coragem de fazer isso, porque não pretendia gravá-la… Não se ele não pudesse ser o primeiro a ouvir, ou estar entre os primeiros, sei lá, minha mente viajava em situações e cenários hipotéticos.
Mas a verdade é, não sei se vou sobreviver, não tive uma quarta crise, ainda não, e foi ela que levou a Ju, pode ser que a minha esteja próxima, em um show, em um carro, na rua, no motel, uma hora vai acontecer. ‘Eu não quero que eles estejam lá, nem o Chris, nem o Alberto, não quero ferir pessoas que eu amo com essa morte horrível, não é justo com eles.’, penso comigo mesma, mas a morte não escolhe hora, ou conveniência e isso eu aprendi cedo.
Por isso tomo a decisão, olhando para o espelho, pensando no Christian, nos seus detalhes, depois lembrando da Julia do caixão baixando para a terra enquanto escuto Samanta chorando em voz alta abraçada com o Alberto… “Desculpa meu amor eu não posso… Eu me recuso a fazer quem eu amo sofrer…”, e bloqueio o número dele.
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No dia seguinte após descansar Alberto chegou eu estava de calcinha de biquíni e camiseta fazendo exercício de pilates, os cabelos soltos já toda linda e recuperada, ele sorriu. “Parece melhor hoje Kelly.”, eu sorrio, “Acho que foi só um susto.”, ele fala, eu parei olhando para ele preocupada, “Mas eu estava medicada.”, falo realmente preocupada, porque essas coisas não podem acontecer fora de hora.
“Eu informei o laboratório, eles vão reavaliar seus últimos exames, mandei uma amostra de sangue também.”, eu sinalizo que ok com a cabeça, fico pensativa de novo, “Você acha que estou morrendo?”, ele vem até mim e me abraça, “Não fala assim, vai dar tudo certo você vai ver.”, isso me faz sorrir, me sinto protegida de verdade, porque sei que ele fará tudo, como fizeram pela Júlia, mesmo se não houver esperanças...
Eu me afasto, queria me focar nas minhas dúvidas… “Alberto?”, “Fala amor.”, “Como aquelas fotos foram parar lá?”, ele olha para mim, “Não sei do que está falando.”, eu sorrio magoada, “Não me trata como burra.”, ele olha para mim e se senta no sofá, eu me sento na bola de pilates. “Elas eram íntimas demais, ao mesmo tempo sugestivas de mais para ser coincidência.”, eu falo e ele olha para mim pensativo, “Detetives? Fãs?”, eu sorrio.
“Já falei para não me chamar de burra…”, ele abaixa a cabeça, “Ok.. Eu admito”, ele sinalizou positivamente com a cabeça, “Eu só queria te proteger.”, “E eu quase morri.”, ele olha para mim com lágrimas nos olhos, “Kelly você precisava ver a verdade, eu só estava tentando te mostrar que ele não é para você. Foi para te proteger.”, “Foi por racismo Alberto! É racismo que chama.”, ele olha para mim com raiva no olhar...
“Me respeita, Kelly.”, “Ou vai me bater de novo?”, “Não vou te bater.” ele respira fundo. “Mas se ele te amasse ele tinha te escutado. Ele teria conversado com você e não teria tratado você que nem lixo, isso prova que seu amor não era tão correspondido quanto você imaginava.”, agora quem abaixa a cabeça sou eu, começando a chorar, pensando em o quanto os dois homens que amo foram crueis comigo, ele se aproxima de mim e me abraça de novo, deitando minha cabeça no seu ombro onde ao menos posso chorar.
“Eu não quero partir como a Júlia, fazendo as pessoas que eu amo sofrerem Alberto… Me promete que não vai estar lá. Me promete que quando acontecer, você ficará longe.”, eu falo com voz de choro, ele me aperta e me aconchega nos seus braços, “Não posso prometer que não estarei do lado da minha filha se ela estiver sofrendo Kelly. Eu não posso prometer isso.”, ele fala isso me abraçando apertado e protetoramente e eu simplesmente desabei chorando aos gritos e soluçando nos seus braços.
=== === === … … … FIM DA FAIXA 7 … … … === === ===
Música do Título: Vento no Litoral
Intérprete: Cássia Heller e Renato Russo.
Pois é… Mais um mistério da Kelly revelado, ou melhor, tudo revelado, agora já sabem como aconteceu a indiazinha adotada pelo louro, já sabem que ela está sofrendo de algo horrível, que aos poucos está matando ela por dentro, ela sabe que sua vida é curta apesar de tudo, nem tudo foi revelado… Essa é a última faixa desse disco.
Mas ainda há uma faixa bônus, Pov do Christian e do Alberto, com algumas coisas que viram para o futuro e alguns segredos revelados… Então espero que gostem.
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