Eu sabia que aquela noite no Bukowski seria diferente desde o momento em que entramos.
Não por causa de alguma conversa específica.
Nem por algum plano.
Era o jeito dela.
Ela parecia mais leve naquela noite.
O Bukowski estava quente, lotado, iluminado por luzes vermelhas que deixavam tudo com aparência de exagero e tentação. O rock antigo ecoava pelas paredes enquanto casais se beijavam pelos corredores estreitos e pessoas dançavam grudadas perto das pistas.
Ela estava linda.
Jeans escuro justo, blusa preta colada ao corpo, cabelo loiro solto sobre os ombros. E mesmo segurando apenas uma água na mão, parecia mais solta do que muita gente bêbada naquele lugar.
Eu observava ela dançar perto da banda enquanto conversava com dois caras que conhecemos ali mesmo no bar. Conversa casual. Música. Rock antigo. Histórias aleatórias de madrugada.
Mas em vários momentos eu percebia ela olhando para algum lugar atrás de mim.
Discreta.
Rápida.
Como se tivesse percebido alguém no meio do movimento.
Mais tarde subimos para o andar das pistas.
Lá em cima o ambiente parecia ainda mais intenso. Luzes vermelhas atravessando corredores apertados, fumaça leve no ar, guitarras vibrando alto enquanto pessoas se agarravam pelas paredes.
Ela foi para perto da pista.
E eu fiquei mais atrás conversando com os dois caras.
Foi então que percebi ele.
O sujeito moreno parado perto da pista olhando para ela.
E ela olhando de volta.
Não era algo escancarado.
Era pior.
Era aquela troca silenciosa que você percebe imediatamente quando existe química entre duas pessoas.
Ele demorou um pouco para se aproximar.
E ela não saiu dali.
Continuou dançando sozinha enquanto fingia prestar atenção na música, mas eu via os olhares acontecendo de novo e de novo.
Até que ele finalmente foi até ela.
Os dois começaram a conversar muito próximos por causa do som alto. Ele falava no ouvido dela. Ela sorria.
E eu já sabia exatamente onde aquilo ia terminar.
Quando ele segurou a cintura dela pela primeira vez, vi o corpo dela reagir imediatamente.
Ela não se afastou.
Pelo contrário.
Continuou dançando colada nele como se já estivesse esperando aquele toque desde lá embaixo.
Então veio o beijo.
Rápido no começo.
Mas ela segurou a nuca dele imediatamente e puxou ele de volta para um beijo muito mais intenso.
E ali a noite mudou completamente.
Eles começaram a se beijar no meio da pista como se o resto do Bukowski tivesse desaparecido. Beijos demorados. Quentes. Daqueles em que duas pessoas parecem esquecer completamente onde estão.
As mãos dele percorriam o corpo dela o tempo inteiro.
Cintura.
Costas.
Quadris.
E ela deixava.
Mais do que isso.
Puxava ele ainda mais para perto.
Em vários momentos eu via ela fechar os olhos enquanto ele beijava seu pescoço perto das luzes vermelhas da pista.
E eu não conseguia parar de olhar.
Às vezes eu me afastava.
Ia fumar.
Descia perto do karaokê.
Tentava distrair a cabeça.
Mas sempre acabava encontrando os dois novamente.
Sempre grudados.
Sempre se beijando.
Em um dos corredores escuros do andar superior vi ele encostar ela contra a parede enquanto continuavam se beijando devagar. O corpo dela pressionado contra o dele enquanto as mãos dele apertavam sua cintura por baixo do cabelo loiro espalhado pelos ombros.
As pessoas passavam ao redor.
E ela não parecia se importar minimamente.
Depois encontrei os dois perto da pista novamente. Ele atrás dela, abraçando sua cintura enquanto ela dançava lentamente pressionando o corpo contra o dele no ritmo da guitarra.
As mãos dele percorriam o corpo dela sem parar.
E ela inclinava a cabeça para trás fechando os olhos enquanto ele beijava seu pescoço.
Aquilo já não parecia mais apenas uma aventura de balada.
Existia intimidade demais ali.
Desejo demais.
Em determinado momento os dois desapareceram.
No começo achei que tivessem ido apenas para outro corredor.
Mas os minutos começaram a passar.
Dez.
Quinze.
Quase vinte minutos.
E eles não voltavam.
Quando finalmente apareceram novamente perto da pista, ela ajeitava o cabelo devagar enquanto ele segurava sua cintura por trás com um sorriso impossível de esconder.
Ela estava com a respiração diferente.
O olhar diferente.
E naquele instante eu soube.
Não precisei perguntar nada.
O jeito como os dois se olhavam já dizia tudo.
Mesmo assim ela continuou grudada nele pelo resto da noite.
Andavam de mãos dadas pelos corredores do Bukowski como se tivessem chegado juntos. Às vezes ele puxava ela para perto da parede apenas para beijá-la de novo. Em outras, ficavam abraçados perto da pista enquanto ela sorria tentando recuperar o fôlego.
E eu observava tudo.
O mais intenso era perceber que, em vários momentos, ela ainda olhava para mim.
Não com culpa.
Mas com uma expressão quase cúmplice.
Como se soubesse exatamente o que eu estava sentindo enquanto assistia tudo acontecer.
A despedida foi a parte mais difícil.
Ele estava perto da saída conversando com alguns amigos quando ela parou no corredor olhando para ele.
E eu percebi imediatamente que ela ainda não queria ir embora.
Ela atravessou o corredor inteiro devagar.
Quando chegou perto, segurou o rosto dele com as duas mãos e beijou ele sem pressa.
Um beijo longo.
Quente.
Íntimo demais para duas pessoas que tinham se conhecido poucas horas antes.
Quando ela finalmente voltou até mim, ainda estava sorrindo discretamente.
Saímos do Bukowski quase em silêncio.
Dentro do táxi, ela ficou olhando pela janela enquanto as ruas vazias de Botafogo passavam lentamente lá fora.
Eu revivia mentalmente cada cena daquela madrugada.
Os olhares.
Os beijos.
As mãos dele no corpo dela.
Os dois desaparecendo pelos corredores.
E o jeito como ela parecia completamente entregue àquela experiência.
Então ela virou para mim sorrindo de leve.
— Eu adorei essa experiência…
Continuei quieto.
Ela riu baixo antes de sussurrar:
— O que acontece em Vegas fica em Vegas.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Até ela completar quase sem voz:
— A sensação foi incrível…
Depois disso não falamos mais nada.
Mas o silêncio dentro daquele táxi estava longe de ser vazio.
Ele ainda estava cheio da madrugada que tínhamos acabado de viver dentro do Bukowski.