Houve sempre entre nós uma impossibilidade absoluta. Idade, educação, objetivos: e não, não estou falando de romance ou da chance de nos casarmos (apesar de naquela época eu possivelmente querer que ele gostasse de mim para ficar de conchinha). Estou dizendo que era desde sempre impossível que mantivéssemos uma relação minimamente normal porque viemos de planetas distintos.
Ele nunca dividiu comigo sua vida ou nada de fato significativo sobre quem era, mas o que colhi aqui e ali no decorrer de nosso contato montou um quebra cabeça cheio de falhas, do qual posso dizer com alguma segurança que ele começou comendo parentes (curiosamente, mais velhos) e éguas, que enquanto ele estivesse penetrando ele seria homem (não importa quem estivesse dando pra ele). Que ele não queria que ninguém, ninguém, ninguém soubesse que ele me comia (pela minha boca, ao menos). E que ele mudava de biografia e de limites quando bebia.
Não sei se eu gostava mais dele alcoolizado. Demorava muito, muito mais a se satisfazer, e isso significava acréscimo de dor para conseguir levá-lo ao gozo - mas com o bônus dos beijos na nuca, lambidas no ouvido, frases deliciosamente grosseiras enquanto me penetrava. Ele ficava mais parecido com um namorado quando bebia.
Quando estava amoroso terminava de gozar e me dizia que eu ainda parecia virgem, acariciando minha bunda e pulsando o pau quente ainda encaixado. Quando não havia bebido, apenas gemia e buscava meios de subir a cueca, como se tivesse pressa de acender um cigarro e seguir com o dia.
Talvez por ter sido meu primeiro, ou quem sabe eu ainda hoje tenha esse interesse inútil em entender o personagem. Entender se quem me come faz sentido funciona como um escudo: se eu o entendo, se ele faz sentido, talvez eu compreenda seus limites, o que esperar. Eu ainda não me entendia tão bem, nem dominava esse processo, por isso com ele me entreguei à pesquisa. Por pouquíssimo tempo: dormia e acordava pensando nele. Há quem chame isso de paixão.
Ele pelo visto também lembrava bastante de mim: no terceiro encontro me pediu cigarros. No quarto, dinheiro. Então passou a me dizer que não queria mais se eu não pagasse, como se seu pinto fosse um prêmio que eu não merecia. Talvez se ele não tivesse vinculado uma coisa à outra.
Não é que eu me oponha a quem mistura sexo e dinheiro. Acho uma troca mais justa que o namoro por afeto (quase sempre em trocas desiguais). É que meu tesão vem de imaginar que estou satisfazendo. Se a desculpa para ficar de pinto duro são vinte reais, deixo de ser eu o prêmio.
Não é orgulho: é como meu tesão sempre foi. Meu prazer é o poder que a bunda possui sobre falos incontroláveis. Se o pinto tem preço, opção, serenidade para escolher, não me quer o suficiente. A minha bunda é o graal ou você não a terá. Ou talvez tenha, se voltar a ser bicho e não comerciante.
Evitei o quanto pude passar por lá, como que já sabendo que não terminaria bem se ele não me desejava de fato. Parecia que apenas o pinto dele gostava de mim, e eu - tolo - achava que era pouco. Qualquer chance real entre nós se perdeu nas filosofias do macho inseguro e carente.
Que bom que na época não havia smartphones e câmeras à mão de qualquer um. Lembro com especial carinho de um dia que ele não parecia haver bebido, mas se comportou como se tivesse. Vi a porta da reciclagem aberta e segui em frente sabendo que talvez ele me chamasse. Estava acompanhado de um rapaz que eu não conhecia, mais velho que eu mas muito mais novo que ele. Acelerei o passo pra me aproveitar da presença de testemunhas e escapar, mas na mesma frase ele me mandou parar e disse ao rapaz que fosse embora: __ segura aí, príncipe. Vaza pra casa!
O menino ainda perguntou o motivo de ser tocado pra casa, rebelde, querendo entender. Mas obedeceu quando ele elevou a voz e mandou voltar pra casa 'agora'. E completou: depois te explico. Até hoje não sei se era seu filho, nem se de fato a ele depois explicou tudo. O rapaz saiu, cruzando olhar comigo, envergonhado por ter que ceder assim, publicamente, a quem falava mais alto. Mal sabia ele que eu cederia ainda mais, muito mais, em instantes.
E essa é uma daquelas dúvidas absolutamente tolas que me perseguem: o rapaz era filho ou mais um que dava pro borracheiro e preferiu obedecer para não ser exposto? Se era filho, imaginou que seu pai me comeria? Se era amante, imaginou que eu também estava sendo usado? Eu tento lembrar do olhar do moço, mas só lembro que ele parecia estar envergonhado de obedecer. E o leitor pode perder a esperança desse moço voltar a fazer parte dessa narrativa, porque nunca mais o vi.
Lembro que eu reclamei: __ na frente dele? Você é louco? Ele apenas parou junto à porta de ferro de correr, esperando que eu entrasse. Ele sabia que eu entraria. Entre, e ele entrou em mim. E o ritual então passou a ser ele me comer sempre 'pela última vez', e fazendo parecer que eu que pedi porque passei por sua porta. Insistia depois de gozar me convencendo que eu tinha que pedir dinheiro para minha mãe.
Se eu tinha medo de ficar conhecido como o cara que deixava o reciclador fazer o que fez, tantas vezes, tinha mais medo de alguém saber que eu não somente dava minha bunda, mas a dava para um homem tão feio. Eu ainda tinha aquela seletividade da boca pra fora. E o instagram nem existia, mas eu sabia que seria duplamente vergonhoso ficar conhecido como quem deu para o borracheiro feio e sujo do outro lado da rua. Mas era tão bom.
Acontece que não era apenas eu que podia pendurar na janela e ver o que acontecia na porta da reciclagem. Uma vez fui surpreendido por uma senhora de igreja, amiga de meus pais. Ela, eu tenho certeza, sabia exatamente o que estava acontecendo. Esperou o momento perfeito e, na frente da minha mãe, comentou que me viu entrando na reciclagem e o moço fechando a porta atrás da gente. Acho que esperava que eu suasse, gaguejasse e me entregasse. Fiquei de fato apavorado, mas na mesma hora inventei que estava procurando gibis para comprar no meio dos jornais velhos.
Meu macho de fato tinha uma cesta somente com revistas e gibis, mas nunca tive tempo de olhar com atenção, apesar de ter coleção desde pequeno. Mamãe falou “mas fechou a grade?”, também entendendo que a crente não estava apenas levemente comentando sobre algo. Respondi fingindo naturalidade: nem reparei. Olhei no fundo dos olhos da víbora mal amada e percebi pela primeira vez que o perigo real que me cercava não vinha dos machos que querem trocados.
