Quando Leonardo entrou na faculdade, acreditou que finalmente poderia começar de novo.
Ninguém ali conhecia sua escola antiga.
Ninguém sabia das mentiras pequenas que ele repetia desde os quinze anos.
Ninguém perguntaria por que ele nunca falava sobre garotas.
Ainda assim, o medo continuava.
Porque sair da adolescência não fazia ninguém automaticamente corajoso.
Na primeira semana de aula, ele observava tudo com cautela exagerada: os grupos já se formando nos corredores, as festas comentadas nos intervalos, os casais se beijando no gramado como se aquilo fosse simples.
Como se existir fosse simples.
Leonardo não sabia fazer aquilo.
Não sabia olhar demais para outro homem sem sentir culpa logo depois.
Não sabia como falar sobre si mesmo sem editar metade das verdades.
E definitivamente não sabia como lidar com o fato de que, pela primeira vez na vida, ninguém estava controlando o que ele poderia ser.
Aquilo assustava mais do que deveria.
Foi numa terça-feira sufocante de setembro que ele conheceu Miguel.
A sala de Introdução ao Jornalismo estava lotada, e Leonardo tentava ignorar o próprio nervosismo enquanto organizava os cadernos na mesa.
Então alguém sentou ao lado dele.
— Você tem cara de quem já leu a matéria inteira antes da aula.
Leonardo ergueu os olhos.
Miguel sorria como se conhecesse o mundo inteiro.
Cabelo bagunçado.
Moletom escuro.
Olheiras leves de quem dormia pouco.
Bonito de um jeito irritante.
— E você tem cara de quem não leu nada — Leonardo respondeu antes de pensar.
Miguel abriu um sorriso maior.
— Gostei de você.
Foi simples assim.
Sem música dramática.
Sem destino mágico.
Só duas pessoas cansadas tentando sobreviver ao começo da vida adulta.
Mesmo assim, alguma coisa ficou.
Nas semanas seguintes, eles passaram a se encontrar naturalmente.
Primeiro nos corredores.
Depois no café perto do campus.
Depois em madrugadas estudando na biblioteca enquanto reclamavam dos professores.
Miguel falava demais.
Leonardo escutava demais.
Funcionava.
Mas havia pequenas coisas que Leonardo começou a perceber cedo demais.
O jeito como Miguel ficava em silêncio quando os amigos comentavam sobre garotas.
Como desviava certos assuntos com piadas rápidas.
Como olhava para casais masculinos por meio segundo a mais do que deveria.
Reconhecer aquilo no outro foi como olhar para um espelho.
E isso aterrorizava os dois.
Porque havia diferença entre suspeitar… e admitir.
Numa noite de novembro, depois de uma festa universitária, eles acabaram voltando a pé para o apartamento que Miguel dividia com outro amigo.
O colega não estava.
A cidade estava molhada da chuva recente, e o álcool deixava tudo mais lento. Mais honesto.
Miguel jogou as chaves na mesa da sala e soltou um suspiro cansado.
— Odeio essas festas.
Leonardo tirou a jaqueta ainda úmida.
— Você parecia estar se divertindo.
— Eu pareço muita coisa.
Aquilo saiu baixo.
Sincero demais.
Por alguns segundos, o apartamento ficou em silêncio.
A luz amarelada da cozinha iluminava metade do rosto de Miguel enquanto ele abria duas latas de cerveja.
Leonardo observou sem querer observar.
E percebeu uma coisa perigosa:
Miguel também estava nervoso.
— Você já sentiu que tá atrasado? — Miguel perguntou de repente.
— Atrasado em quê?
Ele deu uma risada curta, sem humor.
— Em tudo. Em saber quem você é. Em conseguir falar disso sem parecer errado.
Leonardo sentiu o peito apertar imediatamente.
Porque entendia.
Entendia perfeitamente.
Passou anos achando que algum dia acordaria diferente.
Que aquilo fosse desaparecer.
Que bastava esconder direito o suficiente.
Mas nunca desapareceu.
Só ficou mais difícil fingir.
— Eu acho… — Leonardo começou devagar. — Acho que passei tanto tempo tentando parecer normal que nem sei mais como agir sem pensar antes.
Miguel ficou olhando para ele.
Intensamente.
Como se finalmente estivesse ouvindo alguém dizer em voz alta algo que ele próprio nunca conseguiu admitir.
— Às vezes eu tenho medo de nunca conseguir contar pra ninguém — Miguel confessou.
Leonardo engoliu seco.
— Eu também.
Aquela frase mudou tudo.
Não porque resolvesse alguma coisa.
Mas porque os dois finalmente pararam de mentir.
A chuva começou de novo lá fora, batendo contra as janelas abertas da sala.
Miguel sentou no sofá e passou a mão pelo rosto, cansado.
Leonardo sentou ao lado dele.
Perto demais.
O silêncio entre eles deixou de ser confortável.
Ficou carregado.
Quente.
Perigoso.
— Você já ficou com alguém? — Miguel perguntou baixo.
Leonardo desviou os olhos imediatamente.
— Não.
— Nem eu.
Aquilo deveria aliviar a tensão.
Fez exatamente o contrário.
Porque agora tudo parecia ainda mais íntimo.
Mais vulnerável.
Miguel estava perto o suficiente para Leonardo sentir o cheiro leve de álcool, chuva e perfume na pele dele.
Perto o suficiente para notar a respiração mudando devagar.
— Engraçado — Miguel murmurou. — Eu nunca consigo parar de olhar pra você.
Leonardo sentiu o coração acelerar forte demais.
— Miguel…
Mas não havia aviso suficiente no mundo para aquilo.
Miguel ergueu a mão lentamente e encostou os dedos no rosto dele, hesitando por um segundo como se ainda pudesse desistir.
Leonardo fechou os olhos.
E foi isso que acabou com o pouco controle que restava entre os dois.
O beijo começou devagar.
Incerto.
Dois garotos tentando descobrir algo que passaram anos reprimindo.
Mas a insegurança durou pouco.
Porque a necessidade era antiga demais.
Leonardo segurou a camisa de Miguel com força quando ele aprofundou o beijo, e o arrepio que atravessou os dois veio imediato.
Quente.
Intenso.
Quase desesperado.
Miguel puxou Leonardo mais para perto no sofá, as respirações já completamente descompassadas.
E havia algo absurdamente íntimo naquilo tudo.
Não era só desejo.
Era alívio.
Era finalmente tocar alguém sem precisar esconder o que sentiam.
Quando se afastaram, os dois estavam sem ar.
Miguel encostou a testa na dele e soltou uma risada baixa, nervosa.
— Então era isso.
Leonardo ainda tentava recuperar a respiração.
— Isso o quê?
Miguel sorriu.
Um sorriso pequeno. Vulnerável.
— O motivo de eu nunca conseguir pensar direito perto de você.