“Perdoa-me por Me Traíres”. Essa impactante frase que foi título de uma peça de teatro de Nelson Rodrigues e muitos anos depois, de um filme, foi proferida por mim, não exatamente com as mesmas palavras, mas com o sentido exato. Sim, eu fui traído mais de uma vez por minha doce esposa e pedi perdão a ela. Otário? Frouxo? Certamente, os limitados intelectualmente já concluíram algo do tipo, mas aos que gostam de entender o quão complexo podemos ser, convido-os a conhecer a minha história. Uma jornada com sexo, surpresas, traições, reviravoltas e trapaças do destino.
Boa parte dos fatos que narrarei ocorreram na década de 70, mas antes preciso dizer que meu nome é Paulo, nasci em 1946, morri e renasci em 1970. Sei que é estranho ler isso, mas é como eu considero. Seis anos de minha vida foram deletados da minha memória. Não se trata de simplesmente fingi que esqueci do passado e iniciei uma nova vida sem olhar para trás. No meu caso, meu “renascimento” após um fato muito grave, minha mente simplesmente bloqueou praticamente tudo o que fiz entre 64 e o começo de 70.
A partir de 1970, tive uma transformação real. Voltei para a casa dos meus pais, no bairro do Bixiga. Tornei-me um católico fervoroso, como poucos, mesmo para aquela época. Passei a conversar com padres e freis dos mais conservadores que me passaram seus ensinamentos. Também comecei a devorar livros sobre o catolicismo, a importância da família, da moral e dos bons costumes, além de participar de sociedades católicas tradicionais.
Vestia-me sempre de terno, mesmo a moda atual passando bem longe disso, usava uma espécie de creme de parafina em meus cabelos lisos, que eram bem lisos e os mantinha penteados de lado. Usava óculos, mas não daqueles fundo de garrafa. Tinha uma postura educada que agradava a todos. Na igreja que frequentava no bairro, várias mães praticamente ofereciam suas filhas de 18, 19 anos para mim, dizendo que eu era um partidão. Procurava ser gentil, mas ainda esperava encontrar a mulher certa para começar uma família. Meu único defeito era o de fumar, em um dia calmo, um maço, mas em alguns mais tensos, dois. Não bebia, exceto uma taça de vinho em ocasiões muito raras.
Meu pai tinha um comércio que na época chamavam de armazém. Rendia-lhe um bom dinheiro. Quando voltei para casa, após me recuperar de um grave problema, ajudei-o a tocar o negócio, mas em 1972, arrumei um emprego como caixa de banco.
Acreditem ou não, desde minha volta para casa e por um bom tempo, só tive um rápido namoro com Flavia, uma jovem da mesma igreja. Era até bonita e de família. Só trocávamos beijos, nunca pensei em tentar nada. Entretanto, não deu certo, senti que não gostava dela o suficiente para partir para um noivado, por isso, continuar seria perder o tempo dela e o meu.
Apesar desde 1970, ter renascido como pessoa e não querer mais fazer diversas coisas, como sexo antes do casamento, evidentemente, eu sentia desejo e mesmo lutando severamente contra ele, às vezes, tinha que me masturbar. Além do tesão natural que um homem da minha idade tem, era uma época em que era difícil ir à rua e não se deparar com mulheres vestidas de maneiras provocantes, com minissaias, botas de couro, blusinhas que destacavam os seios e por vezes deixavam a barriga de fora, vestidos que sem muito esforço permitiam ver a calcinha e até as polpas do bumbum, além de calças coladas. Mesmo resistindo contra o desejo diário, na hora do banho, era impossível não pecar umas duas vezes por semana e me acabar em demoradas punhetas, onde imagens obscenas invadiam a minha mente. Imaginava uma mulher apenas de botas, exibindo seus seios fartos de aréolas rosadas ou marrons, sua bocetona de pelos negros, eu enfiando meu rosto entre suas pernas, cheirando-a desesperadamente e depois a fodendo com todas as minhas forças, xingando-a dos piores nomes e puxando seus cabelos; ou socando a mão na bunda de uma loira do banco que quase sempre usava calças de veludo que marcavam seu traseiro fantástico, imaginava que estava botando em seu cu com força. O orgasmo durava alguns segundos, mas o arrependimento era longo e me fazia rezar implorando perdão.
O padre para quem eu me confessava, dizia que o melhor era eu me casar logo e poder ter relações com minha esposa, porém, deixava claro que o ato deveria ser respeitoso, ou seja, nada de posições mirabolantes, sexo oral e muito menos anal. Claro que na prática, a maioria dos católicos nunca seguiram essas regras, mas a corrente realmente conservadora da época sim.
Pelo fato de ser pouco falante e pelo jeito de me vestir, longe da igreja, eu era visto como o esquisitão por muitos. Certa vez, duas caixas do banco comentaram sobre mim, sem saber que eu ouvia:
-O duro é que mesmo se vestindo como um caretão, o filho da mãe é bonito. Pena que ignorou quando dei a maior bola para ele. -Disse a tal loira que já me fizera tocar algumas punhetas.
-Deve ser uma bichona!
-Credo, Letícia, aí também não, né?
-Tô te falando, o cara não saí nem para tomar uma cervejinha com os rapazes da agência. Isso é medo de dar pinta depois da 3ª dose. Tenho um primo assim, super discreto perto dos conhecidos, se veste como um careta, mas na calada da noite, quando todos os gatos são pardos, ele se encontra com bofes na Augusta e de lá vão para algum hotelzinho fuleiro.
Eu não me importava com isso, na verdade, sentia uma certa pena das pessoas como elas a quem eu considerava como mundanas precisando de ajuda.
Até perto do finalzinho de 1973, minha vida seguiu nesse ritmo. Porém, uma noite, cheguei em casa e me deparei com o General Fontana, amigo de infância e juventude de meu pai. Tinha lutado na Itália, durante a II Guerra Mundial e nos últimos anos desfrutava de um cargo ligado ao Conselho Superior de Censura do regime militar. Apesar de sua farda imponente e de sua fala arrogante sempre num tom elevado, sua fisionomia era um tanto patética, pois era completamente vesgo, usava óculos, era calvo e tinha um bigode, cujos pelos já estavam brancos. Era um pouco barrigudo. Tinha 63 anos, mas aparentava mais.
Quando garoto, eu o via sempre no armazém de meu pai lhe fazendo uma visita e mesmo depois que “renasci”, o encontrei uma vez lá. Cumprimentei-o, conversamos rapidamente e fui tomar um banho. O general decidiu ficar para jantar e meus pais ficaram orgulhosos.
Durante e principalmente após o jantar, o general fez intermináveis perguntas sobre a minha vida e o que eu pensava sobre os mais variados assuntos. A cada resposta que dava, ele me encarava sério por longos segundos e mexia nos fios de seu bigode. Até que finalmente se despediu de todos e convidou, quase que em tom de intimação para que fôssemos almoçar em sua casa já no próximo domingo.
Meus pais aceitaram e como ele fez questão de que eu fosse também, não pude recusar. No dia combinado, fomos até à sua bela casa no Brooklin. O general tinha um casal de filhos, porém o mais velho, já havia se casado e ido morar no Rio de Janeiro. Então, ele vivia com a esposa e a filha Sônia de 25 anos.
Apesar de ser um almoço de domingo e em sua casa, o general fez questão de estar fardado. Aliás, desconfio que ele não tirava a farda nem quando ia dormir ou cagar.
Sônia era uma moça muito bonita, 1,73m, cabelos negros até a metade das costas, rosto fino, olhos negros arredondados e bem vivos, lábios médios, seu queixo tinha um “Q” de delicado e sensual ao mesmo tempo. Era magra (não esquelética, digamos, esguia assim como Nicole Kidman ou Keira Knightley) seios pequenos, coxas e bumbum médios.
Aparentava ser bem delicada e um pouco tímida, mas foi bem agradável comigo, especialmente num momento em que ficamos a sós e contamos um pouco de nossas vidas um para o outro. Encantei-me com sua beleza branda e seu modo de se vestir de uma maneira comportada, não como uma senhora, mas também não como as jovens ousadas da época. Acredito que desde que voltei para casa, essa foi a 1ª mulher por quem realmente senti algo diferente. Entretanto, imaginei que a filha de um general deveria ter algum namorado ou noivo numa posição muito mais relevante que a minha, um simples bancário.
Após o almoço, com seu tom costumeiro de mandão, o general cortou uma agradável conversa na sala, se levantou bruscamente e disse:
-Bem, tenho um assunto para tratar com você, Paulo. Me acompanhe até a biblioteca. Os demais nos aguardem.
Sem entender nada, o segui. Assim que entramos, o general trancou a porta, acendeu um charuto fedorento, se aproximou de mim e disse me olhando nos olhos como se quisesse ver algo dentro deles:
-Me diga, rapaz, o que achou de Sônia? -Em seguida, soltou uma bafora em minha cara que aliada à visão de seus dentes amarelados, pois a boca estava entreaberta, deixou-me ainda mais desconfortável.
Sem saber o que ele queria com aquela pergunta, respondi o que me veio à cabeça.
-Pelo pouco que conversei com sua filha, vejo que é uma moça que foi muito bem educada e...
Ele me cortou:
-Deixe de enrolação...e me diga... achou ela bonita?
Hesitei e ele elevou o tom:
-Responda sem medo, rapaz!
-Sim! É muito bonita!
-Gostaria que fosse sua noiva?
Fiquei ainda mais confuso:
-General, não estou entendendo, o...
-Imagine que dependa só de você, o que escolheria, desposar minha filha ou continuar solteiro?
-General, sua filha e eu somos estranhos um para o outro e...
-Isso se resolve. Escute, rapaz, não vou enrolar, seu pai é uma das poucas pessoas fora do círculo militar por quem tenho alguma consideração, mas o motivo da minha visita à casa de vocês esta semana, foi outro. Preciso encontrar um noivo para a Sônia. Ela está com 25 anos e a essa altura, já deveria estar casada no mínimo há uns 5. As piadinhas imbecis de que minha filha vai ficar para titia ou até coisas levianas já correm a boca pequena.
-Mas sua filha é linda, devem ter muitos homens decentes que a queiram.
-Primeiro que homem decente é algo cada vez mais raro, mesmo com todo trabalho que temos feito para limpar este país. Segundo que Sônia quase não saí de casa, por um lado é bom, mas vive reclusa, talvez por causa de sua condição.
Nesse momento, deduzi que Sônia tivesse algum problema e pelo jeito, devia ser relacionado à saúde mental.
-Minha filha é muito frágil, qualquer coisa a afeta, por um bom tempo, achei que fossem faniquitos por ter sido mimada demais, porém, ela sofre de algo chamado melancolia, não é nada grave a ponto de tomar remédios, exceto em uma ou duas ocasiões, mas a verdade é que Sônia fica amuada por qualquer coisa, tem apenas duas amigas, porém assim como você, é uma católica fervorosa, capaz de ficar horas na igreja. Mas não pense que ela é uma destrambelhada que num estalar de dedos, pode sair correndo pelada pela rua ou começar a imitar um trem no meio da sala. Minha filha é sã e muito inteligente, tanto que passou no vestibular de Medicina, mas eu não permiti, pois lugar de mulher é tomando conta da casa e dos filhos.
As revelações do general sobre a filha me chamaram a atenção, mas achei estranho ele saber sobre meu hábito de frequentar a igreja.
-Como o senhor sabe que tenho uma forte ligação religiosa?
O general deu mais uma baforada e caminhou calmamente pela biblioteca em direção à sua mesa:
-Poderia mentir e dizer que seu pai me contou, de fato, ele até me disse algo por alto, mas há algum tempo botei os olhos em você. Decidi conhecer sobre a sua vida e o que me informaram é que é um jovem que vai do trabalho para casa, e vice-versa, o único local que adora ir é à igreja, mesmo quando não há missa.
-Quem lhe contou isso, pode ser mais preciso?
-Um agente do DOI-CODI, mas fique tranquilo, foi um favor que ele me fez, algo totalmente informal. Só não entendi bem os anos que você passou longe de casa, o que o levou a fazer tamanha sandice?
Engoli seco, era um tema sensível e que felizmente, não me lembrava de muito coisa:
-General...foi um arroubo da juventude, me senti tentado a conhecer o Brasil, peguei uma mochila e fui com a cara e a coragem. Fazia um bico aqui, outro ali para manter meus gastos e logo ia para outra cidade. Vez ou outra, visitava meus pais, mas seguia minha jornada, porém, houve um momento em que a responsabilidade me chamou e por isso voltei.
Ele levantou a voz:
-Essa tal jornada foi algo digno de um avoado e dos grandes, mas perdoável, já que nesses anos misteriosos em que sumiu, não teve uma mínima passagem pela polícia. Averiguei isso e felizmente, você não se meteu em problemas nem pequenos como uma bebedeira em um cabaré pulguento da vida, nem mais sérios, como se aliar aos sub-ver-si-vos co-mu-nis-tas (disse pausadamente e demonstrando ódio nas palavras). Apurei isso também e sua ficha é limpa. Bom, mas vamos deixar de falar sobre o passado, o que acha de se tornar noivo de Sônia?
Eu estava envergonhado, aquela conversa não fazia sentido, parecia que o general estava me oferecendo uma mercadoria e num tom intimidatório.
-General...sua filha pelo menos sabe da sua ideia?
-Claro que não! Isso a gente vê depois. Escute, rapaz, por mim, a Sônia se casava com um militar de carreira promissora, um homem firme (levantando a voz) e não um boboca de igreja como você! Mas devido ao problema dela, sei que não daria certo, a pobrezinha não aguentaria conviver com um marido disciplinador e duro quando necessário, ela precisa de alguém carinhoso, compreensivo e que saiba lidar com o jeito dela. Tenho certeza que se darão bem, são dois mansos. Notei que minha filha gostou de você, não sou burro e consigo captar qualquer sinal, ela mudou assim que te olhou e durante a conversa também, estava encantada. Façamos assim, arrumarei um jeito de deixá-los a sós e você a convidará para um cinema ou quem sabe a uma missa dessas bem cansativas. – Disse num tom irônico.
-Mas...
Antes que eu dissesse se aceitava ou não, ele se aproximou a ponto de encostar sua barriga saliente em mim e disse baixo, como se fosse um segredo:
-Ouça, rapaz, não banque o difícil, vi seu olhar de fascínio para ela, faça o que estou mandando, em troca além de uma esposa linda e dedicada, terá um emprego público para o resto da vida, ganhando muito mais do que como um bancário e ainda terá uma bela casa para viver, presente meu de casamento.
Fiquei ofendido por dentro, mas havia gostado do jeito de Sônia, por isso, mantive a calma e apenas acenei com a cabeça. Voltamos para a sala, todos nos olharam preocupados pela demora, mas o general fingiu um sorriso de alegria e disse aos meus pais:
-Ademar e Dona Catarina, vocês merecem os parabéns! Há muito tempo não conversava com um jovem civil com um senso de responsabilidade e caráter tão grandes. E podem estar certos, não me engano em meus julgamentos, Paulo terá um futuro brilhante e será um ótimo chefe de família. A mulher que se casar com ele, deverá erguer as mãos para os céus!
Notei que todos respiraram aliviados e logo retomaram a conversa. Um tempo depois, o general disse que queria mostrar a casa aos meus pais, chamou a esposa para acompanha-los e pediu a Sônia que me fizesse companhia.
Sem jeito, voltei a conversar com ela e sabendo que teríamos pouco tempo a sós, disse que gostaria de vê-la novamente. Sônia sorriu tímida e concordou. A convidei para irmos a um cinema qualquer dia. A mesma aceitou de pronto apesar de ter ficado corada. Combinei de que em breve ligaria.
Já em nosso primeiro encontro, notei que Sônia era especial, muito gentil, boa conversa e claramente ficou interessada em mim. Mais dois encontros e a pedi em namoro, mas antes que a mesma aceitasse, tive que falar com o general que, claro, concordou.
Nosso namoro era comportado até mesmo para os padrões da época, andávamos de mãos dadas, nos beijávamos, nos abraçávamos, havia muito carinho, mas sem amassos picantes dentro do carro, mão boba ou roçadas mais insinuantes. Óbvio, que, vez ou outra, eu acabava ficando de pau duro, mas dava um jeito de disfarçar, me afastando.
Sônia estava perdidamente apaixonada por mim, tanto que me ligava todos os dias. Eu também sentia que a amava. Diante desse contexto, o noivado veio seis meses depois.
Não nos casamos apressadamente, comecei a comprar alguns móveis. Até que o general nos surpreendeu e nos levou até a uma bela casa na Vila Mariana e disse que era lá que viveríamos.
Conheci o irmão, a cunhada e outros parentes de Sônia. Todos me trataram bem, só não gostei muito de um primo dela, André. Tinha um jeito debochado de me olhar dos pés a cabeça, sempre mascando chiclete, parecia dizer que eu não estava a altura de Sônia. Usava camisas floridas ou cheias de listras coloridas que podem ter sido moda naquela época, mas hoje lembrariam o Agostinho Carrara. Tinha um bigodinho ordinário, era um cafajeste, sem dúvida. Não gostei dele, mas felizmente, o vi apenas 2 ou 3 vezes.
Finalmente, marcamos o casamento para o começo de 1976, mas um mês antes, meu futuro sogro me chamou para uma nova conversa e sem delongas me disse, novamente com um tom imperativo.
-Peça demissão do banco. Dentro de uma semana, você vai começar em um novo trabalho.
-Como assim, general?
-Você agora será um funcionário público, com estabilidade, um salário que não é uma fortuna, mas é pelo menos 4 vezes o que ganha atualmente.
-Mas onde trabalharei e o que farei?
-Você será censor da Divisão de Censura de Diversões Públicas, o prédio fica ali na Santa Ifigênia, na sede do DEOPS, mas fique tranquilo, sua função não será lidar com presos nem participar...digamos... hãããã...de interrogatórios, você trabalhará num andar totalmente alheio a isso e será encarregado de avaliar e censurar, filmes, programas de TV, essas tais peças de teatro, músicas e que tais.
-Mas, general, não tenho a menor ideia de como fazer esse tipo de serviço.
-É por isso que passará por um treinamento. Coisa de uma semana e você entenderá tudo o que pode e o que não pode. Nem pense em recusar, tive que mexer alguns pauzinhos em Brasília para arrumar essa vaga, pois o que não faltam são candidatos. Sem poder dizer não, aceitei o trabalho.
Assim que cheguei à seção de censura, fui informado que passaria pelo tal curso e que depois trabalharia analisando filmes nacionais e estrangeiros. O objetivo do “trabalho” era censurar cenas extremamente eróticas (já permitiam nudez, especialmente feminina, mas havia limites), palavrões, mas principalmente, os que fizessem propaganda, ainda que sútil contra a ditadura e a favor do comunismo ou mesmo da democracia. Toda fala precisava ser minuciosamente interpretada, pois por trás de algo ingênuo, poderia haver uma mensagem subversiva sendo passada, pelo menos na visão deles.
Foi um treinamento intenso, mas uma dúvida me surgiu logo de cara e a externei:
-Por que não cortamos logo todas as cenas de nudez? Isso não atenta contra a família?
Martins, que era o diretor do departamento, um cara extremamente arrogante, me deu uma resposta chocante:
-No começo, a gente cortava tudo, mas gente lá de cima (Brasília), passou a notar que a maioria desses filmes com putaria, além de não ter nada de subversivo, gera uma arrecadação do cacete e como muitos deles são financiados pela Embrafilme, uma parte da grana acaba retornando para o governo. Outro fator interessante é que esses filmes servem para alienar as massas que vão aos cinemas para ver mulher pelada, resumindo, é melhor que vejam uns peitinhos, uma bundinha e agora até uma boceta, mas claro que não arreganhada, do que verem a críticas ao regime ou aos problemas reais. Mas é preciso ter jogo de cintura, mulher pelada pode, mas depende do ângulo e do tempo de cada cena, já nudez frontal de homem, nem pensar! Se aparecer um pau ou mesmo um saco, estamos fodidos. Apenas corta as cenas mais fortes e libera, agora se tiver mensagem política, veto total. Tem alguns comunistas safados que fazem propaganda disfarçada de safadeza, fique atento.
Entendi o jogo deles, havia um falso moralismo não oficial no órgão. Comecei a trabalhar, no começo junto com outros censores na sala de projeção.
Vi vários filmes franceses e alguns americanos sendo parcialmente ou totalmente censurados. Para mim, assistir aos nacionais era um teste às minhas convicções e estilo de vida, pois o excesso de nudez de mulheres maravilhosas me deixava muito excitado. Enquanto outros censores arrumavam até cópias para assistirem depois em suas casas, nos retroprojetores, que por sinal tinham sido roubados da própria seção, eu me sentia mal, mas ao voltar para casa, me masturbava ferozmente, até duas vezes, me lembrando de cada detalhe das cenas que tinha visto.
Felizmente, não era todo dia que tinha filme de nudez, mas sempre havia os estrangeiros e mesmo sendo muito bem recomendados, tínhamos que analisar tudo e depois fazer um relatório explicando os cortes ou a censura total, além de definir para qual idade era recomendado. Um filme de uma hora e meia, às vezes, levava até 3 horas para ser assistido, pois tínhamos que parar a cada fala dúbia ou cena suspeita.
Finalmente, o dia do meu casamento chegou. Foi uma festa perfeita e emocionante. No dia seguinte, iríamos para a Serra Gaúcha, passar nossa lua de mel. Entretanto, nossa primeira noite seria em um hotel elegante em São Paulo mesmo reservado antecipadamente.
Chegaria o momento de Sônia e eu transarmos. Estava bem ansioso, mas sabia que precisaria ser gentil e me controlar ou poderia colocar tudo a perder. Ela foi se preparar, dali a pouco, teríamos nossa primeira noite de sexo.
(No próximo capítulo as cenas de sexo ganharão um grande destaque).
