Castelo de Areia. Temporada 1 - época da inocência
*Capítulo extra: a primeira vez .
Nota do autor:
Amigos, antes de mais nada, preciso fazer um desabafo pessoal, mas acho que ele também serve como um alerta e como uma forma de trazer conhecimento sobre algo muito sério.
Por incrível que pareça, eu planejei toda essa série e este capítulo em especial, na época em que foi lançado o desafio relacionado ao tema música.
A procrastinação é um problema terrível, mas ela é apenas um dos exemplos do que acontece na mente de uma pessoa com TDAH desregulado, não tratado e mal diagnosticado.
Assim como toda a sensação de não conseguir ser funcional, que se soma a todos os outros sinais e sintomas silenciosos desse transtorno.
Que esta introdução faça todos pesquisarem um pouco mais sobre o assunto, principalmente quem se identificar ou quem tiver alguém próximo passando por isso.
É doloroso não se sentir acolhido, sentir-se incompreendido.
Desculpem carregar ainda mais o clima das minhas histórias, que já são naturalmente pesadas.
Vejam pelo lado positivo: eu também cogitei fazer uma história com o tema da música Fade to Black, do Metallica. O que, inclusive, correspondia ainda mais ao meu estado de espírito naquele momento, principalmente por tudo o que acabei de citar anteriormente.
Aproveitem o capítulo, que terá muita ação. Finalmente, nosso menininho perderá toda a inocência… ou não.
Veremos.
Ótimo divertimento.
…………….
*Capítulo inspirado na música:
Puteiro em João Pessoa, da banda Raimundos. Álbum de 1994.*
…………….
(Carlos)
Após o episódio da praia, passei a focar minha vida quase inteiramente nos estudos. Iria prestar o treineiro da FUVEST novamente no final daquele ano, assim como já havia feito no anterior.
Na época, eu torcia para que aquela fantasia — aquele momento fora do normal em que quis ser alguém que não era, ou talvez alguém que não nasci para ser — não prejudicasse meus objetivos.
Estávamos entrando no segundo semestre daquele ano. Voltei a ser apenas eu. A contar apenas comigo na escola.
Os treinos de musculação começaram a dar resultado. Eu estava pagando caro por uma academia com ótima estrutura, a melhor da cidade, e ainda contava com a ajuda de um excelente personal trainer.
Outra mudança que contribuiu bastante para isso foi a alimentação. Passei a seguir uma dieta específica para aquele objetivo, montada por uma ótima nutricionista.
Comecei a fazer minhas próprias compras e acabei comprando uma geladeira menor, que Verônica deixou que eu instalasse na área da máquina de lavar.
Também fazia as refeições em horários em que não precisasse encontrar nenhuma delas.
Com o tempo, apenas Verônica parecia querer — ou se importar — em conversar comigo. E, sinceramente, achei isso maravilhoso.
Na escola, eu conversava apenas com Flávio. E, mesmo assim, quase sempre era ele quem me procurava quando surgiam trabalhos em dupla ou quando precisava de ajuda em alguma matéria, principalmente nas de exatas.
Já na academia, dois caras acabaram se aproximando de mim. Eram primos — Marcos e Maurício. Frequentavam as mesmas aulas que eu, de Krav Maga e boxe.
Começamos a conversar e, com o tempo, eles passaram a me chamar para ir a barzinhos e baladas.
Num primeiro momento, recusei todas as vezes. Minha intolerância a ambientes lotados, ao barulho e a tudo que envolvia aquele tipo de lugar fazia com que eu nunca aceitasse.
Como eu disse, quase não falava mais com as meninas. Parecia que vivíamos em casas separadas. Como se fôssemos completos desconhecidos.
Percebi que Tauane mudou completamente o comportamento na escola. Ela passou a participar das aulas avançadas no contraturno, principalmente as de matemática, física e química.
Também praticamente deixou de lado os meninos da turma, andando apenas com as duas melhores amigas.
Nem mesmo as atividades esportivas extracurriculares ela frequentava mais. Saiu dos times de vôlei e basquete e também não ia mais à academia.
Tati, por outro lado, tentou ficar um pouco mais contida nas primeiras semanas após o incidente da praia e a volta às aulas. Porém, depois desse período, voltou a andar com o grupinho mais descolado da turma como se nada tivesse acontecido.
Uma semelhança, porém, parecia unir as duas: o repúdio a Luana.
Ambas deixaram completamente de falar com ela e, inclusive, houve um dia em que Tati e Luana chegaram a brigar.
Logicamente, fiquei sabendo de todas essas informações por Flávio, que nunca conseguia contar uma história inteira. Sempre trazia tudo em fragmentos, com informações confusas e, muitas vezes, contraditórias.
Acho que não tenho muito mais a relatar sobre aquele segundo semestre do primeiro ano em que fiquei na casa de Verônica.
Mas, com certeza, não posso deixar de escrever sobre o dia do meu aniversário… e sobre tudo o que aconteceu nos dias seguintes.
………dia do meu aniversário.
Acordei como se fosse qualquer outro dia. Não havia nada de diferente naquela manhã, nada que anunciasse qualquer coisa importante.
Já estava desperto, me preparando para começar a rotina, quando o celular tocou.
O som me incomodou mais do que deveria naquele horário, mas o incômodo desapareceu no instante em que olhei para a tela.
Fiquei surpreso com o número que apareceu no celular.
Era o número de tio Teixeira.
Por alguns segundos, apenas encarei a tela, imóvel, como se meu cérebro precisasse de tempo para aceitar aquilo.
Meu coração acelerou antes mesmo de atender. Fazia tempo que eu não falava com ele. Tempo demais.
— Tio? Alô? Tio Teixeira…
Atendi ainda incrédulo, já sentindo alguma coisa estranha apertar dentro do peito.
— Bom dia. Como você está?
A voz veio baixa. Rouca. Fraca demais.
Parecia que ele fazia esforço para falar cada palavra.
— Estou bem, e o senhor?
Respondi de forma preguiçosa, automática, sem perceber na hora o quanto aquele momento era importante.
Acho que a gente nunca percebe.
Nunca na hora.
— Já estive melhor!
Ele respondeu tentando rir, mas a risada morreu no meio, engolida por uma crise de tosse pesada. Uma tosse seca, longa, dolorosa… daquele tipo que faz a gente sentir a fragilidade da pessoa do outro lado mesmo sem estar vendo. Parecia que ele ia se engasgar na própria saliva.
Fiquei em silêncio, segurando o celular com mais força sem perceber.
— Carlos… Carlos… não posso falar muito.
Recomeçou com dificuldade, respirando fundo entre as palavras.
— Só liguei pra te desejar feliz aniversário. Espero que fique e esteja bem.
O choque foi imediato.
Meu aniversário.
Eu tinha esquecido.
Na verdade… fazia algum tempo que aquela data tinha deixado de significar alguma coisa pra mim.
Não consegui responder. Minha garganta travou completamente.
E então ele voltou a tossir, pior do que antes, de um jeito que me deixou desesperado sem saber o que fazer, mesmo estando do outro lado da ligação.
— Carlos, o vovô não pode falar mais. Precisa descansar. Desejo um ótimo aniversário. Fica com Deus.
Quem falou foi a neta dele.
Sinceramente, eu nem lembro o nome dela. E isso me dói também. Porque aquele momento merecia ter sido lembrado de forma mais bonita, mais digna… mas tudo que consigo lembrar com perfeição é da voz dele falhando.
Me lembro exatamente dessa ligação porque foi a última vez que ouvi a voz de tio Teixeira.
Ele já estava bastante debilitado, em cuidados paliativos, sendo cuidado pela família no exterior. E, mesmo naquele estado, mesmo sem conseguir respirar direito, mesmo claramente sofrendo… ele ligou pra mim.
Pra me desejar feliz aniversário.
Pra me lembrar da data.
Pra me lembrar que, antes de toda aquela bagunça, antes daquela casa, antes daquela versão quebrada de mim mesmo… eu tive uma vida.
Uma família.
E talvez tenha sido exatamente isso que me destruiu naquele dia.
Porque ouvir a voz dele trouxe tudo de volta de uma vez.
Papai. Mamãe. Meu irmãozinho.
As lembranças. As imagens. Os sons. O jeito como as coisas eram antes da vida simplesmente arrancar tudo de mim sem pedir permissão.
E eu nunca consigo segurar o choro quando lembro deles.
Nunca.
Mesmo quando as lembranças são boas.
Talvez principalmente quando são boas.
Porque junto delas vem aquela sensação cruel de perda, a consciência de que aquele tempo existiu… e não existe mais.
E existe também uma necessidade quase física de chorar, como se por alguns minutos eu precisasse entregar meu coração inteiro pra eles outra vez, deixar que eles existam em mim de novo antes de desaparecerem.
A lembrança daquela vida que eu tinha — e que já não me pertence mais — me trouxe uma necessidade absurda de revisitar tudo.
Como uma tradição pessoal, que depois virou familiar, no dia do meu aniversário — ou um dia antes, ou um dia depois — eu pegava fotos, vídeos, lembranças, qualquer coisa… e passava horas revendo tudo.
Eu fiz isso até os dias de hoje.
Quase vinte anos depois.
Com meus filhos.
E, até esse maldito ano, com a mulher que é a minha vida… mas que jogou tudo fora.
Voltando ao relato…
Naquele mesmo dia, no almoço, comi sozinho. As meninas não estavam, e Verônica chegou tarde.
À noite, jantei sozinho novamente, repetindo a dinâmica que se impôs desde que voltamos daquela maldita viagem.
Não posso negar que tive esperança de que, pelo menos naquele dia, Verônica se juntaria a mim. Pelo menos no jantar do meu aniversário.
Mas isso não aconteceu.
E acho que foi ali que percebi o óbvio.
Eu estava apenas sobrevivendo naquela casa.
Talvez fosse apenas um hóspede que a crueldade da vida obrigou aquela família a aceitar.
Não fazia parte deles de verdade.
E esse foi, talvez, o sentimento mais honesto e avassalador que senti desde que tudo de ruim aconteceu na minha vida.
A sensação de não pertencer.
De estar vivo… mas deslocado de tudo.
E eu sinceramente não desejo isso pra ninguém.
………….
Cerca de quatro dias depois do meu aniversário, cheguei em casa cansado da academia. O treino daquele dia tinha sido particularmente pesado, talvez porque eu estivesse começando a exagerar sem perceber, usando o próprio corpo como válvula de escape para coisas que não conseguia resolver na cabeça.
Verônica estava colocando roupas para lavar — dela e das meninas — quando entrei na lavanderia para pegar meu pós-treino na pequena geladeira que eu tinha colocado ali.
Ela levantou os olhos no instante em que me viu.
— Boa noite, Carlos. Tudo bem?
A voz saiu leve, cuidadosa. Não forçada… apenas cautelosa, como alguém que ainda não sabia exatamente até onde podia ir comigo.
— Boa noite… um pouco cansado.
Respondi enquanto pegava a garrafa.
Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se pensasse se deveria ou não continuar a conversa.
— Carlos, eu acabei de lembrar que seus pais me falaram que seu aniversário é agora no segundo semestre. Qual dia é mesmo?
Fiquei em dúvida se responderia. A verdade é que eu não queria transformar aquilo em assunto. Não queria ouvir desculpas, nem pena, nem aquele silêncio constrangido que sempre vinha depois. Mas, por algum motivo, respondi.
— É sim. Em agosto… pra falar a verdade, inclusive já passou. Foi dia 10 de agosto.
Ela demorou um pouco pra reagir. Talvez fazendo as contas. Talvez tentando entender por que ninguém comentou nada. Talvez percebendo, naquele instante, que eu passei o aniversário sozinho dentro da própria casa.
— Carlos… eu… me desculpa. Eu sou horrível com datas e…
— Tudo bem. Eu fiquei em casa mesmo. Vi umas fotos e vídeos…
Não consegui continuar.
As lágrimas vieram rápido demais.
— Tio Teixeira… ele me ligou… eu… eu… fiquei bem…
Minha voz falhou completamente no final, e aquilo me irritou mais do que deveria. Eu odiava perder o controle daquele jeito.
Mas ela reagiu rápido. Mais rápido do que eu esperava.
— Nada disso! Sua mãe me falava o quanto você gosta de comida japonesa. Nós iremos. Mesmo se for apenas nós dois. E você me desculpe, mas eu não sou mulher de levar fora.
Falou tentando brincar.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu ri sem precisar fingir.
Ela também riu.
E foi estranho perceber como, naquele momento, todo o peso dos últimos meses pareceu diminuir um pouco. Não desaparecer… apenas ficar mais distante por alguns minutos.
Marcamos o jantar para sexta-feira.
Ainda era terça.
Na quarta-feira, estava esperando o ônibus quando Luana se aproximou.
Aquilo, por si só, já teria sido suficiente para me desestabilizar semanas antes. Mas não naquele momento.
— Carlos… podemos conversar?
Havia mais dois alunos do segundo ano, de outra sala, no ponto naquele instante. Resolvi caminhar até ela e, quando parei na sua frente, olhei diretamente nos olhos dela.
— Podemos. Vamos conversar em outro lugar.
A firmeza com que falei pareceu surpreendê-la. Ela apenas abaixou a cabeça e concordou.
Sinceramente, não lembro exatamente o que conversamos. Lembro apenas da sensação.
Da ausência dela.
Ou melhor… da ausência de qualquer sentimento.
E isso me assustou mais do que imaginei.
Eu não sentia raiva.
Não sentia tristeza.
Não sentia desejo.
Não sentia absolutamente nada.
Era como olhar para alguém que, em algum momento, foi importante… mas que deixou de existir emocionalmente dentro de mim.
E acho que ela percebeu.
Minha indiferença pareceu atingir Luana mais do que qualquer discussão teria atingido.
Durante mais alguns dias, ela tentou se reaproximar. Colocou a culpa no namorado, tentou justificar, tentou se aproximar fisicamente em alguns momentos, sensualizar, provocar… e nada funcionava.
Pela primeira vez, eu não estava reagindo ao que alguém queria de mim.
Na sexta, Verônica estava me esperando para o nosso jantar.
E eu não vou descrevê-la fisicamente, porque isso daria a impressão errada. Como se toda aquela situação tivesse despertado em mim algum sentimento motivado pela beleza dela.
E não era isso.
O problema era justamente o contrário.
Era o que ela representava.
O restaurante para o qual fomos era o mesmo em que eu ia com minha família. O nosso favorito. E ele continuava praticamente igual. As mesmas luzes, o mesmo cheiro, os mesmos garçons andando rápido entre as mesas, a mesma decoração… como se o tempo tivesse parado ali enquanto minha vida inteira desmoronava do lado de fora.
Aquilo quase me destruiu antes mesmo de entrar.
Verônica também parecia abalada. Os olhos estavam avermelhados, e ela evitava me olhar diretamente por muito tempo, como se estivesse tentando não cair emocionalmente antes de mim.
Depois que sentamos, ficamos um tempo em silêncio. Não um silêncio desconfortável. Apenas pesado. Cada um preso nas próprias lembranças.
Foi ela quem quebrou o silêncio primeiro.
Respirou fundo antes de falar.
— Esse restaurante era especial para vocês né?
Demorei alguns segundos para responder.
— Sim. Era o nosso favorito. Sempre vínhamos em situações especiais… meu pai… ele…
A frase morreu antes do fim.
O choro quase veio junto.
Consegui segurar por pouco.
Ela ficou me olhando em silêncio por alguns segundos e então falou, com uma voz mais baixa.
— Você sabia que foi aqui que saí pela primeira vez com eles? Meu marido sabia e me liberou… foi nossa primeira experiência desse tipo.
Não consigo explicar exatamente o que senti naquele momento. Não era ciúme. Não era raiva. Talvez apenas um desconforto involuntário, estranho, difícil de entender… e acho que ela percebeu.
— Todo dia 10 de junho fazíamos uma comemoração neste restaurante.
— Eu sei. Era o “dia oficial” de vocês, como mamãe chamava.
Falei isso tentando rir.
E aquilo ajudou.
O clima ficou mais leve por alguns minutos.
Comemos bem. Conversamos sobre coisas simples, sobre futuro, faculdade, rotina, academia, trabalho. Pela primeira vez em muito tempo, parecia uma conversa normal entre duas pessoas tentando sobreviver ao próprio caos.
Mas existia algo esperando.
Nós dois sabíamos.
E, perto do final, aquilo finalmente veio.
— Carlos… queria novamente te pedir perdão pelo que eu fiz, pelo que as meninas te fizeram.
Demorei um pouco para responder. Puxei o ar devagar.
— Tudo o que aconteceu tem apenas um culpado. Eu.
Ela se mexeu imediatamente na cadeira.
— Carlos. Isso não é verdade. Você…
Não deixei ela continuar.
— Você culpa a Tauane por ter se omitido. Mas e a minha omissão? Eu que estava lá. Eu que vi, que ouvi tudo o que ouvi naquela casa e não fiz nada. Nada.
Ela não me interrompeu dessa vez. Apenas segurou minha mão e apertou de leve.
— Quanto à Luana… eu deixei ela me usar. Eu deixei… deixei ela brincar comigo. Usar a minha carência pra me transformar num brinquedo.
O silêncio dela dizia mais do que qualquer resposta.
— Eu nasci pra ser esse homem. Essa pessoa. Fui querer achar que poderia ser como os outros… que poderia e merecia ter alguém como a Luana, como a Tauane…
Verônica finalmente me interrompeu.
— Pode parar. Até quando você vai continuar agindo dessa forma? Até quando vai deixar os outros definirem quem você é ou o que merece?
A firmeza da voz dela atravessou qualquer defesa que eu achava que ainda tinha.
— Eu, como psicóloga e mãe, poderia te convencer muito facilmente a minimizar a culpa das garotas. E embora tudo o que eu argumentasse fizesse sentido, eu não acho que seja minha função passar a mão na cabeça delas. Muito pelo contrário. Eu disse coisas pesadas para as duas. Coisas das quais até me arrependi depois. Mas era necessário. Elas precisam aprender. Precisam crescer.
Ela parou para beber um pouco do suco.
Tentei falar algo, mas ela ergueu a mão, pedindo silenciosamente que eu deixasse ela terminar.
— A Tau, por exemplo… tem toda essa popularidade na escola, mas a que custo? A cobrança que ela faz consigo mesma é absurda. A necessidade de estar sempre por cima das situações, de controlar tudo, todos…
A voz dela diminuiu um pouco.
Mais humana.
Mais cansada.
— Ela esteve num relacionamento desde muito jovem. Um relacionamento em que se sentia segura porque tinha controle. Depois terminou tudo e entrou em outro relacionamento, com um homem muito mais velho, mais experiente, mais seguro de si. Ela deixou de ter o controle… e, ao mesmo tempo, precisava desesperadamente que aquilo desse certo. Vieram as dúvidas, a insegurança, a necessidade de não falhar outra vez. E foi aí que começou um relacionamento abusivo. Situações que incomodavam ela… atitudes que machucavam… mas ela não conseguia parar, não conseguia se impor. O medo de falhar de novo fez ela se omitir.
Verônica respirou fundo depois daquela explicação, bebeu mais um pouco do suco e continuou.
— E, pra mim, esse seu “erro” vem exatamente da mesma origem dos erros da Tati. Você era jovem, inexperiente, imaturo. Assim como ela. Foi vítima de uma pessoa ruim, que soube usar sedução, carência, desejo… e fez vocês se perderem emocionalmente. A Tati deixou de lado tudo o que aprendeu, tudo o que eu e o pai dela tentamos ensinar, porque estava apaixonada. Porque foi induzida a errar.
O garçom apareceu perguntando sobre sobremesa, e isso interrompeu a conversa por alguns segundos.
Depois que fizemos o pedido, ela voltou.
— Se elas, que são meninas saudáveis, sem nenhum problema cognitivo ou emocional, erraram… por que você também não pode errar? Ou você é um super-herói? É aquele personagem careca e gostosão que fica numa cadeira de rodas e lê a mente das pessoas?
Apesar de tudo, eu ri.
Um riso sincero.
— O Professor Xavier?
— Esse mesmo! Você é um mutante e não me disse nada?
Rimos juntos.
E, por alguns minutos, tudo pareceu mais leve.
Mas só por alguns minutos.
Porque logo depois ela respirou fundo novamente.
E, quando voltou a falar, a voz dela estava séria outra vez.
— Sabe, Carlos… os pais têm a obrigação de educar e ensinar seus filhos, mas a principal função de todas é proteger. Um pai e uma mãe de verdade não medem esforço. Fazem de tudo para proteger seus filhos… até coisas que sabem que talvez estejam erradas.
Ela falou olhando diretamente nos meus olhos, com uma intensidade difícil de sustentar.
Não parecia apenas uma conversa. Parecia que ela precisava garantir que aquelas palavras entrassem em mim e permanecessem ali para sempre.
Ao redor da nossa mesa, o restaurante continuava funcionando normalmente. Talheres se chocando, garçons atravessando os corredores estreitos, conversas baixas misturadas ao som ambiente. Mas tudo aquilo parecia distante. Como se o resto do mundo tivesse sido abafado aos poucos e só nós dois continuássemos existindo ali.
— Eu me lembro de um episódio envolvendo nós dois anos atrás… e que me marcou para sempre.
Ela sorriu discretamente depois de dizer isso.
Foi um sorriso pequeno.
Cansado.
Mas real.
— Lembra quando você tinha 12, 13 anos e estava tão focado nas visitas às fábricas de peças da aeronáutica que seu pai conseguiu pra você, que nem percebeu que já estava com febre havia três dias?
Eu ri baixo pelo nariz antes mesmo de responder.
— Eu lembro. Você ficou comigo no sofá fazendo cafuné até a mamãe chegar do trabalho.
A lembrança veio inteira.
O sofá.
A televisão ligada sem que eu realmente prestasse atenção.
O cheiro de remédio.
A febre deixando tudo meio lento.
E a mão dela passando devagar pelo meu cabelo.
Coisas pequenas.
Ridiculamente pequenas.
Mas que ficam pra sempre.
— Lembro porque eu não estava acostumado com esse tipo de carinho dos meus pais. Coisas de criança… mas o seu cafuné naquele dia mudou tudo.
O sorriso dela aumentou por um instante.
Só por um instante.
Porque logo depois os olhos começaram a marejar.
Ela abaixou a cabeça devagar, como se estivesse tentando reorganizar as próprias emoções antes de continuar.
— Fazia uma semana que meu marido… ele tinha ido embora. Pra sempre… o vazio, o buraco que ficou no meu coração estava me matando aos poucos. Se não fossem as meninas, talvez eu não tivesse forças pra continuar.
A voz dela falhou na última frase.
Ela segurou minhas mãos novamente.
Dessa vez com mais força.
Como alguém segurando algo importante demais pra perder.
— Esse buraco… esse vazio… aos poucos foi sendo preenchido por vocês. Principalmente sua mãe, que passou a ter um relacionamento comigo muito maior e mais profundo do que apenas de “amizade colorida”.
Ela respirou fundo antes de continuar.
E eu percebi naquele instante que aquilo era difícil pra ela. Mais difícil do que parecia.
— Você, pra mim, Carlos, é como um filho. O amor que sinto por você… que comecei a sentir depois que fiquei com você e sua mãe na cama, te fazendo carinho pra você conseguir dormir naquele dia… é algo que só quem é mãe sente. E eu senti aquilo novamente… com você… por você.
Ela tentou continuar.
Não conseguiu.
O choro veio de uma vez, silencioso no começo, mas forte demais pra ser escondido. E aquilo me atingiu num lugar estranho dentro do peito, porque pela primeira vez eu via a Verônica sem aquela segurança toda, sem aquela postura firme que parecia controlar qualquer ambiente.
Naquele momento ela parecia apenas cansada.
Humana.
Fragilizada.
Puxei minha cadeira pra mais perto e a abracei.
E foi estranho perceber como aquele abraço não tinha nenhum desconforto, nenhuma confusão. Só tristeza. Só acolhimento.
Ela tremia levemente enquanto respirava fundo tentando se recompor, e eu fiquei ali em silêncio, sentindo o tecido frio da roupa dela contra meu braço, o perfume já misturado ao cheiro da comida do restaurante, enquanto ao redor as pessoas continuavam vivendo normalmente.
Rindo.
Comendo.
Conversando.
E, por alguns segundos, senti inveja disso.
Da normalidade.
Quando ela se afastou, segurou meu rosto com as duas mãos. Com firmeza.
— Presta atenção!!
O tom fez meu corpo inteiro reagir.
Ela me obrigou a sustentar o olhar dela.
— Eu te entendo. Eu te vejo. Eu te enxergo. Eu sei que você se sente sozinho, inadequado, invisível… mas eu te entendo! Justamente por isso eu errei.
Ela desviou o olhar por um instante.
E naquele segundo ela pareceu menor.
Menos segura.
Menos “Verônica”.
— Eu quis amenizar a sua dor interferindo de uma forma que não devia, que não podia. Eu sei que você sente mais, observa mais, consegue reconhecer padrões que a maioria não consegue. E muitas vezes você não consegue colocar isso pra fora. Eu vi… eu senti como você ficou, como estava quando te encontrei naquela escola. Eu só quis… só quis te proteger.
Ela voltou a me encarar.
Sem nenhuma defesa dessa vez.
— Porque eu te amo! Você é meu filho, entendeu?
Minha garganta travou completamente.
Não consegui responder.
Porque parte de mim queria desesperadamente acreditar naquilo.
Queria acreditar que pertencia a algum lugar outra vez.
Então apenas abracei ela mais forte.
E acho que ela entendeu.
Depois de alguns minutos já recompostos, ela pediu a conta.
Quando a conta chegou, tentei pagar, e aquilo gerou uma discussão tão pequena e boba perto de tudo que tínhamos acabado de viver que acabou ficando engraçado.
— Você acha que sou mulher que precisa que um homem pague meu jantar?
Ela falou séria no começo, quase ofendida.
Mas não conseguiu sustentar a expressão por muito tempo e acabou rindo.
Eu ri também.
Talvez porque precisássemos respirar um pouco depois de tanta intensidade.
— Eu saí com o meu filho pra comemorar o aniversário dele. Não tem como não pagar a conta.
Balancei a cabeça sorrindo.
— Tudo bem. Mas no dia das mães ou no seu aniversário eu que vou pagar, certo?
Ela não respondeu.
Só sorriu.
Depois do pagamento, ela pegou minha mão naturalmente e saímos do restaurante de mãos dadas.
O ar da rua estava frio. Algumas famílias ainda entravam no restaurante enquanto outras saíam rindo, conversando, vivendo aquela vida comum que, naquele momento, parecia pertencer a todo mundo menos a mim.
E foi aí que o pensamento veio.
Automático.
Violento.
“Nunca vou conseguir sair de um restaurante com uma mulher como esta.”
Na hora tentei afastar aquilo.
Mas não consegui.
Porque não era só sobre beleza.
Nunca foi.
Era sobre pertencimento.
Sobre ser o tipo de homem que uma mulher assim escolheria naturalmente.
E, no fundo, depois de tudo que vivi… eu ainda acreditava que homens como eu não eram escolhidos.
Apenas tolerados.
E esse pensamento me acompanhou por muitos anos.
Até hoje, às vezes, ele ainda volta.
No carro, voltamos para casa em silêncio. Um sorriso discreto em cada rosto e uma leveza que tínhamos perdido nos últimos meses.
Respirei fundo.
Será que ainda dava para voltar a ter uma família? Mesmo que fosse apenas Verônica e eu?
O restante daquele ano passou rápido, sem grandes novidades.
Teve a formatura da Tauane. Eu fui à colação, mas não à festa. Ela conseguiu passar no vestibular, ficando em 12º lugar na Poli-USP, e por muito pouco não entrou na lista de espera do ITA.
Sinceramente, fiquei muito orgulhoso dela.
Eu nem sabia que Tauane pensava em fazer engenharia, mas perceber que, de alguma forma, ajudei ela a enxergar que podia ser mais do que apenas “a garota popular” realmente me deixou feliz.
Também preciso citar que tudo o que aconteceu fez com que ela não ganhasse o carro que tanto queria, apesar de ter passado na faculdade. Pelo menos não até o final do primeiro semestre do ano seguinte.
A turma dela teve uma viagem de formatura — Fernando de Noronha, se não me engano —, mas ela nem chegou a pedir para Verônica deixá-la ir.
As meninas e Verônica saíram para comemorar quando souberam do resultado da Tau. Eu fui chamado, mas já estava “comemorando” com os meninos da academia em outro lugar. No final, acabou não dando certo de participar com elas.
Também vale citar que fiz o treineiro da FUVEST novamente e, pela minha pontuação, não teria dificuldade nenhuma para passar para a segunda fase no ano seguinte.
O primeiro ano depois do acidente que destruiu tudo na minha vida finalmente tinha terminado.
O início do ano seguinte começou da mesma forma: sem grandes novidades. A principal mudança foi que, obviamente, Tauane se mudou para São Paulo, passando a morar com uma amiga perto da faculdade.
Seria um ano monótono. Corrido, tenso por causa do vestibular, mas ainda assim previsível. Meu foco continuava sendo o ITA, e entrar naquela faculdade era absurdamente difícil.
Falei que seria um ano monótono porque, justamente no dia do meu aniversário ——, tudo mudaria outra vez.
E aquela mudança teria consequências para o restante da minha vida.
…………Data em que completei 18 anos.
Dois dias antes dessa data, Verônica fez minha comida caseira preferida — escondidinho de mandioquinha com carne.
Eu já estava conversando com Tati novamente, e isso aconteceu após muitas sessões de terapia com uma colega da Verônica — Márcia — que é minha terapeuta até hoje e uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Tivemos um jantar agradável para comemorar meu aniversário “em família”. Tau chegou a me ligar. Conversamos um pouco, mas ela estava com alguns amigos numa festa em uma república universitária, então acabamos falando por pouco tempo.
Minha relação com ela ainda estava estranha. Eu sentia que Tauane não tinha a mínima confiança em mim. Tanto que parecia achar necessário esconder que tinha uns “contatinhos”, como Tati e Verônica chamavam.
Naqueles dias, sinceramente, isso não me importava. E estou sendo bem sincero.
Minha cabeça estava focada na expectativa de finalmente conseguir perder a virgindade.
É estranho pensar como algo aparentemente tão simples passa a ocupar um espaço tão grande na cabeça de um homem em determinada fase da vida.
Marcos e Maurício começaram a me levar cada vez mais para barzinhos e baladas.
Eu fingia que não percebia, mas sabia que, em grande parte, eles gostavam da minha companhia porque praticamente não pagavam nada quando saíam comigo.
Na época, eu enxergava aquilo como uma via de mão dupla, já que, se não fosse com eles, provavelmente eu continuaria sem sair de casa.
Saber que eles achavam que eu não entendia o que acontecia me incomodava, mas a necessidade de conseguir minha primeira vez falava mais alto.
Naquele dia, combinamos de fazer algo mais ousado.
Iríamos para uma casa de tolerância, um prostíbulo — mas um de alto padrão. Claro que nada acontecia oficialmente no local, mas garotas de programa que se apresentavam como acompanhantes costumavam sair com os clientes já com valores combinados.
Marcos já dirigia e passou em casa para me buscar.
Quando entrei no carro, ele colocou um CD de uma das bandas que mais gostávamos naquela época e deixou uma única música no modo repetição.
Fomos ouvindo a mesma música até chegar ao local.
E, sinceramente, aquela música tinha tudo a ver com a situação.
Puteiro em João Pessoa.
“Oh, menino, o que é isso? Vocês beberam, foi?
O que foi que aconteceu?
Eu quero é rock, menino, isso não é rock não
Oum o que, menino, para com isso, logo
Eu quero é rock
Na na na na na na
Na na na é o diabo
A vida me presenteou com dois primos já marmanjo
Muito justo era o Augusto e o safado era o Berssange
Numa tarde ensolarada toda aquela criançada tomando refrigerante
E com a família embebedada foi mais fácil armar a bimbada
Prum recém adolescente
Pois foi Berssange, primo velho e cancrado
Que com muito do cuidado
Chegou pra Augustinho e disse "tu visse?"
Dudu já 'tá alucinado, já é meio caminho andado
Pra rolinha comer alpiste
E pro rapaz não ficar triste
Nós vamo onde as nêga são ativa
Não há em toda João Pessoa lugar melhor que o Roda Viva
E foi pra lá que nóis rumamos, quase nos desenfreamos
Nóis num tinha nenhum plano e os cabra foram saindo
E eu atrás ia gritando
"Onde é que 'cês tão me levando
Voltar buscar mainha ela ficou no bar sozinha"
Ô, menino abobado, deixe mainha pra painho
Venha comigo e com Augustinho
Tu vai ser inaugurado
Pois tu sabe, na família, nunca teve afrescalhado
Chegar no Roda Viva tu vai ser homenageado
Quando eu cheguei no recinto, o forró já tava bravo
Bando de nego suado dançando com as rapariga
E o forró comia solto, tinha um velho dos óio torto
De tanto beber cachaça e disse
"Essa menina ela só vai te deixando arretado"
Meu primo me olhou de lado e disse coitado
Era uma quenga fedorenta, daquelas das mais nojenta
Mas se você não aguenta você leva para o quarto
Ela pegou no meu pau, pôs a boca e depois ficou de quatro
Foi num puteiro em João Pessoa
Descobri que a vida é boa
Foi minha primeira vez
Foi num puteiro em João Pessoa
Descobri que a vida é boa
Foi minha primeira vez
Foi num puteiro em João Pessoa
Descobri que a vida é boa
Foi minha primeira vez”
*Música Puteiro em João Pessoa. Raimundos. Álbum Raimundos - 1994*
Chegamos ao local ainda a tempo de assistir à apresentação de uma stripper específica.
Seu nome artístico era “Lady”. Pelo menos foi assim que anunciaram no palco.
Ela aparentava ter pouco mais de vinte anos. Talvez vinte e três, vinte e quatro. Era japonesa, ou descendente, e surgiu usando um vestido preto curto, justo o suficiente para chamar atenção sem parecer vulgar demais. Também usava algo parecido com aquelas máscaras de couro que jóqueis colocam em cavalos, cobrindo parte do rosto.
Resumindo, era praticamente uma versão real da “Tiazinha do Programa H”, que naquela época dominava a televisão junto com várias outras coisas extremamente questionáveis dos anos 90.
O ambiente inteiro parecia pensado para causar excesso sensorial. Luzes baixas em tons vermelhos, fumaça artificial espalhada pelo salão, cheiro de bebida misturado com perfume doce demais e música alta o suficiente para fazer o peito vibrar levemente junto com o grave.
Eu tentava agir naturalmente, mas estava completamente deslocado ali.
Enquanto Marcos e Maurício pareciam confortáveis demais naquele ambiente, bebendo e comentando sobre as mulheres que passavam, eu observava tudo tentando não parecer desconfortável.
Lady tinha presença.
Não era apenas beleza.
Era o jeito como ela olhava diretamente para as pessoas enquanto dançava, como se escolhesse exatamente quem queria provocar. O corpo dela acompanhava a música com uma naturalidade quase hipnótica, mas o que mais me chamou atenção foi a segurança. Parecia alguém completamente consciente do efeito que causava nos homens ao redor.
Na apresentação, ela não tirava toda a roupa. O “show principal” era escolher um homem da plateia para levá-lo até um sofá lateral, onde faria uma dança particular até o fim da música seguinte.
Eu sinceramente nem cogitei a possibilidade dela me escolher.
Por isso, quando terminou a apresentação e ela caminhou diretamente até nossa mesa, segurando meu braço sem hesitar, demorei alguns segundos para entender que aquilo realmente estava acontecendo.
Na época, não acreditei.
Hoje, às vezes, queria poder voltar naquele instante apenas para entender qual foi exatamente minha expressão.
Ela me conduziu até o sofá quase me puxando. Quando chegamos, me empurrou de leve contra o encosto e sentou diretamente no meu colo.
Meu corpo travou na hora.
Eu não sabia onde colocar as mãos, onde olhar, como agir. O cheiro do perfume dela parecia forte demais tão perto. A música vibrava no ambiente enquanto ela movia lentamente o quadril acompanhando o ritmo.
Era impossível não ficar excitado.
E, mesmo assim, eu continuava rígido, incapaz de relaxar de verdade.
Ela percebeu.
Aproximou o rosto do meu ouvido e falou num tom muito mais suave do que eu esperava encontrar naquele lugar.
— Ei… tudo bem. Tá tudo bem! Só aproveita.
Senti a respiração dela próxima ao meu pescoço.
O perfume.
A voz baixa.
E alguma coisa dentro de mim finalmente começou a despertar.
Passei a acompanhar minimamente os movimentos dela com o quadril, ainda inseguro, mas menos travado.
Ela deu uma pequena risada perto do meu ouvido.
— Aqueles seus amigos… eles armaram pra você. Eles combinaram comigo, inclusive já deixaram cobrar na comanda essa dança. Mas toma cuidado… eles foram irônicos. Falaram que você sempre pagava a conta. Estiveram aqui semana passada. Queriam um programa, mas eu não faço programas. E eles sabem disso.
Aquilo me pegou de surpresa, embora talvez não devesse.
No fundo, eu já desconfiava da dinâmica que existia entre nós três.
Mesmo assim, ouvir aquilo diretamente dela causou um desconforto estranho.
Não consegui responder nada.
Ela continuou dançando enquanto me observava com mais atenção do que eu imaginava que alguém daquele ambiente observaria.
— Eu gostei de você. Os seguranças não deixam eu ficar conversando com os clientes, porque eu não pego clientes. Eles ganham comigo desse jeito, então não facilitam.
Então ela fez um movimento mais forte com o quadril, o suficiente para me fazer perder completamente a linha de raciocínio por alguns segundos. O movimento também aproximou ainda mais o rosto dela do meu.
Muito perto.
Perto demais.
— Se você tiver uma boa memória, vai se dar bem. Meu número é…
Ela falou rápido.
Uma única vez.
Não teve tempo de repetir.
A música terminou e, quase imediatamente, um segurança apareceu ao lado do sofá. Lady se levantou antes mesmo dele precisar falar alguma coisa.
Ela ainda olhou para trás uma última vez antes de desaparecer novamente perto do palco.
Não perdi tempo.
Fui quase correndo até o banheiro.
Tranquei a porta da cabine e fiquei repetindo os números mentalmente enquanto pegava o celular do bolso. Por sorte — muita sorte — memória nunca foi um problema pra mim.
Salvei o número imediatamente.
E mandei uma mensagem antes mesmo de pensar direito.
Quando voltei para a mesa, Marcos e Maurício estavam completamente animados, bebendo whisky com energético e rindo alto sobre o que tinha acontecido.
Comentaram a situação como se eu finalmente tivesse “desencalhado”.
E, no fundo, eu também estava animado.
Resolvi não pensar muito sobre o desconforto que senti ao descobrir a forma como eles me viam. Não naquela noite.
Era meu aniversário.
Por que não simplesmente aproveitar?
A comemoração ficou ainda melhor porque cerca de trinta minutos depois Lady respondeu minha mensagem.
“Uau. Parabéns. Você realmente é especial. Amanhã me liga, vamos conversar.”
Lembro exatamente do que senti ao ler aquilo.
Naquele momento, eu poderia ter saído com qualquer uma das acompanhantes que circulavam pelo salão. Algumas já tinham até se aproximado da nossa mesa durante a noite, sorrindo, tentando puxar conversa, avaliando discretamente quem parecia disposto a gastar dinheiro.
Mas algo dentro de mim tinha mudado.
Um sentimento antigo voltou.
Expectativa.
Esperança.
Aquela ansiedade boa de imaginar o dia seguinte.
Parecida com a sensação que eu tinha quando chegava a sexta-feira e eu sabia que encontraria Luana no sábado.
Mas dessa vez parecia diferente.
Mais consciente.
Mais maduro.
Ou talvez eu apenas quisesse acreditar que fosse.
Já na manhã do dia seguinte, por volta das dez horas, ouvi meu celular tocar. Por sorte, não tinha colocado para carregar durante a noite e consegui ver quem estava ligando antes dele apagar novamente.
Lady.
Pulei da cama sem pensar e atendi rápido demais.
— Alô?
— Bom dia, gatão. Quer me pagar um café?
A naturalidade da voz dela me pegou completamente desprevenido.
— Claro!
Ela riu baixo do outro lado.
— Ótimo! Vou te passar meu endereço, anota e me pega em dez minutos.
O entusiasmo automático morreu no mesmo instante.
— Não… calma. Eu não tenho carro. Eu não dirijo. Fiz 18 anos ontem.
Não sei exatamente por quê, mas senti vergonha na mesma hora. Minha voz falhou no final da frase, como se admitir aquilo me deixasse menor.
Ouvi uma risada curta do outro lado da linha.
Não debochada.
Quase divertida.
— Agora entendi por que estava lá ontem. Não tem problema. Me passa seu endereço, eu te pego. Tô com fome e quero companhia.
Passei o endereço imediatamente.
— Ahh… você mora nesse condomínio. Eu conheço. Tô aí em seis… não, em cinco minutos. Tudo bem?
Demorei um pouco para responder.
Minha mente começou a correr rápido demais.
Era bom demais para ser verdade.
Bonito demais.
Fácil demais.
E minha insegurança quase estragou tudo antes mesmo de começar.
— Ei, gatinho. Eu moro no seu bairro. Se quiser te passo meu endereço e você pesquisa. Não precisa ter medo… só mordo se quiser.
Acabei sorrindo sem perceber.
— Não o é isso. Eu cheguei tarde ontem. Tava dormindo.
Ela riu novamente.
Dessa vez uma risada mais solta.
— Quanto tempo você precisa? Não vamos num casamento, vamos tomar café. Se prepara pra me ver acabada, sem maquiagem e sem paciência pro resto.
Dei uma risada também.
A conversa com ela tinha uma leveza estranha. Parecia que ela conseguia me deixar confortável antes mesmo de eu perceber que estava tenso.
— Quinze minutos?
— Ok, gatinho. Te pego em quinze minutos. Uma dica: escova os dentes e usa perfume. Isso é o mínimo que espero.
Não consegui responder porque ela desligou logo em seguida.
Fiquei alguns segundos olhando para o celular desligado na minha mão.
Era tudo rápido demais.
Anormal demais.
Alguma coisa parecia não encaixar.
Mas eu já tinha passado por tanta coisa… que uma parte de mim resolveu simplesmente aceitar o risco.
Mesmo que aquilo acabasse em mais um problema.
Mesmo que fosse só mais uma decepção.
Se viesse alguma coisa boa no meio… por que não?
Me arrumei rápido. Quando saí do quarto, Tati já tinha tomado café e estava largada no sofá assistindo a um canal de clipes musicais — outra das grandes irritações daquela década.
Verônica terminava de tomar café quando me viu.
— Bom dia, Carlito. Vai sair?
— Vou… uma amiga vem me pegar.
Ela ergueu as sobrancelhas discretamente.
— Nossa. Que bom… aproveitem.
A leveza da reação dela me ajudou mais do que deveria.
Talvez porque, no fundo, eu ainda esperasse ser julgado por qualquer coisa relacionada a mulheres.
Meu celular tocou novamente.
Lady avisando que já estava na portaria.
Desci tentando controlar a ansiedade.
E então eu a vi.
Ela parecia completamente diferente da mulher da noite anterior.
Sem luzes vermelhas.
Sem palco.
Sem música alta.
Sem personagem.
Era baixa, magra, delicada. Usava uma calça de moletom larga, camiseta branca simples e o cabelo preso de qualquer jeito. Estava de óculos escuros e carregava uma bolsa que claramente custava mais caro do que quase tudo que eu tinha no quarto.
Mesmo assim, parecia absurdamente mais bonita daquele jeito.
Mais real.
Ela me viu saindo pela portaria e sorriu.
Um sorriso rápido.
Natural.
E aquilo me deu uma esperança perigosa.
Quando me aproximei, ela me abraçou e beijou meu rosto como se já me conhecesse há muito tempo. O cheiro dela era suave. Mentolado. Talvez bala Halls.
Fiquei alguns segundos olhando sem conseguir esconder o quanto estava surpreso.
— Vamos?
A pergunta simples me trouxe de volta.
Assenti com a cabeça e atravessamos a rua juntos.
Foi só então que vi o carro dela.
Uma marca europeia famosa.
Muito acima dos carros populares nos quais eu sempre tinha andado.
Entramos no veículo e, antes mesmo de sair com o carro, ela abriu uma foto na carteira e falou de maneira séria pela primeira vez desde que nos conhecemos.
— Eu quis sair com você porque você parece ser especial. Esses são meus pais. Herdeiros. Meu vô é dono da principal fábrica da cidade. Eles sabem que danço lá. Eu faço porque tô na faculdade e não quero depender economicamente de ninguém. De ninguém, entendeu?
Olhei para ela e acabei sorrindo sem querer.
Talvez porque eu tivesse tido aquela discussão boba exatamente sobre isso com Verônica dias antes.
— Tudo bem. Você convidou. Você que paga o café.
Ela sorriu junto comigo.
— Claro.
A resposta veio tão natural que me fez rir.
No caminho começamos a conversar sobre assuntos comuns. Ela cursava psicologia na Unesp e precisava viajar para outra cidade por causa da faculdade. Era solteira. Gostava mais de meninas do que de meninos.
Acabei reagindo discretamente àquilo, e ela percebeu na hora.
Bateu de leve na minha coxa e falou:
— Não se preocupa. Eu gosto de um pau também. Mas precisa ser bem gostoso.
Ri na mesma hora.
— Eu não quero nem ver um perto de mim.
Ela gargalhou.
E foi estranho perceber como eu estava relaxando perto dela tão rápido.
Chegamos a um café absurdamente sofisticado. Um daqueles lugares em que eu sempre tive vontade de entrar, mas nunca vestido da forma como estava naquele dia.
Pegamos uma mesa mais afastada.
Lady parecia realmente com fome e começou a pedir várias coisas do cardápio sem nem olhar o preço. Eu fiquei apenas no pão de queijo e no café expresso.
Continuamos conversando até a comida chegar.
Mas, depois disso, percebi uma mudança nela.
O olhar ficou mais sério.
Mais atento.
— Sabe por que eu tô aqui com você hoje?
A pergunta me pegou desprevenido.
Não consegui responder.
Ela se inclinou um pouco mais na minha direção.
— Você é especial. E eu sei disso. Pode não parecer… mas eu também sou.
Continuei em silêncio.
Ela então pegou outra foto e me mostrou.
Parecia recente.
Nela, parte do couro cabeludo estava tomado por uma lesão avermelhada. O cabelo muito curto, quase raspado.
— Eu sofro de urticária emocional. Mas isso é só um dos sintomas. Tenho ansiedade acima da média desde pequena. Hoje controlo com terapia, psicóloga e psiquiatra. Mas eu sei o que é ser o que chamam de neurodivergente. Eu sei o que é não ser vista… não ser compreendida.
Aquilo me atingiu de um jeito estranho.
As conversas com Verônica.
As sessões com Márcia.
Tudo voltou à minha cabeça ao mesmo tempo.
— Normalmente, quando os homens me conhecem de verdade, eles fogem. Não têm paciência. Parece que não querem lidar com o que vem junto. As melhores pessoas normalmente têm esse lado.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Eu queria responder alguma coisa inteligente.
Queria dizer algo importante.
Mas minha mente simplesmente travou.
Ela então sorriu de leve.
Um sorriso triste dessa vez.
— Agora que você viu que eu não sou perfeita… nem tão bonita assim… vai querer minha amizade? Uma amizade de verdade. Não só transar.
Olhei diretamente para ela e sorri também.
— Você vai conseguir ser minha amiga? Ninguém consegue. Não sem interesses.
Ela me puxou um pouco mais para perto e sustentou meu olhar.
— Eu tenho muito interesse em você. Se eu falar o quanto estou molhada, você vai acreditar?
Meu olhar desceu involuntariamente para a região do quadril dela.
Ela manteve o sorriso.
Esperando minha reação.
Meu coração acelerou absurdamente naquele instante.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, o nervosismo não vinha só da insegurança.
Vinha da vontade.
— Acho que podemos ir. Gostaria de conhecer sua casa.
Pedimos a conta.
Ela pagou.
E, durante o caminho até a casa dela, percebi uma coisa que me assustou mais do que deveria: eu estava feliz.
Quando entramos na casa dela, a primeira coisa que me chamou atenção foi o silêncio.
Não um silêncio vazio. Era um silêncio confortável. Limpo. O tipo de ambiente onde parecia possível respirar sem precisar se defender o tempo inteiro.
Lady jogou a bolsa no sofá e tirou os óculos escuros, prendendo o cabelo novamente de um jeito despretensioso, como se não estivesse minimamente preocupada em parecer perfeita. E talvez fosse exatamente isso que fazia ela parecer tão bonita.
Eu continuava meio travado.
Não pela possibilidade do que poderia acontecer.
Mas porque tudo aquilo ainda parecia improvável demais.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Você pensa demais.
Falou sorrindo enquanto caminhava até a cozinha americana.
— Quer água? Café? Refrigerante? Ou tá tentando sobreviver só na ansiedade?
Dei uma risada baixa.
— Acho que ansiedade.
Ela abriu a geladeira e me olhou por cima da porta.
— Ótimo. Temos bastante disso aqui.
A leveza dela me desmontava aos poucos. Não havia pressão. Não havia jogo humilhante. Não havia aquela sensação de estar sendo avaliado o tempo inteiro.
E isso era novo pra mim.
Muito novo.
Ela voltou com duas latinhas de refrigerante e sentou perto o suficiente para que nossas pernas quase encostassem.
Quase.
— Sabe o que eu achei engraçado em você ontem?
Balancei a cabeça negativamente.
— Você foi o primeiro homem naquele lugar que olhou pra mim como se estivesse tentando entender quem eu era… e não só imaginando como eu era pelada.
Fiquei sem saber o que responder.
Porque era verdade.
Ela abriu um sorriso pequeno ao perceber isso.
— Relaxa. Isso foi um elogio.
O apartamento dela tinha cheiro de café e perfume suave. Havia livros espalhados pela sala, alguns cadernos da faculdade e uma manta jogada de qualquer jeito sobre o sofá. Tudo parecia real demais comparado à personagem que ela interpretava no palco.
E acho que ela percebeu que eu estava observando tudo.
— Decepcionado? Esperava chicote pendurado na parede?
Dei uma risada involuntária.
— Talvez um pouco.
Ela se aproximou devagar.
Sem pressa.
Como se estivesse estudando minhas reações.
— E o que mais você esperava de mim?
A pergunta ficou entre nós por alguns segundos.
Olhei diretamente para ela.
— Sinceramente? Achei que nunca fosse me ligar.
O sorriso dela diminuiu.
Não por tristeza.
Por atenção.
— Por quê?
Demorei um pouco para responder.
Porque a resposta parecia idiota até dentro da minha própria cabeça.
— Porque mulheres como você normalmente não olham duas vezes pra homens como eu.
Ela sustentou meu olhar em silêncio.
E aquilo começou a me deixar nervoso de um jeito diferente.
Não era insegurança pura.
Era exposição.
Como se ela realmente estivesse me vendo.
— Homens como você?
A voz dela saiu mais baixa.
Respirei fundo antes de responder.
— Eu sei como sou. Sempre soube.
Ela continuou me olhando.
Depois aproximou lentamente uma das mãos do meu rosto.
O toque veio leve.
Os dedos deslizando perto da minha mandíbula.
— Então talvez você tenha passado muito tempo ouvindo pessoas erradas.
Meu coração acelerou forte naquela hora.
A mão dela desceu devagar pelo meu pescoço até parar no meu peito.
— Olha como seu coração tá disparado.
Dei uma risada nervosa.
— Você deixa as coisas um pouco difíceis.
— Eu? Você entrou aqui já olhando pra mim como se eu fosse explodir a qualquer momento.
Acabei rindo de verdade dessa vez.
Ela sorriu junto.
E aquele momento simples — os dois rindo no sofá depois de tudo — me atingiu mais do que deveria.
Porque fazia muito tempo que eu não me sentia… normal.
Ela se aproximou mais um pouco.
Agora nossas pernas estavam encostadas.
E eu conseguia sentir o perfume dela com mais força.
— Posso te contar um segredo?
Assenti.
— Você fica muito bonito quando para de tentar se defender de tudo.
Aquilo me desmontou completamente.
Porque eu nem sabia mais que fazia isso o tempo inteiro.
Ela percebeu a mudança no meu olhar e então, pela primeira vez desde que cheguei, o clima mudou de verdade.
Ficou mais lento.
Mais pesado.
Mais íntimo.
Ela aproximou o rosto do meu devagar, dando tempo suficiente para que eu recuasse se quisesse.
Mas eu não queria.
Não naquela vez.
O primeiro beijo foi calmo.
Quase cuidadoso.
E isso me surpreendeu.
Eu esperava intensidade imediata, provocação, domínio… mas não. Ela parecia mais interessada em sentir minha reação do que em acelerar as coisas.
E talvez por isso eu tenha relaxado pela primeira vez.
Minha mão subiu automaticamente até sua cintura, ainda insegura. Ela percebeu a hesitação e sorriu entre o beijo.
— Tá tudo bem.
A mesma frase da noite anterior.
Só que daquela vez ela parecia significar muito mais.
Os beijos começaram a ficar mais profundos aos poucos. O corpo dela se aproximando do meu sem pressa, me permitindo acompanhar o ritmo, entender o toque, perder o medo.
Ela subiu devagar no meu colo.
E, dessa vez, eu não travei.
Segurei sua cintura com mais firmeza enquanto sentia o corpo dela se mover lentamente sobre mim. O moletom largo já parecia insuficiente para esconder o quanto aquilo estava mexendo comigo.
Ela afastou o rosto apenas o suficiente para me olhar.
— Tá pensando demais de novo.
Dei uma risada baixa e sem ar.
— É meio difícil desligar.
Ela passou os dedos pelo meu cabelo devagar.
— Então não desliga. Só fica aqui comigo.
E talvez tenha sido exatamente isso que tornou aquele momento tão importante.
Não era só desejo.
Não era só finalmente deixar de ser virgem.
Era perceber que alguém me tocava sem crueldade.
Sem julgamento.
Sem me fazer sentir pequeno.
Os beijos desceram pelo meu pescoço lentamente, e senti meu corpo inteiro reagir junto com algo muito maior que excitação.
Alívio.
Um alívio absurdo.
Como se uma parte de mim tivesse passado anos esperando por aquilo sem saber explicar exatamente o quê.
Ela percebeu quando meus olhos começaram a marejar levemente.
E, ao invés de estranhar, apenas encostou a testa na minha.
— Ei…
A voz dela saiu quase como um sussurro.
— Não precisa ter vergonha de sentir.
Aquilo acabou comigo.
Porque ninguém nunca tinha falado comigo daquela forma.
Ninguém nunca tinha transformado vulnerabilidade em algo que não parecesse humilhante.
Beijei ela novamente, dessa vez sem tanta insegurança, deixando finalmente a vontade falar mais alto que o medo.
Ela pareceu surpreendida. Eu não parei. Comecei a puxar sua camiseta tentando tirar de maneira afoita. Ela sorriu.
- Calma. Deixa eu dançar para você.
Levantou do meu colo colocou uma música e começou a dançar. Não apenas dançar, a retirar peça por peça até ficar apenas de calcinha.
Ela então voltou ao meu colo, pegou minhas mãos e colocou em seus peitos. Senti eles daquele jeito, durinhos, excitados, me deixou ainda mais enlouquecido.
Ela percebeu que já estava pronto. Sentou ao meu lado e começou a retirar minha bermuda. Minha cueca.
Sem muita cerimônia ela segurou meu pau e ao sentir sua mão eu quase explodir.
- Gatinho. Calma. Se controla, nós dois precisamos brincar e se divertir juntos.
Não deu tempo de falar nada. Ela novamente sentou no colo, mas dessa vez senti toda a sua umidade.
Aquilo me levou num nível de satisfação que lembro até hoje. Aquela mulher, que foi o desejo de todos ontem. Essa mulher estava daquele jeito por mim, para mim.
Ela me tirou da viagem que estava em minha cabeça. Se posicionou e então senti entrar. E foi a coisa mais maravilhosa que já senti na minha vida.
Não conseguirei colocar em palavras.
Ela não perdeu tempo. Seus movimentos eram ritmados, e iam aumentando em velocidade e profundidade com o tempo.
Os sons que saiam de sua boca mostravam exatamente o que estava acontecendo. Aos poucos ela ficou tão molhada que senti sua umidade até a base da minha coxa.
Sua respiração já não era a mesma, era muito mais falha, muito mais rápida.
Chegamos ao orgasmo juntos. Ambos berrando. Juntos. Perfeitos.
Tudo aconteceu naturalmente.
Sem pressão.
Sem performance.
Sem a sensação de que eu precisava provar alguma coisa.
Pela primeira vez na vida, eu não me sentia inadequado dentro da própria pele.
E talvez tenha sido isso que realmente marcou aquele momento.
Não o sexo.
Não o desejo.
Mas a sensação, ainda que breve, de finalmente ser suficiente para alguém.
Continua na segunda temporada