Foram trinta e cinco dias totais de internação… Trinta e cinco dias que pareceram uma vida inteira. Dom já respirava bem, permanecia estável e sem desconforto, o que por si só já era uma vitória imensa. O que ainda nos prendia ali era o ganho de peso, que oscilava demais. Ele ia para o peito, começava a mamar e dormia. O cansaço vencia antes de qualquer progresso real.
Tentamos por uma semana inteira fazer a transição com todo cuidado, mas chegou um momento em que a manipulação precisou ser suspensa. Foi muito frustrante e extremamente angustiante não poder pegá-lo no colo depois de estarmos acostumadas com aquele contato gostoso.
Retomamos na semana seguinte e, finalmente, ele engatou. Passou a mamar bem e, aos poucos, fomos conseguindo ajustar tudo. Dom recebeu alta com 1,890 kg, ainda abaixo do ideal, mas seguro e estável. Sabíamos que ele ainda exigiria atenção constante, acompanhamento de perto e muito cuidado com cada detalhe da rotina.
Não dá para prever com exatidão o tempo do processo. Cada prematuro responde de um jeito, porém, pelos cálculos do pediatra, a alta viria entre quarenta e quarenta e cinco dias. Veio antes porque não havia mais perigo e também porque Júlia já estava à beira de um surto.
O dia da alta foi um misto de alívio e medo. Alívio por finalmente sair daquele ambiente que, apesar de necessário, nos consumia aos poucos. Medo porque, pela primeira vez, não teríamos uma equipe inteira por perto a cada sinal diferente. Era só a gente, com orientações, horários, recomendações e uma responsabilidade imensa nas mãos, afinal se tratava de uma vida, e da vida de nosso filho.
Ainda assim, quando colocamos Dom no bebê-conforto e atravessamos a porta do hospital, eu tive a sensação clara de que estávamos finalmente começando de verdade.
— Quaaase que a gente comemora o primeiro mês dele em casa — Comentei com Juh, que estava no banco de trás.
— Por pouco mesmo — Ela disse, em um tom feliz.
Eu não sei nem explicar o que aqueles dias fizeram comigo. Foi como viver em estado de alerta o tempo inteiro, sem nunca desligar de verdade. Mesmo quando eu fechava os olhos para dormir, minha cabeça continuava lá, ouvindo monitor, revendo número e antecipando problemas que poderiam nem existir. A gente aprendeu mais do que nunca a comemorar o mínimo. Um grama a mais, um episódio a menos, uma noite sem intercorrência... Coisas que, fora dali, ninguém nem imagina o peso que realmente têm.
E, ao mesmo tempo, tinha o cansaço, que não era só físico, mas também mental e principalmente emocional… Houve dias em que eu só queria desabar, porém lutava para fazer justamente o contrário. Era o meu momento de fazer piada sem graça, de zoar com meus filhos e de distrair minha esposa com o papo mais furado que pudesse existir. Eu sentia a necessidade de estar bem para eles quando nem eu mesma estava. De segurar o medo para não deixar que ele assumisse o controle e tomasse conta de nós.
Foram dias de muita incerteza, porque por mais estável que ele estivesse, sempre existia aquele “e se”. Sempre existia a possibilidade de alguma coisa mudar de repente. E isso desgasta qualquer um de um jeito visceral.
Ir para casa não apagava nada disso, não resolvia tudo e a gente sabia que ainda viria uma fase delicada, cheia de cuidado e de atenção redobrada. Contudo, ainda assim, era uma vitória. Era a prova de que a gente tinha passado por aquilo. De que Dom estava conseguindo e nós também. Parecia que, enfim, a vida estava começando a andar pra frente de novo!
Quando chegamos, desci do carro e, sem dar tempo de qualquer pensamento passar pela minha cabeça, puxei Juh pela mão, encostei suas costas no carro e a beijei. Foi um beijo cheio de tudo o que ficou entalado naqueles dias. Ela sorriu no meio dele e fez eu me derreter, sorrindo junto.
Me afastei um pouquinho, só para olhar para ela, e colei nossas testas.
— Ele está dormindo? — Perguntei.
— Tá, assim que entrou no carro dormiu — Júlia respondeu, enquanto eu pegava o bebê-conforto pela alça.
Olhei para Dom. Ele estava toooodo quietinho, e eu respirei fundo, não sentindo nada além de paz no meu coração.
— Quem está em casa mesmo? — Júlia me perguntou.
— Minha mãe e a sua, com uma mesa de comida e outra de chá, eu imagino — Brinquei, e nós rimos.
Entramos e fomos recebidas pelas nossas mães. Elas se aproximaram com cuidado e foram direto até Dom. Ficaram olhando por um tempo, observando cada detalhe: o rostinho, o tamanho, a forma fofa como ele dormia. Minha mãe passou a mão de leve na cabeça dele e Dona Jacira ficou ao lado, acompanhando tudo de pertinho, toda encantada.
A mesa já estava pronta. Sentamos para tomar café juntas e conversamos um pouco enquanto Dom continuava dormindo no bebê-conforto. Depois de um tempo, Júlia levantou para acordá-lo. Como ainda não sabia expressar fome e dormia muito, não dava para esperar por um chorinho ou qualquer demonstração de desconforto. Era necessário interromper o sono para garantir a alimentação do nosso pequeno.
Ela o pegou com todo o cuidado e começou a despertá-lo aos poucos, respeitando o tempo dele, para conseguir colocá-lo no peito e fazer com que mamasse.
— Oi, neném... Olha as vovós aqui... Você está em casa, Ninho! — Falei com ele, que me olhava fixamente.
— Daqui a pouco seus irmãos chegam, tá? — Juh disse, enquanto passava o dedo levemente no cabelo dele.
— Ele é a sua cara mesmo, Juh — Minha mãe falou, toda boba.
— Eu disse, não foi? Um gatinho! — Exclamei.
E ali, com tanta gente para dar atenção ao mini querido, ele ficou todo amostrado, mexendo os braços e as pernas para as vovós analisarem as habilidades dele.
Coloquei todas as recomendações, horários de suplementação e o esquema de vacinação com um ímã na geladeira e fui tomar banho. Quando saí, estavam todos no quarto de Dom porque havia uma troca de fralda para fazer.
— Deve ser o xixi mais lindo do mundo para vocês estarem assim de plateia — Brinquei, e elas riram.
— Júlia não me deixou nem trocar o menino — Minha sogra falou.
— Vão ter muitas ainda, essa é a primeira em casa — Juh respondeu, rindo.
Tivemos um dia muito agradável e foi extraordinário viver o ordinário pela primeira vez com ele. Ter nosso bebezinho ali pertinho, com seu chorinho de vez em quando, mamando, fazendo troca de fraldas, sendo paparicado pelas avós e tudo isso de grudinho com o amor da minha vida.
Pedi para Júlia não ficar subindo e descendo escada o tempo inteiro, e combinamos que ela ficaria mais no andar de cima, porque lá tinha tudo de que precisaria e era onde o quarto de Dom ficava.
Mais ou menos uma hora após o almoço, recebi uma ligação do colégio avisando que Kaique estava com febre. Cheguei lá rapidinho e ele estava com um semblante triste, ao lado de Milena, porque eu pedi que ela fosse liberada junto.
— Que foi, amor? — Questionei.
Kaká recostou a cabeça na minha cintura, visivelmente chateado.
Assinei o que era preciso enquanto conversava com os colegas de Júlia, que perguntaram sobre ela e o neném, e depois fomos para o carro.
— Mãe, ele está triste porque acha que não vai poder carregar Dom — Mih falou.
— Ahhhh, é por isso esse biquinho então — Respondi, desmanchando com o dedo.
— Só porque ele veio pra casa hoje — Ele resmungou, bravo, e jogou a cabeça contra o banco.
— É gripe que está vindo? Se for a sua garganta, você vai se recuperar e logo estará coladinho em seu irmão... Sem pressa, ele já está em casa e nós vamos cuidar direitinho para que Dom não volte tão cedo a um hospital... É pelo bem dele, amor — Falei, fazendo carinho no cabelo dele.
— Não, é infecção urinária — Meu filho respondeu.
E eu tive uma crise de riso.
Eu não conseguia explicar para eles o porquê, apenas me desmanchei de dar risada e até chorei pela inocência deles em achar que isso seria um impedimento.
— Não tem problema, não, Kaká... Pode carregar seu irmãozinho... Infecção urinária não é contagiante... — Comentei quando pude.
— Ah, é... Não é vírus... — Mih completou.
— Foi a senhora que falou que se tivesse febre e não sei o quê — Ele disse, inconformado com a minha risada.
— Então não me expressei bem, lindo. Quis dizer que, se a gente ficar dodói com algo que seja transmissível, iremos nos resguardar para não atingir Dom, que tem o sistema imunológico de uma formiguinha — Completei, e ele permaneceu sério.
— Tá bravo com a mamãe, é? — Milena perguntou, já zoando a situação e apertando as bochechas dele.
— Vou cuidar direitinho de meu filho pra ele ficar bom logo, né, nego? — Perguntei, e ele balançou positivamente a cabeça.
— Mãe, meu braço está doendo por causa da vacina da gripe. Acredito que tenho que ficar em casa amanhã para descansar ele — Milena tentou, com um rostinho convencido.
— Pooooxa, nem vai poder carregar Dom hoje então — Disse-lhe, entrando na onda, e os dois riram.
— Naaaaaaaaaaao, vai ser minha fisioterapia — Ela rebateu, sabiamente.
Antes de entrarmos, reforcei um combinado que já tínhamos feito: respeitar o sono do maninho e, sempre que chegassem da rua, banho primeiro. Os dois assentiram, um pouco sem paciência, porque era algo que já estava bem batidinho.
Mas é aquilo, né... Se tem aviso, tem história. Até porque eu conheço meu gado!
Eles entraram na pontinha do pé e, assim que viram Juh no sofá, esqueceram todo o combinado e foram correndo até ela.
— Mamãe!!! — Mih a chamou alto e deixou a mochila cair no chão.
— Cadê Dom, mamãe?? — Kaká quis saber.
— Dormindo — Juh respondeu, enquanto os abraçava.
— E os combinados, hein? — Perguntei, olhando para os três, afinal era para Júlia estar na parte de cima da casa.
— O que você está sentindo, amor? — Juh questionou Kaká, enquanto ria para mim.
— A mamãe ficou rindo de mim! — Kaique me dedurou, deixando o biquinho retornar à boca.
E novamente eu desmanchei com os dedos.
— X9... — Brinquei.
— Ele está com infecção urinária — Mih respondeu.
— E achou que não ia poder carregar o irmãozinho dele, não foi, príncipe? — Perguntei e dei um beijinho nele.
— E a senhora ficou rindo — Ele respondeu, cruzando os braços.
— Foi... Desculpa! — Pedi, mesmo ainda achando engraçado.
— Você desculpa a mamãe?? Dá um beijinho nela... — Juh sugeriu, e ele obedeceu.
Eu o abracei e enchi o pescoço dele de beijos.
— Agora... Banho pra nós! — Exclamei, e eles foram apressados.
— Daqui a pouco Dom acorda porque vou dar mamá para ele — Juh os informou.
Me aproximei da gatinha e ela se enrroscou nos meus braços.
— Então você ficou rindo de Kaká? Coitado, amor... — Júlia disse.
— E você, não era para estar lá em cima? — Perguntei, mudando de assunto.
— Não sabia que você iria voltar tão rápido — Ela respondeu, com a cara mais lavada do mundo.
— Ahhh, é? — Perguntei, rindo e enchendo o pescoço dela de beijinhos.
— Minha mãe está preocupada e prestativa... Isso é ótimo, é fofo... Mas, ao mesmo tempo, ela fica enchendo a minha cabeça de coisa, com vários palpites e... Ai, não sei... Me sinto culpada por estar impaciente com isso — Juh desabafou.
— O que você quer fazer? Quer conversar com ela e falar sobre o seu incômodo? — Perguntei.
— Eu entendo que a experiência conta muito, porém queria aprender um pouco só com a nossa realidade... Tem coisas que ela sugere que eu não concordo também — Júlia disse.
— Tipo o quê? — Eu quis saber.
— Que o meu leite pode estar fraco e não alimentando Dom — Ela respondeu e ergueu a cabeça para olhar para mim.
— Isso a gente sabe que não. Você está produzindo bem, ele está mamando direitinho... Se houvesse algum problema em relação à alimentação, nem em casa estaríamos — Falei, fazendo carinho no rosto dela.
— Eu tentei explicar, mas não sei se houve efeito — Júlia disse.
— Tá... Vamos organizar agora tudo o que nós pensamos a respeito dos cuidados com nosso filhote daqui para frente — Propus.
— Quero tentar a amamentação exclusiva de início — Júlia falou.
— Huuuuum, ok... Mas se ficar muito puxado a gente pode pensar na mamadeira como opção? Pelo menos de madrugada, porque ele vai exigir bastante de ti... — Pedi.
— Tenho medo da confusão de bico, amor — Juh explicou.
— Tudo bem então, apenas peito. Mentalmente anotado — Falei em um tom bem-humorado e ganhei um selinho.
— Sobre chupeta, eu penso o mesmo, também não quero por enquanto — Ela disse.
— Certo, continue — Falei.
Eu estava amando saber a posição dela sobre essas pequenas coisinhas.
— Sem telas, zero telas, telas em hipótese alguma até os dois anos — Disse, e ela riu do meu tom, também assentindo.
— O que você acha de cama compartilhada? — Júlia me perguntou.
— Que é uma armadilha gostosa de cair — Respondi, rindo.
— Porque é bom estar com eles e depois fica missão impossível tirar, não é? — Juh questionou, rindo, e eu confirmei.
— A gente pode montar aquele berço móvel lá no quarto, para ele ficar bem do seu ladinho — Sugeri, e minha ideia foi aceita.
— Açúcar só com dois anos também, não é? — Juh me perguntou.
— Nós já estamos na introdução alimentar? — Brinquei e depois confirmei.
— E se a gente morder a língua em qualquer uma dessas coisas, tudo bem! — Juh exclamou, satisfeita.
— Exatamente, amor! — Concordei com ela.
Achei extremamente importante ter essa conversa. Quando Milena nasceu, e até mesmo antes disso, muitas decisões foram tiradas de mim, o que acabou tornando minha experiência no puerpério muito difícil. Por isso, eu entendia perfeitamente aquele desconforto. Além disso, acredito que estar alinhada com minha parceira é fundamental nas tomadas de decisão, tanto para apoiá-la quanto, se necessário, defendê-la.
— Se sente mais segura com nossos combinados? — Perguntei.
— Hunrum... — Júlia confirmou e foi virando o corpo.
Ela estava com um sorrisinho que eu conheço e começou a se aproximar ainda mais. Segurou meu rosto enquanto eu me perdia naquele olhar e, nesse momento, o nosso despertador pessoal tocou... Dom começou a chorar e fomos até o quarto. Minha mãe já estava com ele nos braços e vinha ao nosso encontro.
— Prooonto, seu delivery chegou — Brinquei enquanto Júlia o pegava.
Fui preparar a medicação de Kaique e, quando retornei para o quarto, os dois estavam sentados na cama auxiliar, balançando as pernas incontrolavelmente.
— Mamãe, não enche tanto a barriga dele porque senão ele vai dormir e a gente não vai conseguir carregar — Mih reclamou.
— A barriguinha dele é bem pequenininha, enche muito rápido — Júlia respondeu, rindo.
— Aí depois cês trocam a fralda dele porque sai rapidinho também — Zoei.
— Não, a senhora faz essa parte, mãe — Milena brincou de volta.
— Ah, amor... O braço de Mih está doendo da vacina, ela não vai poder carregar Dom hoje não — Instiguei.
— Já passou!!! — Ela se apressou em devolver.
— Toma, lindão — Falei, colocando o remédio na boquinha do meu filhote.
Que, aparentemente, seguia bravo comigo.
Pouco depois, Dom terminou de mamar e Júlia o colocou no colo de Milena, que o pegou com todo cuidado. Ela ficou séria no início, concentrada em sustentar o irmão direitinho, olhando para ele sem desviar os olhos. Passava a mão devagar na perna dele, no bracinho, no cabelo ralinho, observando cada movimento como se estivesse estudando tudo.
Dom começou a se mexer bastante. Esticava as pernas, apertava os dedinhos deles dois, virava o rosto de um lado para o outro e fazia aqueles movimentos desordenados e desengonçados. Cada mexidinha arrancava uma reação dela.
Kaique ficou ao lado, completamente derretido. Conversou com o irmãozinho sem parar, perguntou se ele lembrava dele, contou que falou dele para todos os amigos e pediu insistentemente para que ele não dormisse. Também fazia carinho na barriga e segurava a mãozinha dele sempre que conseguia.
Milena ria de tudo e chamava a atenção de Kaique quando ele se empolgava demais. Pedia calma, dizia para não falar alto e lembrava que Dom era pequeno. Mesmo assim, ela mesma não parava de falar com ele.
Os dois disputavam quem ele estava olhando. Se Dom mexia a cabeça para um lado, um dizia que era para ele. Se mexia para o outro, o outro respondia na mesma hora. Juh e eu assistíamos àquele espetáculo apaixonadas por ver nossos três filhos juntos novamente e agora em casa.
Quando chegou a vez de Kaique, ele pegou Dom no colo todo animado e continuou conversando com o irmão, mostrando um chocalho colorido e chamando a atenção dele de todo jeito. Milena acompanhava tudo ao lado, pronta para ajudar se fosse necessário.
No meio da interação, Dom começou a ficar bem vermelhinho. Se encolheu, fez força e, segundos depois, chorou alto. Kaká levou um susto na mesma hora. Arregalou os olhos, endureceu o corpo e me olhou sem saber o que fazer, claramente assustado.
— Calma, filho, é só a fralda... Certeza! — Juh disse.
Peguei Dom do colo dele e vi que Kaique já estava com a carinha toda mexida, quase chorando também.
— Não foi nada que você fez não, amor, é que bebês se expressam assim mesmo — Tentei, enquanto já seguia com Dom para o banho.
Ele se acalmou rapidinho, mamou um pouco novamente, relaxou no colo de Juh e acabou dormindo. Kaique se aproximou devagar para olhar, ainda sério, tentando se certificar de que o irmão estava bem.
— Tomou susto? — Perguntei.
— Foi, ele chorou altão — Ele me respondeu e voltou a deitar com a cabeça no colo de Júlia.
Júlia foi tomar banho enquanto eu colocava o bercinho junto à cama com meus ajudantes. Foi extremamente prático e rápido. Depois desci com eles para jantar. Dom permaneceu acordado o tempo inteiro no meu colo, quietinho, olhando em volta e mexendo os braços de vez em quando.
Os dois ficaram entretidos tentando chamar a atenção dele. Milena fazia caretas, cantava baixinho e mostrava brinquedos. Kaique conversava sem parar, perguntava se ele estava gostando de ficar acordado à noite e dizia que aquele era o horário mais legal porque era quando todos estavam finalmente em casa.
Jantei com uma mão só entre uma garfada e outra, porque Dom não queria saber de ficar deitado. Minha mãe e Dona Jacira se revezavam puxando assunto com ele, como se ele fosse responder a qualquer momento. Quando terminei e já estava prestes a levar o jantar de Juh para cima, ela me chamou.
— Deixa ele um pouquinho aqui com a gente — Minha sogra pediu, erguendo os braços.
Eu sorri e passei o nenequinho para a vovó.
Subi com a bandeja, mas quando cheguei no quarto Juh ainda não estava ali. Fui até o banheiro para ver se tinha acontecido alguma coisa. Ela estava sem roupa, apenas com uma toalha ao redor do pescoço, e virou de frente para mim.
— Quase nem dá para ver minha cicatriz, olha — Juh me mostrou, e eu cheguei a agachar para conferir.
— É, bem fininha — Falei, tocando ainda com cuidado.
Quando levantei, ela cruzou os braços atrás da minha nuca e me abraçou.
— Cadê Dom? — Juh quis saber.
— Lá embaixo, gatinha... — Respondi, acariciando o cabelo dela.
Passei a mão nas costas nuas dela, subindo e descendo.
— Amor, eu sei que externamente você está vendo tudo sequinho e tal, mas não esqueça que tem apenas um mês e alguns dias que você passou por uma cirurgia. Dentro de você, há camadas tentando se restaurar. Seu corpo está em recuperação. Não fica subindo e descendo esca... — Eu ia dizendo e ela me calou, pondo um dedinho nos meus lábios.
— Me dá um beijinho? — Juh me interrompeu, pedindo toda manhosa.
Eu só conseguia pensar que precisava de muita força e sabedoria para conduzir aquela situação, porque a minha vontade era facilitar tudo e esquecer qualquer bom senso... Eu queria mesmo era ser fraca e ignorante!
Beijei ela de forma rápida, porém Júlia aprofundou na mesma hora. Segurou meu rosto com firmeza e encaixou a boca na minha de um jeito que quase me fez perder a linha do raciocínio.
— Mulher... Cê tá louca, é? — Perguntei, rindo.
Ela fingiu que não me escutou e me puxou novamente para um beijo.
Dessa vez, me prensou mais contra ela, deslizando as mãos pela minha nuca. A boca dela vinha decidida, quente, insistente. E eu ainda procurava manter alguma lucidez.
— Amor... — Tentei novamente.
— Me pegue direito, sem medo, por favor! — Júlia falou enquanto colocava minhas mãos em sua cintura.
Obedeci.
Segurei a cintura dela com firmeza e a trouxe para mais perto. Beijei do jeito que ela queria, sem cuidado excessivo, sem freio, deixando a mão correr pela bunda e apertando o corpo dela contra o meu. Júlia correspondeu na mesma intensidade, me beijando entre sorrisos e pequenas mordidas que só pioravam a situação.
Por alguns segundos, esqueci completamente de qualquer palavra sensata que eu mesma tinha dito minutos antes. Só retomei a consciência quando percebi que, se continuasse, não ia parar tão cedo e me afastei rindo, ainda sem ar.
— O seu jantar está servido, mas não sou eu, não — Brinquei e deitei pegando fogo dos pés à cabeça.
— Amor, se esses quarenta dias passarem e você vier com esse papo de restauração... Aiai! — Júlia abriu a porta depois de um tempo só para dizer isso.
— Que muié safada, meu Deus... Quer quebrar o resguardo e ainda está brava porque eu estou sendo sensata — Brinquei.
Juh não respondeu, mas deu para ouvir ela rindo.
A noite foi normal. Nem tranquila, nem agitada. Dom dormiu por períodos um pouco maiores do que vinha dormindo durante o dia, o que ajudou bastante, mas toda vez que acordava era chorando no volume máximo, como se precisasse compensar o tempo quietinho. Entre mamadas, trocas de fralda e pequenas tentativas de voltar a dormir, as horas foram passando.
Em uma dessas vezes, despertei com o choro dele e percebi que Júlia não estava na cama.
— Amor? — A chamei, pensando que estava no banheiro, mas ninguém respondeu.
Levantei e, quando abri a porta do quarto, vi Kaique no colo de Juh no sofá. Desci até eles e Kaká precisou sair do colo da mamãe para que ela pegasse Dom. Contudo, ele ficou com uma carinha de choro que me deu muita dó.
— O meu colinho serve? — Perguntei, e ele veio facinho, me agarrou.
Sentei com ele e fiquei fazendo carinho no cabelo, depois mergulhei no pescocinho para encher de beijo.
— Ele estava com febre de novo, amor — Juh me informou.
— Mas já passou — Kaká respondeu.
— Você está com ciúme, não é, filho? — Questionei para confirmar o que eu desconfiei o dia inteiro.
Ele só acenou positivamente com a cabeça.
— Obrigada por me contar a verdade, amor, foi muito corajoso da sua parte... Ciúme não faz ninguém ser ruim. Só mostra que você ama e está acostumado com sua família e tem medo de perder espaço... — Falei baixinho.
Ele ficou quieto, me ouvindo.
Juh ajeitou Dom no peito e esticou a mão livre até a perna de Kaká.
— Você nunca vai perder o seu lugar aqui, filho. Nunca. Nem Milena, nem você. O amor aqui só aumentou — Ela disse.
— No momento vocês só têm necessidades diferentes, com direcionamento de atenção também diferentes. Entende? — Perguntei.
— Eu amo meu irmão, mas... Não sei, não controlo... — Kaique falou e enfiou o rosto em mim.
— Você vai ser uma das pessoas preferidas dele do mundo inteiro. Já parou para pensar nisso? — Perguntei.
Ele ergueu novamente o rosto e deu um sorrisinho.
— Porque eu sou seu irmão mais velho — Kaká disse baixinho, encostando um dedo no pezinho de Dom.
— Porque você é Kaique! — Exclamei, fazendo cócegas nele, que se contorceu e entregou o sorrisão característico dele.
Com o clima bem mais ameno, ficamos mais um tempo ali na sala até Dom terminar de mamar e voltar a pegar no sono. Kaique já estava tranquilo outra vez, encostado em mim, fazendo carinho distraído na mantinha do irmão.
Quando tudo acalmou de vez, subimos para aproveitar o restinho da madrugada. Levei Dom para o quarto, ajeitamos o berço ao lado da cama e organizei o que poderia precisar nas próximas horas. Juh foi ao banheiro enquanto eu acompanhei Kaká até o quarto dele. Parei na porta e olhei para meu filho, que já se enfiava debaixo do cobertor.
— Quer que eu durma com você hoje? — Perguntei.
Ele negou na mesma hora com a cabeça.
— Não... Quero que a senhora ajude a mamãe a cuidar das necessidades do meu irmãozinho — Respondeu com a maior seriedade do mundo.
Eu sorri, me aproximei e beijei a testa dele.
— Você é um menino incrível, sabia? — Falei.
— Eu sei — Ele respondeu, se achando, e eu ri.
Apaguei a luz, deixei a porta entreaberta e voltei para o quarto. Júlia já estava deitada e Dom seguia dormindo quietinho no berço.
Deitei ao lado dela em uma conchinha e beijei seu pescoço.
— Peguei direito agora? — Sussurrei no ouvido dela.
Juh virou rindo para mim, segurou no meu rosto e me deu um selinho.
— Aconteceram tantas coisas hoje que eu nem lembrava mais disso — Ela falou enquanto se ajeitava em meus braços.
— Bora dormir uns segundinhos porque daqui a pouco ele acorda de novo — Disse-lhe.
— Traz Brad amanhã? Estou com saudade... — Juh me pediu, toda dengosa e eu confirmei já fechando os olhos.
Nosso cão estava na casa do meu irmão.
E é a última coisa que eu me lembro, porque apagamos completamente.
