[Perspectiva de Ayandara]
Diante do espelho, eu não era mais a Ayandara que resolvia tudo. Eu não era a mãe, a profissional, a rocha. Eu era apenas carne, nervo e entrega.
As mãos de Malik seguravam meu quadril com uma firmeza que deixava marcas na minha pele e na minha alma. Ele me socava com um ritmo brutal, e eu, perdida em pensamentos turvos de prazer, observava meu próprio corpo reagir no reflexo.
Malik se inclinou sobre mim, e eu senti a respiração quente dele bater na minha nuca. A boca dele encontrou minha orelha, e os dentes rasparam de leve no lóbulo, numa mordida provocante que me fez arrepiar inteira. A língua dele deslizou por trás da minha orelha, úmida e quente, excitando terminações nervosas que eu nem sabia que tinha. Aquilo foi o golpe final na minha sanidade.
Havia uma contradição deliciosa ali: a mulher que estava acostumada a dominar, a ditar as regras, agora se sentia completamente dominada. Meu corpo me traía. Ele denunciava uma necessidade que eu escondi por muito tempo, uma fome que atravessava toda a minha existência.
Minhas pernas fraquejaram. Eu não conseguia mais me sustentar. Mas eu não caí. Meu corpo era sustentado por aquele macho. Meu macho.
O orgasmo invadiu nossos corpos como uma tempestade. Explodimos juntos. Senti o gozo dele preencher meu interior, quente e pulsante, misturando-se com o meu. O êxtase me deixou cega por um instante, e quando a visão voltou, vi no espelho duas figuras colapsadas, respirando o mesmo ar pesado.
A casa tinha rastros da nossa foda. A calcinha rasgada no tapete, o suor no chão, a marca das mãos no espelho.
Eu nunca tinha deixado ninguém chegar tão longe. Nunca deixei ninguém me ver tão vulnerável, tão desfeita, tão entregue. E, no entanto, ali, com as costas coladas no peito dele e as pernas bambas, eu me sentia segura.
Escorregamos pela parede até o chão. Ficamos ali, num emaranhado de membros e silêncio.
Momentos depois, Malik saiu de dentro de mim. A separação física deixou um vazio imediato, um frio que me fez encolher. Mas ele não permitiu que o frio ficasse.
Malik se levantou e, sem dizer uma palavra, me tomou em seu colo.
Eu fechei os olhos e encostei a cabeça no ombro dele. A ironia daquele gesto me atingiu em cheio. Eu, que sempre carreguei o mundo nas costas — as contas, a criação do meu filho, as expectativas, o peso de ser forte o tempo todo —, agora estava sendo carregada. Eu não precisava andar. Eu não precisava decidir a direção. Eu podia apenas ser leve.
Ele me levou até o banheiro e me colocou no box com uma delicadeza que contrastava violentamente com o homem que tinha acabado de rasgar minha roupa com os dentes.
Ele ligou o chuveiro. A água morna caiu sobre nós, lavando o suor, mas não a memória.
Malik pegou o sabonete. As mãos dele, grandes e calejadas, ensaboaram meus ombros, minhas costas, meus seios. Não havia malícia naquele toque, apenas cuidado. Era uma troca silenciosa de papéis: a mãe que sempre cuidou do filho, que sempre deu banho e secou lágrimas, agora era a mulher sendo cuidada.
O toque dele era uma reverência.
Eu o observei através dos cílios molhados. A pele dele brilhava sob a água. Senti um orgulho possessivo inflar meu peito. A conquista daquele homem — tão novo, tão viril, tão másculo e, ao mesmo tempo, capaz de uma ternura tão profunda — era minha. Ele era meu prêmio e meu descanso.
Senti um nó na garganta se desfazer. As lágrimas vieram, misturando-se com a água do chuveiro. Chorei escondida, soltando a tensão de meses, de anos de armadura. Ali, nua e molhada, deixei minha fragilidade escorrer pelo ralo, entregando meu peso nas mãos e nos ombros de Malik.
Ele percebeu, mas não falou nada. Apenas me abraçou mais forte debaixo d'água, deixando que eu me reconstruísse no tempo dele.
Ao sairmos do banho, ele me envolveu numa toalha felpuda e começou a me secar. Havia sorrisos leves, toques de nariz, uma intimidade doméstica que assustava e acolhia.
Malik me encostou contra a pia fria do banheiro, mas o corpo dele me manteve aquecida. Ele segurou meu rosto e me beijou. Não foi um beijo de fome. Foi um beijo de reconhecimento. Olhei nos olhos dele e vi o reflexo do que eu sentia. Era inevitável. Era o amor nascendo no meio do vapor.
Ele beijou meu pescoço, e eu o abracei, escondendo o rosto na curva do ombro dele, sentindo o cheiro de sabonete e homem.
Fomos para o quarto. A cama estava arrumada, os lençóis de algodão egípcio nos esperando. Eu não queria minhas roupas de volta. Fui até a gaveta dele, peguei uma regata branca e vesti. Ficou grande, com o cheiro dele, cobrindo meu corpo como uma segunda pele. E mais nada.
Nos enrolamos na coberta, num casulo de calor.
Minha cabeça repousou no peito dele, ouvindo as batidas do coração desacelerando. Meus pensamentos voaram para Limeira, para o meu pequeno. A culpa materna tentou aparecer, aquela voz chata dizendo que eu deveria estar lá. Mas eu a silenciei. Eu sou mãe, mas também sou mulher. E aquela mulher precisava ser cuidada para poder cuidar.
Levantei o rosto e olhei para o pescoço de Malik. A marca roxa que eu tinha deixado dias atrás ainda estava lá, viva.
Inclinei-me e beijei o local, suavemente, selando a ferida e o pacto.
— Minha marca... — sussurrei contra a pele dele.
Ele apertou os braços ao meu redor.
— Sua casa, Ayandara.
E eu finalmente dormi, sem o peso da coroa, apenas com o peso do braço dele sobre a minha cintura e a mão grande e protetora repousando possessivamente sobre a minha bunda.