Capítulo 8: O Calor Que Tirou o Último Disfarce
O ar-condicionado morreu naquele dia.
E com ele…
morreu o último disfarce.
A Kombi virou uma estufa.
O ar quente grudava na pele. A roupa incomodava. O silêncio pesava.
Letícia foi a primeira a perder a paciência.
— "Eu não vou dormir assim."
Ela puxou a camiseta, afastando do corpo suado.
— "Tá insuportável."
Eu tentei argumentar.
— "Dá pra aguentar… abre mais a janela…"
Ela nem me deixou terminar.
— "Não, Thiago. Eu não vou dormir passando mal."
Ela me olhou direto.
E decidiu.
— "Eu vou dormir sem roupa."
Aquilo me travou na hora.
— "Como assim?"
Ela respondeu simples.
Como se fosse óbvio.
— "Assim. Tá calor."
Eu respirei fundo.
— "Então eu durmo lá atrás com você."
Veio rápido.
Impulsivo.
Talvez a última tentativa de segurar alguma coisa.
Ela riu.
Mas não foi um riso leve.
Foi curto.
Seco.
— "Você?"
Olhou de cima a baixo.
— "Você tá suado, com cheiro de estrada… e ainda com cachaça."
Aquilo bateu.
Mas eu insisti.
— "Não faz sentido você dormir assim com ele aí."
Ela virou o rosto, já se afastando.
— "Com a luz apagada ninguém vê nada."
Simples assim.
— "E relaxa… eu vou me cobrir."
Puxou o lençol.
— "Cada um com o seu lado."
Mentira.
Eu senti na hora.
Mas não consegui reagir.
Porque aquele era o problema:
eu já não reagia mais.
Ela subiu na cama.
Abel ficou parado um segundo.
Como se ainda esperasse algum limite.
Mas não veio.
Nunca mais vinha.
Ele deitou.
Atrás dela.
E o lençol subiu.
Um só.
Como sempre acabava sendo.
Eu fiquei no banco da frente.
O calor esmagando.
Os pensamentos mais ainda.
E o silêncio…
durou pouco.
— "Agora melhorou…"
A voz dela saiu baixa.
Solta.
— "Muito."
Resposta dele.
Calma.
Perto demais.
— "Você não sente calor?"
— "Depende…"
Pausa.
— "Do quê?"
— "De quem tá perto."
Um riso leve dela.
Quase um sopro.
— "Convencido…"
— "Você gosta…"
Silêncio.
Movimento.
O som do lençol se ajustando.
— "Fica quieto…"
— "Então não provoca…"
A respiração dela mudou.
Sutil.
Mas mudou.
E eu ali…
ouvindo tudo.
Sentindo cada palavra como se fosse comigo.
Mas não era.
Nunca mais era.
O tempo passou.
Ou parou.
Difícil dizer.
Até que…
eu abri os olhos.
Sem querer.
Ou querendo demais.
E vi.
Uma silhueta.
Movimento.
Ele inclinado sobre ela.
Não dava pra ver tudo.
Mas dava pra entender o suficiente.
E ouvir.
— "Assim…"
Ela sussurrou.
— "Devagar…"
— "Você que pediu…"
— "E você não para…"
Um som baixo.
Um gemido contido.
E aquilo…
acabou comigo.
Eu levantei.
De repente.
O corpo reagiu antes da cabeça.
Fui até atrás.
Na hora.
Eles se afastaram.
Rápido.
Cada um pro seu lado.
Silêncio.
Forçado.
Eu puxei o lençol.
Só um.
Cobrindo os dois.
Olhei pra ela.
— "Por que só um lençol?"
Ela nem hesitou.
— "O outro caiu."
Simples.
Frio.
Pronto.
Olhei pro Abel.
Sem camisa.
Suado.
Respiração ainda fora do ritmo.
— "Tá calor…" ela disse antes de eu perguntar.
— "Ele também sente."
Eu fiquei olhando.
Tentando encaixar aquilo em alguma lógica.
— "Tomara que ele não esteja nu também."
Falei sem pensar.
Ela virou o rosto na hora.
Irritada.
Mas com um sorriso torto.
— "E se tiver? Não sei se está e não é da minha conta"
Silêncio.
— "Qual o problema?"
Aquilo me desmontou.
Completamente.
— "A gente tá dormindo."
Ela puxou o lençol de volta.
— "Agora, por favor…"
Olhou direto pra mim.
Sem culpa.
Sem medo.
— "Sai daqui."
Pausa.
— "Deixa eu dormir."
E então veio a última frase.
Baixa.
Cortante.
— "Porque tudo isso… é culpa sua."
Eu não respondi.
Não consegui.
Voltei pro banco da frente.
Sentei.
Fiquei olhando pro nada.
Enquanto atrás de mim…
o silêncio voltava.
Mas agora…
um silêncio que eu entendia.
E aceitava.
Porque naquele ponto…
eu já não estava mais tentando impedir.
Eu só estava tentando…
não perder ela de vez.
Depois de um tempo ele disse algo que não consegui ouvir, más em seguida ouvi a voz dela quase sussurrando:
— "Ahh…não… pirocudo!... acabou com o clima…agora só vou chupar essa rôla gostosa até você me dá um leitinho gostoso."
Depois disso… sonolento e sem reação, peguei no sono.
[CONTINUA...]