**** TEX ****
Havia um homem estranho no meu apartamento. Não, retira o que eu disse. Havia um homem estranho no meu apartamento que tinha me fodido melhor do que eu jamais fora fodido antes e que também era um bastardo assassino. Ah, e ele estava recolhendo delicadamente pedaços de vidro do meu chão. Ele umedeceu uma toalha de papel e voltou ao trabalho enquanto eu o encarava.
Que diabos ele está fazendo aqui?
Bebi mais um pouco de água para tirar o gosto de cerveja e irritação da boca. Enquanto o frescor deslizava pela minha língua e descia pela garganta, eu não conseguia desviar os olhos. Enzo terminou com os cacos de vidro e pegou meu esfregão em seguida, dando um trato no chão.
— Mas que porra? — murmurei. — Pronto — disse Enzo, mais para si mesmo do que para mim, ao guardar o esfregão. O olhar dele oscilou em minha direção. — Agora é a sua vez.
Franzi a testa. — Minha vez de quê? Enzo caminhou até mim e parou ao lado do sofá. — Beba o resto da sua água e vamos. — Por quê? — perguntei.
Eu juro que vi a pálpebra dele tremer. — Se você me fizer mais uma pergunta, vou te carregar no ombro e eu mesmo te levo. Meus olhos se estreitaram. — Eu adoraria ver você tentar essa merda.
Sem dizer uma palavra, Enzo arrancou o copo da minha mão e me içou pelos braços. Fiquei ali, parado, encarando-o de olhos arregalados, atordoado por ele ter tanta força. Eu já tinha testemunhado isso, mas ainda me chocava. Normalmente, eu não era um homem fácil de mover, mas Enzo fez isso sem pensar duas vezes.
Ele se posicionou, agachou, e eu fui parar no ombro dele como se não pesasse nada. O choque passou enquanto ele me carregava pelo apartamento.
— Me coloca no chão! — disparei.
Um tapa rápido e estalado acertou minha bunda, e eu pisquei. Ele tinha acabado de me dar um tapa na bunda? Eu queria protestar, mas meu cérebro bêbado não estava equipado para lidar com aquilo. Paramos no banheiro e ele me soltou sobre a tampa fechada do vaso sanitário.
— Tira a roupa. — Ele apontou para o cesto no canto. — Coloca aí dentro. E escova os dentes.
Fiquei boquiaberto. — Tem algo seriamente errado com você — eu disse. — Por que você não entende o recado e vai embora? — Houve um recado para eu ir embora? — perguntou ele.
Diferente de antes, quando ele parecia realmente confuso com a minha raiva, essa pergunta foi carregada de deboche. Eu tinha dito diretamente para ele se foder, e ele ainda estava aqui. Ele virou as costas para mim e se inclinou sobre a banheira, ligando a água e ajustando a temperatura. Meus olhos percorreram a traseira dele. Em algum momento ele tinha tirado o casaco e colocado em algum lugar, mas eu não fazia ideia de quando. Eu estava tão bêbado assim? Ou estava encarando outras coisas com força demais?
— Roupa — repetiu ele, com um leve rosnado na voz.
Eu queria dizer exatamente onde ele poderia enfiar as ordens dele. A cerveja só tinha me deixado mais audacioso, e eu estava sentindo uma coisa estranha em relação a ele agora. Se eu queria fodê-lo ou dar uma surra nele, essa era a questão.
As mãos de Enzo estavam em mim tão rápido que minha cabeça girou. Ele arrancou minhas roupas, jogando-as no cesto. Empurrei a mão dele em protesto, mas ele simplesmente a afastou. Quando ele me empurrou para trás e arrancou minha cueca, recuperei minha voz.
— Ei! Eu sei tomar banho sozinho — bufei. — Pode sair?
Enzo olhou para mim. — Eu posso, mas não acho que deva. Você está bêbado o suficiente para escorregar e rachar a cabeça na torneira. O sangue espirraria, criando uma bagunça maior. Com base na sua altura e peso, há várias maneiras de sua queda te levar para o hospital ou para o necrotério. — Jesus — murmurei. — Isso é tão violento. Ele deu de ombros. — Sim, mas acontece.
Os olhos dele desceram do meu rosto para o meu corpo. Assisti enquanto eles faziam um tour lento por mim, percorrendo cada centímetro de carne exposta. Ele estendeu a mão, e eu me encolhi, mas fiquei em silêncio enquanto ele arrastava dois dedos sobre uma cicatriz antiga e irregular no meu estômago.
— O que aconteceu? Desviei o olhar, como se um copo de água gelada tivesse acabado de ser jogado em mim. — Nada — eu disse, empurrando-o para longe e me sentando. — Sai daqui para eu poder tomar banho. — Eu posso fazer um trabalho melhor. — Fora! — explodi. — Vai logo para casa. Por que você está aqui, afinal?
Enzo não me respondeu. Em vez disso, seus lábios se apertaram em uma linha reta e ele me observou lutar para ficar de pé. Forcei-me a continuar me movendo. Caramba, Chelsea tinha realmente me deixado embaixo da mesa, e ela ainda estava perfeitamente bem. Aquela mulher era um demônio. Entrei no chuveiro e gemi quando o primeiro jato de água morna acariciou minha pele.
Olhei para a cortina antes de ceder à minha curiosidade e espiar pela fresta. Enzo tinha se sentado na tampa do vaso onde eu estava agora há pouco. Ele realmente não vai a lugar nenhum, não é? Qual era a dele? Eu não via o homem há dias e agora ele se recusava a ir embora. Meu estômago deu um nó ao perceber, com horror, que eu me sentia confortado por aquele fato. Eu gostava que ele estivesse me ignorando, que não estivesse indo embora.
Suspirando, peguei o sabonete e comecei a me ensaboar, tentando não pensar em por que eu estava perdendo a porra do juízo. Eu estava bêbado demais para me analisar desse jeito e não queria esbarrar em nenhuma verdade desconfortável. Foquei em me lavar. Quando saí da banheira, Enzo tinha uma toalha esperando, estendida sobre o colo dele. Ele estava olhando para o celular, e meus olhos percorreram o aparelho rapidamente.
Eu poderia usar aquilo. Talvez eu consiga pegar o celular dele.
Afastei a sensação úmida e nojenta que percorreu minha espinha com esse pensamento e dei um passo à frente. Quando estiquei a mão para pegar a toalha, Enzo se levantou e, em vez de me entregar, enrolou-a no meu corpo. Ele passou o tecido sobre mim, secando as gotículas de água enquanto sua respiração roçava minha pele. Meu pau latejou e, de alguma forma, esqueci como respirar.
— Você vai hiperventilar — ele me informou. — Respire.
Soltei uma lufada de ar e o canto da boca dele subiu, fazendo coisas perturbadoras com o meu interior. Enzo me virou em direção à pia depois de garantir que a toalha estivesse bem presa e me passou a escova de dentes. Ele colocou a pasta e deu um tapinha na minha bunda.
— Escove. — Você é mandão — notei. Enfiei a escova na boca. — E i-irritante. — Hum-hum — disse ele, não me dando a mínima atenção. Ele apenas olhava.
Tentei ignorá-lo, mas era impossível não me contorcer sob aquele olhar por trás dos óculos. O calor subiu por mim e amaldiçoei o álcool no meu organismo. Esse era o único motivo para eu estar a fim dele. É, isso aí. Só estou bêbado e excitado. Qualquer um iria querer foder um homem com aquela aparência. Mas eu conheço o verdadeiro ele. Sem chance de eu querer qualquer envolvimento.
Lavei minha boca e o rosto e, quando me ergui, ele ainda estava encarando. — Por que você está aqui? — perguntei. — Você ainda não respondeu isso. — Eu ainda não sei.
Abri a boca e fechei novamente. Ótimo, eu estava sendo perseguido por um esquisito que, por acaso, fazia parte de uma família criminosa perigosa. Isso não ia acabar nada mal. Passei por ele e fui para o meu quarto. Assim que entrei, Penelope saiu disparado. Ele odiava ficar confinado. Fui até a cômoda e peguei uma cueca limpa, subindo-a pelos quadris. Virei-me e meu coração quase saiu pelo cu. Minhas costas bateram na cômoda. Enzo estava bem ali, pairando silenciosamente.
— Porra! — disparei. — Vai logo para casa! Você está estragando o meu barato.
Enzo estendeu a mão e tocou minha cicatriz novamente, mapeando-a com os dedos. Era como se ele estivesse obcecado por aquilo. Assim como a tatuagem, eu sabia que ele não deixaria para lá até que eu explicasse o que era. Trinquei os dentes.
— Ferimento antigo — murmurei. — Me desentendi com o meu velho um dia e ele me derrubou algumas vezes. Nada demais. — Seu pai, o... — O olhar de Enzo encontrou o meu e ele piscou algumas vezes. — Esquece. — O que você ia dizer? — pressionei. — Não importa — disse ele, enquanto estendia a mão e segurava a lateral do meu pescoço. — Quem era a garota? Ela é sua?
Tive uma vertigem com a mudança súbita de assunto e olhei para ele boquiaberto. — Quem? — A garota. Pele parda, olhos grandes, vestidinho curto. Aquela no Blu — disse ele impacientemente, já que eu continuava encarando. — Você estava todo em cima dela. — O aperto dele no meu pescoço aumentou. — Quem era ela?
Meu estômago deu uma reviravolta enquanto sinos de perigo tocavam na minha cabeça. Ele estava com ciúmes? Já? Depois do hotel, achei que fosse algo de uma vez só, uma noite de prazer intenso e caótico antes de voltarmos aos nossos caminhos separados e nos enfrentarmos no futuro. Mas aqui estava ele, parado no meu quarto, com a pressão da mão no meu pescoço me imobilizando.
— Uma amiga — eu disse finalmente. — O nome dela?
Um calafrio me percorreu. Nem ferrando eu ia dizer qualquer coisa sobre a Chelsea para o Enzo. O olhar nos olhos dele era um aviso. Ela acabaria no fundo de um rio em algum lugar.
— Por quê? — perguntei a ele. — Eu só quero saber.
Selei meus lábios. Não havia como dizer a ele que eu sabia exatamente quem ele era, então aquilo nunca ia acontecer. Ele perceberia que eu o estava investigando. E isso seria uma sentença de morte.
— Não importa — eu disse. — Como eu disse, ela é uma amiga. Além disso, ela é tão lésbica que eu nem conseguiria atrair o olhar dela.
Enzo deu um passo à frente, eliminando qualquer resquício de espaço entre nós. Meu corpo superaqueceu e tentei dar um passo atrás. No entanto, eu ainda estava prensado contra a cômoda. O corpo de Enzo pressionou o meu e meu coração decidiu acelerar como um trem desgovernado em direção ao desastre.
Os lábios dele roçaram nos meus e eu gemi, incapaz de me conter. Estiquei a mão e segurei a camisa dele, prendendo-o contra mim caso ele decidisse mudar de ideia e desaparecer de repente. Meu pau latejou enquanto eu me empurrava contra ele, roçando no seu corpo enquanto a língua dele invadia minha boca.
Enzo agarrou meus braços e me empurrou em direção à cama. Eu caí. O peso do corpo dele cobriu o meu enquanto ele se esfregava contra a minha bunda. Ele arrancou a toalha e rosnou ao se roçar em mim. Pela segunda vez em uma noite, pude ver sua fachada cuidadosamente moldada ruir.
Mas eu não queria apenas que ele se esfregasse em mim. Em vez disso, mudei meu peso e o joguei para fora das minhas costas. Enzo caiu na cama e eu subi em cima dele, meu corpo gritando para senti-lo novamente. Sim, ele era um perseguidor louco e perigoso, mas meu cérebro esqueceu completamente disso quando ele estava tão quente e duro embaixo de mim.
— Roupa — exigi.
Enzo estendeu a mão, segurando a bainha da camisa. Ele a puxou pela cabeça e a jogou de lado antes de gesticular para eu sair de cima. Movi-me rapidamente, mergulhando em direção ao meu criado-mudo e revirando tudo até encontrar o que procurava. Com lubrificante e preservativos na mão, voltei para vê-lo tentando dobrar suas roupas e as chutei da cama.
Ele rosnou. — Ei. — Você está na minha casa agora. Deixe-as no chão se quiser me foder.
Enzo olhou para a bagunça no chão e depois voltou para mim. O olhar dele vagou uma segunda vez, e vi que ele hesitou por um momento antes de me atacar. A boca de Enzo encontrou a minha, sua língua deslizando para dentro. Eu correspondi, me enroscando nele enquanto gemia e balançava para frente, sentindo apenas o ar beijar meu pau quente. Não era o suficiente.
Empurrei a mão contra o peito dele e subi de volta no topo de Enzo. Abrindo a tampa do lubrificante, despejei uma quantidade generosa sobre nossos paus e deslizei a mão em volta deles. A cabeça de Enzo pendeu para trás, um xingamento nos lábios enquanto o olhar dele oscilava para o teto.
Ofegante, deitei sobre ele e percebi tarde demais o quão íntima era aquela posição. Não era ser dobrado e estraçalhado por trás. Era estar cara a cara com um homem enquanto eu masturbava nossos paus juntos. O olhar dele caiu sobre mim e a mão de Enzo se estendeu. Lentamente, ele acariciou minha bochecha, e um choque de pânico me atravessou.
Eu o empurrei para longe, com o pau pingando e o coração disparado. — Sai daqui — eu disse, minha voz ficando trêmula. — Sai logo daqui, porra!
Enzo me encarou. — Eu fiz algo errado? — Sai daqui! — explodi de novo. — Fora!
O olhar dele perdurou, mas ele deve ter visto algo, porque saiu da minha cama e vestiu as roupas num puxão. Enzo escancarou a porta do meu quarto e ouvi seus passos pesados enquanto ele atravessava meu apartamento. A porta da frente bateu e eu corri atrás dele, trancando tudo rapidamente antes de pressionar minha testa contra o metal frio.
Porra. O que eu estava pensando? O que há de errado comigo!
Eu não dava a mínima para pegar o celular dele ou tentar conseguir qualquer informação hoje à noite. O que eu fiz foi estragar tudo, e agora meu cérebro estava em revolta. Eu deixei Enzo entrar no meu corpo uma vez e fiquei ferrado desse jeito?
Não, é mais do que isso. Foi a maneira como ele me tocou. A maneira como ele me olhou. Por que eu não podia ter apenas me dobrado e deixado ele me pegar por trás de novo?
Esmurrei a porta. — Idiota. Imbecil do caralho, te orienta! — eu me repreendi.
O som de sapatos se afastando chegou ao meu ouvido e colei o olho no olho mágico. Enzo parou e virou-se para encarar a minha porta. Meu coração apertou enquanto minha mão segurava a maçaneta. O que é essa expressão no rosto dele? Eu não conseguia entender direito. A parte insana de mim quase escancarou a porta para ir perguntar. Em vez disso, me afastei e marchei para o banheiro.
Eu precisava tirar o cheiro dele de mim e apagar a sensação de ter estado tão perto do homem que eu estava destinado a colocar atrás das grades.
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Fiquei parado na varanda rangente, hesitante. Eu tinha feito toda a viagem e, ainda assim, não queria cruzar o limiar da casa que um dia chamei de lar. Sleepy Hollow fazia jus ao nome: era lenta, silenciosa e tinha me entediado até a morte na adolescência, quando nos mudamos para cá. Encarei a casa azul-bebê de dois andares e senti um pavor iminente se acumular no meu estômago.
— Vai ficar parado aí o dia todo ou vai entrar?
— Ah, deixe o menino em paz, Henry — minha mãe repreendeu enquanto se aproximava da porta de tela com um sorriso. — Oi, querido.
Sorri, apesar de mim mesmo. — Oi, mãe.
O rosto dela se iluminou e ela abriu a porta. Antes que eu pudesse dizer outra palavra, ela já estava nos meus braços. Retribui o abraço apertado e beijei o topo de sua cabeça. Eu era bem mais alto que ela agora, o que me dava ainda mais vontade de protegê-la. Sempre fui o filhinho da mamãe, mesmo que nossa relação pudesse ser... difícil.
— Que bom te ver! Por que não ligou? — ela perguntou, prendendo uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha. — Eu teria preparado o almoço para você.
Acenei com a mão. — Não se preocupe, mãe. Comi antes de vir. — O sorriso dela murchou e eu recuei rapidamente. — Mas você me conhece. Vou estar morrendo de fome de novo em vinte minutos — eu disse, batendo na barriga.
Ela se animou na hora. — Vou preparar um daqueles sanduíches enormes que você gosta.
Minha boca salivou e balancei a cabeça. — Senti uma falta absurda deles. Eu aceito.
Segui-a para dentro da casa e fechei a porta de tela no último segundo, com cuidado para não bater do jeito que meu pai odiava. Arrastando os pés atrás dela, entrei na sala de estar; nada havia mudado. Meu pai estava sentado em sua poltrona, com uma pilha de livros ao lado, mas com sua arma à frente, na mesa de apoio. Ele a tinha desmontado e a estava limpando quando olhou para mim.
— Tex.
— Pai — respondi, imitando seu tom seco. — O que está fazendo?
— O que parece que estou fazendo? — ele resmungou.
Ele pousou a arma e pegou seu maço de cigarros. Eu já conseguia ouvir minha mãe reclamando do cheiro. Ele tirou um, enfiou na boca e o acendeu; seu olhar finalmente caiu sobre mim de novo.
— O que você quer?
Fiquei rígido. — Não posso simplesmente querer visitar minha família?
Ele soltou uma nuvem de fumaça. — Não.
Sempre adorável. Estiquei o braço e surrupiei um de seus cigarros. Ele pareceu querer dar um tapa na minha mão, como fazia quando eu era criança. Em vez disso, apenas resmungou, deixou que eu pegasse o fumo e o acendesse. A nicotina correu pelo meu corpo. Consegui respirar e reprimir a vontade de empurrá-lo daquela cadeira e socá-lo até que ele deixasse de ser um babaca.
Você sabe que ele acabaria com você. Ele pode estar mais velho, mas aquele homem é forte.
Esse pensamento me fez sentir pequeno sob o seu olhar. Como sempre acontecia. Soltei uma nuvem de fumaça, olhei por cima do ombro para garantir que minha mãe não estivesse ouvindo e encarei o velho.
— Preciso de alguns dos seus arquivos antigos sobre os Vitales. O chefe me colocou no caso e imaginei que você pudesse ter coisas que os outros não têm. Notas, gravações, qualquer coisa.
Ele me mediu de cima a baixo. — Esqueça isso.
— Não posso fazer isso.
— Pode sim — disse ele. — Duvido que o chefe tenha te colocado em algo assim. Preciso ligar para perguntar?
De repente, fui transportado de volta à infância, sentado na frente do meu pai enquanto ele me encarava com fúria, ameaçando ligar para o meu diretor. Meus ombros tentaram murchar, mas eu os forcei para trás e mantive a cabeça erguida. Eu não era mais uma criança. As palavras dele não tinham mais o efeito de antes. Ou, pelo menos, eu tentava não deixar que tivessem.
— Isso vai me ajudar a virar detetive.
— Não — ele resmungou. — Isso vai te matar. — Ele apontou o dedo na minha direção. — Se você preza pela sua vida, vai largar esse caso e deixá-lo em paz, porra.
Ele buscou sua bengala e tentou se levantar. Movi-me por instinto, correndo para ajudá-lo a ficar de pé. O que recebi foi o cabo da bengala cravado no meu estômago.
— Eu pedi sua ajuda?
Você nunca pede, seu escroto.
— Não — murmurei.
— Então saia de cima de mim — disse ele, tentando novamente e levantando-se devagar; um lampejo de dor cruzou seu rosto antes de sumir. — Mais alguma coisa?
— Ainda preciso dos arquivos.
— Você é mouco, garoto?
Rangei os dentes e ignorei a vontade de mandá-lo se foder. — Não — respondi. — Só determinado. Você costumava dizer que eu não tinha ambição e que não chegaria a lugar nenhum na vida. Agora estou tentando, e você está me cortando as pernas.
Ele me fulminou com o olhar. — Olhe para a minha perna — disparou, puxando a calça e mostrando a massa de carne escura e nodosa que restou mesmo após todas as cirurgias. — É isso que acontece quando você se mete a ir atrás de mafiosos. E eu tive sorte, ao contrário do meu parceiro, que está a dois metros de profundidade apodrecendo numa caixa de pinho. Então, quando digo não, é não. Encontre outro jeito de virar detetive. Não vou te ajudar.
Meu rosto esquentou enquanto meu maxilar travava. — Por que eu ainda espero algo de você? — retruquei. — Você não ajudou naquela época e não ajuda agora. Vamos ser honestos: a única coisa que importa para você é você mesmo.
— Você tem cinco segundos para sair da minha frente antes que eu te quebre no chão.
Nós nos encaramos, mas eu fui o primeiro a ceder. Girei nos calcanhares, xingando-me por sair dali como um moleque acuado. Fui em direção à porta e minha mãe cortou minha retirada.
— Ah, não vá embora, Tex — disse ela suavemente. — Eu sei que seu pai está ranzinza, mas é por causa da perna. — Ela tentou me tranquilizar, esfregando minhas costas. — Não quer ficar para o jantar? Talvez passar a noite, pelo menos uma vez.
Meu coração apertou e a vergonha se instalou nos meus ombros. Eu me sentia mal por não ficar por ela, mas não suportava estar perto dele. Além de tudo, ele estava me roubando minha mãe. O pensamento fez o calor subir ao meu peito novamente. Olhei para a sala.
— Desculpe, mãe, mas estou trabalhando muito ultimamente — eu disse, o que não era uma mentira completa. — Não posso passar a noite. Talvez a gente possa comer algo qualquer dia desses.
O sorriso dela vacilou, mas ela o colocou de volta no lugar. — Ah, tudo bem — disse ela, erguendo a cabeça e afastando a tristeza que vi em seus olhos.
— KATE! — meu pai berrou, seguido por uma ladainha de palavrões.
— É melhor eu ir ajudá-lo. Ele provavelmente está pronto para a soneca. — Ela limpou as mãos no avental e apontou o dedo para mim. — Não saia daqui até eu terminar seu sanduíche.
Sorri para ela. — Tá bom, mãe.
Ela correu para a sala e começou a arrulhar para acalmar o acesso de irritação do meu pai. Ouvi-os subindo para o segundo andar e balancei a cabeça. O velho era teimoso demais para mudar para uma casa térrea e, claro, era responsabilidade da minha mãe ajudá-lo.
O som dos passos desapareceu quando eles entraram no quarto. Aproveitei a oportunidade para descer as escadas do porão e ir até o escritório dele. A porta estava trancada, mas uma rápida busca nas prateleiras e um vasculhar em potes me levaram à chave. Ele sempre achou que aquele era um esconderijo genial.
Abri a porta e entrei. Havia pilhas de arquivos em caixas, mas os mais importantes estavam no arquivo de metal. Entre nós dois, ele era o organizado e, por mais que eu odiasse essa merda quando era mais novo, agora eu estava grato. Abri uma gaveta, folheei as pastas e encontrei o que procurava. Vitale.
Peguei meu celular e espalhei os papéis um a um. Cuidadosamente, tirei fotos de cada um, tentando mantê-los na ordem correta. Frente e verso, registrei cada bit de informação que pude.
— Tex?
Meu coração disparou quando minha mãe me chamou. — Já vou! — Merda, não havia tempo suficiente.
Recolhi tudo rapidamente e enfiei alguns arquivos na parte de trás do meu jeans, puxando a camisa por cima. Fechei a gaveta e tranquei a porta do escritório. Quando cheguei ao andar principal, minha mãe estava de cenho franzido.
— O que estava fazendo lá embaixo? Sabe como seu pai fica com o porão.
— É, eu estava procurando umas coisas velhas minhas.
Ela me olhou de cima a baixo. — Pois é, ainda tem uma tonelada de coisas lá. Vai mexer nisso logo?
— Logo — prometi enquanto a seguia de volta para a cozinha. — Preciso ir, mãe.
— Tem certeza? Fique só mais um pouco.
— Preciso mesmo trabalhar.
Ela suspirou. — Você nunca fica. Queria que não fosse embora tão rápido.
Eu queria que você me protegesse mais dele. Ou pelo menos me defendesse. As palavras pesavam na minha língua, mas não consegui dizê-las. Ela era uma boa mãe, e eu sabia que ela tinha feito o melhor que podia, mas, quando se tratava do meu pai, ela se encolhia. E uma parte de mim a odiava por isso.
— Não esqueça a comida — disse ela. Embrulhou o sanduíche e abriu a geladeira. — Fiz um frango outro dia também. E legumes. Aqui, leve tudo isso.
Deixei que ela carregasse meus braços com potes, construindo efetivamente uma barreira entre a minha mágoa e a vergonha dela. Se focássemos apenas em comida, no clima, no trabalho e em qualquer outra futilidade, nunca teríamos que falar sobre o abismo de dor que crescia entre nós e ameaçava nos engolir por inteiro.
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— Tem certeza de que não quer sair hoje à noite? — Rourke perguntou.
Eu encarava o para-brisa, olhando para o lugar à minha frente. Há quanto tempo eu estava esperando? Havia uma leve cãibra em minhas pernas e meu estômago roncou. Peguei o sanduíche que minha mãe fez e dei uma mordida enorme.
— Não — resmunguei. — Quero ficar em casa, relaxar e não fazer nada.
— Tudo bem — disse Rourke. — Trate de não se meter em encrenca.
— Quando foi que você me viu em encrenca?
Rourke soltou um grunhido que me lembrou os sons de decepção do meu pai, e meu estômago deu um nó. De repente, meu apetite sumiu. Enfiei o sanduíche de volta no pote e bati a tampa.
— Certo, bem, não se atrase para o trabalho amanhã — ele disse.
— Não vou.
Desligamos, e voltei a encarar o prédio de Enzo. Ele morava em um edifício muito mais discreto do que eu esperava. Felizmente, encontrei o local pelos arquivos do meu pai; surpreendentemente, havia um endereço para todos eles. Ele tinha feito um trabalho monumental antes de desistir, e eu estava feliz por ter ouvido meus impulsos e buscado os arquivos.
A porta da frente abriu e Enzo apareceu na entrada. Um homem se juntou a ele. Olhei para os papéis que tinha impresso, cerrando os lábios.
— Giancarlo. O irmão. — Toquei no papel e olhei para eles. — Para onde vocês dois vão?
Eles desceram os degraus juntos e desapareceram no que reconheci como o carro de Enzo. Escorreguei no assento e observei Enzo partir. Quando ele sumiu de vista, esperei mais alguns minutos, mas não podia esperar para sempre. Era agora ou nunca.
Saí do carro e puxuei o casaco. O ar frio de outono castigava minha pele enquanto eu esperava perto da entrada. Mais um minuto se passou até que uma mãe saiu do prédio, repreendendo um garotinho loiro atrás dela. Sorri para eles e entrei. De acordo com o arquivo, o apartamento de Enzo era no último andar. O homem tinha uma obsessão por altura.
O elevador me levou até o topo e saí à procura do seu número. Claramente, os apartamentos eram maiores naquele andar, pois só havia duas portas. O número 745 era o dele. Peguei meu kit de gazuas e comecei a trabalhar. Enquanto os pinos se moviam e o tempo passava, o suor se acumulava na minha testa. O som da porta destravando me deu vontade de pular e socar o ar. Girei a maçaneta e entrei.
— Uau.
O lugar tinha uma sensação muito mais acolhedora do que o quarto de hotel para onde eu fora levado. Havia fotos de família nas paredes e algo cheirava deliciosamente na cozinha. Fui até lá e espiei uma panela elétrica que borbulhava. O que ele está cozinhando? Senti tentado a abrir e inspecionar, mas me forcei a deixar para lá. Passei pela cozinha.
Pelo corredor, havia um banheiro e um quarto de hóspedes, ou pelo menos presumi que fosse isso. O quarto estava vazio, exceto por uma cama, cômoda e televisão, mas não havia nada pessoal ali. Subi uma escada de ferro batido para o segundo andar e encontrei um quarto. Anexo a ele, um escritório.
— Bingo.
Entrei em seu escritório e vasculhei seus papéis. O que eu via parecia legítimo. Projetos de construção, uma firma de arquitetura, uma start-up de desenvolvimento. Todos negócios legítimos para esconder as merdas escusas que faziam. Mas aquilo não ia me dar nada.
Fui até o computador e o liguei. Uma caixa pedia senha. Imediatamente, liguei para Chelsea.
— E aí — disse ela. — Conseguiu entrar?
— Sim. — Sentei-me e peguei o USB que ela me deu. — O que eu tenho que fazer mesmo?
— Fácil. Espete o USB e reinicie o computador. Entre na BIOS apertando F2 ou a tecla Delete. Nas opções de Boot, coloque os dispositivos removíveis como prioridade sobre o disco rígido. Salve as configurações e reinicie.
Pisquei para o monitor. — Que porra você acabou de me dizer?
Ela gargalhou. — Tá, fica comigo. Vou te guiar.
Fiz como ela disse, seguindo passo a passo. Quando o computador ligou novamente, a senha estava desabilitada. Entrei e naveguei pelos arquivos.
— Não se preocupe em procurar. Você não vai saber o que fazer. Apenas clone o disco rígido.
— Quanto tempo isso vai levar? — perguntei.
— Depende do tamanho do disco. Quanto maior, mais demora.
Meu estômago deu um nó. Ótimo. Eu estava sentado no apartamento de Enzo e não tinha ideia de quando conseguiria sair de lá. Encostei-me na cadeira e olhei ao redor.
— Então, quem é esse cara, afinal?
— Um homem mau — respondi.
— É? E por que você olhou para ele daquele jeito quando estávamos no Blu?
— Que jeito? — perguntei.
— Como se você quisesse enfiar o pau dele inteiro na boca e engolir.
Resmungando, fiquei de pé. — Cala a boca.
— Não tente fugir da conversa. Responda, Texas. Se ele é tão ruim, por que você olhou para ele como se quisesse que ele viesse falar com você? Como se você quisesse ser caçado — disse ela, arrastando a palavra.
Meu maxilar estalou. — A única coisa que eu quero é colocá-lo atrás das grades.
Saí do escritório e segui pelo corredor. Havia uma foto de três meninos. Imaginei se seriam os irmãos Vitale.
— E assim que ele estiver trancado, não será mais problema meu.
Ela assobiou. — Ah, entendi. Ele é o bad boy. Você é o bom moço. É um par feito no inferno, mas um tesão vindo do céu — suspirou ela, melancólica. — É o cenário perfeito, sério.
— Você tem assistido a muitos filmes de romance de novo.
— Isso não existe. Estou recebendo outra chamada. Ainda precisa de mim?
Balancei a cabeça. — Não. Sei fazer o resto.
— Boa sorte com seu bad boy.
— Vá se foder.
Desliguei ouvindo a risada dela. Caminhando pelo resto do lugar, vasculhei cada canto e fresta. Enzo tinha muitos livros. Estavam empilhados em prateleiras, sobre mesas e espalhados por cantos onde claramente o espaço tinha acabado. Havia uma estante nova no chão, montada pela metade. Passei os dedos pela madeira escura e limpa e continuei a andar.
O lugar de Enzo era... aconchegante. Grande, mas confortável. Eu conseguia me imaginar enrolado em um sofá ali, ou sentado à mesa da cozinha com uma xícara de café. Congelei quando o pensamento me atravessou. Que porra eu estou pensando? Eu não pertenço a este lugar.
Exato, aquela era a casa do homem que eu estava me preparando para mandar para a prisão por muito, muito tempo. Girei nos calcanhares, ignorando as fantasias estúpidas que fervilhavam, e voltei ao escritório. A barra de progresso ainda estava enchendo lentamente.
Não tive escolha a não ser sair de novo e explorar mais. Pelo que vi, aprendi coisas sobre Enzo; ele preferia Jazz e se interessava por instrumentos. Não havia TV no quarto dele como no meu, mas havia mais livros. No closet, uma fileira de ternos caros, mas na cômoda, roupas confortáveis e macias ao toque.
Olhei debaixo da cama e avistei uma caixa de sapatos. Puxei-a para fora. Tirando a tampa, olhei para dentro. Havia fotos. Algumas eram fotos normais de animais de estimação, família e aniversários antigos. Mas, enquanto eu remexia na caixa, congelei.
Ali estava Enzo com um homem que se parecia um pouco comigo. O mesmo cabelo escuro e olhos brilhantes que eram cinzas em vez de azuis, mas ele sorria intensamente para a câmera. Enzo parecia estoico, mas havia algo em seus olhos que parecia alegria.
Continuei a passar as fotos uma por uma. Elas mudaram de fofas e doces para sensuais e selvagens. Passei rápido por aquelas até que as fotos caíram das minhas mãos.
Ali, na última foto do grupo, estava o homem de antes. Seu rosto estava ensanguentado, um olho inchado e fechado enquanto o sangue escorria de sua boca. Havia um olhar de súplica em seu rosto e a mão de Enzo estava no quadro, segurando seu queixo gentilmente. Eu reconheceria aquele anel em seu dedo em qualquer lugar.
Meu estômago revirou quando a verdade me atingiu. A bile subiu à garganta. Levantei-me e corri para o banheiro. Meus joelhos bateram no azulejo frio e levantei a tampa do vaso bem a tempo de vomitar meu jantar. Saiu em pedaços, me fazendo engasgar e meus olhos lacrimejarem.
Enzo tinha matado seu amante.
Cuspi até que os últimos vestígios de enjoo sumissem antes de me levantar. Assim que dei a descarga, arrastei-me até a pia e liguei a água. Bebi diretamente da torneira, a água escorrendo pela minha boca e enxaguando o gosto rançoso que grudava na língua. Peguei o frasco de enxaguante bucal, bochechando para dissipar a nojeira que cobria minha boca.
Enzo Vitale matou seu amante.
Eu sabia disso tanto quanto sabia que o céu era azul e que eu pagava impostos demais. A determinação correu por minhas veias. Invadi o quarto novamente e espalhei as fotos até encontrar as felizes. Tirei fotos de todas elas e enfiei o celular de volta no bolso.
Eu ia descobrir quem era aquele homem e confirmar o que já sabia. Uma pequena parte incômoda do meu cérebro gritava que não era verdade. Que eu encontraria o cara vivo e bem na cidade. Mas a minha parte realista sabia.
Cuidadosamente, coloquei tudo de volta em seus lugares originais o melhor que pude antes de enfiar a caixa de sapatos debaixo da cama novamente. Fui para o escritório verificar o progresso. Oitenta e sete por cento copiado. Faltavam treze.
— Caramba, esse negócio é pesado!
Meu coração parou. Encarei a porta do escritório enquanto ouvia as vozes no andar de baixo. Lentamente, aproximei-me e espiei pela fresta.
— Por que você precisa de outra estante? Nem montou aquela ali ainda — um homem reclamou, seu sotaque italiano era evidente.
— Vou montá-la hoje à noite — Enzo respondeu. — Então queria outra para trabalhar quando terminar.
— Puta que pariu, você é estranho — retrucou o homem. — Minha ideia de uma noite boa é foda e bebida, e a sua é montar uma estante. — Ele fez uma pausa. — É porque você está se distraindo de um certo policial?
Houve silêncio. — Não quero falar sobre isso.
— Pelo menos tem ficado de olho nele?
— Claro — disse Enzo. — Ele foi para a casa daquela garota hoje à noite, e eles costumam ficar juntos por várias horas. Vou passar na casa dele mais tarde para garantir que ele esteja lá.
Meu corpo foi tomado por um suor frio. Enzo sabia que eu era policial. Ele esteve me observando desde o início? Meu coração despencou e eu o apertei através da camisa. Merda. Ele sabia quem eu era o tempo todo.
— Tudo bem — o homem respondeu. — Só garanta que está fazendo o que Benito diz, ou ele vai cair matando em cima de nós dois. — Ele grunhiu. — Estou indo nessa. Você deu um jeito naquele último policial?
— Sim, Ramada — ele respondeu. — Encontrei-o no nosso barco cassino e dei um jeito nele.
Senti que ia desmaiar. Ramada? Não podia ser o do meu distrito, certo? Senti como se a terra estivesse fugindo sob meus pés. Enzo ser um cara mau não era novidade, mas ainda era chocante ouvi-los falar sobre acabar com uma vida humana de forma tão casual.
— Bom trabalho — disse o homem. — Descanse um pouco, ok? Noite, Enzo.
— Noite, Gin.
A porta da frente fechou e minha garganta apertou. Voltei para o computador e vi que a cópia estava em noventa e cinco por cento. Teria que ser o suficiente. Arranquei o pendrive e reiniciei o computador. Tudo estava silencioso quando me aproximei da escada, e eu esperei.
Cuidadosamente, desci. Enzo não estava à vista, enquanto meu coração martelava no peito. Talvez ele tivesse saído com o irmão? Eu precisava encontrar um jeito de descer e sair do prédio sem que me vissem. Lentamente, caminhei até a porta, apenas para parar como um cervo diante de faróis quando ela começou a abrir.
— Enzo, esqueci a porra das minhas chaves! — Gin berrou.
Algo pesado colidiu comigo e fui arremessado de volta para a cozinha. Caí no chão, e Enzo estava parado ali, com os olhos selvagens enquanto me encarava. Ele pressionou um dedo contra os lábios, balançou a cabeça e se afastou.
— Você as deixou perto da porta da frente — ele disse. — Tente nesta mesa.
Meu coração acelerou tanto que eu não conseguia respirar. Enzo tinha acabado de me proteger? O irmão dele não me vira, era isso que ele queria? Os irmãos conversaram, as chaves tilintaram quando foram encontradas, e eu não conseguia parar de sentir vontade de vomitar de novo.
— Tá bom, tá bom, já estou indo — disse Gin. — Para de empurrar!
— Quero ficar sozinho — Enzo rosnou.
A porta se fechou e eu me levantei antes de enfiar o drive USB dentro do meu sapato. Endireitei o corpo quando Enzo entrou na cozinha e me prensou contra o balcão.
— Que porra você está fazendo na minha casa? Como você sequer achou este lugar? — ele exigiu.
Engoli em seco, mas nenhuma palavra saiu. Que diabos eu ia dizer a ele que me tiraria dali inteiro com as provas de que eu precisava? Olhei em seus olhos e recorri aos meus anos sendo um viciado mentiroso e manipulador.
— Eu senti sua falta.