**** TEX ****
Meus pés doíam tanto que eu tive vontade de cortá-los fora e jogá-los numa caçamba de lixo. Segui pesadamente pelo caminho até a minha porta e entrei, separando a correspondência nas mãos para, no fim, jogar a pilha inteira no balcão da cozinha. Que se danem as contas. Eu não queria pensar no quanto era deprimente ganhar tão pouco a ponto de passar sufoco morando na cidade.
— Miau!
Abaixei-me e peguei Penelope no colo. Ele se esfregou no meu rosto, espalhando bigodes e pelos por toda parte. Limpei a bagunça da minha pele, cuspindo os pelos da boca e gemendo.
— Sim, obrigada, Penelope. Obrigada. — Carreguei-o para a sala, que na verdade era apenas uma extensão da cozinha, e congelei. — Mas que porra é essa?
Quando saí de manhã, meu apartamento sujo estava na lista de coisas que eu precisava resolver quando voltasse. Havia roupas espalhadas pelo chão, lixo por todo lado e algo com um cheiro suspeito em algum lugar da cozinha, que eu não tinha conseguido encontrar nos três minutos que tive antes de pegar meu copo de café e sair voada pela porta. Agora? Estava impecável, como no dia em que me mudei. Mas melhor.
O cheiro de alvejante queimou minhas narinas enquanto eu caminhava pelo apartamento, e franzi o nariz. Soltei Penelope no sofá, enfiei a cabeça no banheiro e encontrei a fonte do aroma ofensivo. Meu banheiro provavelmente estava mais limpo do que nunca. Em seguida, invadi meu quarto, com raiva e medo correndo pela minha espinha em medidas iguais.
— Mas que porra?
Lá, no meu travesseiro, arrumado com perfeição como se eu estivesse em um quarto de hotel, havia um bilhete. Peguei-o e encarei a caligrafia firme e reta: Talvez da próxima vez.
Meu estômago revirou. Estiquei a mão em busca de algo para me estabilizar. Em vez disso, bati no aparador, derrubando uma infinidade de memórias antigas no chão. Respirei fundo enquanto a ficha caía.
Enzo estivera dentro da minha casa.
Um mafioso louco, assassino e sedento de sangue estivera na porra da minha casa. O medo foi rapidamente substituído por fogo correndo em minhas veias. Peguei meu laptop e comecei a digitar, acessando o programa conectado às câmeras que eu havia instalado.
Cliquei algumas vezes até que finalmente parei ao vê-lo entrando no meu esconderijo. Penelope pulou ao meu lado, ronronando e roçando em mim com sua cauda longa e peluda, até que o peguei no colo e continuei encarando a tela. Um cheiro familiar cutucou meu cérebro, mas eu o afastei enquanto o observava.
Ele tinha percorrido todo o meu apartamento, limpando, organizando e mudando as coisas de lugar como um maldito psicopata! A transmissão da câmera falhava. Nem sequer tinha me avisado que ele estava lá dentro! Apertei Penelope com mais força e trinquei os dentes ao vê-lo pegar meu gato e desaparecer no banheiro. Vinte minutos depois, ele saiu com Penelope enrolado em uma toalha, secando-o. Bati o dedo na barra de espaço e pressionei o mesmo dedo contra a pálpebra.
Eu ia matar Enzo Vitale. O bastardo tinha ficado invisível por quase uma semana. Durante todo esse tempo, olhei por cima do ombro, preocupada em encontrá-lo. Cada homem alto de cabelo escuro que cruzava minha visão me fazia pensar que era ele voltando para foder com a minha cabeça, mas nunca era. Então, por que diabos ele apareceu de repente agora?
Examinei Penelope, com o estômago ainda dando nós. Ele poderia ter machucado o gato. Ok, Enzo não tinha feito nada com ele, mas poderia. E mesmo que não tivesse feito, ele violou meu espaço sem pensar duas vezes. E para quê? Para limpar?
Maldito louco.
Beijei a cabeça de Penelope e enfiei a mão no bolso em busca do celular. Assim que o encontrei, disquei o contato da minha velha amiga e esperei ela atender.
— E aí, Texas! Como é que você tá? Fiz uma careta. — Ninguém me chama assim além de você — murmurei. — É, eu sei. Ainda te irrita, não é? — Ela soltou uma risadinha, e ouvi o som familiar de seus dedos voando sobre as teclas. — O que manda?
Apertei a ponta do nariz. — Você ainda trabalha com segurança? — Pode apostar a sua bunda redondinha que sim — disse ela. — Por quê? — Preciso de alguém para instalar um sistema de segurança no meu apartamento. Sou inquilina, então não quero um monte de fios e merda aparecendo, e meu senhorio não pode saber. Acha que consegue? — Melzinho na chupeta — ela ronronou. — Pra quando você precisa? — Amanhã?
Chelsea engasgou, e imaginei que fosse com uma daquelas bebidas energéticas que ela adorava virar. — Amanhã? Em cima da hora assim? Sabe que vai te custar caro, né? — Achei que fôssemos amigas. — Meus amigos me ligam com mais frequência — disse ela. — E saem comigo. Isso parece mais um cliente precisando de um serviço de última hora. Vai custar caro — repetiu. — Quanto? — Mil e quinhentos. — Porra — xinguei. — Por que tanto? — Porque o meu equipamento é do bom e eu sou melhor ainda — disse ela. Consegui ouvir seu sorriso convencido. — E eu te conheço, Tex. Você não quer aquela porcaria barata de internet que você gruda na parede e só grava metade das coisas quando dá vontade.
— Você tem razão, tem razão. — Vasculhei meu cérebro, tentando descobrir se eu tinha sequer tanto dinheiro para gastar. — E se a gente saísse? Tomar alguma coisa? Acha que consegue dar um desconto de... quinhentos paus?
Ela ficou em silêncio por um minuto. — Eu bem que estou precisando de uma parceira de saída. Me encontra no 7th Circle em uma hora? — Blu — eu disse rapidamente. — Vamos lá. — Fechado, vai ser no Blu. Te vejo em uma hora.
Desligamos e me voltei para o laptop. Enzo estivera em uma missão, revirando minhas coisas e depois começando a trabalhar como se morasse aqui. Eu não o via há dias, mas naquele momento eu juraria que ainda sentia o cheiro da sua colônia.
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Eu estava parada no bar enquanto a música pulsava ao meu redor. Meu coração batia forte demais, latejando nos meus ouvidos e abafando o som. Por que diabos eu voltei aqui? Havia mil clubes em Nova York, mas eu escolhi justamente o que abrigava Enzo Vitale.
Tem algo de errado comigo.
— Tex! Aqui!
Encolhi-me quando ela gritou meu nome. Virei a cabeça rapidamente para ver se alguém estava olhando, mas todos estavam em seus próprios mundos. Olhei para Chelsea. Seu cabelo roxo escuro estava preso em dois coques redondos de cada lado da cabeça. Mesmo no escuro, seus piercings brilhavam em verde neon. Já tivemos piercings iguais em algum momento, mas eu tirei os meus antes de entrar para a academia. Eu sentia falta deles.
— Aí está você. — Ela sorriu para mim. — Ei, me vê um Sidecar aqui! — ela berrou para a loira bonitinha atrás do balcão. — E um... — Cerveja — completei. — Qualquer uma que tiver em garrafa. Me surpreenda.
A mulher fez uma cara como se eu tivesse acabado de pedir para ela cuspir em mim. Eu não dava a mínima. Não precisava de uma bebida chique agora. O que eu precisava era de algo para aliviar a tensão e que coubesse no meu orçamento. Se havia uma coisa que eu sabia sobre Chelsea, era que ela ia cobrar caro por isso. Pelo menos eu teria um ótimo sistema de segurança por um preço de banana.
Pegamos nossas bebidas e nos afastamos do bar. Não que houvesse muito espaço para se mover. Atravessamos a multidão juntas até chegarmos a uma área com um pouco mais de espaço. Chelsea bebericou seu Sidecar, com um sorriso no rosto enquanto ajustava seu vestido vermelho escuro e afastava um cacho rebelde do rosto.
— Você está ótima — eu disse. Chelsea se iluminou e empurrou os dedos delicados contra o meu peito. — Awww, valeu, Texas. Faz tempo que eu não saio. Nem tinha certeza se tudo isso aqui — ela apontou para si mesma — ainda funcionava.
Eu sorri. — Você já se viu no espelho? Confia em mim, está funcionando.
O brilho radiante dela me fez sentir melhor sobre toda a merda com que eu estava lidando. Chelsea sempre fora capaz de arrancar um sorriso de mim. Crescemos juntas desde o ensino fundamental. E enquanto eu escolhi a aplicação da lei, Chelsea ficou com o que conhecia: tecnologia, segurança e venda de informações para as pessoas certas pelo valor certo.
Ela era foda. Eu a admirava.
— O que você acha da loira? — perguntou ela, acenando para a mulher atrás do bar. — Cabelo curto, corpo bom. Aposto que ela tem uma pegada forte. Gemi. — Para te enforcar? — Só um pouquinho! — disse ela. — Qual é, olha para ela. — Ela encarou sua presa com um brilho sombrio nos olhos. — Aposto que ela tem um lado perverso.
Uma risada brotou do meu peito e, pela primeira vez naquela noite, senti que não estava ficando completamente louca. — Tem algo de errado com você — apontei. — Seriamente errado.
— Não finge que você não curte umas paradas pesadas — disse ela, sorrindo para mim. — Eu estava lá nos seus dias de piranha do ensino médio.
Meu rosto corou e esfreguei a nuca enquanto ela gargalhava. Ela não estava errada. Naquela época, eu topava qualquer cama que estivesse mais perto. Homens, mulheres, pessoas entre esses gêneros e totalmente fora deles, todos estavam prontos para serem fodidos. Eu dei uma acalmada desde que entrei para a academia. As coisas já eram difíceis o suficiente tentando trabalhar sem misturar envolvimentos complicados.
— Você fala de mim como se não fosse tão ruim quanto — apontei. Ela sorriu. — Eu nunca disse isso. Ser piranha é um dos muitos motivos pelos quais nos damos tão bem. — Chelsea me deu uma cotovelada carinhosa. — Senti sua falta. — Eu também senti a sua. Desculpa estar tão sumida. — Sem crise. Sei que você tem tido muita coisa para resolver. — Ela deu de ombros. — Nós duas temos.
Puxei-a para um abraço e esqueci o peso nos meus ombros. Ela envolveu seus braços quentes ao meu redor, e eu quis ficar exatamente assim, sentindo conforto pela primeira vez em anos. Quando nos afastamos, ela inclinou a cabeça, esticou a mão e limpou meus olhos.
— Você está bem? — Chelsea sussurrou. — Você está... chorando.
Rapidamente passei o braço pelos olhos e fiz as lágrimas desaparecerem. Embaraçoso pra caralho. Ergui minha cerveja e virei o resto. Talvez fosse por isso que eu não andava mais com meus amigos. Eles me deixavam vulnerável onde eu tinha construído um muro para me proteger de toda a merda da minha vida.
— Dia longo — respondi secamente. — Agora, e a bartender? Como você quer fazer isso?
Chelsea vasculhou meu rosto, e vi o modo como suas sobrancelhas se juntaram. A preocupação no rosto dela me fez mudar o peso de um pé para o outro. Rezei para que ela deixasse o assunto morrer. Algo deve tê-la feito concluir que era melhor deixar para lá, porque ela não insistiu.
— Eu quero falar com ela, mas ela está trabalhando. — Ela franziu a testa. — Acha que adianta eu ficar encarando ela a noite toda e esperar ela sair? Gemi. — Você não pode escolher outra pessoa? Tem um monte de outras mulheres aqui. — É, mas eu já estou encarando essa.
Eu sorri e balancei a cabeça. — Tá bom, vamos esperar. Beleza?
Chelsea se iluminou, seus olhos grandes varrendo o bar e voltando. Ela olhou para cima e então seus olhos pararam em mim. — Ahn, acho que tem alguém te encarando. — Eu? — perguntei. — Não, valeu, não estou a fim. Ela me cutucou. — Ele ainda está encarando.
Virei-me para ver do que ela estava falando e congelei. Parado acima de mim estava Enzo Vitale. O olhar no rosto dele não era a expressão calma e controlada que vi da última vez. Parecia que ele estava prestes a estourar um vaso sanguíneo. Nossos olhos se travaram, e ele não desviou nem por um segundo. Algo dentro de mim se agitou.
— Vamos dar o fora daqui, Chel — eu disse, voltando-me para ela. — Voltamos outra noite. Tomara que não esteja tão lotado e você possa falar com a bartender. Ela suspirou. — É, você tem razão. Tá cheio pra cacete aqui. — O olhar dela oscilou entre Enzo e eu. — Tem certeza de que não precisa resolver aquilo?
Eu sorri. — Achei que ia querer, mas quer saber? É melhor deixar como está. — Envolvi o ombro dela com o braço. — Vamos para algum boteco de esquina e ficar doidonas. Amanhã é minha folga. Ela revirou os olhos. — Você só quer o serviço de graça. — Sou tão óbvia assim? — Pra caramba! — Ela franziu a testa. — Mas eu aceito outra bebida. — Essa é a minha garota — eu disse. — Vamos sair daqui.
Atravessamos a multidão densa juntas enquanto os pelos da minha nuca se arrepiavam. Mesmo sem olhar para trás, eu sabia que Enzo estava me fuzilando com o olhar. Tudo em mim gritava para olhar por cima do ombro, para dar uma última olhada, mas me forcei a continuar andando.
Eu precisava instalar aquele sistema de segurança. E depois, eu precisava destruir Enzo, pedaço por maldito pedaço.
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ENZO
Agitação e irritação me dominaram quando Tex saiu com uma mulher sob o braço. Eu o vigiei desde o momento em que ele entrou, encarando a música ensurdecedora apenas para pôr os olhos nele.
— Ih, que cara é essa? — Gin perguntou.
O dedo dele estava posicionado para cutucar minha bochecha. Dei a ele apenas um relance antes de observar a retirada de Tex. Ele sumiu no segundo seguinte, e eu não conseguia identificar a sensação estranha que me espetava o flanco.
— O que houve, Enzo? — Gin perguntou, mudando o tom, soando mais sério.
— Nada.
Ele resmungou e cruzou os braços sobre o peito. Gin se aproximou, sua altura de um metro e noventa e cinco agigantando-se sobre mim. — Não é "nada".
Esquece isso. Inclinei a cabeça para trás apenas o suficiente para encontrar seu olhar. Ele não vacilou. Eu sabia que, fosse eu direto ou não, Gin continuaria pressionando. Desgraçado.
— Você não vai me contar, vai? Eu sempre posso tentar adivinhar. — Ele se inclinou sobre o parapeito, olhando para a multidão abaixo.
A única coisa que havia prendido minha atenção não estava mais lá. Eu me virei.
— Sei que não é a música que está te incomodando. — Gin estava logo atrás de mim enquanto eu recuava para os fundos da boate. Eu precisava sair. Caçar Tex e ver o que ele estava aprontando.
O braço de Gin envolveu meu ombro e sua boca se aproximou do meu ouvido. — É por causa daquele policial bonitinho?
Bonitinho? Cada fibra do meu ser reagiu às palavras do meu irmão. Girei em sua direção enquanto agarrava seu pulso. Usei o peso do próprio corpo dele contra ele, jogando-o por cima das minhas costas direto no chão.
Minha faca já estava na mão antes mesmo de eu pensar nisso, cortando o ar em direção ao peito de Gin.
— Porra! — As mãos de Gin envolveram a lâmina de aço, parando sua descida. — Você ficou maluco? — Ele balançou a cabeça enquanto o sangue escorria, manchando sua camisa branca de botões. — Esquece. Eu já sei a porra da resposta.
Pisquei lentamente para ele. Gin dissera que Tex era bonitinho. Estava claro que meu irmão precisava ir embora. Eu não deixaria que ele tomasse meu brinquedo.
— Enzo, eu não vou foder com a sua última obsessão — Gin rosnou. — Agora, sai de cima, porra.
Encarei seus olhos por mais um segundo antes de recuar. Ele soltou minha faca, e eu puxei um pano para limpá-la antes de guardá-la.
— Merda, minhas mãos estão arruinadas. — Gin me lançou um olhar feio, mas não vi problema algum.
Nós nos levantamos e Gin atraiu o olhar de um dos homens que estavam nos fundos. Suas mãos foram enfaixadas no segundo seguinte, enquanto eu contemplava o que deveria fazer com a mulher que estivera íntima demais com Tex.
Eles se tocaram de uma forma familiar que me irritava profundamente. Somente eu deveria ter permissão para tocá-lo, para extrair qualquer reação que eu quisesse.
— Você está com olhos de psicopata agora — disse Gin, mantendo as mãos cortadas juntas. — Vou ter que passar cola por sua causa.
Fiquei olhando para ele por um longo tempo, e ele suspirou.
— Foi vacilo me atacar, Enzo. — Ele balançou a cabeça, me repreendendo como se eu fosse uma criança. — Sua nova fixação é perigosa.
Minhas sobrancelhas baixaram. Eu estava realmente fixado em Tex já? Ele havia capturado tanto da minha atenção antes mesmo de eu perceber?
— Você tentou me matar só porque eu disse que o homem era bonitinho. — Giancarlo ergueu as mãos enfaixadas. — Não vem com suas merdas para cima de mim. Benito vai acabar com a raça de nós dois.
Eu não duvidava do meu irmão. Ele nos trancaria e jogaria a chave no rio se fôssemos longe demais.
— Você tem isso sob controle?
— Tenho — disse por entre dentes cerrados.
Gin pareceu cético, olhando para as mãos e depois para mim. — É, não acredito nessa porra nem ferrando. Talvez outra pessoa... — As palavras dele morreram quando ele encontrou meu olhar.
Talvez fosse a fúria pura correndo em minhas veias ou a necessidade de matar, mas Gin abandonou a ideia de me substituir assim que olhou para mim.
— Você tem que ser cuidadoso. Benito não vai gostar disso.
Eu sabia disso, e nada aconteceria com Tex. — Eu preciso tirá-lo do meu sistema.
A cabeça de Gin inclinou-se para a direita enquanto ele encarava o teto. — Você poderia matá-lo.
Eu já havia explicado por que aquilo era uma má ideia, mas agora o pensamento de matar Tex me embrulhava o estômago. Eu não me oporia a tê-lo em uma mesa e cortá-lo, mas a ideia de matá-lo me dava comichão no pescoço.
— Eu não terminei com ele.
— Claro que não. — Gin deu de ombros e se afastou. — Não foda tudo.
Eu nunca fodia nada, mas também não me fixava em alguém há muito tempo. A última pessoa estava a sete palmos do chão, espalhada por todo o Morningside Park.
Não vai acontecer de novo. Eu era diferente, e Tex... era diferente.
— Desculpe — soltei de repente.
Eu sabia que ferir a família ia contra tudo o que defendíamos. Giancarlo e Benito eram as únicas constantes que eu tinha. Nem mesmo brincar com Tex poderia ficar entre nós. Meu irmão era irritante e sabia como me tirar do sério, mas era meu irmão. Eu faria qualquer coisa por ele e por Benito.
Gin se virou e abriu um sorriso largo e bobo em minha direção, como se eu nem o tivesse cortado. Ele marchou de volta para o meu lado e bagunçou meu cabelo como fizera tantas vezes quando éramos crianças.
— Chegou um pouco mais perto do que o normal. Mais sorte na próxima.
Podíamos falar em matar um ao outro e até infligir alguns ferimentos, mas, no fundo, nada neste mundo poderia nos separar. Era por isso que éramos uma das famílias mais formidáveis de Nova York.
Resmunguei, afastando as mãos ensanguentadas dele. — Você está me sujando.
Gin riu e deixou as mãos caírem. — Você gosta de sangue.
Balancei a cabeça. — Não do seu. Certifique-se de ir verificar isso e limpar adequadamente.
Gin fez um gesto de descaso. — Não estão tão fundos.
Nossos olhares se cruzaram enquanto eu cogitava levá-lo ao hospital eu mesmo. Meu irmão era propenso a fazer o mínimo possível no cuidado de feridas e acabaria sofrendo por isso mais tarde.
— Você não deveria ir checar o policial? — Gin perguntou, sabendo exatamente como me distrair.
Mordi o interior da bochecha. — Depois que formos à clínica.
Gin balançou a cabeça. — Você sabe como me sinto sobre esses lugares. O cheiro de cândida e morte no ar. — Um tremor visível percorreu sua estrutura alta e muscular. — Não vou.
— Vou ligar para a médica e ela nos encontrará na sua casa.
Gin pareceu pronto para discutir, mas eu não deixaria. Eu podia ser o mais novo dos três, mas era muito mais responsável que Gin.
— Para onde vocês dois estão indo? — A voz de Benito cortou a música da boate.
Gin piscou para mim, e eu fechei a boca enquanto ele respondia pelos dois. — Me cortei, vou para casa.
— Você vai deixar um médico dar uma olhada nisso — disse Benito, sem dar margem para Giancarlo argumentar.
— Médico pra lá, médico pra cá. Eu vou ficar bem — disse Gin.
— Enzo, garanta que este idiota seja examinado e remendado.
Assenti, grato por Benito não ter perguntado como aconteceu. Ele girou nos calcanhares e seguiu para o escritório.
— Sabe que está me devendo uma, né? — disse Gin, batendo o ombro no meu.
— Não vou fazer o seu trabalho por você.
Nem seria possível. Onde eu me sentia estranho e desconfortável em multidões, Giancarlo prosperava. Ele se tornava o centro das atenções e atraía pessoas de todas as esferas sociais.
— Nem pensei nisso. Você provavelmente deixaria todo mundo apavorado.
— Então o quê? — perguntei enquanto saíamos pela porta traseira. Seu Monte Carlo 1978 preto estava estacionado logo na saída. — Benito disse para você parar de estacionar aqui.
Gin suspirou e tentou assumir o volante. Arrebatei as chaves, e tivemos outro impasse silencioso.
— Só estou deixando você dirigir meu bebê porque você é cuidadoso, mas um arranhão e você terá mãos sangrando.
Assenti, sabendo o quão sério meu irmão era com o carro dele. Ele trabalhava nele desde que éramos adolescentes. Tinha percorrido um longo caminho de sucata a um carro funcional com pintura nova.
— E o que o Benito não sabe não o prejudica.
Liguei o carro e abri a boca, mas a fechei diante das próximas palavras de Gin.
— A menos que você queira contar para ele que está fodendo o policial que ele mandou você vigiar.
— Foi uma vez — resmunguei.
— É, por enquanto — Gin brincou.
Não consegui discordar, não quando eu estivera pensando nisso repetidamente. Ver Tex hoje à noite só me deixara com mais fome dele.
Levar Gin para casa foi a parte fácil; sua casa de vila continuava a mesma. Fiz uma nota mental para voltar e limpar tudo. Havia uma camada de poeira em suas estantes e cúpulas de abajur. As paredes eram pintadas em verdes escuros com laranja queimado como cor de destaque. Meu irmão carecia da habilidade de projetar ou combinar cores. Por isso ele não mudara nada desde que a última namorada o deixou.
— Para de olhar em volta. Você não vai limpar porra nenhuma.
— Você não está limpando — eu disse. Meus dedos tremiam ao lado do corpo, a necessidade de organizar o lugar corroendo meu psiquê.
— Não, obrigado. Eu sei onde tudo está. Se você entrar aqui, eu não vou nem saber onde diabos estão minhas cuecas. — Ele apontou para mim. — Não toque nas minhas coisas, Enzo. Já tivemos essa conversa. Limites.
Meus ombros relaxaram enquanto eu forçava meu olhar a focar nele. — Tudo bem, mas você precisa contratar alguém para vir aqui.
Ele deu de ombros. — Vou pensar nisso.
A campainha tocou antes que eu pudesse apontar cada detalhe que precisava ser limpo e o porquê. Abri a porta, e Melony estava do outro lado. Sua pele morena retinta brilhava com glitter aplicado. Uma sombra pesada rosa e roxa emoldurava seus grandes olhos castanhos. Ela sorriu, e até seus lábios estavam cobertos de glitter.
— Posso entrar, Sr. Vitale?
— Não, vai embora! — Gin gritou.
Melony revirou os olhos. — Não seja bebê.
Afastei-me, evitando o glitter como a praga que era, e deixei-a entrar. Ela subiu os três degraus e entrou na sala, onde Gin estava descansando no sofá verde.
— O que você fez desta vez? — Ela tirou a jaqueta, revelando um tutu brilhante e uma blusa de tela com glitter.
— Caramba, doutora, a gente interrompeu uma festa? — Gin perguntou em vez de respondê-la. Ele parecia tenso sentado no sofá. Seus ombros praticamente tocavam as orelhas.
Ela assentiu sem hesitar. Ela convivia conosco há tempo suficiente para estar relaxada e nos tratar como qualquer outro cliente.
— Interromperam. O baile de bailarinas com glitter da minha sobrinha. — Melony desenrolou as mãos de Gin enquanto falava. — Ela estava muito animada e estava indo tudo bem até eu receber uma mensagem me chamando.
Melony manteve Gin distraído. Eu sabia que ficar ali parado só o deixaria ainda mais nervoso. Não importava que Melony estivesse apenas examinando um ferimento. Giancarlo não se dava bem com médicos.
— Ela fez quinze anos hoje. Você deveria me mandar de volta com um bom presente — sugeriu Melony.
Lentamente, os ombros do meu irmão relaxaram enquanto ela continuava falando. Limpei a garganta e nossos olhos se encontraram brevemente.
— Vou deixar vocês sozinhos.
Melony acenou para que eu saísse e continuou a falar sobre o tema ridículo da festa de aniversário da sobrinha. Saí da casa e respirei fundo. Agora que não estava mais distraído por Gin, minha mente instantaneamente correu para Tex. Cerrei os molares e peguei meu telefone.
Quinze minutos depois, meu carro foi entregue. Fiquei distraído durante todo o trajeto. Mesmo no trânsito, tudo em que eu conseguia pensar era em Tex e no modo como ele riu e abraçou a mulher na boate. Ele me vira, e eu sentira uma faísca no momento em que nossos olhares se cruzaram, mas ele se desviara de mim.
Lembrar disso só me deixava mais furioso. Estacionei o carro bruscamente no estacionamento do prédio de Tex. Eu não planejara voltar, pelo menos não tão cedo.
Saí do carro e estava na porta dele em segundos. As palavras de Gin ecoaram em minha mente antes que eu pudesse arrombar a fechadura. Limites. Ainda contava se eu já tivesse invadido antes? Fiquei tentado a ligar para o Gin e perguntar quais eram as regras sobre limites se um já tivesse sido cruzado ou se eu já estivesse no ato. Minha cabeça doía. Em vez de entrar, encostei-me na parede ao lado da porta.
Minutos transformaram-se em horas, e já passava das duas da manhã quando ouvi a voz suave de Tex. Ele estava se despedindo da garota no táxi. Ela acenou para ele, rindo enquanto ele tropeçava em direção ao prédio. Ele não me notou de imediato, mas no momento em que chegou perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro de cerveja nele, ele deu um pulo.
— Porra!
Segurei Tex antes que ele pudesse cair para trás. Ele piscou rapidamente para mim. — Que porra você está fazendo aqui, seu imbecil? Veio mexer nas minhas coisas de novo? Uma vez não foi o bastante?
Inclinei a cabeça. Observei a raiva nos olhos de Tex e a maneira como sua boca se contraía em uma carranca pesada. Ele está chateado.
— Você está bravo comigo?
— Não, eu adoro quando um cara que me fodeu me larga num hotel sozinho e depois aparece do nada para limpar meu apartamento e revirar minhas tralhas. É a porra da melhor sensação do mundo.
— Então por que está de cara feia? — perguntei.
— Você... Você não pode estar falando sério. — Tex me empurrou para o lado com o ombro. Ele ainda estava instável nas pernas enquanto praguejava baixinho, tentando colocar a chave na fechadura. — Filho da puta desgraçado — ele continuou a resmungar.
Aproximei-me, meu corpo quase tocando o dele. Ele paralisou quando passei o braço por ele e peguei as chaves. Deslizei-a na fechadura e girei com facilidade. Tex inclinou-se para trás, em minha direção, como se estivesse me procurando, antes de balançar a cabeça e arrebatar as chaves de volta.
— Valeu, agora dá o fora.
Ele abriu a porta e tropeçou para dentro. O gato laranja peludo nos cumprimentou na porta, e Tex o pegou no colo.
— Ei, Penelope. Pronta para dormir?
Entrei atrás dele e fechei a porta.
— Você não entende português? — Tex perguntou.
— Entendo.
Ele colocou o gato no chão. Penelope se entrelaçou entre minhas pernas, mas continuei observando Tex enquanto ele se dirigia à cozinha.
— Onde é que estão os copos, porra?
Abri o armário mais próximo da pequena geladeira branca. Fazia sentido eles estarem perto de onde ele guardava as bebidas. Entreguei um a ele, mas o objeto escorregou de seus dedos e se espatifou no piso laminado. Vidro se espalhou por toda parte.
— Que vida de merda. — Ele se curvou para limpar, mas eu o impedi.
— Sente-se. Eu cuido disso.
— Eu não preciso de você aqui. Eu dou conta. — Tex cambaleou, e eu o encarei severamente.
— Sente-se. — Pressionei meus dedos entre seus peitorais impressionantes. Eu sonhara em acariciá-los vezes demais. Tex continuou parado ali, e eu me aproximei, baixando a voz. — Sente-se, Tex, ou eu farei você sentar, e nós dois sabemos que vai doer. — Minha cabeça inclinou-se junto com o canto da minha boca. — Talvez você queira que eu te machuque de novo.
O pomo de adão de Tex subiu e desceu, e suas pupilas dilataram, devorando o azul magnífico de suas íris.
— Não? — Tex disse, lambendo os lábios.
— Então sente-se. — Eu o direcionei para a pequena sala de estar.
Ele se jogou no sofá enquanto eu me virava. Garanti que Penelope estivesse trancada em seu quarto antes de preparar um copo de água.
— Beba isso e tome este aqui.
— Não é droga para me apagar, é?
Sorri maliciosamente. — Eu quero você acordado para qualquer coisa que eu fizer com você. Suas reações são boas demais para se perder. É ibuprofeno.
Coloquei o comprimido em uma mão e o copo na outra. Virando as costas para Tex, concentrei-me em limpar a bagunça no chão.